quarta-feira, dezembro 06, 2006

Tambá-Tajá

Segundo um mito amazônico, na tribo dos macuxis havia um índio que, por muito amar sua esposa, levava-a sempre consigo para todo lugar, fosse para caçar, pescar ou lutar. Certa vez, o índio teve que ir para a guerra, mas a esposa ficou doente, sem poder andar. Não querendo separar-se de sua amada, ele fez um saco com folhas de bananeira, para poder carregá-la nas costas. Durante o combate, sua amada foi ferida e morreu. O índio, desesperado de amor, enterrou-se junto com ela. No lugar onde jaziam seus corpos, nasceu um tajá diferente, pois atrás de cada grande folha verde da planta nascia grudada uma pequena folha de forma vaginal. Renasciam assim os amantes, unidos novamente para sempre.

As plantas têm na Amazônia poderes curativos e mágicos, conhecidos pelos pajés e feiticeiros. O Tamba-tajá tem a propriedade especial de proteger os amantes. É por isso que a pessoa que canta se dirige a ele fazendo um pedido, uma espécie de prece pagã, que não é menos desprovida de fé que uma prece religiosa, pois os caboclos acreditam piamente no poder das plantas. Desse modo, devemos revestir de uma certa religiosidade sua execução (Fonte: Uma visão sobre a interpretação das canções amazônicas de Waldemar Henrique - Márcia Jorge Aliverti).

Tamba-tajá (canção, 1934) - Waldemar Henrique - Interpretação de Antonieta Fleury de Barros - Disco 78 rpm Continental 1948-1949 - Gênero musical: canção - Nº Álbum 16013 - Data de lançamento: 1949 - Lado A.



E7+    Fº   F#m4/7   F7/5-
Tamba-Tajá, me faz feliz
E7+      Fº            F#m  B7
Que meu amor me queira bem
G#m      Gm6/5+     F#m4/7           F7/5-
Que meu amor seja só meu, de mais ninguém
        G#m7          Gm6/4+           F#m4/7  F7/5-
Que seja meu, todinho meu, de mais ninguém

 E     C#7/9-  F#m  B7
Tamba-Tajá me faz feliz
G#m7   Gm6/5+     F#m
Assim o índio carregou
       B7
Sua macuxy
G#m7     Gm6/5+         F#m            B7  G#m
Para o  roçado, para a guerra, para a morte
        Gm6/5+         F#m         B4/7
Assim carregue o nosso amor à boa sorte

G#m     Gm6/5+ F#m4/7 F7/5-
Tamba-Tajá...
G#m7             Gm6/5+  F#m          B7
Que ninguém mais possa beijar o que beijei
G#m7         Gm6/5+      F#m           B7  G#m
Que ninguém mais escute aquilo que escutei
           Gm6/5+           F#m         B7/9-
Nem possa olhar dentro dos olhos que olhei
G#m     Gm6/5+ F#m4/7 F7/5-
Tamba-Tajá...

Uirapuru (Waldemar Henrique)

Havia, no Sul do Brasil, uma tribo de índios cujo cacique era amado por duas jovens muito bonitas. Não sabendo qual delas escolher para esposa, o jovem cacique prometeu que se casaria com aquela que tivesse melhor pontaria. Assim sendo, fez-se uma competição e as duas jovens atiraram suas flechas, mas só uma delas acertou o alvo e casou-se com o cacique.

A jovem que perdeu a prova se chamava Oribicy. Ela chorou tanto por ter perdido seu amado, que suas lágrimas formaram um córrego. Sua tristeza era tanta, que pediu a Tupã que a transformasse num passarinho para que ela pudesse visitar seu amado sem ser reconhecida. Tupã realizou o desejo da moça e Oribicy, com sua nova forma, voou até o amado. Para sua grande tristeza, constatou na visita que o cacique vivia muito feliz com sua jovem esposa. Oribicy resolveu ir embora e voou para o Norte. Tupã, para consolá-la, deu-lhe um canto especial, que a faria esquecer sua dor enquanto o entoasse e atrairia quem quer que o escutasse. Assim, a jovem não ficaria solitária.

