sexta-feira, setembro 22, 2006

Jackson do Pandeiro


Primeiro grande artista paraibano, surgido em plena era do rádio, Jackson do Pandeiro nasceu José Gomes Filho em Alagoa Grande no dia 31 de agosto de 1919, filho de José Gomes e de Flora Maria da Conceição.

Cantava no interior da Paraíba desde sua adolescência e fez algumas duplas antes de sagrar-se como artista solo. Ainda como Jack do Pandeiro, montou primeiramente uma dupla com Zé Lacerda em Campina Grande.

Em 1947, às vésperas de começar a ganhar popularidade nas rádios locais, e de ser rebatizado artisticamente como Jackson do Pandeiro, formou a dupla Café com Leite com Rosil Cavalcanti em João Pessoa. A dupla durou apenas um ano, mas a amizade e a parceria refletiriam no início da carreira solo de Jackson.

Sebastiana fez sucesso no Carnaval de 1953 e Jackson foi contratado pela Rádio Jornal do Commercio, ganhando - já aos 34 anos de idade - uma notoriedade nacional que acabou despertando o interesse das gravadoras. É nessa época que conhece Luiz Gonzaga, que imediatamente propõe encaminhá-lo à diretoria da RCA (atual BMG Ariola) no Rio de Janeiro, mas Jackson - recém-casado com a cantora pernambucana Almira Castilho - acaba preferindo a Copacabana (atual EMI Music), por esta ter um escritório no Nordeste.

O cantor utiliza o estúdio da rádio para gravar dez faixas para a gravadora, que antes do Natal de 1953 colocou nas lojas um 78 rpm com Forró em Limoeiro e Sebastiana. Há 50 anos, começava o sucesso nacional de Jackson do Pandeiro, cujo primeiro disco ultrapassaria as 50 mil cópias vendidas antes do Carnaval de 1954.

Com a boa vendagem, Jackson é então contratado pela Copacabana por dois anos. Assustado com o sucesso, isola-se no Nordeste e, somente após o sucesso do segundo 78 rpm, 1 x 1 e A mulher do Aníbal, resolve visitar o Sudeste - mas de navio, já que tinha pavor da idéia de sequer embarcar num avião. Após três dias a bordo do lendário Vera Cruz, Jackson do Pandeiro e Almira Castilho chegaram ao Rio de Janeiro em 18 de abril de 1954.

A mídia encanta-se com os dois, que - apesar de já desfrutando de uma vida mais confortável - não abriam mão de residir no Nordeste. Passam alguns meses viajando, enquanto a gravadora fecha o restante do ano lançando mais 78 rpm´s - com as outras seis faixas gravadas inicialmente. Vou Gargalhar, lançada para o Carnaval de 1955, faz enorme sucesso e beira as 50 mil cópias vendidas em poucas semanas.

Somente depois do carnaval, Jackson entra finalmente em estúdio para novas gravações e Forró em Caruaru é lançada enquanto o artista negocia a liberação de seu contrato de exclusividade com a rádio nordestina, para com isso poder trabalhar melhor a mídia nacional.

Durante a passagem pelo Recife, Jackson e Almira acabam sendo agredidos fisicamente durante uma festa e resolvem finalmente mudar-se para o Rio de Janeiro. Estabelecem-se na Glória, a poucos minutos do centro do Rio, e Jackson lança seu primeiro LP de 10 polegadas, que rende diversas aparições na televisão e convites para participações em filmes.

Um segundo álbum de 8 faixas é lançado em 1956, trazendo pela primeira vez uma foto de Jackson e Almira na capa. Mesclando com sabedoria temas carnavalescos, juninos e até natalinos, os discos passariam a animar qualquer ocasião. Jackson faz enorme sucesso no eixo Rio-São Paulo e também em Minas Gerais, numa época em que O canto da ema não parava de tocar e já garantia seu posto como um dos grandes sucessos do artista.

Após lançar um terceiro LP em 1957, ao final de quatro anos de contrato com a Copacabana, Jackson anuncia sua decisão de assinar com a Columbia (atual Sony Music) - por onde passaria a lançar discos em 1958, tão logo a Copacabana terminasse de lançar o material recentemente gravado.

Jackson gravaria na nova gravadora por apenas dois anos, e a partir de 1960 desenvolveria uma carreira de cinco anos pela Philips (atual Universal) - onde efetivamente gravou diversos LPs e compactos. Nos anos 60 ainda gravou pela Continental e pela Cantagalo, e durante os anos 70 participou de diversos projetos.

