segunda-feira, abril 03, 2006

Bibliografia

A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34
A Canção no Tempo - Vol. 2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34
A História da Bossa Nova - Edição Especial da Revista Caras - junho de 1996
A Voz de Orlando Silva - CD Duplo - Discos Marcus Pereira 10058 1/2
Agenda do Samba e Choro
Almanaque Abril - Editora Abril
Almanaque Jangada Brasil
Bella Italia - http://www.italianoar.com/
Brasil Musical - Viagens pelos ritmos e sons brasileiros (Tarik de Souza e outros)
Catulo da Paixão Cearense (Almanaque Jangada Brasil)
Cifrantiga - Cifras e História da MPB
Collectors - rádio brasileiro dos anos 40 e 50
Dicionário Cravo Albin da Música Pupular Brasileira
Diccionario de Música en México - Gabriel Pareyón
Dicionário Musical Brasileiro - Mário de Andrade
El Bolero - Denison University - Granville - Ohio - USA - http://www.denison.edu/
Enciclopédia Barsa
Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha
Franklin Martins - Site Oficial
Gardel, o Mito - Folha da Tarde (07/11/99)
História do Samba
História do Samba - Fascículos - Editora Globo
História Social da Música Popular Brasileira - José R. Tinhorão
Inesquecíveis Músicas Fagueiras
Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras
Los 300 mejores boleros - Editora Panapo - Caracas - Venezuela
Lundu - Wikipédia
Memória do Rádio – Bauru-SP
Memórias da MPB - Samira Prioli Jayme
MPB Compositores - Fascículos - Editora Globo
No Tempo de Ari Barroso - Sérgio Cabral
O Choro (Reminiscências dos chorões antigos), 1936- Alexandre Gonçalves Pinto
Samba-choro - Artistas
Prepare seu Coração (A História dos Festivais) – Solano Ribeiro – Geração Editorial
Revivendo Músicas - 18 anos Preservando a MPB

(EM CONSTRUÇÃO)

Pinião

Os Turunas da Mauricéia, conjunto vocal e instrumental de Recife PE, era formado por Luperce Miranda, Augusto Calheiros, Manuel de Lima, Piriquito e Romualdo Miranda. Em 1927 viajaram ao Rio de Janeiro (sem Luperce Miranda), apresentando-se na Rádio Clube cantando cocos e emboladas, ritmos até então pouco divulgados entre os cariocas, obtendo grande sucesso.

Gravaram Helena (Luperce Miranda) e a embolada Pinião (Luperce Miranda e Augusto Calheiros), esta logo cantada em toda a cidade, tornando o grande sucesso do Carnaval de 1928.

Pinião (embolada / carnaval, 1928) - Luperce Miranda e Augusto Calheiros

Disco 78 rpm / Título da música: Pinião / Autoria: Calheiros, Augusto, 1891-1956 (Compositor) / Miranda, Luperce (Compositor) / Calheiros, Augusto, 1891-1956 (Intérprete) / Turunas da Mauriceia (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1927 / Nº Álbum 10067 / Gênero musical: Embolada


------D----- A7----- D
Pinião, pinião, pinião, oi
-------------A7------------------- D
Pinto correu com medo do gavião
-----------------A7------------ D
Por isso mesmo o sabiá cantô
B7/F#----------- E7/D ------------A7
Bateu asa e voou e foi comê melão

-------------D --------A7---------- D
Essa sumana o gavião lá dos oitero
---------------------- Em7-------- A7-------- D
Chegou lá no meu terreiro biliscando pulo chão
------------A7----------------------- D
E um pintinho que tava jun’da galinha
B7/F# ----------------E7/D---------------- ---A7
Foi correndo pa cozinha com medo do gavião

---------------D --------------A7------- D
No meu terreiro tinha um pé de araçá
-------------------- Em7--- A7 -------D
Onde um sabiá-gongá fazia seu plantão
-------------A7------------------ D
Um dia desse ela tava descuidada
------B7/F#--------- E7/D -----------------A7
Quase morre degolada nas unha do gavião

---------D --------A7---------- D
O gavião é um bicho carniceiro
---------------------Em7 ------------A7 ----------D
Quando bate num poleiro come os pinto qu’ele qué
-------------A7------------------------ D
Um dia desse um se trepou lá na mesa
---------B7/F# --------E7/D----------------- A7
Nunca vi tanta afoiteza, biliscou minha muié

-------------D ------------A7 -----------D
Minha muié se assombrou-se nesse dia
-------------------- Em7--------- A7----------- D
Quase morre de agonia com uma dô no coração
------------A7---------------------- D
Gritava tanto cus dois óio abuticado
--------B7/F#---------- E7/D----------------- A7
Até que eu fiquei vexado cum medo do gavião

A voz do violão


Em julho de 28, a Companhia Trololó, de Jardel Jercolis, estreou no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, a revista Não É Isso Que Eu Procuro. Muito ruim, a peça saiu logo de cartaz, deixando, porém, uma canção, "A Voz do Violão", da maior importância no repertório de seu criador, Francisco Alves. Esta composição nasceu quase por acaso, a partir de uns versos de Horácio Campos, libretista da peça, que chegaram ao conhecimento de Chico através de Jardel. Entusiasmado com o poema, o cantor pegou o violão e só sossegou quando dias depois aprontou a melodia, por sinal muito boa.

