quinta-feira, julho 26, 2007

Geléia geral



Torquato e Gil
A canção “Geléia Geral” representa uma síntese dos cânones do próprio movimento tropicalista, além de ser modelo de seu contorno poético. Seus versos contêm arremedos de ufanismo patriótico (“Formiplac e céu de anil / (...) / salve o lindo pendão dos seus olhos”) e citações, as mais diversas, explícitas ou implícitas, distribuídas por suas estrofes e o trecho declamado entre elas.

Há também alusões sarcásticas a passagens da literatura brasileira como o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (“Pindorama, país do futuro / (...) / com o roteiro do sexto sentido”), a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias (“Minha terra é onde o sol é mais limpo”), ou a Memórias sentimentais de João Miramar, também de Oswald, conforme salienta o brasilianista Charles Perrone (em Masters of contemporary brazilian song).

No refrão são abordados, no mesmo estilo destrambelhado, do folclore brasileiro ao rock and roll: “Ê, bumba-yê-yê-boi / ano que vem, mês que foi / É, bumba-yê-yê-yê / é a mesma dança meu boi.”

No aspecto musical, vale mencionar que este refrão é construído sobre a repetição de seis compassos, divididos em ternários e binários, fazendo o arranjo de Rogério Duprat citações de O Guarany, de Carlos Gomes (sob o verso declamado sobre as “relíquias do Brasil”) e da canção “All the Way”, após o verso “um elepê de Sinatra”. Essas considerações mostram a relevância da extensa e discutida letra que Torquato Neto, o teórico do tropicalismo, fez para “Geléia Geral”, composição gravada por Gilberto Gil em Panis et circensis, o disco básico da relativamente escassa discografia do movimento.

A expressão “Geléia Geral”, que também seria título de uma coluna de Torquato no jornal carioca Última Hora, em 71/72, tem sua origem anterior à canção: Décio Pignatari havia escrito para revista de literatura Invenção um artigo sobre os princípios da linguagem concretista, que terminava afirmando que “na geléia geral brasileira alguém tem que fazer o papel de medula e de osso”, referindo-se à postura do grupo concretista.

A ligação de Décio e dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos com Caetano Veloso ensejou o aproveitamento da expressão (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Geléia geral (1968) - Gilberto Gil e Torquato Neto

Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

A alegria é a prova dos nove e a tristeza é teu porto seguro
Minha terra é onde o sol é mais limpo e Mangueira é onde o samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem, Pindorama, país do futuro
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

É a mesma dança na sala, no Canecão, na TV
E quem não dança não fala, assiste a tudo e se cala
Não vê no meio da sala as relíquias do Brasil:
Doce mulata malvada, um LP de Sinatra, maracujá, mês de abril
Santo barroco baiano, superpoder de paisano, formiplac e céu de anil
Três destaques da Portela, carne-seca na janela, alguém que chora por mim
Um carnaval de verdade, hospitaleira amizade, brutalidade jardim
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

Plurialva, contente e brejeira miss linda Brasil diz "bom dia"
E outra moça também, Carolina, da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos e a saúde que o olhar irradia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

Um poeta desfolha a bandeira e eu me sinto melhor colorido
Pego um jato, viajo, arrebento com o roteiro do sexto sentido
Voz do morro, pilão de concreto tropicália, bananas ao vento
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi


Sucessos de 1968

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1968

Realiza-se a I Bienal do Samba, promovida pela TV Record de São Paulo e vencida por
Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, cantada por Elis Regina.- maio/1968

A pobreza
A rã (The frog)
Alvorada
Amor de carnaval
Andança
As canções que você fez pra mim
Até quarta-feira
Baby
Bom tempo
Caminhando (Prá não dizer que não..)
Ciúme de você
Coisas do mundo, minha nega
Dá nela, saudade
Divino maravilhoso
Eu daria a minha vida
Eu te amo, te amo, te amo
Eu tenho um amor melhor que o seu
Geléia geral
Helena, Helena, Helena
Januária
Lapinha
Lindonéia
Modinha
Mudando de conversa
Nem vem que não tem
Parabéns, querida
Perto dos olhos, longe do coração
Pra nunca mais chorar
Pressentimento
Quero lhe dizer cantando
Retrato em branco e preto
Sá Marina
Sabiá
Samba do crioulo doido
Se você pensa
Se você voltar
Segura esse samba, ogunhê
Sei lá, Mangueira
Só o ôme
Soy loco por ti, América
Superbacana
Tempos idos
Tive sim
Tropicália
Útima canção
Vesti azul (Anjo azul)
Viola enluarada
Você passa, eu acho graça
Voltei
Wave (Vou te contar)
Renato Barros
João Donato e Caetano Veloso
Cartola, C. Cachaça e H. B. de Carvalho
Zé Keti
Danilo Caymmi, E. Souto e Paulo Tapajós
Roberto Carlos e Erasmo Carlos
Paulo Sette e Humberto Silva
Caetano Veloso
Chico Buarque
Geraldo Vandré
Luiz Ayrão
Paulinho da Viola
Carlos Imperial e Adilson Silva
Caetano Veloso e Gilberto Gil
Martinha
Roberto Carlos
Roberto Carlos
Gilberto Gil e Torquato Neto
Alberto Land
Chico Buarque
Baden Powell e Paulo César Pinheiro
Caetano Veloso
Sérgio Bittencourt
Maurício Tapajós e H. Bello de Carvalho
Carlos Imperial
Roberto Correia e Sílvio Son
Dori Edson e Marcos Roberto
Carlos Imperial e Eduardo Araújo
Elton Medeiros e H. Bello de Carvalho
Reinaldo Rayol e Renato Correia
Tom Jobim e Chico Buarque
Antônio Adolfo e Tibério Gaspar
Tom Jobim e Chico Buarque
Sérgio Porto
Roberto Carlos e Erasmo Carlos
Nenéo
Osvaldo Nunes
Paulinho da Viola e H. B. de Carvalho
Edenor Rodriguez
Gilberto Gil e Capinam
Caetano Veloso
Cartola e Carlos Cachaça
Cartola
Caetano Veloso
Carlos Roberto
Nonato Buzar
Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle
Ataulfo Alves e Carlos Imperial
Osvaldo Nunes, D. Lobo e C. de Castro
Tom Jobim