Jackson do Pandeiro faleceu aos 63 anos no Hospital de Base de Brasília no dia 10 de julho de 1982, em decorrência de um coma diabético. Outros sucessos: Chiclete com banana, Falsa patroa e Cantiga do sapo.

Sua biografia “Jackson do Pandeiro, O Rei do Ritmo”, escrita por Fernando Moura e Antônio Vicente e lançada pela Editora 34 em 2001, é referência obrigatória. (Marcelo Fróes - Janeiro, 2004)

Jackson do Pandeiro

Algumas músicas

A mulher do Aníbal
A ordem é samba
Boi da cara preta
Cantiga do sapo
Chiclete com banana
Falsa patroa
Forró em Limoeiro
O canto da ema
O velho gagá
Orora analfabeta
Pisei num despacho
Procurando tu
Sebastiana
Tum-tum-tum
Um a um
Vou ter um troço

Fonte: EMI MUSIC

Falsa patroa

Falsa patroa (samba, 1955) - Geraldo Jacques e Isaías de Freitas - Interpretação: Jackson do Pandeiro



Tom: A  

A7+          G#º F#7                     Bm7 
Doutor delegado, eu não tive culpa 
                      E7/9  E7/9-  A7+
Foi a sua criada que me convidou 
  C#m7   Cº                 Bm7
Dizendo que o apartamento era dela 
                              E7/9  E7/9-         A7+
Me pegou pelo braço para jantar com ela 
A7+          G#º F#7               
O senhor compreende 
                    Bm7
A cabrocha é boa 
D7/9                A7+     Bm7               E7/9    A7+
Eu fiquei iludido pensando que ela fosse a patroa 
F#7                     Bm7              E7/9    A7+
Eu quero ir embora doutor, estou muito aflito 
F#7                     Bm7              E7/9    A7+
Não me sinto bem dentro do distrito 
F#7                     Bm7              E7/9    A7+               F#7
Passe um sabão nela doutor, dê isso por acabado 
  Bm7                          Gº                   F#7
Eu sei, se houver processo eu serei condenado 
    Bm7 
Que vergonha ver meu nome no jornal 
D7/9                A7+     Bm7               E7/9    A7+
Sou de boa família e não quero deixar minha gente mal 
 
(breque: doutor delegado, doutor, pelas cinco chagas de nada, 
doutor, pelo leite de mamão, deixe eu ir embora, nego veio). 

Cantiga do sapo

Cantiga do sapo (baião, 1959) - Jackson do Pandeiro e Buco do Pandeiro



Tom: A
  

(intro) A E B7 E7 A E B7 E

     A7              B7         E
É assim que o sapo canta na lagoa
      D                       E
Sua toada improvisada em dez pés (2x)

- Tião

  D
- Oi!

   A7
- Fosse?

   E
- Fui!

- Comprasse?
      A
- Comprei!
     B7
- Pagasse?
      E
- Paguei!
                 A
- Me diz quanto foi?
           B7     E
- Foi quinhentos réis

          A7         B7    E
É tão gostoso morar lá na roça
         D                      E
Numa palhoça perto da beira do rio
                E7                 A
Quando a chuva cai o sapo fica contente
      B7          E             A7
Que até alegra a gente com seu desafio

Orora analfabeta

Gordurinha
Orora analfabeta (1959) - Gordurinha - Intérprete: Jorge Veiga



Eu arrumei uma dona boa lá em Cascadura
Que boa criatura mas não sabe ler
E nem tão pouco escrever
Ela é bonitona, bem feita de corpo
É cheia da nota
Mas escreve gato com "j"
E escreve saudade com "c"
Ela disse outro dia que estava doente
Sofrendo do "estambo"
Levei um tombo... Cai durinho pra trás
Isso assim já e demais
Ela fala "aribu", "arioprano" e "motocicreta".
Diz que adora feijoada "compreta".
Ela é errada demais!
Viu uma letra "O" bordada na blusa
Eu disse é agora
Perguntei seu nome ela disse Orora
E sou filha do Arineu
Mas o azar é todo meu

Meio Termo
Eu quero você meu bem
Eu quero você com o jeito que voce tem
Sem pintura, sem vaidade
Sem orgulho, sem chiquê
Sem malícia e sem maldade
Do jeito que é
Sem brigar com a vizinhança
Sem ligar para a society
Mas sem ir pra gafieira

Meio termo é melhor
Nem alto demais
Nem querer Copacabana
Nem viver lá em Gramacho
Nem querer pegar estrelas
Nem pegar em bruxaria
Nem vagar durante a noite
Nem dormir durante o dia.