Aliás, em que pese o fato de ter comprado sambas no início da carreira, Francisco Alves deixou algumas boas canções realmente de sua autoria. "A Voz do Violão" foi gravada comercialmente por Alves quatro vezes: a primeira na Parlophon, em 1928, e as três seguintes na Odeon, sendo a última em 1951. Há ainda uma quinta gravação, realizada num programa da Rádio Nacional que foi editada em disco pela empresa Collector's.

A voz do violão (valsa-canção, 1928) - Francisco Alves e Horácio Campos

Disco 78 rpm / Título: A voz do violão / Autoria: Alves, Francisco (Compositor) / Campos, Horácio (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Parlophon, 1928 / Nº Álbum 12823


------------E ------------B7-------------- E------- D7(3a.casa)--- Db7----------- Gbm
Não queiras, meu amor, saber da mágoa/Que sinto quando a relembrar-te estou
-----A --------------Ebo ----B7 ----------E------ D7------ Db7
Atestam-te os meus ---olhos rasos d’água
------Gb7 ------------B7----------=- E
A dor que a tua ausência me causou.

-----E ----------B7------------- E---------D7--------------- Db7-------------- Gbm
Saudades infinitas me devoram, / --Lembranças do teu vulto que . . . nem sei!
------------A -------Eb0----- B7----- E -D7--Db7 ------Gb7-------- B7----------- E
Meus olhos incessantemente choram /---- ------As horas de prazer que já gozei

-------Ab7------------------------ Dbm-------- Gb7----------- B7------ E
Porém neste abandono interminável / No espinho de tão negra solidão
---------D7------------ Db7--------- Gb7 -----------Ebo---------- B7---------- E
Eu tenho um companheiro inseparável /---- Na voz do meu plangente violão

--------E ---------B7------------- E------- D7 ---------Db7---------- Gbm
Deixaste-me sozinho e lá distante, / Alheio à imensidão de minha dor,
--------A ---------Ebo---- B7 -----------------E D7 Db7 -------Gb7-------- B7------ E
Esqueces que ainda existe um peito amante / --Que chora o teu carinho sedutor

--------E---------------- B7--------- E--- D7------------- Db7------- Gbm
No azul sem fim do espaço iluminado / ------Ao léo do vento se desfaz
--------A ------Ebo----- B7------- E -D7- Db7 ----------Gb7---------- B7--------- E
A queixa deste amor desesperado /------- Que o peito em mil pedaços me desfaz
(estribilho)



Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Rapaziada do Brás

Nenhuma música evoca melhor a velha São Paulo provinciana do início do século do que a valsa "Rapaziada do Brás". Composta em 1917 pelo futuro maestro Alberto Marino, então um menino de quinze anos, "Rapaziada do Brás" se tornaria conhecida no final da década seguinte, quando teve seu primeiro disco. Somente em 1960, a melodia recebeu letra de autoria do filho de Marino, Alberto Marino Júnior, gravada por Carlos Galhardo no mesmo ano.

Muito bem estruturada no gênero em que foi concebida nem parece obra de um principiante -, a composição é essencialmente instrumental, forma em que aparece na maioria das gravações, embora possua letra. Uma homenagem à rapaziada do bairro de infância e adolescência do autor, serviu ainda de inspiração a outras valsas bairristas, como "Rapaziada da Moóca" e "Rapaziada do Bom Retiro". Somente em 1960, a melodia recebeu letra de autoria do filho de Marino, Alberto Marino Jr, gravada por Carlos Galhardo no mesmo ano.

Rapaziada do Brás (valsa - 1917) - Alberto Marino - Interpretação de Carlos Galhardo




-----Em---------- B7--------- Em------------------------------- B7
Lembrar, deixem-me lembrar / meus tempos de rapaz no Brás
das noites de serestas / casais de namorados, e as cordas de um violão
----------------------------------------------------------Em
cantando em tom plangente, / Aqueles ternos madrigais.
------------B7 -------------Em -------------------------E7---- Am
Sonhar, deixem-me sonhar, / lembrando aquele amor fugaz.
------------------------------------B7--------------------- Em
Uma sombra em volta da penumbra / por trás da vidraça
-----------------------------------------B7
faz um gesto lânguido, / cheio de graça
----------------------------------------------Em
imagem de um passado / que não volta mais.

