domingo, setembro 30, 2007

1º Festival Nacional da MPB

Elis Regina defendendo Arrastão1º Festival Nacional da MPB - TV Excelsior - 1965

"...Depois do sucesso das Noites de Bossa, das primeiras incursões na TV com o pessoal da Bossa Paulista e, na seqüência, juntando cantores e conjuntos de São Paulo e do Rio no memorável “Primavera Eduardo é Festival de Bossa Nova”, patrocinado pelas lojas de sapatos Eduardo, percebi que aquele novo elenco já estava preparado para vôos mais altos.

A música brasileira da época era dominada pelos bolerões de Anísio Silva, Altemar Dutra, sendo Nélson Gonçalves o representante do samba-canção. Começava a ser marcante a receptividade que tinham João Gilberto e a turma da bossa nova, com Vinícius e Baden lotando teatros e bares, emocionando uma nova geração de ouvintes. Estava na hora de uma incursão mais ousada, em que a televisão iria representar um papel fundamental.

As tentativas de Manoel Carlos, hoje autor de novelas de grande sucesso, de colocar um elenco de melhor qualidade no programa “Brasil 60” da TV Excelsior, apresentado por Bibi Ferreira nas noites de domingo, do qual Maneco era o produtor, havia me impressionado pela entusiástica resposta de um público classe A. Os Cariocas, Carlinhos Lyra, Dorival Caymmi, Nara Leão, Baden Powell, Elizete Cardoso, Tamba Trio, Sérgio Mendes e tantos novos artistas eram apresentados regularmente no “Brasil 60”. Um sopro de bom gosto e talento na nossa desde então pouco ousada programação.

Nessa mesma época, o mercado do disco era invadido anualmente pelos sucessos lançados no Festival de San Remo, em geral uma baboseira melosa, quase sempre com uma mesma proposta musical, que, com as honrosas exceções de um raro Sérgio Endrigo, ficava testando por meses e meses a nossa paciência. Achei que era o momento de criar um festival no Brasil. Pedi o regulamento de San Remo ao Enrique Lebendeguer, dono da editora musical Fermata, e o adaptei às nossas condições. O Festival de San Remo era, e ainda é totalmente controlado pelas editoras e gravadoras, sendo que a participação de qualquer música ou artista já vem com um vínculo determinado. Impossível para qualquer compositor independente penetrar naquele universo.

No Brasil, as gravadoras eram em geral ligadas às suas matrizes internacionais, que por sua vez direcionavam a política e a filosofia do que deveria ser gravado e tocado nas rádios. Na minha avaliação, eu não conseguiria fazer um trabalho isento se dependesse da indústria do disco, embora soubesse que, no caso de sucesso do festival, ela seria sua maior beneficiada, e afinal esse sucesso, mais para frente, dependeria do interesse dessa mesma indústria pelos artistas e músicas que eu iria lançar.

Resolvi que, para a minha independência e lisura do festival, não permitiria a participação de qualquer editora ou gravadora. Para que isso não parecesse demagógico, jamais admiti qualquer vínculo com alguma delas, a não ser para facilitar sua aproximação quando o artista que participava do festival manifestava ser do seu interesse. Minha estratégia era colocar no mercado uma porção de músicas, cantores, cantoras e conjuntos musicais, e as gravadoras que se servissem, de acordo com a sua agilidade e competência.

A Philips foi que primeiro e melhor soube capitalizar os sucessos dos festivais. André Midani, que já havia tido a importância de convencer a gravadora Odeon a lançar Chega de Saudade, o primeiro LP de João Gilberto, percebendo ser um ótimo caminho para a formação de seu elenco e o potencial promocional que aquele evento oferecia, escalou um jovem produtor paulista, Manoel Barembeim, para produzir os discos dos festivais.

A preparação do festival da Excelsior transcorria cheia de tensões. Ainda não haviamos conseguido patrocínio. As músicas inscritas eram ouvidas com atenção por um júri que não permitia interferências. Na casa do compositor Caetano Zama se revezava o maestro Damiano Cozzella, o poeta concretista Augustô de Carpos, o professor de semiótica e também concretista Décio Pignatri e Amilton Godoy, do Zimbo Trio, que tinha por missão executar as partituras ao piano.

Naquele ano ainda não eram aceitas inscrições com as músicas gravadas em fita. Eu não dava palpites na escolha. Uma verdadeira indústria da partitura foi acionada e pela caligrafia sabíamos a origem. A exigência da partitura serviu para limitar o número de inscrições, mas ainda assim era um trabalho que necessitava de toda a concentração dos jurados. Escolhi o Guarujá, a então cidade “chique” do litoral paulista para sede do primeiro festival. Imaginava que, durante a sua realização, a convivência dos concorrentes com a imprensa e a vida por alguns dias em uma localidade pequena, onde o assunto predominante fatalmente seria a música popular, serviriam de motivo para várias matérias nos jornais e revistas de todo o país e dariam ao festival uma dimensão que a distância e as dificuldades de acesso ao Guarujá somente iriam mitificar. Como acontecia com San Remo, ou mesmo Cannes, com seu festival de cinema.

Depois de muitos meses de angústia, finalmente um patrocinador: a Rhodia. Naqueles anos, na FENIT, a grande feira de produtos têxteis, as entradas para os shows apresentados no estande da Rodhia eram motivo de verdadeiras batalhas. Seu diretor de propaganda, Lívio Rangan, a cada ano preparava uma superprodução. Na seqüência, o espetáculo, que na verdade nada mais era do que um desfile de modas, percorria as principais cidades do Brasil, partindo em seguida para o exterior, cujas fotos e documentários com as top models da época serviriam para rechear a propaganda da empresa nas revistas brasileiras, além dos comerciais para a TV.

Lívio geralmente completava o elenco com o que era “moda” na música brasileira. Além de publicitário, era excelente produtor e exigente diretor, e podia sempre contar com somas vultosas para contratar os artistas que quisesse para promover seus produtos. Porém, seu gosto na produção dos trajes de seus espetáculos era discutível. Causavam-me até um certo mal-estar. Lívio viria a ser a minha salvação e o meu pesadelo.

Assumiu o patrocínio do festival com a condição de que as apresentações, além do Guarujá, fossem realizadas em São Paulo, Petrópolis e Rio, ocasiões em que aproveitaria para apresentar ao público local o “Show da Rhodia”, preparado para a próxima FENIT, que, exigiu, deveria anteceder as transmissões das músicas pela TV Excelsior. Embora contrariasse a minha idéia original e fora algumas previsíveis pequenas trombadas entre as equipes de produção, achei que sua exigência não iria atrapalhar, a não ser pelo cenário, concebido pelo Cyro Del Nero, para um desfile de modas, e não para um festival de música popular.

Ainda na preparação do festival, o primeiro problema surgiu na divulgação dos compositores classificados. Era evidente e inevitável que um grande número de medalhões tivesse ficado de fora. No Rio de Janeiro, contratado para fazer a divulgação do festival, trabalhava um velho jornalista, Nestor de Holanda. Foi justamente ele o porta-voz dos “desclassificados”. Lívio, preocupado com possíveis repercussões negativas, e diante de várias ameaças de jornalistas do Rio, fez veemente apelo à direção da Excelsior para que reconsiderássemos alguns casos. A pressão foi enorme. Exposto o problema aos jurados, algumas músicas foram ouvidas novamente e, com muita boa vontade, duas ou três, classificadas.