Baiano não é palhaço

Baiano não é palhaço - Gordurinha

Sou filho da Bahia com muita alegria
Não interessa se o relógio já deu meio dia
Não falo fino nem ando me rebolando
Mas tem gente falando que eu não sou legal
Não faço ponto lá na Praça Tiradentes
Mesmo assim tem muita gente que ainda fala mal
Não pinto as unhas, nem falo com vedete
Mas estão pintando o sete, isto é uma verdade.
Quando o relógio está marcando meio dia
Quem é filho da Bahia tem que ouvir piada

Ai, ai, ai, ô, ô
Vou repetir que o Brasil
Foi descoberto na Bahia
E o resto é interior

Quando ligo a televisão
Têm sempre um palhaço pra meter o aço
Armando a lona, fabricando um picadeiro
E o baiano o dia inteiro bancando o palhaço
Até parece que estou n'outro país
Vê que piada infeliz inventaram agora:
"Ajude a manter a casa limpa
Matando um baiano por hora"

Chiclete com banana

Radicado no Rio desde 1952, o cantor e compositor baiano Gordurinha (Waldeck Artur de Macedo) teve sua primeira oportunidade artística ao gravar em dupla com Léo Vilar duas músicas para o carnaval de 56. O sucesso, porém, só aconteceria um pouco adiante com “Vendedor de Caranguejo” (1958), “Súplica Cearense” (1960) e principalmente com a gravação de “Chiclete com Banana” por Jackson do Pandeiro em 1959.

Um sacudido sambabop (embora na letra declare-se “samba-rock”), a composição propõe uma divertida troca de influências entre as músicas brasileira e americana: “Eu só boto be-bop no meu samba / quando o Tio Sam tocar um tamborim / quando ele pegar num pandeiro e num zabumba / quando ele aprender que o samba não é rumba / aí eu vou misturar Miami com Copacabana / chiclete eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim...”.

Além de inspirar um espetáculo de Augusto Boal, “Chiclete com Banana” deu nome a uma bem-sucedida banda baiana e às tiras de quadrinhos do cartunista Angeli. Em 1972, voltou a fazer sucesso ao ser incluída por Gilberto Gil no disco que marcou o seu retorno do exílio londrino. Assinada a princípio somente por Gordurinha, é em algumas gravações apresentada com o nome de José Gomes como co-autor e em outras com o de Almira Castilho.

Chiclete com banana (samba, 1959) - Gordurinha e Almira Castilho - Intérprete: Jackson do Pandeiro


Intro:34 35/25/28/17/15/10 
      Bm7 E7/9- / A7/13 A7/5+ / G7/13 G7/5+ 
      34 35/25/28/17/15/10 
      Bm7 E7/9- / Am7 / A7/13 / G / Eb7/9+ D7/9+ 

        G      E7/9-      A7/13 
Eu só ponho bib-bop no meu samba 
A7/5+        Am7      D7/9     G 
Quando o Tio Sam tocar o tamborim             
            E7/9-                   A7/13 
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba                 
                D7/9             G7 G7  F#7 F7 E7 
Quando ele aprender que o samba não é   rum-ba-a                
                A7    D7/9           G 
Aí eu vou misturar, Miami com Copacabana    
   E7/9-                  A7/13 
Chicletes eu misturo com banana          
         D7/9               G                    
Eu o meu samba vai ficar assim  

Gb G // C7/9 // Bm7 / E7/9  

   Am7         D7/9         G          
Eu quero ver a grande confusão 

Gb G // C7/9 // Bm7 / E7/9          

   Am7         D7/9         G      
Olha aí o samba-rock meu irmão 
G G#º            Am7 A#º   
  É, mas em compensação          
         E7/9-         A7 
Eu quero ver o Boogie-woogie       
      D7/9       Dm7/9  G7/13 
De pandeiro e violão  

C7+         C#º G6          E7/9- 
Quero ver o Tio Sam de frigideira,  
 A7     D7/9 Dm7/9 G7/13 
numa batucada brasileira 
C7+         C#º G6          E7/9- 
Quero ver o Tio Sam de frigideira,  
 A7     D7/9 Dm7/9 G7/13 
numa batucada brasileira 


A Canção no Tempo - Vol.2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34

Gordurinha


Fossem os curiosos tentar adivinhar-lhe o físico pelo apelido e Gordurinha seria até hoje mais um enigma na história da música popular brasileira. Magro na juventude, Waldeck Artur de Macedo, nascido no bairro da Saúde, em Salvador, no dia 10 de agosto de 1922, ganhou seu apelido em 1938, quando já trabalhava na Rádio Sociedade da Bahia.