------------B7-------------------------------------------- Em
Tão somente uma recordação / restou daquele grande amor
-------------------B7---------------------- Em
daquela noite de luar / daquela juventude em flor
----------------B7----------------------------------------- Em
E hoje os anos correm muito mais / e a vida já não tem valor

Malandrinha

Freire Jr.
Malandrinha (canção, 1927) - Freire Júnior

Disco 78 rpm / Título da música: Malandrinha / Autoria: Freire Junior (Compositor) / Francisco Alves (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1928 / Nº Álbum 10159 / Gênero musical: Modinha



(Am)------E7------------------- Am
A lua vem surgindo cor de prata
---------A7--------------------- Dm
No alto da montanha verdejante
-------------------Dm6---------- Am
A lira de um cantor em serenata
--------B7--------------------- E7
Reclama na janela a sua amante
------------------------------Am
Ao som da melodia apaixonada
-----------A7------------------- Dm
Das cordas de um sonoro violão
---------------------Dm6---------- Am
Confessa um seresteiro à sua amada
-------B7 --------E7 ----------Am (E) (Am)
O que dentro lhe dita o coração

--------------Am------------------------ E7
Ò linda imagem de mulher que me seduz
-------------------------------------- Am
Ah se eu pudesse tu estarias num altar
-----------A7------------------------- Dm
És a rainha dos meus sonhos, és a luz
---------- Am-------------------- E7-- Am
És malandrinha não precisas trabalhar

--------E7-------------------- Am
Acorda minha bela namorada
----A7------------------- Dm
A lua nos convida a passear
-------------------Dm6------------ Am
Seus raios iluminam toda a estrada
----------B7-------------------- E7
Por onde nós havemos de passar
---------------------------------Am
A rua está deserta, ò vem querida
--------A7------------------------------ Dm
Ouvir bem junto a mim, o som do pinho
-----------------------Dm6------- Am
E quando a madrugada, já surgida
--------B7----------- E7 -------------Am-- E7
Os pombos voltarão para seus ninhos

--------------Am
Ò linda imagem de mulher . . . . . . . .

Paulista de Macaé

Frederico Rocha
O presidente eleito em 1926, Washington Luís, embora tivesse feito carreira política em São Paulo, nascera no Estado do Rio, na cidade de Macaé. Daí o título da música. Depois de quatro anos de estado de sítio sob Artur Bernardes, o novo governo foi recebido pelo povo com alívio e otimismo. Mesmo assim, há preocupação com a desvalorização do cruzeiro.

Três explicações: a) o Palácio do Catete também era chamado de Palácio das Águias; b) o Caju é um dos mais importantes cemitérios do Rio; c) Jahú é o nome do avião que realizou a primeira travessia aérea do Oceano Atlântico, entre a África e o Brasil, em 1927.

Há outra versão dessa mesma música, em que se faz elogios a Washington Luís e críticas a Artur Bernardes, que foi cantada na peça de teatro-revista “Prestes a chegar”, de Marques Porto e Luiz Peixoto. Diz ela: “Paulista de Macaé/ O homem de fato é/ E no Palácio das Águias, olé/ Com o povo ele pôs o pé/ Se a rua piso/ Com o sorriso/ Democrático/ Té me chamam de simpático/ E chego a encabular/ Isso porque vivo/ Tranquilo e não me aflijo/ E em vez de Ilha do Rijo/ Busco o seio popular”. Na ilha do Rijo, na Baía de Guanabara, funcionavam instalações da Marinha.

Paulista de Macaé (marcha, 1926) - Pedro de Sá Pereira

Disco 78 rpm / Título da música: Paulista de Macaé / Autoria: Pereira, Pedro de Sá, 1892-1955 (Compositor) / Frederico Rocha (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1926 / Nº Álbum 123252



Nosso dinheiro, o cruzeiro, / Vai subindo,
Enquanto o câmbio vai caindo, / Dando ao povo o que falar.

E a oposição, / Que não perde a ocasião,
De respeito perde o jeito / E diz que a coisa vai quebrar.

Paulista de Macaé, / O homem de fato é.
E no Palácio das Águias, olé / Com o povo ele pôs o pé.

E a Prefeitura, / Sinecura desta terra,
Contra o qual o povo berra, / Faça chuva ou faça sol,

Tem um paulista / Pra que assista na cidade
Essa grande novidade / Que se chama futebol

E na Central / Que tanto morre altercaçando
E o povo vai camurçando / Direitinho pro Caju.