Mas o rolo compressor ainda estava por vir. A primeira eliminatória, com 12 músicas, seria no antigo cassino do Guarujá. A prefeitura, responsável pela cessão do local para a apresentação, distribuiu convites à vontade. A TV Excelsior colocou os seus à venda e a Rhodia foi generosa na distribuição da sua cota, e — surpresa — quase todos os convidados apareceram. Para fazer economia, elenco, orquestra e maestro chegaram para o ensaio geral no dia da apresentação. A equipe técnica já havia feito a sua parte. A cenografia, concebida para o desfile de modas, servia muito pouco para a televisão.

Depois de um tumultuado ensaio, em que os desfiles e o show da Rhodia que antecederiam festival tiveram prioridade, conseguimos passar as músicas. Em seguida reuni todo o elenco no Delfin Hotel para as últimas recomendações sobre maquiagem e guarda-roupa. A apresentação estava a cargo de Bibi Ferreira e Kalil Filho. Os jurados começavam a chegar. A transmissão seria ao vivo, ou seja, nada de atrasos. Hora de ir para o cassino. Quando fui me aproximando, pude ver que uma multidão circundava o antigo prédio estilo art deco. O maestro Sílvio Mazzuca, diretor musical do festival, veio ao meu encontro para meu espanto, confidenciou: “Não vai dar”. “Como não vai dar?”, perguntei. “O cassino já está completamente lotado e a polícia não deixa entrar mais ninguém.”

Pelas calçadas, no meio do público que tentava entrar, músicos, júri, cantores, jornalistas e convidados, ou seja, o festival estava do lado de fora. Tentamos nos aproximar da porta principal. Ninguém conseguia chegar. Aos berros, por uma janela lateral, falei com o administrador do Cassino. “Não posso fazer nada”, disse ele. “O engenheiro garante que a segurança do prédio já está comprometida e ele poderá desabar a qualquer momento.” Faltava pouco mais de uma hora para o início das transmissões. Sentei na calçada em frente ao cassino com os scripts. Ao lado, Bentinho, meu assistente, trazia todas as partituras em uma enorme pasta. Só nos restava ficar esperando o prédio cair.

Depois de alguns minutos e sem saber o que fazer, fui chamado às pressas: “Estamos conseguindo entrar por uma porta do outro lado do cassino”. Lá, a confusão também era enorme. Terminado o desfile, as modelos saíam, enquanto cantores, músicos, autoridades e jurados se espremiam na tentativa de entrar por uma minúscula porta guardada por alguns policiais comandados pelo diretor de atendimento da conta da Rhodia na Standard Propaganda, um baixinho que gritava histérico: “Ninguém mais entra! Ninguém mais entra!”. Alguém no seu ouvido indicava aqueles que faziam parte do espetáculo e cuja entrada deveria ser permitida.

Iam entrando um a um, e a porta era fechada para que verificassem quem era de fato importante o bastante para passar. As credenciais já não tinham nenhum valor. Quando tentava furar o bloqueio, alguém com um sotaque carregado me segredou: “Eu sou o presidente da Rhodia e gostaria que o senhor me ajudasse a entrar”. “Fique ao meu lado”, respondi, e coloquei-o entre mim e o Bentinho para protegê-lo. E fomos tentando nos aproximar da porta.

“Ele pode entrar. É o diretor”, salvou-me o cara que cochichava ao policial. O Bentinho também pôde passar. Quando o senhor presidente tentou se aproximar, o baixinho, cada vez mais intransigente e histérico, berrou: “Não pode entrar! Não pode!”, o que fez com que um dos policiais agarrasse o pobre senhor para enxotá-lo dali. “Este é o presidente da Rhodia”, cochichei ao baixinho. Ele parou, mudo, pálido. Tinha acabado de berrar com o seu todo-poderoso cliente sem se dar conta, e na seqüência, ao perceber a bobagem cometida e com a mesma histeria, correu atrás do policial que levava o obediente senhor pelo braço: “Ele tem que entrar! Ele tem que entrar. Pelo amor de Deus volte. Deixem esse homem passar, é o cliente. e o cliente”, suplicava quase chorando ao espantado policial, que não devia saber bem o significado e a importância da palavra cliente para um publicitário.

No salão o clima era de total confusão. Gente sentada pelo cenário. Alguns artistas conseguiram entrar pelas janelas e estavam espalhados no meio da multidão, que, inquieta, ensaiava as primeiras palmas de impaciência. Aos poucos todos foram chegando e com jeitinho, organizamos a transmissão, que ficou pronta trinta segundos antes da hora programada para entrar no ar. “Ao vivo” e.. em preto e branco.

As apresentações de São Paulo e Petrópolis, onde escolhemos - Hotel Quitandinha, transcorreram sem incidentes. A próxima etapa seria a final no Rio de Janeiro. Ao longo das eliminatórias, Livio foi tecendo sua teia ao redor do júri. Almoços aqui, presentinhos ali, e já contava com mais da metade dos jurados. Seu interesse estava em tornar vencedora a música que estava em seu show, e uma vitória no festival, sem dúvida, iria acrescentar mais um poderoso elemento promocional. O então diretor comercial da TV Excelsior, Clóvis Azzar, apoiava qualquer ação do representante do seu faturamento.

Elis não falava comigo. Estava ofendida pelo rompimento do nosso “noivado” e desconfiada que eu queria prejudicar uma das músicas que ela defendia, Por um amor maior, de Francis Hime e Ruy Guerra, sua preferida. A força de Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, era gritante, e eu tinha de tentar neutralizar o “lobby” montado pelo Lívio Rangan.

Não podendo contar com Elis, tentei uma jogada arriscada. Depois de passar horas esperando uma ligação telefônica para São Paulo, consegui localizar Walter Silva, que na época apresentava um programa de rádio de grande audiência, “O Picape do Pica-Pau”, e relatei o que estava acontecendo. Walter não economizou palavras e desancou o festival em seu programa, denunciando inclusive as pressões do Lívio sobre os compositores da velha guarda, classificadas como uma manobra no mínimo pouco ética.

Minutos antes do início da finalíssima, no teatro da TV Excelsior do Rio de Janeiro, o antigo Cine Astória, quando os jurados já estavam nos seus lugares e depois de me certificar da repercussão das denúncias do Walter Silva, me aproximei do Lívio e contei o que estava acontecendo em São Paulo.

Preocupado em ser envolvido publicamente em uma trama que fatalmente resultaria em escândalo, juntou o seu grupo de jurados e os liberou para que votassem de acordo com a sua preferência. Resultado: Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, primeiro lugar; Elis Regina, melhor intérprete..."

Fonte: Prepare seu Coração (A História dos Grandes Festivais) – Solano Ribeiro – Geração Editorial, 2002

quinta-feira, setembro 27, 2007

Festivais da MPB - Finalistas

Elis Regina interpretando "Arrastão" de Edu Lobo e Vinícius.

1º FESTIVAL NACIONAL DA MPBTV Excelsior (abril, 1965).

1º - Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, com Elis Regina.
2º - Valsa do Amor que Não Vem, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, com Elisete Cardoso.
3º - Eu só Queria Ser, de Vera Brasil e Miriam Ribeiro, com Claudete Soares.
4º - Queixa, de Sidney Miller, Zé Kéti e Paulo Tiago, com Ciro Monteiro.
5º - Rio do meu amor, de Billy Blanco, com Wilson Simonal.

2º FESTIVAL NACIONAL DA MPB
TV Excelsior (junho, 1966).