É por isso que o uirapuru, o pássaro que não é pássaro, vive a cantar e a atrair com seu canto todos os que o ouvem. Esse fenômeno acontece realmente. Na floresta, mesmo se todos os pássaros estão a cantar enchendo o ar de melodias e gritos diversos, quando o pequeno e cinzento uirapuru inicia seu canto, todos os outros silenciam e, o que é ainda mais interessante, vêm depositar aos seus pés oferendas: sementes, galhos, alimento (Fonte: Uma visão sobre a interpretação das canções amazônicas de Waldemar Henrique - Márcia Jorge Aliverti).

Uirapuru (canção, 1934) - Waldemar Henrique - Interpretação de Zizi Possi (Valsa Brasileira, 1994)



Certa vez de montaria
Eu descia um "paraná"
O caboclo que remava
Não parava de falar, ah, ah
Que caboclo falador!

Me contou do "lobishomi"
Da mãe-d'água, do tajá
Disse do juratahy
Que se ri proluar, ah, ah
Que caboclo falador!

Que mangava de visagem
Que matou surucurú
E jurou com pavulagem
Que pegou uirapuru, ah, ah
Que caboclo tentadô

Caboclinho, meu amor
Arranja um pra mim
Ando roxo pra pegar
Unzinho assim...

O diabo foi-se embora
Não quis me dar
Vou juntar meu dinheirinho
Pra poder comprar

Mas no dia que eu comprar
O caboclo vai sofrer
Eu vou desassossegar
O seu bem querer, ah, ah
Ora deixa ele pra lá...

Sem seu

Sem seu (motivos de candomblé, 1952) - Waldemar Henrique - Motivos de candomblé de Ilhéus, recolhido pelo maestro paraense Waldemar Henrique.

Sem Seu
É de Congoricó, miriti tome lá
É de Congoricó, miriti tome lá
Não posso te amar

Sem Seu
É de Congoricó, miriti tome lá
É de Congoricó, miriti tome lá
Não posso te amar

Sem Seu sou de Maionghê
Sem Seu não posso te amar
Neto de Aruanda
Filho de Yemanjá
Lá no meu sertão, ó bujanjo
Sou Ogã de Ori
Lá no meu sertão, ó bujanjo
Sou Ogã de Ori

No Jardim de Oeira

No Jardim de Oeira (ponto ritual, 1948) - Waldemar Henrique

No Jardim de Oeira
Onde eu me criei
Lá tinha uma rosa
Nela eu me encantei
Aruê de minha São Benedito
Na coroa de anjo
Tem congá
Auê, auê, auá
Na coroa de anjo
Tem congá

Manha-Nungara

Manha-Nungara (canção, 1935) - Waldemar Henrique

Do alto palmar d'uma juçara
Vem o triste piar da iumara
Os tajás pelos terreiro estão chorando
E no rio, resfolegando
O boto-branco boiou
Sentada na rede, cunha está rezando
A reza que Manha-Nungara ensinou...

Tupã, quem foi que me enfeitiçou?

- Manha-Nungara!
O grito rolou pela caiçara
Mãe-Velha se espantou
Embaixo, na treva do rio
Dois corpos em cio
Lutando, enxergou...

E pelo barranco
De novo soou
O grito de angústia
Que a cria soltou:
-Manha-Nungara!

Hei de morrer cantando

Hei de morrer cantando (cantiga, 1934) - Waldemar Henrique

Oh! Dan dan
Oh! Dan dan
Eu hei de morrê cantando
Agarrado no meu cotcho

Quando me vires chorando, menina
É meu amor que vai s'imbora
Cajueiro já deu flor
Toda a mata s'enfeitou
É meu bem que vai chegar
É meu bem que já chegou

Oh! Dan dan
Oh! Dan dan
Eu hei de morrê cantando
Agarrado no meu cotcho

Oh! Dan dan
Oh! Dan dan

Foi boto, sinhá!