Se queres favor / Que mais arderam no concurso
Pelo ar vou viajar / Quando chegar o Jahú

Fonte: Franklin Martins - Site Oficial

Pinta, pinta melindrosa

Freire Jr.
Pinta, pinta melindrosa (marcha/carnaval, 1926) - Freire Júnior

Disco 78 rpm / Título da música: Pinta pinta melindrosa! / Autoria: Freire Junior (Compositor) / Fernando (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1921-1926 / Nº Álbum 122983 / Gênero: Marcha



A pintura está na moda hoje em dia
Bem resolve os caprichos da mulher
Dá-lhe o sangue que lhe rouba a anemia
Dá-lhe o novo que a beleza lhe requer

Pinta, pinta, pinta, pinta melindrosa
Pinta, pinta, pinta, pinta , pinta bem
Quem não torna suas faces cor-de-rosa
Pinta o sete lá na rua com alguém

Olhos negros, lábios rubros, tez rosada
Predicados exigidos pra beleza
Uns beijinhos numa boca bem pintada
Põe da gente para sempre a alma presa

Quem não gosta de uma boca bem corada
Quem não gosta de nas tintas carregar
Se procuras das velhotas as fachadas
Hoje em dia a pintura reformar

Papagaio no poleiro

Papagaio no poleiro (samba / carnaval, 1926) - J. B. da Silva (Sinhô) - Disco 76 rpm - Artur Castro Budd (Intérprete) - American Jazz Band de Sílvio de Souza (Acompanhante) - Coro (Acompanhante) - Imprenta [S.l.]: Odeon, Dezembro/1925-Julho/1927 - Álbum 123032



Ai amor! / Ai amor!
Os teus carinhos
Tem meiguice de uma flor

O amor é muito bom
Enquanto a gente tem dinheiro
Se findar esta moeda
Tem papagaio no poleiro


No barraco da saudade
Fui morar com meu benzinho
A moeda se acabou
Eu fiquei falando sozinho

Passarinho do Má

Foi só o presidente Artur Bernardes, que governou o país sob estado de sítio de 1922 a 1926, deixar o Palácio do Catete para receber o troco. O "passarinho do mal", responsável por todos os males do mundo, não era outro senão o "Rolinha", apelido maldoso dado pelo povo a Bernardes. Ao final, registra-se a letra de três estrofes - bem mais pesadas - que não foram gravadas por Francisco Alves.

Passarinho do Má (samba, 1927) - Antonio Lopes do Amorim Diniz (Duque)

Disco 78 rpm / Título: Passarinho do má / Autoria: Duque (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1927 / Álbum 10001


Passarinho do má tava cá
Não havia maneira de enxotá (Bis)
Meu roçado de mio, secô
Meu cavalo de sela, mancô.
Meu cachorro de caça, danô
Minha sogra de longe, vortô.

Passarinho do má tava cá
Não havia maneira de enxotá (Bis)

A corrente de prata, partiu
O relógio na pedra, caiu.
O dinheiro no borso, sumiu
A muié que eu gostava, fugiu.

Passarinho do má tava cá / Não havia maneira de enxotá (Bis)
Água suja do monte, desceu / O riacho num instante, cresceu.
O porquinho que tinha, morreu / A muié a vergonha, perdeu.


As três estrofes que Francisco Alves não gravou são as seguintes:

A geada os legume secô / O alambique do monte, quebrô.
Vento sul deu nas cana, estragô / A cachaça na roça, acabô.

Estou vendo daqui toda gente / Com um sorriso feliz e contente.
Pois chegou ao Brasil finalmente / O Jahú(1), que é a glória da gente.

Passarinho do má já vuô / Ninguém sabe onde pousô
Passarinho do má se vortá / Espingarda taí pra matá.


(1) Nome do avião que, em 1927, realizou o primeiro vôo de travessia do Atlântico Sul pilotado por brasileiros .

Fonte: Franklin Martins - Site Oficial

Morro de Mangueira

Pedro Celestino
Morro de Mangueira (samba, 1926) - Manoel Dias

Disco 76 rpm / Título da música: Morro da Mangueira / Autoria: Dias, Manoel (Compositor) / Pedro Celestino (Intérprete) / American Jazz Band Sílvio de Souza (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, Dezembro/1925-Julho/1927 / Nº Álbum 123029 / Gênero: Samba


Eu fui a um samba lá no morro da Mangueira
Uma cabrocha me falou de tal maneira:
Não vai fazer como fez o Claudionor
Para sustentar família foi bancar o estivador.
Não vai fazer como fez o Claudionor
Para sustentar família foi bancar o estivador.


// Ó cabrocha faladeira,/ Que tens tu com a minha vida?
Vai procurar um trabalho/ E corta esta língua comprida
// Ó cabrocha faladeira,/ Que tens tu com a minha vida?
Vai procurar um trabalho/ E corta esta língua comprida

Não tem água na Mangueira / É pau pra virar
É duro subir ladeira / Para em seco namorar

Café com leite

Poucos textos políticos seriam capazes de explicar de modo tão claro e com tanto talento como eram armadas as eleições para presidente na República Velha como "Café com Leite", música da peça de teatro de revista do mesmo nome que foi encenada no início de 1926.

O mestre cuca, ou seja, o ocupante do Palácio do Catete, convocava os chefes dos executivos estaduais ao Distrito Federal ou mandava emissários aos estados, propunha os nomes dos candidatos a presidente a vice e, ao final desse processo, indicava a chapa oficial.

Geralmente, ela era vitoriosa. Apenas em algumas oportunidades, cozinheiros dissidentes opuseram-se frontalmente ao esquema do “café com leite” (São Paulo com Minas) e lançaram chapas alternativas.