1º - Porta-estandarte, de Geraldo Vandré e Fernando Lona, com Tuca e Aírto Moreira.
2º - Inaê, de Vera Brasil e Maricene Costa, com Nilson.
3º - Chora Céu, de Adilson Godoy e Luiz Roberto, com Cláudia.
4º - Cidade Vazia, de Baden Powell e Lula Freire, com Milton Nascimento.
5º - Boa Palavra, de Caetano Veloso, com Maria Odete.

1° FESTIVAL DA MPBTV Record (novembro-dezembro, 1960)

1º - O Pescador, de Newton Mendonça.

2º FESTIVAL DA MPB
TV Record (setembro-outubro, 1966)

1º - A banda, de Chico Buarque, com Chico Buarque e Nara Leão; Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, com Jair Rodrigues e Quarteto Novo.
2º - De amor ou paz, de Adauto Santos e Luiz Carlos Paraná, com Elza Soares.
3º - Canção para Maria, de Paulinho da Viola e Capinan, com Jair Rodrigues.
4º - Canção de Não Cantar, de Sérgio Bittencourt, com MPB-4.
5° - Ensaio Geral, de Gilberto Gil, com Elis Regina.

3º FESTIVAL DA MPB
TV Record (outubro, 1967)

1º - Ponteio, de Edu Lobo e Capinan, com Edu Lobo e Marília Medalha, Quarteto Novo e Momento Quatro.
2º - Domingo no parque, de Gilberto Gil, com Gilberto Gil e Os Mutantes.
3º - Roda viva, de Chico Buarque, com Chico Buarque e MPB-4.
4º - Alegria, alegria, de Caetano Veloso, com Caetano Veloso e Beat Boys.
5º - Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná, com Roberto Carlos.

4° FESTIVAL DA MPB
TV Record (novembro-dezembro, 1968)

1º - São São Paulo, Meu Amor, de Tom Zé, com Tom Zé.
2° - Memórias de Marta Sare, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, com Edu Lobo e Marília Medalha.
3º - Divino maravilhoso, de Gilberto Gil e Caetano Veloso, com Gal Costa.
4° - Dois Mil e Um, de Rita Lee e Tom Zé.
5º - Dia da Graça, de Sérgio Ricardo, com Sérgio Ricardo e Modern Tropical Quintet.

5° FESTIVAL DA MPBTV Record (novembro, 1969)

1º - Sinal fechado, de Paulinho da Viola, com Paulinho da Viola.
2º - Clarisse, de Eneida e João Magalhães, com Agnaldo Rayol.
3º - Comunicação, de Hélio Matheus e Edson Alencar, com Vanusa.
4º - Gostei de Ver, de Eduardo Gudin e Marco Antônio da Silva Ramos, com Márcia e Os Originais do Samba.
5º - Monjolo, de Dina Galvão Bueno e Eric Nepomuceno, com Maria Odete.

BIENAL DO SAMBA
TV Record (maio, 1968)

1º - Lapinha, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, com Elis Regina.
2º - Bom tempo, de Chico Buarque, com Chico Buarque e MPB-4.
3º - Pressentimento, de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, com Elza Soares.

I FIC - FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO(outubro, 1966)

1º - Saveiros, de Dori Caymmi e Nelson Mota, com Nana Caymmi.
2º - O Cavaleiro, de Tuca e Geraldo Vandré, com Tuca.
3º - Dia das Rosas, de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo, com Maysa.

II FIC - FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO
(setembro, 1967)

1º - Apareceu a Margarida, de Gutemberg Guarabira, com Gutemberg Guarabira e Grupo Manifesto.
2º - Travessia, de Milton Nascimento e Fernando Brant, com Milton Nascimento.
3º - Carolina, de Chico Buarque, com Cynara e Cybele.
4º - Fuga e Antifuga, de Edino Krieger e Vinícius de Moraes, com Conjunto 004 e As Meninas.
5º - São os do Norte que Vêm, de Capiba e Ariano Suassuna com Claudionor e Germano.

III FIC - FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO
(setembro, 1968)

1º - Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, com Quarteto em Cy.
2º - Prá não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, com Geraldo Vandré.
3º - Andança, de Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós, com Beth Carvalho e Golden Boys.
4º - Passacalha, de Edino Krieger, com Grupo 004.
5º - Dia da Vitória, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, com Marcos Valle.


IV FIC - FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO(setembro, 1969)

1º - Cantiga por Luciana, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, com Evinha.
2º - Juliana, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, com A Brazuca.
3º - Visão Geral, de César Costa Filho, Ruy Maurity e Ronald Monteiro, com César Costa Filho e Grupo 004.
4º - Razão de Paz para não Cantar, de R. Laje e Aléssio Barros com Cláudia.
5º - Minha Marisa, de Fred Falcão Medeiros, com Golden Boys.

V FIC - FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO(1970)

1º - BR-3, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, com Tony Tornado.
2º - O amor é o meu país, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro com Ivan Lins.
3º - Encouraçado, de Sueli Costa e Tite Lemos.
4º - Um abraço terno em você, viu mãe, de Gonzaguinha, com Luiz Gonzaga Júnior.
5° - Abolição 1860/1960, de Dom Salvador e Arnaldo Medeiros com Luiz Antônio e Maria.

VI FIC - FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO(1971)

1º - Kyrie, de Paulinho Soares e Marcelo Silva, com Evinha.
2º - Karany Karanauê, de José de Assis e Diana Camargo, com Trio Ternura.
3º - Desacato, de Antônio Carlos e Jocafi, com Antônio Carlos e Jocafi.
4º - Canção pra Senhora, de Sérgio Bittencourt, com O Grupo.
5º - João Amém, de W. Oliveira e Sérgio Mateus, com Sérgio Mateus.

VII FIC - FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO
(1972)

1º - Fio Maravilha, de Jorge Ben, com Maria Alcina.
2º - Diálogo, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, com Cláudia Regina e Tobias.

FESTIVAL 79
TV Tupi (1979)

1º - Quem me levará sou eu, de Fagner e Dominguinhos, com Fagner.
2º - Canalha, de Walter Franco, com Walter Franco.
3º - Bandolins, de Oswaldo Montenegro, com Oswaldo Montenegro e José Alexandre.

FESTIVAL DOS FESTIVAISTV Globo (1985)

1º - Escrito nas estrelas, de Carlos Rennó e Arnaldo Black, com Tetê Espíndola.
2º- Mira Ira, de Lula Barbosa e Vanderley de Castro, com Lula Barbosa, Mina Myrá, Grupo Tarancón e Placa Luminosa.
3°- Verde, de Eduardo Codin e José Carlos Costa Nesto; com Leila Pinheiro.