Músicas estrangeiras de sucesso no Brasil

Aranjuez Mon Amour, Joaquin Rodrigo
The Good, the Bad and the Ugly, Enio Morricone
The Ballad of Bonnie and Clyde, Mitch Murray e Peter Callander
Le Bruit des Vagues, Pascal Seuran, Serge Lebrall e Romuald
Canzone per te, Bardotti e Sergio Endrigo
The Fool on the Hill, John Lennon e Paul McCartney
Free Again, Armand Canfora, Jess Baselli, Michel Jourdan e Robert Colby
Hello, Goodbye, John Lennon e Paul McCartney
Hey Jude, John Lennon e Paul McCartney
Honey, Bobby Russsell
Lady Madonna, John Lennon e Paul McCartney
The Last Waltz, Les Reed e Barry Mason
Love is Blue, Andre Popp e Pierre Cour
Pata Pata, Minam Makeba e Jerry Ragovoy
La Pretendida, Pepe Avila
Revolution, John Lennon e Paul McCartney
San Francisco, John Philips
Summer Rain, James Hendricks

Cronologia

07.01: Vai ao ar pela última vez o programa “Jovem Guarda”, da TV Record.

13.01: Morre em São Paulo (SP) o cantor Arnaldo Pescuma.

15.01: Estréia no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro, a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque.

12.02: Morre no Rio de Janeiro (RJ) o instrumentista/arranjador Astor Silva.

19.02: Realiza-se no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, o histórico recital de Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e Época de Ouro, produzido por Hermínio Bello de Carvalho e em benefício do Museu da Imagem e do Som.

28.03: O estudante Edson Luís de Lima Júnior é morto pela polícia, em conflito no restaurante do Calabouço, no Rio de Janeiro.

04.04: É assassinado numa varanda do Hotel Lorraine, em Memphis (Tennesee, EUA), o líder negro Martin Luther King.

05: Realiza-se a I Bienal do Samba, promovida pela TV Record de São Paulo e vencida pela composição Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, cantada por Elis Regina. Estudantes franceses apoiados por intelectuais, políticos e trabalhadores, revoltam- se em Paris contra o governo, provocando grave crise.

06.06: É assassinado em Los Angeles (Califórnia, EUA) o senador Robert Kennedy.

26.06: Realiza-se no Rio de Janeiro (RJ) a chamada Passeata dos Cem Mil contra a ditadura.

07.07: Morre no Rio de Janeiro (RJ) o compositor Wilson Batista.

07.08: É realizada no Dancing Avenida, no Rio de Janeiro, a festa de lançamento do elepê Tropicália ou panis et circencis. Cinco dias depois, a festa seria repetida no Avenida Danças, lançando o disco em São Paulo.

20.08: Tropas do Pacto de Varsóvia invadem a Tcheco-Eslováquia.

23.08: Morre em São Paulo o cantor/compositor Vicente Celestino.

09: Realiza-se o III Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo do Rio de Janeiro e vencido pela composição Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque.

29.09: Morre no Rio de Janeiro (RJ) o jornalista/compositor Sérgio Porto.

12 a 27.10: Realizam-se na Cidade do México os XIX Jogos Olímpicos da Era Moderna.

13.10: Morre no Rio de Janeiro (RJ) o poeta Manuel Bandeira.

28.10: Estréia na TV Tupi de São Paulo o programa tropicalista “Divino, Maravilhoso”, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes.

01.11: Chega ao Rio de Janeiro a Rainha Elizabeth da Inglaterra em visita oficial ao Brasil.

04.11: Estréia na TV Tupi de São Paulo “Beto Rockfeller”, uma telenovela que reformulou a história do gênero.

11 e 12: Realiza-se o IV Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record de São Paulo e vencido pela composição “São São Paulo, Meu Amor”, de Tom Zé.

13.12: É promulgado cm Brasília (DF) o Ato Institucional n° 5, que fecha o Congresso, suspende as liberdades individuais, elimina o equilíbrio entre os Poderes e dá atribuições excepcionais ao presidente da República.