Café com leite (maxixe, 1926) - Freire Júnior

Disco 76 rpm / Título da música: Café com leite / Autoria: Freire Júnior (Compositor) / Fernando (Intérprete) / Jazz Band Sul û Americano Romeu Silva (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1921-1926 / Nº Álbum 122984 / Gênero musical: Maxixe


Nosso Mestre Cuca movimentou / O Brasil inteiro,
Pois cada um Estado pra cá mandou / O seu cozinheiro.
Mexeu-se a panela, fez-se a comida / Com perfeição.
Assim foi a bóia, bem escolhida / Com precaução

Café paulista, / Leite mineiro,
Nacionalista / Bem brasileiro.

Preto com branco, / Café-com-leite,
Cor democrata , / É preto com branco, meu bem, aceite.
Cor da mulata / O leite é bem grosso, café é forte
Agüenta a mão. / As novas comidas têm que dar sorte
Na situação”.


Fonte: Franklin Martins - Site Oficial

Fado Liró

Geraldos no Fado Liró - 1909
Fado Liró (fado, 1908) - Nicolino Milano - Interpretação: Geraldos, Os - Disco 78 rpm Odeon, 1907-1912 - Nº Álbum 108246



Guitarra, guitarra geme
Que o meu peito todo treme
Ao cantar ao meu amor
Passemos a vida unidos
A soltar nossos gemidos
Pra acalmar a nossa dor

Mas se a vida são dois dias

Procuremos alegrias
Gozar a vida é mister

Desprezamos a africana
Se ela nos é desumana

Busquemos outra mulher

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

Entre as verdes ramarias

Ouvem-se belas poesias
Entre os verdes do choupal

São versos cheios de dores
De quem sofre por amores

De quem sente um grande mal

Amor sem dinheiro

Amor sem dinheiro (maxixe, 1926) - J. B. da Silva (Sinhô) - Disco 76 rpm - Fernando (Intérprete) - Coro (Acompanhante) - Jazz Band Sul Americano Romeu Silva (Acompanhante) - Imprenta [S.l.]: Odeon, 1921-1926 - Nº Álbum: 122922 - Gênero musical: Maxixe



Amor, Amor
Amor sem dinheiro
Meu bem
Não tem valor

Amor sem dinheiro
É fogo de palha
É casa sem dono
Que mora a canalha


Amor sem dinheiro
É fole sem vento
É fruta passada
Chorar sem lamento

Amor sem dinheiro
É flor que murchou
São quadras sem rimas
Me leva que eu vou

Zizinha

Carmen Lobato na
revista Ai! Zizinha
A melodia simples, o ritmo alegre, saltitante, a letra satírica, bem humorada, com pitadas de malícia ( "Zizinha / Zizinha / Zizinha / Zizinha / Ô vem comigo / Vem minha santinha / Também quero / Tirar uma casquinha...."), enfim, as principais características da marcha carnavalesca já estão presentes em "Zizinha" e outras peças do gênero lançadas na década de 1920.

De diferente mesmo das marchas que vieram nas décadas seguintes, pode-se notar somente uma certa analogia rítmica com o fox-trote e o charleston. Zizinha tem entre seus autores José Francisco de Freitas, um dos principais responsáveis pela fixação da marchinha.

Título: Zizinha / Gênero: Marcha / Intérprete: Fernando / Compositor: Freitas, José Francisco de / Acompanhantes: Jazz Band Sul û Americano Romeu Silva e Coro / Álbum Odeon 122942 / Gravação e lançamento: 1921-1926 / Lado único / Disco 78 rpm


Zizinha (marcha / carnaval, 1926) - José Francisco de Freitas

Por ser deveras conhecida / palavra, eu ando aborrecida
em qualquer lugar / quando passear
sou muito perseguida / o meu tormento não tem fim
nunca pensei sofrer assim / velhos e mocinhos
pedem-me beijinhos / dizendo, enfim , prá mim

Zizinha, Zizinha / Zizinha, Zizinha
ó, vem comigo, vem / minha santinha
também quero tirar uma casquinha

Noutro dia num bondinho / um coronel muito velhinho
deu-me um beliscão / pegou-me na mão
tais coisas fez enfim / que quando olhei admirada
até parece caçoada / ainda suspirou
os olhos revirou / dizendo assim prá mim

Zizinha, Zizinha...

Chuá, chuá

O bonito e original guarda-roupa da revista "Comidas, Meu Santo!" de Marques
Porto e Ari Pavão, encenada no Teatro Recreio, do Rio de Janeiro, em 1925.

"Deixa a cidade formosa morena / linda pequena / e volta ao sertão... Estes versos sintetizam o tema de "Chuá, Chuá" - o eterno confronto cidade/sertão -, tema que se repete em vários outros clássicos do repertório nacional.

Destaca-se, porém, nesta canção um estribilho forte ("E a fonte cantá / chuá, chuá / e a água a corrê / chuê, chuê..."), fácil de cantar em terças, residindo aí, talvez, o motivo maior de sua popularidade.