FESTIVAL DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
TV Globo (2000)

1º - Tudo bem, Meu bem, de Ricardo Soares, com Ricardo Soares.
2º - Morte no Escadão, de José Carlos Guerreiro, com Tianastácia.
3º - Tempo das Águas, de Valmir Ribeiro, com Bilora.
Melhor intérprete — Ná Ozzetti, que interpretou Show, de Luiz Tatit e Fábio Tagliaferri.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Se for pra medir saudade

Se for pra medir saudade - Luiz Carlos Paraná

Se for pra medir saudade, eu ganho
Pois nunca se viu saudade
Deste tamanho

Não ponha sua saudade perto da minha
Pois ela não é nenhuma saudadezinha
Nem venha você querendo
Livrar-me dela
Pois eu já não saberia
Viver sem ela
Saudade é um privilégio de quem conhece
Aquela felicidade que não se esquece
Embora já muitas vezes tenha chorado
Não sou dos que se arrependem de ter amado

De amor ou paz

L. C. Paraná
De amor ou paz - Luiz Carlos Paraná e Adauto Santos
   Cm      G7        Cm
Já que se tem que sofrer
C7        Fm  Am
Seja dor só de amor
D7
Já que se tem de morrer
Dm5-/7    G7
Seja mais por amor
Cm            D7
Quem anda atrás de amor e paz
Fm
Não anda bem
Bb7
Porque na vida o que tem paz
D#
Amor não tem
Cm              Cm/Bb
Seja o que for, sou mais do amor
Dm5-/7 Fm
Com paz ou sem
Dm5-/7          G7
Sei que é demais querer-se paz
Cm
E amor também

Vou sempre amar
C7            Fm
Não vou levar a vida em vão
Bb7          D#
Não hei de ver envelhecer meu coração
G#                     Dm5-/7
Vou sempre ter em vez de paz inquietação
G7
Houvesse paz
Cm
Não haveria esta canção

Canoa vazia

Canoa vazia - Luiz Carlos Paraná

Rio acima, canoa subiu
Rio abaixo, canoa desceu
Rio acima subiu com seu dono
Desceu no abandono e desapareceu

Zé do Fole tocava sanfona
Seu moço, s'a dona que nem ele só
Té que um dia gamou por Maria
Chorou noite e dia que inté dava dó
Ele que era no fole um colosso
Seu moço, s'a dona, nunca mais tocou
Deu um dia um adeus à Maria
A canoa vazia, rodando voltou

Rio acima, canoa subiu
Rio abaixo, canoa desceu
Rio acima subiu com seu dono
Desceu no abandono e desapareceu

Eu também pelo rio da vida
Fui duro na lida, fui bom pescador
Mais um peixe eu tentei, foi à toa
Botar na canoa, chamava-se amor
Toda vez que eu pensei ter fisgado
Meu peixe danado, o marvado fugiu
Vivo então água abaixo hoje em dia
A canoa vazia, à vontade do rio

Rio acima, canoa subiu
Rio abaixo, canoa desceu
Rio acima subiu com seu dono
Desceu no abandono e desapareceu

Maria, carnaval e cinzas



Maria, carnaval e cinzas (1967) - Luiz Carlos Paraná
E7/9-   Am 
Nasceu Maria, quando a folia 
                          E7 
Perdia a noite, ganhava o dia 
      Dm            E7 
Foi fantasia seu enxoval 
                    Am 
Nasceu Maria no carnaval 
              Dm     G7         C 
E não lhe chamaram assim como tantas 
          Bm5-/7 
Marias de santas 
  E7      Em5-/7 
Marias de flor 
A7      Dm     G7     C 
Seria Maria, Maria somente 
        Bm5-/7     E7      Am 
Maria semente de samba de amor 
          Dm       G7  C 
Não era noite não era dia 
        Dm   G7      C 
Só madrugada só fantasia 
         Bm5-/7 E7   Am 
Só morro samba viva Maria 
           F#m5-/7 B7     Bm5-/7 
Quem sabe a sorte lhe sorriria 
      E7   Dm      G7        C 
E um dia viria de porta-estandarte 
            Bm5-/7    E7   Em5-/7 
Sambando com arte puxando cordões 
       A7    Dm     G7       C 
E em plena folia decerto estaria 
             E7              Am 
Nos olhos e sonhos de mil foliões 
        Am 
Morreu Maria, quando a folia 
                        E7/9- E7 
Na quarta-feira também morria 
          Bm5-/7        E7 
E foi de cinzas seu enxoval 
                   Am 
Viveu apenas um carnaval 
            Dm      G7         C 
Que fosse chamada então como tantas 
           Bm5-/7 
Marias de santas 
  E7      Em5-/7 
Marias de flor 
   A7         Dm     G7     C 
E em vez de Maria, Maria somente 
        Bm5-/7    E7        Am 
Maria semente de samba e de dor 
          Dm      G7   C 
Não era noite não era dia 
          Dm    G7     C 
Somente restos de fantasia 
         Bm5-/7  E7   Am 
Somente cinzas pobre Maria 
         F#m5-/7 B7 Bm5-/7 
Jamais a vida lhe sorriria 
    E7    Dm       G7        C 
E nunca viria de porta-estandarte 
             Bm5-/7 E7       Em5-/7 
Sambando com arte puxando o cordão 
 A7       Dm      G7      C 
E não estaria em plena folia 
              E7             Am 
Nos olhos e sonhos de seus foliões 
         Dm 
E não estaria 
G7         C 
Em plena folia 
F7            E7 
Nos olhos e sonhos 
           Am 
De seus foliões 

Luiz Carlos Paraná

Luiz Carlos Paraná, compositor e cantor, nasceu em Ribeirão Claro PR (15/3/1932) e faleceu em São Paulo SP (03/12/1970). Lavrador até os 19 anos e depois comerciário, aprendeu sozinho a tocar violão. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde morou em pensão em que João Gilberto era seu companheiro de quarto.

Durante a década de 1950 tocava de mesa em mesa nas boates cariocas, recolhendo a féria. Transferindo-se para São Paulo, com a ajuda de amigos, abriu a boate Jogral, a princípio apenas um barzinho de encontro de amigos, onde ele mesmo cantava modas-de-viola e desafios com Paulo Vanzolini.

Como compositor tornou-se mais conhecido ao participar do II FMPB da TV Record, de São Paulo, em 1966, com a música De amor e paz (com Adauto Santos), que, interpretada por Elza Soares, obteve o segundo lugar. No ano seguinte, como cantor, gravou um compacto simples na Fermata, com duas músicas de Paulo Vanzolini, Capoeira do Arnaldo e Napoleão.

No mesmo ano, inscreveu Maria, carnaval e cinzas no III FMPB, que foi defendida por Roberto Carlos e gravada pelo cantor na CBS e por ele próprio na Philips, no LP III Festival de MPB. Na Continental, gravou o Samba do suicídio (Paulo Vanzolini), incluído no LP I Bienal do Samba.

Em 1968 a boate Jogral, até então na Galeria Metrópole, foi transferida para a Rua Avanhandava, onde continuou fazendo carreira na noite, iniciando em São Paulo a moda das casas de samba. Entre outras gravações suas estão, na Mocambo, Canoa vazia e Se for pra medir saudade (de sua autoria).

Realizou ainda a montagem do show musical Jogral 69 ou Os Homens verdes da noite, na sala de arte do T.B.C., de São Paulo. Sua última atividade artística de destaque foi a produção do LP Jogral 70, da RGE.