Do seu repúdio à colonização americana, epitomizada pela goma sde mascar nasceu o bebop-samba, Chiclete com banana , em parceria com Almira Castilho, que acabou por pronunciar o tropicalismo ao sugerir antropofagicamente na letra: 'só boto bebop no meu samba quando o Tio Sam pegar no tamborim, quando ele entender que o samba não é rumba'.

Ele mesmo chegou a gravar, como que a tirar um sarro um rock entitulado Tô doido para ficar maluco.

Mas não foi só de glória e reconhecimento tardio a vida deste que, ao lado do Trio Nordestino, iria se transformar no baluarte do forró na Bahia. Sua estréia no mundo da música se deu em 1938, quando fez parte do conjunto vocal "Caídos do céu" que se apresentava na Rádio Sociedade da Bahia, fazendo logo depois par cômico com o compositor Dulphe Cruz. Logo se destacou pelo seu dom de humorista e pelo sarcasmo que iria ser disseminado em suas letras anos mais tarde.

Em 1942, cansado de tentar conciliar estudo e sessões de rádio, tomou a decisão se debateu com um dilema conhecido de muitos: medicina ou carreira artística? Como seus discípulos Zé Ramalho e Fred Dantas, Gordurinha caiu fora desse estória de clinicar. Largou a Faculdade de Medicina e seguiu sua sina de cigarra.

Os passos iniciais seriam dados numa Companhia Teatral. Caiu na estrada, mambembeando e povoando de música e pantomimas outras plagas.

Seu próximo passo seria um contrato na Rádio Jornal de Comércio, em Recife, em 1951. Depois, o jovem compositor, humorista e intérprete Gordurinha passaria pela rádio Tamandaré onde conheceu o poeta Ascenso Ferreira, figura folclórica do Recife, Jackson do Pandeiro e Genival Lacerda. Estes dois últimos gravariam em primeira mão várias das suas composições.

Em 1952 partiu para o Rio de Janeiro onde penou sofrendo gozações preconceituosas. Sublimando estes pormenores, conseguiu trabalhar nos programas Varandão da Casa Grande, na Rádio Nacional, e Café sem Concerto as Radios Tupi e Nacional, duas das maiores do país, sempre fazendo tipos humorísticos. Ficou neste circuito até que almejou um sonho que já alimentava desde os magros dias do Recife: um contrato na mais importante mídia do Brasil na época que era a Rádio Nacional.

Meu enxoval, um samba-coco em parceria com Jackson do Pandeiro seria um dos carros chefes do dis-co ‘forró do Jackson’, de 61. Outro que se daria bem com uma composição do baiano seria o forrozeiro paraense Ary Lobo (mais um dos artistas que o Brasil insiste em esquecer) que prenunciou o Mangue beat ao cantar:

‘Caranguejo-uçá, caranguejo-uçá/ A apanho ele na lama/ E boto no meu caçuá/ Caranguejo bem gordo é gaiamum/ Cada corda de 10 eu dou mais um. Vendedor de caranguejo seria gravado por Clara Nunes, em 74, e por Gilberto Gil no seu ‘Quanta’, de 1997. Outros sucessos foram Baiano não é palhaço que fala do seu orgulho de ser baiano, Súplica cearense e Baiano burro nasce morto.

Gordurinha faleceu em Nova Iguaçú/RJ em 16/1/1969 e seria homenageado na década de 70 com Gilberto Gil, que regravou Chiclete com Banana e Vendedor de Caranguejo no Quanta. O cantor carioca Jards Macalé, também o homenageria com a regravação de Orora analfabeta, no seu 2º LP, ‘Aprendendo a nadar’, de 1974. Elba Ramalho, que em entrevista à revista Showbizz , elogiou sua divisão de versos, se rendeu ao talento do mestre ao dar sua versão de Pau-de-arara é a vovozinha, no seu CD Flor da Paraíba, de 1998.

A última homenagem recebida foi o lançamento do CD A Confraria do Gordurinha, em rememoração aos 30 anos sem o artista. Contando com participação de Gilberto Gil, Confraria da Basófia, Marta Millani e texto do pesquisador Roberto Torres, o CD têm 14 faixas e foi lançado em 1999.

Algumas músicas

Baiano burro nasce morto
Baiano não é palhaço
Chiclete com banana
Mambo da Cantareira
Orora analfabeta
Súplica cearense
Vendedor de caranguejo