Em noite de festa à beira do rio, o boto transforma-se em um belo rapaz, que se veste todo de branco e usa sempre um chapéu, também branco, na cabeça. Esse chapéu nunca é retirado, pois serve para esconder o orifício que tem na testa e usa para respirar. Não se sabe por que esse orifício não desaparece na sua transformação. Bonito e elegante, o rapaz é bom dançarino e bebedor. Conquista facilmente as moças jovens e bonitas, casadas ou não. Na festa, dança e namora. Depois, convida a namorada para um passeio, para seduzi-la.

Seu poder de sedução é incrível, hipnótico. Muitas de suas vítimas foram "salvas" no último momento porque alguém gritou, fez barulho e as tirou do transe. Após o envolvimento sensual, o boto atira-se no rio e volta à sua forma animal. A namorada, encantada, fica triste. Muitas vezes adoece e acaba por se atirar ao rio à procura do seu amado. As que resistem ao suicídio acabam por parir uma criança, que pode ser boto, já nascer na forma de peixe ou ser normal.

Inúmeras são as histórias contadas com a veracidade característica dos "cabôcos". O Boto é a saída social para as moças que engravidam sem casar. Desculpa fundamental que desvia a jovem do papel de pecadora para o de vítima. O mito também serve ao rapaz que engravidou uma jovem, uma vez que não será procurado, nem identificado, nem responsabilizado. Como resolve tantos "desconfortos", o Boto apresenta-se como um mito socialmente perfeito, sendo talvez esta a razão que o mantém tão vivo até hoje (Fonte: Uma visão sobre a interpretação das canções amazônicas de Waldemar Henrique - Márcia Jorge Aliverti).

Foi boto, sinhá!... (Tajá-panema) (batuque, 1933) - Waldemar Henrique e Antônio Tavernard - Interpretação de Gastão Formenti - Disco 78 rpm Victor, 1934 - Gênero musical: batuque - Nº Álbum 33807 - Data de lançamento: 1934 - Lado B.



Tajá-panema chorou no terreiro
Tajá-panema chorou no terreiro
E a virgem morena fugiu no costeiro

Foi boto, sinhá
Foi boto, sinhô
Que veio tentá
E a moça levou
E o tal dancará
Aquele doutô
Foi boto, sinhá
Foi boto, sinhô

Tajá-panema se pôs a chorar
Tajá-panema se pôs a chorar
Quem tem filha moça é bom vigiá!

Tajá-panema se pôs a chorar
Tajá-panema se pôs a chorar
Quem tem filha moça é bom vigiá!

O boto não dorme
No fundo do rio
Seu dom é enorme
Quem quer que o viu
Que diga, que informe
Se lhe resistiu
O boto não dorme
No fundo do rio...

Curupira

O Curupira é um ser de forma humana, pequeno, esverdeado, com os cabelos cor de laranja, que tem os pés virados para trás e vaga pela mata zelando pelas árvores e animais. Volta-se contra qualquer um que queira caçar apenas por prazer, ou desmatar a floresta sem propósito. Por outro lado, é amigo dos que vivem na mata sem agredi-la, caçando apenas para alimentar-se e respeitando a flora. Para atrapalhar os que não agem com boas intenções, o curupira tem muitas artimanhas. Pode assombrá-los com seus gritos agudos, açoitá-los, tornar-se invisível e aparecer em vários lugares, até fazer com que aqueles que tentam contra a vida na floresta percam o rumo.