Algumas cifras e letras

Cafezal em flor
Canoa vazia
Capoeira do Arnaldo
De amor ou paz
Maria, carnaval e cinzas
Se for pra medir saudade

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Eu não sou cachorro não



Waldick Soriano
Eu não sou cachorro não (bolero, 1972) - Waldick Soriano

A 
 Eu não sou cachorro não 
                     E7           
 Pra viver tão humilhado 
 Eu não sou cachorro não 
                     A 
 Para ser tão desprezado 
 Tu não sabes compreender 
         A7             D 
 Quem te ama, quem te adora 
                    A 
 Tu só sabes maltratar-me 
       E7             A 
 E por isso eu vou embora 
                  E7 
 A pior coisa do mundo 
                   A 
 É amar sendo enganado 
                           E7 
 Quem despreza um grande amor 
                   D 
 Não merece ser feliz 
                     A 
 Nem tão pouco ser amado 
 Tu devias compreender 
         A7           D 
 Que por ti tenho paixão 
              A 
 Pelo nosso amor 
               E7 
 Pelo amor de Deus                       
 Eu não sou 
           A  50 52 54 D 
 Cachorro não 
              A 
 Pelo nosso amor 
               E7  
 Pelo amor de Deus 
                      A 
 Eu não sou cachorro não 
 
  Solo: A A7 D A E7 A 
 
 A                E7 
 A pior coisa do mundo 
                   A 
 É amar sendo enganado 
                           E7 
 Quem despreza um grande amor 
                   D 
 Não merece ser feliz 
                     A 
 Nem tão pouco ser amado 
 Tu devias compreender 
         A7           D 
 Que por ti tenho paixão 
              A 
 Pelo nosso amor 
               E7 
 Pelo amor de Deus 
 Eu não sou  
           A  50 52 54 D 
 Cachorro não 
              A 
 Pelo nosso amor 
               E7 
 Pelo amor de Deus 
                      A 
 Eu não sou cachorro não. 
 
 

Tortura de amor

Waldick Soriano
Tortura de amor - Waldick Soriano

G                     Em
Hoje que a noite está calma
           Am                 D
E que minh’alma esperava por ti
G             Em
Apareceste afinal
       Am                     D
Torturando este ser que te adora
    Bm Em             Am
Volta      fica comigo
              D
Só mais uma noite
G                 Em
Quero viver junto a ti
C          D
Volta meu amor
        G             Em
Fica comigo não me desprezes
            Am
A noite é nossa
           D             Bm E7
E o meu amor pertence a ti
Am            D   
Hoje eu quero paz
          G              Em
Quero ternura em nossas vidas
         Am            D
Quero viver por toda vida
            G
Pensando em ti

Waldick Soriano

Waldick Soriano (Eurípides Waldick Soriano), cantor / compositor, nasceu em Caetité BA em 13/5/1933. Até os 25 anos trabalhava na roça, foi peão, motorista de caminhão e garimpeiro. Em 1959 tentou a carreira artística em São Paulo SP, procurando sem êxito um lugar nas rádios Record e Piratini.

Na Rádio Nacional foi apresentado pelo diretor artístico Hélio Araújo ao diretor da Chantecler, sendo contratado para gravar Quem és tu? (de sua autoria). Começou a aparecer, marcando o estilo com uma mistura de Bienvenido Granda, Anísio Silva, Nelson Gonçalves e Vicente Celestino, vestindo-se de preto com óculos escuros, numa cópia de seu ídolo cinematográfico, Durango Kid. 

Com um repertório de músicas do estilo denominado dor-de-cotovelo, gravou em 1960 pela Chantecier o LP Quem és tu?, seguindo-se em 1961 Waldick Soriano, destacando-se neste uma de suas composições preferidas: Tortura de amor

Em 1962 gravou o LP Cantor apaixonado, destacando-se Se eu morresse amanhã (de sua autoria). No LP seguinte, O elegante Waldick Soriano, de 1964, destacavam-se A carta (Júlio Louzada e Jorge Gonçalves) e Eu vou ao casamento dela (com Chacrinha). No ano seguinte, o LP Como você mudou pra mim incluía Mundo cruel (com Teddy Vieira). 

Em 1967, gravou pela Copacabana Waldick sempre Waldick, destacando-se Minha última noite (com Roberto Stanganefli), e o LP Boleros para ouvir, amar e sonhar, incluindo Meu coração está de luto (com Antoninho dos Santos). O LP Waldick, de 1968, na Continental, trazia Me deixa em paz (de sua autoria), gravando em 1970, na mesma fábrica, No coração do povo, que incluía a sua Carta de amor. Dois anos depois, saem pela RCA seus LPs Eu também sou gente e Ele também precisa de carinho, incluindo seu grande sucesso Eu não sou cachorro não

Em 1974 gravou na RCA o LP Segue o teu caminho. Suas músicas de maior sucesso são os boleros Paixão de um homem e Eu não sou cachorro não, que o tornaram conhecido no Rio de Janeiro e em São Paulo. Sucesso constante no Norte e Nordeste do país, onde se apresenta em shows, atuou também nos filmes Paixão de um homem, dirigido por Egídio Eccio, 1972, e O poderoso garanhão, dirigido por Antônio B. Thomé, 1973. 

Tem 83 discos gravados, com destaque para Waldick Soriano interpreta Bienvenido Granda, Rosas perfumadas para alguém e Waldick Soriano e seus amigos (1998, Indie Records).

CD:

Waldick Soriano, 1997, Inde Records 71332. 

O pensamento de Waldick Soriano:

“A elite está carente. Ela sente a falta das músicas do tempo em que se dançava bem, da música romântica, que é imortal. Hoje, não existe mais um Altemar Dutra, um Nelson Gonçalves”.

“Meus shows sempre acabam em baile, porque o povo se lembra de quando namorado dançava com namorada, e amante com amante”.

“Não entendo por que rotulam a música romântica de brega. Essa nova geração nem sabe o que é isso! Brega é cabaré, é aquele lugar popular onde o homem vai procurar uma mulher”.

“O compositor é como o escritor: tem que ter motivo para sentar e escrever. Faço músicas, não musiquetas”.

“Tenho muitos imitadores. Todo mundo canta à la Waldick Soriano”.

“Muita gente pergunta se não vou envelhecer. O fato é que não tenho tempo para envelhecer”.

Pérolas musicais:

“Quem despreza um grande amor / Não merece ser feliz” (de Eu não sou Cachorro não).

“Tu não sabes compreender / Quem te ama, quem te adora / Tu só sabes maltratar-me / E é por isso que eu vou embora” (de Eu não sou Cachorro não).

“Apareceste afinal / Torturando este ser que te adora” (de Tortura de Amor).

“Fujo de ti porque o ciúme / É o meu fracasso / Tu me deixaste por um alguém / Que não te ama” (de Fujo de Ti).

domingo, setembro 09, 2007

Violão

P. C. Pinheiro
Violão - Sueli Costa e Paulo César Pinheiro

Um dia eu vi numa estrada
um arvoredo caído
Não era um tronco qualquer.
Era madeira de pinho
e um artesão esculpia
o corpo de uma mulher
Depois eu vi
pela noite
o artesão nos caminhos
colhendo raios de Lua
Fazia cordas de prata
que, se esticadas, vibravam
o corpo da mulher nua
E o artesão, finalmente,
nesta mulher de madeira,
botou o seu coração
e lhe apertou contra o peito
e deu-lhe nome bonito
e assim nasceu o violão.