Chuá, Chuá foi composto para a revista Comidas, meu Santo, encenada com sucesso no Teatro Recreio, no Rio de Janeiro, de junho a setembro de 1925.

Participantes dessa revista, os autores Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão sempre tiveram seus nomes ligados ao meio teatral, o primeiro como maestro e compositor o segundo como libretista.

Chuá, chuá (canção, 1925) - Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão

Disco 76 rpm / Título: Chuá, chuá / Autoria: Pereira, Pedro de Sá, 1892-1955 (Compositor) / Fernando (Intérprete) / Coro (Acompanhante) / Jazz Band Sul û Americano Romeu Silva (Acompanhante) / Sá Pereira (Compositor) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1921-1926 / Nº Álbum 122944


--------------E --------Db7---- Gbm ------B7------- Gbm--- B7------ E
Deixa a cidade formosa morena /--- Volta pro ameno e doce sertão
------------Abm7----- Db7---- Gbm -----B7-------- Gbm---- B7------- E
Beber a água da fonte que canta /--- Que se levanta do meio do chão
-----------------------Db7------ Gbm ------B7 --------Gbm --B7- Bm7-- E7
Se tu nasceste cabocla cheirosa /----- Buscando o gozo do seio da terra
---------------A------ D------ Abm --------Db7----- Gbm---- B7------ E
Volta pra vida serena da roça /----- Daquela palhoça do velho sertão

---------------------Db7 ----Gbm -----B7------- Gbm---- B7------ E
A lua branca de cor prateada /---- Faz a jornada no alto dos céus
--------------Abm7------ Db7------ Gbm--- B7 ------Gbm----- B7-------- E
Como se fosse uma pomba altaneira / ---Da cachoeira fazendo escarcéus
-----------------------------Db7----- Gbm ----B7----- Gbm ----B7 -Bm7- E7
Quando essa lua lá na altura distante /---- Lira ofegante no poente a cair
-------------------A ---------D -------Abm7 ---------Db7------ Gbm --------B7----- E
Dá-me essa trova que o pinho descerra / Que eu volto pra serra, que eu quero partir

-----------------Gbm7 --B7 ----Gbm7----- B7--------- E------------- Bm7
E a fonte a cantar: chuá . . .chuá / E as águas a correr: chuá . . .chuê . . .
------E7 ----------A---------- -D ------Abm7 -------Db7 ------Gbm7 ----B7-------- E
Parece que alguém que cheio de mágoa / Deixasse quem há de dizer que a saudade
--------Abm7 --Gbm----- B7------ E
No meio das águas rolando também (bis)

Abismo de rosas

Canhoto (primeiro da direita) com amigos.
O grande violonista Canhoto tinha apenas 16 anos quando compôs "Abismo de Rosas", em 1905. A composição era um desabafo a uma decepção amorosa, pois o autor acabara de ser abandonado pela namorada, filha de um escravo. Canhoto realizou três gravações desta valsa: a primeira, com o nome de "Acordes do Violão", lançada no disco Odeon número 121249, em meados de 1916; a segunda, já como "Abismo de Rosas", no disco Odeon 122932, em 1925; e, finalmente, a terceira no disco Odeon 10021- a que fazia parte do suplemento de agosto de 1927, um dos primeiros da era da gravação elétrica no Brasil.

Ressalta nesta terceira gravação seu vibrato característico e inigualável, que ele tirava de um violão de corpo mais fino com braço não muito rígido. Peça obrigatória no repertório de nossos violonistas - de Dilermando Reis a Baden Powell -, "Abismo de Rosas" é considerada o hino nacional do violão brasileiro pelo professor Ronoel Simões, uma autoridade no assunto.

Abismo de rosas (valsa, 1925) - Canhoto / Letra de João do Sul

Disco 78 rpm Odeon, 1927 / Título: Abismo de rosas / Autoria: Canhoto (Jacomino, Americo), 1889-1928 (Compositor)/ Canhoto (Jacomino, Americo), 1889-1928 (Intérprete) / Álbum 10021 / Gênero: Valsa



Ao amor em vão fugir / Procurei / Pois tu
Breve me fizeste ouvir / Tua voz, mentira deliciosa
E hoje é meu ideal / Um abismo de rosas
Onde a sonhar / Eu devo, enfim, sofrer e amar !

Mas hoje que importa / Se tu'alma é fria
Meu coração se conforta / Na tua própria agonia
Se há no meu rosto / Um rir de ventura
Que importa / o mudo desgosto
De minha dor assim, / Sem fim

Se minha esperança / O que não se alcança
Sonhou buscar / Devo calar
Hoje, meu sofrer / E jamais dele te dizer
O amor se é puro / Suporta obscuro
Quase a sorrir / A dor de ver,
A mais linda ilusão morrer.

Humilde, bem vês que vou,/ A teus pés levar,
Meu coração que jurou,/ Sempre ser, amigo e dedicado,
Tenha, embora, que viver, / Neste sonho enganado,
Jamais direi, / Que assim vivi, porque te amei !


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Branca

Zequinha de Abreu
"Aurora", "Branca" e "Elza" são os nomes femininos que intitulam três das mais conhecidas valsas de Zequinha de Abreu. Dessas, pelo menos "Branca" seria inspirada por uma musa verdadeira, a jovem Branca Barreto, filha do chefe da estação ferroviária de Santa Rita do Passa Quatro, terra do compositor.

Conta João Bento Saniratto - amigo de Zequinha, citado por Almirante num artigo publicado em O Dia - que a valsa foi composta de improviso, na presença de um grupo que conversava à porta do Grêmio Literário Recreativo. Como na ocasião a moça passasse pelo local, o autor (que era seu admirador) resolveu homenageá-la na composição.

"Branca" é uma bela valsa sentimental, de melodia triste, uma característica predominante na música de Zequinha de Abreu. Composta por volta de 1918, ganhou popularidade a partir de 1924, quando teve a sua primeira edição. Mas, ao que se sabe, somente seria gravada em 1931, no mesmo disco que lançou o Tico-tico no fubá. Tem uma letra de Duque de Abramonte (Décio Abramo), embora seja uma valsa essencialmente instrumental.

Branca (valsa, 1924) - Zequinha de Abreu e Duque de Abramonte - Intérprete: Francisco Petrônio


Am-------------------------- A7------- Dm
Há tempos que a vi / Que eu a conheci
-----------------------Am
Ela era linda, um primor, de amor
-----B7------------------ E7
Misto de estrela e de flor
Am ----------------------A7------------ Dm
Mas também sofreu / Eu sei vou contar
---------------------Am --------E7------- Am
Pois li naquele olhar, / Cansado de chorar


E7 -----------------------Am
De tarde ao chegar / Os trens um a um
--------E7------------------------- Am
Ela viu desembarcar / Um estranho tentador
E7----------------------- Am ---------------A7
Vi Branca cismar / Num sono de amor
-----------Dm--------- Am ---------E7-------- Am
Ficou logo apaixonada / Do mancebo tentador


C------------ G7------------------------ C
Mas essa flor / Não sentiu florir o amor
---------------------G7 --------------------------C---- G7
Nunca o sentiu florir / Porque ele teve que partir
C--------------- G7--------------------------- C---- C7
Viu-o embarcar / Como um dia após o amar
F------ Fm--- C --A7 ------------------D7 ----G7
E nunca mais / ----Sentiu o puro amor
--------------------C
Do jovem tentador



Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Tristezas do Jeca


Angelino de Oliveira
Conhecida também como "Tristeza do Jeca", esta toada nasceu em Botucatu em 1918, popularizando-se no interior paulista por volta de 1922. Então, gravada pela Orquestra Brasil-América (1924) e pelo cantor Patrício Teixeira (1926), ganhou o país, convertendo-se num dos maiores clássicos de nossa música sertaneja.

Importante centro econômico do estado de São Paulo, Botucatu registrava já àquele tempo uma razoável movimentação artística, reunindo cantadores e músicos, entre os quais o autor da composição, Angelino de Oliveira. "Era um humilde tocador de violão e guitarra portuguesa", dizia o compositor Ariovaldo Pires (Capitão Furtado), amigo pessoal de Angelino. Com sua melodia e letra pungentes, "Tristezas do Jeca" canta as mágoas de um matuto apaixonado:

Tristeza do Jeca (toada, 1922) - Angelino de Oliveira / Disco 78 rpm / Teixeira, Patrício (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1925-1927 / Nº Álbum 123134 / Gênero musical: Toada



---D --------G ----------D -------------A7
Nestes versos tão singelos / Minha bela,
----------D----------- G----------- D------------ A7
Meu amor / Pra vancê quero contar meu sofrer
---------------D -----D7----
A  minha dor  ------


----G-------------------- D
Eu sou como o sabiá
-----------------B7----------- Em-------------- A7
Que quando canta é só tristeza / Desde o galho
----------------D
onde ele está (bis)


(refrão: )

----------A7------------------------------------ D
Nessa viola canto e gemo de verdade
------------A7------------------------------ D
Cada toada representa uma saudade

--D-------- G------------- D----------------- A7-------------- D
Eu nasci naquela serra / Num ranchinho a beira-chão
-------------------G-------- D------------- A7--------- D------- D7
Todo cheio de buraco / Onde a lua faz clarão


------G------------------- D-------------- B7---------- Em
Quando chega a madrugada / Lá no mato a passarada
--------A7------------ D
Principia um baruião (bis) (refrão)

---D -----G----------------- D
Lá no mato tudo é triste

------------A7------------ D
 
Feito o jeito de falar
-----------G -----------D -----------A7---------- D--- D7
Quando risco minha viola dá vontade chorar


--------------G -------------D ---------B7------------ Em
Não há um que cante alegre / Tudo vive padecendo
----------A7------------ D
Cantando pra aliviar    (bis) ( refrão )



A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34

Luar de Paquetá

"Luar de Paquetá" é a mais conhecida das composições sobre a bucólica ilha, que inspirou tantas outras canções e até um romance célebre, A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo. E merece essa popularidade muito mais pela melodia de Freire Júnior do que pelos versos de Hermes Fontes.

Um exagerado simbolista, o poeta impregnou a canção de imagens afetadas como "nereidas incessantes", "hóstia azul fervendo em chamas", "noites olorosas"... Aliás, a propósito desta imagem, há algumas gravações em que os intérpretes - entre os quais Francisco Alves - trocam o adjetivo e cantam "nessas noites dolorosas". Lançado em 1922, "Luar de Paquetá" estendeu seu sucesso ao ano seguinte, quando deu nome a uma revista teatral.

Luar de Paquetá (tango / fado, 1922) - Freire Jr. e Hermes Fontes

Disco 78 rpm / Título da música: Luar de Paquetá / Autoria: Freire Júnior (Compositor) / Fontes, Hermes (Compositor) / Déo (Intérprete) / Dircinha Batista, 1922-1999 (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Continental, 1943 / Nº Álbum 15105 / Lado A / Gênero musical: Marcha rancho



Nestas noites dolorosas, / Quando o mar desfeito em rosas,
Se desfolha à lua cheia, / Lembra a ilha onde me oculto,
Onde o amor celebra em tudo, / Todo o encanto que a rodeia.


Nos canteiros ondulantes, / As nereidas incessantes,
Abrem lírios ao luar, / A água em prece burburinha,
Em redor da capelinha / E vai rezando o verbo amar.


Jardim de afetos, pombal de amores, / Humildes tetos de pescadores,
E a lua brilha - que bem nos dá - / Amar na Ilha de Paquetá !


Pensamento de quem ama / Oh que beijo ardendo em chama
Entre lábios separados, / Pensamento de quem ama,
Leva o meu radiograma / Ao jardim dos namorados,
Onde há esse paraíso / O caminho que idealizo,

Na ascensão para este altar, / Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo / Mas não sabe onde acabar...


Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34

Ai, seu Mé

Freire Jr.
No final de 1921, a campanha eleitoral para a sucessão do presidente Epitácio Pessoa empolgava o país. Eram candidatos Artur Bernardes, pela situação, e o dissidente Nilo Peçanha, pela oposição. Vítima de uma calúnia jornalística, Bernardes cairia na antipatia do povo, que passou a chamá-lo de "Carneiro", "Rolinha" e "Seu Mé". A razão dos apelidos era sua suposta passividade diante das maquinações políticas, defeito que lhe atribuíam os adversários.

Acreditando numa derrota do candidato oficial, os compositores Freire Júnior e Careca (Luís Nunes Sampaio) decidiram, então, participar da campanha ridicularizando-o na marchinha "Ai Seu Mé":

"Ai Seu Mé / ai Seu Mé / lá no Palácio das Águias, olé / não hás de pôr o pé (...) Rolinha desista / abaixe esta crista (...) a cacete / não vais ao Catete / não vais ao Catete...".

Na realidade um plágio, uma espécie de colagem de três sucessos da época - o fox "Salomé" (de R. Stolz e E. Neri, que teve uma versão em português com o título de "Abajur" ); a canção "Mimosa" (de Leopoldo Fróes); e a marcha "Ai Amor" (do próprio Freire Júnior) - o "Ai Seu Mé" caiu imediatamente nas graças do público, tornando-se o grande sucesso do carnaval de 1922, apesar da proibição da polícia, que chegou a recolher os discos gravados pelo Baiano e a Orquestra Augusto Lima.

Contrariando o prognóstico dos autores, "Seu Mé" foi eleito, empossado e passou quatro anos no Palácio das Águias, governando sob estado de sítio. E de nada valeu a precaução de assinarem a composição com o pseudônimo de "Canalha das Ruas", pois Freire Júnior acabou sendo "preso e recolhido à solitária por duas ou três vezes" (segundo o historiador Ary Vasconcelos), enquanto Careca, mais esperto, passava uma temporada escondido, fora do Rio. Se Mário de Andrade fosse comentar esta história, diria certamente: "mas isso é tão Brasil...".

Ai, Seu Mé (marcha, 1922) - Freire Júnior e Careca - Intérprete: Francisco Alves



O Zé Povo quer a goiabada Campista
Rolinha desista / Abaixe esta crista
Embora se faça uma "bernarda"
A cacete / Não vais ao Catete
Não vais ao Catete

Ai seu Mé / Ai Mé Mé
Lá no Palácio das Águias, olé
Não hás de pôr o pé

O queijo de Minas tá bichado
Seu Zé / Não sei porque é
Não sei porque é
Prefira bastante apimentado, Yayá
O bom vatapá / O bom vatapá



Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34