A letra, também de Waldemar Henrique, narra as dificuldades de um caçador que teve a má sorte de encontrar o curupira no seu caminho. Este ser mitológico não pode ser atingido por armas, nem pela prece mais poderosa do cabôco, o Padre-Nosso. Sendo assim, só restou ao caçador o pedido do verso 18 – "Deixa o cabôclo passar". O uso dos versos junto à melodia é totalmente silábico e o texto possui uma mudança de foco narrativo no verso 13. Aqui, o narrador deixa de falar das suas dificuldades para si mesmo, como num desabafo, e passa a dirigir-se diretamente à entidade mágica que o persegue. Não temos palavras de uso regional (Fonte: Uma visão sobre a interpretação das canções amazônicas de Waldemar Henrique - Márcia Jorge Aliverti).

Curupira (canção, 1936) - Waldemar Henrique

Já andei três dias e três noites pelo mato
Sem parar
E no meu caminho não encontrei nenhuma
Caça pra matar
Só escuto pela frente pelo lado o Curupira
Me chamar
Ora aqui, ora ali, se escondendo sem
Parar num só lugar
Por esse danado muitas vezes me perdi
Na caminhada
E nem padre nosso me livrou desse
Danado da estrada
Curupira feiticeiro
Sai de trás do castanheiro
Pula pra frente
Defronta com a gente
Negrinho covarde matreiro
Deixa o caboclo passar

Coco peneruê

Coco peneruê (1934) - Waldemar Henrique

Olha'o coco peneruê
Olha'o coco peneruá

'Sta nega é o coco de stambiro biro biro
Sta nega é o coco do stambiro biro á

Olha'o coco peneruê
Olha'o coco peneruá
Olha'o coco peneruê
Sacode o coco e olha o coco peneruá

Roda volante puxa avante manivela
Meu mano carrega nela e bota o azeite
No mancá
Tenho uma faca, uma pistola, uma riuna
Quando o cabra se arripuna
Bole em baixo o tiro pá!!!

Olha'o coco peneruê
Olha'o coco peneruá
Olha'o coco peneruê
Sacode o coco e olha o coco peneruá

Coco peneruê
Coco penuruá

Boi-bumbá

Boi-bumbá (cateretê, 1934) - Waldemar Henrique - Interpretação de Gastão Formenti - Disco 78 rpm Victor, 1935 - Gênero musical: cateretê - Nº Álbum 33939 - Data de lançamento: 1935 - Lado B.



Ele não sabe que seu dia é hoje
Ele não sabe que seu dia é hoje
Ele não sabe que seu dia é hoje
Ele não sabe que seu dia é hoje

O céu forrado de veludo azul-marinho
Venho ver devagarinho
Onde o Boi ia dançar
Ele pediu pra não fazer muito ruído
Que o Santinho distraído
Foi dormir sem celebrar

E vem de longe o eco surdo do bumbá
Sambando
A noite inteira encurralado
Batucando
E vem de longe o eco surdo do bumbá
Sambando
A noite inteira encurralado
Batucando

Bumba meu Pai do Campo
Bumba meu boi bumbá

A Estrela Dalva lá no céu já vem surgindo
Para ouvir galo cantar
Na minha rua resta cinza da fogueira
Que passou a noite inteira
Fagulhando para o ar

E vem de longe o eco surdo do bumbá
Sambando
A noite inteira encurralado
Batucando

Bumba meu Pai do Campo
Bumba meu boi bumbá

Abaluaiê


Abaluaiê (ponto ritual, 1947) - Waldemar Henrique - Interpretação de Jorge Fernandes, acompanhado por orquestra - Disco 78 rpm Odeon, de 30/12/1949 - Gênero musical: Ponto ritual - Nº Álbum 12988 - Data lançamento: Março 1950 - Lado A.



Perdão Abaluaiê, perdão
Perdão a orixalá, perdão
Perdão a meu Deus do céu, perdão
Abaluaiê perdão


Ó rei do mundo
Perdão Abaluaiê
Ele veio do mar
Abaluaiê
Ele é forte, ele veio,
Abaluaiê
Salvar...(ritornelo)


A tô tô lu Abaluaiê
Cambône sala na muxila gôlô-ê
Cambône sala na muxila gôlô-ê