Veneno

P. C. Pinheiro
Veneno - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro
A6
Mas o que me faz chorar
Bm7               E7     A6
É esse fel que você vive a destilar
Bm7             E7     A6 A7
É essa a paga cruel que você me dá
D             E7          A6
Só o melhor meu coração te ofereceu
C#7                F#m
Você cuspiu no prato que comeu
A6
E o mal que isso me faz
Bm7           E7    A6
Não esperava isso de você jamais
Bm7                  E7    A6 A7
Eu não sabia que você podia ser capaz
D            E7       A6
De alguém pedir a mão e receber
C#7                 F#m F#m/E
Depois vingar em vez de devolver
D#m5-/7         G#7             C#m7
Dei o manto pra quem vai me desnudar
C#m5-/7          F#7            Bm7
E em meu canto abriguei quem vai me expulsar
Dm7      E7   A6 F#m7
Eu te dei de beber
B7/9      E7               A6
No mesmo copo você vai me envenenar

Velho casarão

P. C. Pinheiro
Velho casarão - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Velho casarão meu quarto antigo
Meu porão meu velho abrigo
Mora a solidão comigo
E lá no jardim na cama verde
Do capim a nossa sede
De meninos descobrindo o amor
Os doze anos dos dois pelo chão
E os nossos planos casarmos depois
Era bonito...
Mas um dia ele não voltou
Esperei um mês ou mais
Pela primeira vez fui poeta
E hoje o casarão é onde eu moro
E o porão é onde eu choro
Minhas mágoas mais sentidas
E lá no jardim na mesma cama
Do capim o mesmo drama de menino
Que não passa nunca mais
Nunca mais...

Velhice da porta-bandeira

P. C. Pinheiro
Velhice da porta-bandeira - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Ela renunciou
A Mangueira saiu, ela ficou
Era porta-bandeira
Desde a primeira vez
Por que terá sido isso que ela fez?

Não, ninguém saberá
Ela se demitiu, outra virá
Ninguém a viu chorando
Coisa tão singular
Quando a bandeira tremeu no ar

Ô... quando toda avenida sambou
O seu mundo desmoronou
Ela se emocionou
Perto dela ela ouviu, alguém gritou:
"Viva a porta-bandeira",
"Sou eu", ela pensou
Mas foi a outra quem se curvou
Ô... quando toda avenida sambou
O seu mundo desmoronou
Ô... quando a porta-bandeira passou
Quem viu
Ela se levantou e aplaudiu

Um ser de luz

P. C. Pinheiro
Um ser de luz - João Nogueira, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro

Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar
Sua voz então
Ao se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava
Espantava a dor
Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas
A gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de Vê-la, sabiá

Sabiá
Que falta faz tua alegria
Sem você, meu canto agora é só
Melancolia
Canta, meu sabiá, voa, meu sabiá
Adeus, meu sabiá, até um dia

Submerso

P. C. Pinheiro
Submerso - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

Casa assobradada
Na rua da praia
Pé de samambaia
No portão de entrada

Tinha uma menina
Que em noite de lua
Se banhava nua
N'água cristalina

Ela pulava das pedras
Secava no vento
Deitava ao luar
Sabia que eu vinha olhar

Um dia ouvi seu chamado
Quando ela saía
Das ondas do mar
Fez-me na areia deitar
Fui me deixando levar

Mas a maré do seu ventre
Eu senti me puxar
Nadava contra a corrente
Pra não me afogar
Mas vi meu corpo afundar

Hoje submerso encantado
Não quero voltar
Não quero ser resgatado
Do fundo do mar

Solidão

P. C. Pinheiro
Solidão - Paulo César Pinheiro

Eu sozinho sou mais forte
Minh'alma mais atrevida
Não fujo nunca da vida
Nem tenho medo da morte

Eu sozinho de verdade
Encontro em mim minha essência
Não faço caso de ausência
E nem me incomoda a saudade

Eu sozinho em estado bruto
Sou força que principia
Sou gerador de energia
De mim mesmo absoluto

Eu sozinho sou imenso
Não meço nunca o meu passo
Não penso nunca o que faço
E faço tudo o que penso

Eu sozinho sou a Esfinge
Pousado no meio do deserto
Que finge que sabe o que é certo
E sabe que é certo que finge

Eu sozinho sou sereno
E diante da imensidão
De toda essa solidão
O mundo fica pequeno

Eu sozinho em meu caminho
Sou eu, sou todos, sou tudo
E isso sem ter contudo
Jamais ficado sozinho

Sincretismo

P. C. Pinheiro
Sincretismo - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

O negro religioso
Dentro de casa tem seu gongá
Porém desde o cativeiro
Mudou de nome seu Orixá
E assim Dona Janaína
É Nossa Senhora da Conceição,
Oxum é a das Candeias,
Oxossi é São Sebastião

Saravá
Meu santo,
Amém.

São Roque é Obaluaiê
Como Santa Bárbara é Iansã,
São Lázaro é Omolu,
São Jorge é Ogum, Santana é Nana
E assim São Bartolomeu é Oxumaré,
São Pedro é Xangô,
Obá é Joana D’Arc
E Pai Oxalá é Nosso Senhor

Saravá
Meu santo,
Amém.

sábado, setembro 08, 2007

Saudades da Guanabara

P. C. Pinheiro
Saudades da Guanabara - Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro

Eu sei
Que o meu peito é lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão (eu sei...)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (...e então)
Armei
Pic-nic na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade
Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar
Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (...e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro

Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

Saruê

P. C. Pinheiro
Saruê - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

‘Nhô tem gana no gongolô da Ialê,
E na mucufa quer capiangar atrás do bangüê.
‘Nhora tem fogo de adô no Alabê
e rola com nêgo-Angola no solo de massapé.
‘Nhora faz tudo que ‘Nhô não quer fazer,
Que nem a sacuê,
Que nem faz com a Ialê, ‘Nhô.
‘Nhora partiu pra N’gô,
‘Nhô no mesmo caminho.
A Gêge ficou com ‘Nhô
Com ‘Nhora seu Angolinho
‘Nhô quis tanto que embarrigou a Ialê
E na senzala um muana pulou no chão de sapê.
‘Nhora quis tanto que embuchou do Alabê,
Na cama da Casa-Grande pulou mais um benguelê.
‘Nhora pôs no colo de ‘Nhô seu saruê,
Que nem com seu erê
Também fez a Ialê com ‘Nhô.
Nasceu filho de ‘Nhô,
‘Nhora pariu juntinho.
De ‘Nhora quase alourou,
De ‘Nhô veio carapinho

Santo dia

P. C. Pinheiro
Santo dia - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

A vida é só magia
Quem foi feliz sabia
Viver é preparar
A paz de todo santo dia
Uma canção me guia
Minha emoção vigia
É a minha direção
É o instinto do meu coração...
Ninguém nasceu
Pra lamentar
Na sua meta
Deus fez o poeta
Pra gente poder sonhar
Um verso é bom pra consolar
E um samba triste
Também só existe
Meu bem, pra ninguém chorar

Samba de roda na beira do mar

P. C. Pinheiro
Samba de roda na beira do mar - Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Dora-iê-iê-ô
Ogunhê
Okê-arô
Eh! Alodê
Kabiecilê
Arrobobô

De dia não tem maré-cheia
Na praia tem barco na areia
A roda do sol vai girar
De noite é que a espuma prateia
Que o aro da lua encandeia
Que a lua também quer rodar

Gira a folha da samambaia
Trançando por cima da saia
Que a moça botou pra dançar
Tem palma na beira da praia
Do povo que vem rodear

Festa de rua na areia do chão
Roda de verso que vem pelo ar
Toque de samba na palma do mar
Samba de roda na beira do mar
Janaína, Inaê, Odoyá

Sagarana

P. C. Pinheiro
Sagarana - João de Aquino e Paulo César Pinheiro
(C Bb C Bb)
A ver, no em-sido
Pelos campos-claro: estórias
Se deu passado esse caso
Vivência é memória
Nos Gerais
A honra é-que-é-que se apraz
Cada quão
Sabia sua distinção
Vai que foi sobre
Esse era-uma-vez, 'sas passagens
Em beira-riacho
Morava o casal: personagens
Personagens, personagens
A mulher
Tinha o morenês que se quer
Verdeolhar
Dos verdes do verde invejar

F
Dentro lá deles
G           C    Bb
Diz-que existia outro gerais
(C Bb C Bb)
Quem o qual, dono seu
Esse era erroso, no à-ponto-de ser feliz demais
Am                Dm     Am
Ao que a vida, no bem e no mal dividida
F7         G4      G#7  G7
Um dia ela dá o que faltou... ô, ô, ô...

(C Bb C Bb)
É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana...
(C Bb C Bb)
A pois que houve
No tempo das luas bonitas
Um moço êveio:
- Viola enfeitada de fitas
Vinha atrás
De uns dias para descanso e paz

Galardão:

- Mississo-redó: Falanfão
No-que: "-se abanque..."
Que ele deu nos óio o verdêjo
Foi se afogando
Pensou que foi mar, foi desejo...
Era ardor
Doidava de verde o verdor
E o rapaz quis logo querer os gerais
F
E a dona deles:
G         C  Bb
"-Que sim", que ela disse verdeal
(C Bb C Bb)
Quem o qual, dono seu

Vendo as olhâncias, no avôo virou bicho-animal:
Am
- Cresceu nas facas:
Dm            Am
- O moço ficou sem ser macho
F7      G6     G#7 G7
E a moça ser verde ficou... ô, ô, ô...
(C Bb C Bb)
É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana...
Bb               C
Quem quiser que cante outra
Bb        C
Mas à-moda dos gerais
Bb            C
Buriti: rei das veredas
D           C
Guimarães: buritizais!

Rio, samba, amor e tradição

P. C. Pinheiro
Rio, samba, amor e tradição - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Rio de Janeiro
Salve São Sebastião
Santo padroeiro
Samba, amor e tradição

Esquece a tristeza que é hora do Rio cantar
Com tanta beleza
A gente não pode chorar
É na passarela
E na Cinelândia
A Tribuna Popular
Quer da Vista Chinesa
Ver a natureza te descortinar
Quero outra vez meu time
Fazendo esse meu Maracanã vibrar

Copacabana é prisioneira a vida inteira
A capital do samba ainda é Madureira
Em Paquetá tem flores
Ilha dos meus amores
Que lembra o amor do Imperador pela Marquesa
Ai, como é linda a criança
Entrando na dança desse carnaval
Rio do mar de Ipanema
A Lapa boêmia
Malandro tem que respeitar
Rio, vem cantar de novo
Sorria meu povo
Que o Cristo Redentor quer te abraçar
Hoje a minha escola
Veio desfilar
Pra mostrar que o samba
Não pode parar

Oh!linda morena
Quero ver passar
Num doce balanço
Caminho do mar
Ê Ê, o mar
Ê Ê, o mar
Ê Ê, o mar
Ê Ê, o mar

Rendas de prata

P. C. Pinheiro
Rendas de prata - Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Deu meia-noite e meia
Tem lua cheia pra alumiar
Do céu a estrela branca
Que cai, destranca
O portão do mar

Deixa a camisa fina
Da lamparina
Se encandiar
Que a luz do candeeiro
Faz o coqueiro
Se enfeitiçar

A onda é de ensurdecer
A brisa é de amenizar
Tem qualquer coisa de arrepiar

A lua é de endoidecer
O azul é de admirar
O céu é o espelho de Iemanjá

Em noite assim
As sereias costumam bordar
Rendas de prata
De estrelas caídas no mar
No manto de Janaína

Recado ao poeta

P. C. Pinheiro
Recado ao poeta - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Vai, por que a tua missão é de paz
Ser poeta é difícil demais
Pra que querer quer um coração norma
Um dia vá te compreender
Olha só como a lua parece chamar
E essa rua, esse amigo, esse bar
E eu peço à Deus que nada mude mais
Não faz dos teus os teus rivais
E se couber explicação real
É que o poeta é o coração geral
Por isso fique aqui
Onde teu samba está
Que toda a cidade quer cantar

Rainha do mar

P. C. Pinheiro
Rainha do mar - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

João foi quem contou
Quando afundou no mar
Diz-que ele endoideceu
Com o que ele viu por lá
Um reino sob o mar
Palácio de coral
De conchas era o chão
O trono era de sal

No inclinado convés
De um antigo galeão
Viu sereias em coro
Entoando uma canção
Tinham peixes de luz
Imitando castiçais
E cardumes de cor
Se mexiam nos vitrais

Quando um cortejo ali chegou
De cavalo-marinho a puxar
Da carruagem-mãe surgiu
O vulto da rainha do mar
João se extasiou
Não quis acreditar
O olho esbugalhou
Na luz daquele olhar
A moça então ergueu
O pescador do chão
O sal do mar brotou
Dos olhos de João

Ele aí se curvou
E beijou a sua mão
A mãe d'água o afagou
Junto do seu coração
O cortejo formou
Pra rainha então passar
Ela e seu pescador
Rumo ao claro do luar

João só se lembra que acordou
Sentindo o corpo se arrepiar
De longe o vulto lhe acenou
Sumindo dentro d'água do mar

Quitanda das Iaôs

P. C. Pinheiro
Quitanda das Iaôs - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Na Quitanda das Iaôs
O que é que tem pra comer?
Diz que eu quero ver,
Tem moqueca, pirão, xinxim,
Feijão de amendoim,
Côco, mel, dendê.
Tem farova, feijão fradim,
Camarão seco, aipim.

Desde manhã
Na canjerê,
É Iyá-Bassê
Que tudo faz
Pras abians,
Erês e Ogãs,
E os Orixás.

Tem cocada, cuscus, quindim,
Passoca, broa e manjar,
Bolo e mungunzá.
Tem pudim, manauê, beiju,
Pé-de-moleque, acaçá
Bala-de-puxar
Tapioca, axoxô, conquém,
Tem abará e aberém

Desde manhã
No canjerê,
É Iyá-Bassê
Que tudo faz
Pras abians,
Erês e Ogãs,
E os Orixás.

Tem pipoca e omolucum,
Acarajé, vatapá,
Caruru, cará.
Tem pernil, mocotó, tutu,
Sarapatel e fubá,
Tem arroz-de-hauçá.
Tem buxada, rabada, angu,
Pitu, siri, sururu,
Guaiamum, goiá.
Tem pitomba, araçá e umbu,
Banana, figo e caju,
Sapoti, cajá.
Tem vermute, conhaque, aniz,
Cana de pau-de-raiz,
Vinho e aluá.
Na Quitanda das Iaôs,
O que é que tem pra comer?

Quilombola

P. C. Pinheiro
Quilombola - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Ô, moringa destampou,
Fogareiro que chiou,
Pau no pilão que retumbou.
Foi o galo que cocorocô,
D’Angola que cacarejô,
Candeia que apagou,
Monjolo que rodamunhô,
Foi o dia que raiou!

Ô, Quilombo despertou,
Carapinha que pulou,
Foi batedor que começou.
Foi o milho que descaroçou,
Mucama que caçarolou
O arado que arou,
O gado que nêgo ordenhou,
Foi preto que forriô!

Pega a faca,
Decepa a cana,
Revira a moenda,
Garapa já rolou.
Pega a foice,
Tora a banana,
Derruba a pindoba
Que o teto já furou.
Que dá tempo,
Dá, pro batuque,
Porque Quilombola
Já não tem mais sinhô!

Primeira mão

P. C. Pinheiro
Primeira mão - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Meu samba sempre foi tirado do peito
Quando sai já sai com meu jeito
Com malícia e opinião

Meu samba sempre foi mostrado direito
Por favor exijo respeito
Com a cor do meu pavilhão

Samba de primeira
É pião-de-ponteira
Rodando na cera do chão
Puro pau-pereira
É Portela, é Mangueira
Quintal, gafieira e salão
Falo de cadeira
Sou nó-na-madeira
Samba de primeira-mão
Já tô na fogueira
E levanto a bandeira
Do meu coração

Brasil verde-e-amarelo
Azul-e-branco é o meu brasão
Coincidentemente a cor da Tradição

Pesadelo

P. C. Pinheiro
Pesadelo - Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte

D7/9
Quando o muro separa uma ponte une

Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra, alguém vem me solta

Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo troco

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro

Olha o velho, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte

Da liberdade guardiã
C7/9
O braço do Cristo, horizonte
Bb7/9  D7/9
Abraça o dia de amanhã, olha aí

Perdão

P. C. Pinheiro
Perdão - Paulo César Pinheiro, Mauro Duarte e Maurício Tapajós
 Am  Am/G  Dm Bm5-/7
Ai, perdão
E7                    Am D E7
Venha ao encontro de mim
Am   Am/G      F7
Já ando necessitado
Bm5-/7
De também ser perdoado
E7               Am         Bm5-/7 E7
Para dar o perdão no fim, ai perdão (2x)
G7                     C   A7
Nesse mundo todo mundo erra
Dm          B7
Jesus Cristo quando andou na terra
E7
Não errou mas foi sacrificado
Bm5-/7 E7         Am Am/G
E clamou por todos nós
Dm Bm5-/7
Perdão
E7                   Am Bm5-/7 E7 Am
E eu vou tentar se assim
Am/G        F7
Pois perdoando o pecado
Bm5-/7
Eu posso ser perdoado
E7               Am
Se sobrar perdão pra mim

Passarinhadeira

P. C. Pinheiro
Passarinhadeira - Guinga e Paulo César Pinheiro

Todo meio-dia
No batente da cancela
Pousa um tico-tico
E eu por ela fico à espera
Ela traz a flor da mocidade dentro dela
Feito o tico-tico
Traz no bico a primavera
Ô, o passarinho cantador
Avoou anunciando o meu amor
Toda meia-noite
Num cantinho da janela
Dorme um passarinho
No seu ninho de quimera
Quem me dera a sua rosa branca de donzela
Por detrás da tranca da janela
Ai, quem me dera
Ô, o passarinho sonhador
Despertou denunciando a minha dor
E acorda toda a passarada
Revoando na roseira
Da moça passarinhadeira

Salve o bem-te-vi
Salve o sanhaço, o coleirinho, o colibri
O curió
Rolinha e chororó

Sabiá
Vai, diz pra ela todo o meu penar
E diz pra ela que eu vivo a esperar

Pano pra manga

P. C. Pinheiro
Pano pra manga - Rosa Passos e Paulo César Pinheiro

Ele fez tanto agrado
Fiz por ele mil planos
E no pano sagrado
Nós juntamos os panos

Entre quatro paredes
Foi mudando o contrato
Ele no pano verde
E eu no pano de prato

Todo dia os parentes
A falar do fulano
E eu apor panos quentes
Por debaixo do pano

Como eu 'tava de touca
Ele ganhava o mundo
Fui o pano-de-boca
Pro seu pano-de-fundo

Se é assim que ele gosta
Vou mostrar pro fulano
Mais que um pano-de-amostra
Velas a todo pano

Não vai ser mais com zanga
Vai ser no mano-a-mano
Vai dar pano pra manga
Quando cair o pano

Pajé

P. C. Pinheiro
Pajé - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

Foi num ritual de fé
Que um caboclo me levou
Na cabana de um pajé
Feiticeiro da Nação Kraô

Na beira da fogueira pajé sentou
Bebeu meu de Jurema, desencarnou
Deixou seu corpo preso no mundaréu
Foi visitar seu povo, no céu do céu

Seu olho faiscava quando voltou
Na mão trazia o toque de curador
Pegava brasa viva no fogaréu
E ao pôr numa ferida
Purgava mel

Ele andava com um bastão
De raiz de pau
Que virava em sua mão
A cobra-coral

Ele amançava onça com seu licor
Ele beijava bico de beija-flor
Tocava o seu chocalho de cascavel
E o rio recuava seu macaréu

Ele entortava o rumo de caçador
E achava curuminho que não voltou
Quando pescava peixe, não tinha arpéu
Peixe pulava dentro do seu batel

Diz-que em noite de luar
Jura o povo ali
Que já viu ele virar
Uma sucuri

Outro quilombo

P. C. Pinheiro
Outro quilombo - Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Ponta de pedra, costeira, perau, quebra-mar
Mangue, colônia pesqueira, Pontal do Pilar
Barro, sapé e aroeira, é a casa de lá
Bule de flandres, esteira, moringa e alguidar
Beira de mar

Praia de areia de ouro de alumiar
Luz de vagalume, estrela, candeia e luar
A lua cheia se mira nas águas de lá
Lá que a sereia costuma surgir pra cantar
Beira de mar

Cana negro olhar
Sangue de África
Centro de aldeia, bandeira, nação Zanzibar
Da mesma veia guerreira do povo Palmar
Tudo palmeira de beira de mar
Tudo palmeira de beira de mar
Tudo palmeira de beira de mar

Oluô

P. C. Pinheiro
Oluô - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Do rosário dos ifás
Nem zumbi é sabedor
Os segredos do seu povo
Só quem sabe é Oluô

Êh! Diz quem que tá com guia
Que pouco, pouco durou.
Êh! Diz quem que tá com cria
Que pouco, pouco gorou.

Diz quem que tá com gira
De traidor.
Diz quem que tá com ira,
Quem tá com dor

Diz quem que tá com arrêgo
Diz quem que tá com quê,
Diz quem que tá com o nêgo
Diz quem que tá com ‘Nhô.

Diz quem que tá com canga,
Diz quem que tá, cadê?
Diz quem que tá com Ganga,
Diz quem que tá com feitor.

Diz quem que tá zambeta,
Diz quem que tá zere,
Diz quem que tá com a preta,
Diz quem que tá com pretor.

Diz quem que tá com o dono,
Quem que tá com a bota,
Diz quem que tá com o trono,
Quem que tá Macota,
Se disser, cambono,
Ganga perde o Oluô

Olorum

P. C. Pinheiro
Olorum - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Por que padece tanto
O povo de Olorum?
Quando eu pergunto a Zâmbi
Não tem eco algum.
Por que tanto amargor?
Por que, me diz, Xangô?
Ô justiceiro,
Por que ele é sofredor?

Por que a paz não chega
Ao coração Nagô?
Quando eu pergunto,
Escuto o seu bata-cotô.
Por que que o baticum,
Me diga agora, Ogum,
Santo guerreiro,
Tem que ser de lutador?

Por que se diz que o preto
Que é de cor?
Por que que o Kêtu
Tem que ter sinhô?
Olorum, Oxalá, Zâmbi, ô!
Por que que o Bantu
Quer cantar o amor
E o canto é de dor?

O poder da criação

P. C. Pinheiro
O poder da criação - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Não, ninguém faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação
Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração

Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
E acende a mente e o coração
É, faz pensar
Que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Vem no meio da noite ou no claro do dia
Chega a nos angustiar
E o poeta se deixa levar por essa magia
E um verso vem vindo e vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar!