sábado, setembro 08, 2007

Saudades da Guanabara

P. C. Pinheiro
Saudades da Guanabara - Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro

Eu sei
Que o meu peito é lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão (eu sei...)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (...e então)
Armei
Pic-nic na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade
Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar
Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (...e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro

Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

Saruê

P. C. Pinheiro
Saruê - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

‘Nhô tem gana no gongolô da Ialê,
E na mucufa quer capiangar atrás do bangüê.
‘Nhora tem fogo de adô no Alabê
e rola com nêgo-Angola no solo de massapé.
‘Nhora faz tudo que ‘Nhô não quer fazer,
Que nem a sacuê,
Que nem faz com a Ialê, ‘Nhô.
‘Nhora partiu pra N’gô,
‘Nhô no mesmo caminho.
A Gêge ficou com ‘Nhô
Com ‘Nhora seu Angolinho
‘Nhô quis tanto que embarrigou a Ialê
E na senzala um muana pulou no chão de sapê.
‘Nhora quis tanto que embuchou do Alabê,
Na cama da Casa-Grande pulou mais um benguelê.
‘Nhora pôs no colo de ‘Nhô seu saruê,
Que nem com seu erê
Também fez a Ialê com ‘Nhô.
Nasceu filho de ‘Nhô,
‘Nhora pariu juntinho.
De ‘Nhora quase alourou,
De ‘Nhô veio carapinho

Santo dia

P. C. Pinheiro
Santo dia - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

A vida é só magia
Quem foi feliz sabia
Viver é preparar
A paz de todo santo dia
Uma canção me guia
Minha emoção vigia
É a minha direção
É o instinto do meu coração...
Ninguém nasceu
Pra lamentar
Na sua meta
Deus fez o poeta
Pra gente poder sonhar
Um verso é bom pra consolar
E um samba triste
Também só existe
Meu bem, pra ninguém chorar

Samba de roda na beira do mar

P. C. Pinheiro
Samba de roda na beira do mar - Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Dora-iê-iê-ô
Ogunhê
Okê-arô
Eh! Alodê
Kabiecilê
Arrobobô

De dia não tem maré-cheia
Na praia tem barco na areia
A roda do sol vai girar
De noite é que a espuma prateia
Que o aro da lua encandeia
Que a lua também quer rodar

Gira a folha da samambaia
Trançando por cima da saia
Que a moça botou pra dançar
Tem palma na beira da praia
Do povo que vem rodear

Festa de rua na areia do chão
Roda de verso que vem pelo ar
Toque de samba na palma do mar
Samba de roda na beira do mar
Janaína, Inaê, Odoyá

Sagarana

P. C. Pinheiro
Sagarana - João de Aquino e Paulo César Pinheiro
(C Bb C Bb)
A ver, no em-sido
Pelos campos-claro: estórias
Se deu passado esse caso
Vivência é memória
Nos Gerais
A honra é-que-é-que se apraz
Cada quão
Sabia sua distinção
Vai que foi sobre
Esse era-uma-vez, 'sas passagens
Em beira-riacho
Morava o casal: personagens
Personagens, personagens
A mulher
Tinha o morenês que se quer
Verdeolhar
Dos verdes do verde invejar

F
Dentro lá deles
G           C    Bb
Diz-que existia outro gerais
(C Bb C Bb)
Quem o qual, dono seu
Esse era erroso, no à-ponto-de ser feliz demais
Am                Dm     Am
Ao que a vida, no bem e no mal dividida
F7         G4      G#7  G7
Um dia ela dá o que faltou... ô, ô, ô...

(C Bb C Bb)
É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana...
(C Bb C Bb)
A pois que houve
No tempo das luas bonitas
Um moço êveio:
- Viola enfeitada de fitas
Vinha atrás
De uns dias para descanso e paz

Galardão:

- Mississo-redó: Falanfão
No-que: "-se abanque..."
Que ele deu nos óio o verdêjo
Foi se afogando
Pensou que foi mar, foi desejo...
Era ardor
Doidava de verde o verdor
E o rapaz quis logo querer os gerais
F
E a dona deles:
G         C  Bb
"-Que sim", que ela disse verdeal
(C Bb C Bb)
Quem o qual, dono seu

Vendo as olhâncias, no avôo virou bicho-animal:
Am
- Cresceu nas facas:
Dm            Am
- O moço ficou sem ser macho
F7      G6     G#7 G7
E a moça ser verde ficou... ô, ô, ô...
(C Bb C Bb)
É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana...
Bb               C
Quem quiser que cante outra
Bb        C
Mas à-moda dos gerais
Bb            C
Buriti: rei das veredas
D           C
Guimarães: buritizais!

Rio, samba, amor e tradição

P. C. Pinheiro
Rio, samba, amor e tradição - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Rio de Janeiro
Salve São Sebastião
Santo padroeiro
Samba, amor e tradição

Esquece a tristeza que é hora do Rio cantar
Com tanta beleza
A gente não pode chorar
É na passarela
E na Cinelândia
A Tribuna Popular
Quer da Vista Chinesa
Ver a natureza te descortinar
Quero outra vez meu time
Fazendo esse meu Maracanã vibrar

Copacabana é prisioneira a vida inteira
A capital do samba ainda é Madureira
Em Paquetá tem flores
Ilha dos meus amores
Que lembra o amor do Imperador pela Marquesa
Ai, como é linda a criança
Entrando na dança desse carnaval
Rio do mar de Ipanema
A Lapa boêmia
Malandro tem que respeitar
Rio, vem cantar de novo
Sorria meu povo
Que o Cristo Redentor quer te abraçar
Hoje a minha escola
Veio desfilar
Pra mostrar que o samba
Não pode parar

Oh!linda morena
Quero ver passar
Num doce balanço
Caminho do mar
Ê Ê, o mar
Ê Ê, o mar
Ê Ê, o mar
Ê Ê, o mar

Rendas de prata

P. C. Pinheiro
Rendas de prata - Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Deu meia-noite e meia
Tem lua cheia pra alumiar
Do céu a estrela branca
Que cai, destranca
O portão do mar

Deixa a camisa fina
Da lamparina
Se encandiar
Que a luz do candeeiro
Faz o coqueiro
Se enfeitiçar

A onda é de ensurdecer
A brisa é de amenizar
Tem qualquer coisa de arrepiar

A lua é de endoidecer
O azul é de admirar
O céu é o espelho de Iemanjá

Em noite assim
As sereias costumam bordar
Rendas de prata
De estrelas caídas no mar
No manto de Janaína

Recado ao poeta

P. C. Pinheiro
Recado ao poeta - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Vai, por que a tua missão é de paz
Ser poeta é difícil demais
Pra que querer quer um coração norma
Um dia vá te compreender
Olha só como a lua parece chamar
E essa rua, esse amigo, esse bar
E eu peço à Deus que nada mude mais
Não faz dos teus os teus rivais
E se couber explicação real
É que o poeta é o coração geral
Por isso fique aqui
Onde teu samba está
Que toda a cidade quer cantar

Rainha do mar

P. C. Pinheiro
Rainha do mar - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

João foi quem contou
Quando afundou no mar
Diz-que ele endoideceu
Com o que ele viu por lá
Um reino sob o mar
Palácio de coral
De conchas era o chão
O trono era de sal

No inclinado convés
De um antigo galeão
Viu sereias em coro
Entoando uma canção
Tinham peixes de luz
Imitando castiçais
E cardumes de cor
Se mexiam nos vitrais

Quando um cortejo ali chegou
De cavalo-marinho a puxar
Da carruagem-mãe surgiu
O vulto da rainha do mar
João se extasiou
Não quis acreditar
O olho esbugalhou
Na luz daquele olhar
A moça então ergueu
O pescador do chão
O sal do mar brotou
Dos olhos de João

Ele aí se curvou
E beijou a sua mão
A mãe d'água o afagou
Junto do seu coração
O cortejo formou
Pra rainha então passar
Ela e seu pescador
Rumo ao claro do luar

João só se lembra que acordou
Sentindo o corpo se arrepiar
De longe o vulto lhe acenou
Sumindo dentro d'água do mar

Quitanda das Iaôs

P. C. Pinheiro
Quitanda das Iaôs - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Na Quitanda das Iaôs
O que é que tem pra comer?
Diz que eu quero ver,
Tem moqueca, pirão, xinxim,
Feijão de amendoim,
Côco, mel, dendê.
Tem farova, feijão fradim,
Camarão seco, aipim.

Desde manhã
Na canjerê,
É Iyá-Bassê
Que tudo faz
Pras abians,
Erês e Ogãs,
E os Orixás.

Tem cocada, cuscus, quindim,
Passoca, broa e manjar,
Bolo e mungunzá.
Tem pudim, manauê, beiju,
Pé-de-moleque, acaçá
Bala-de-puxar
Tapioca, axoxô, conquém,
Tem abará e aberém

Desde manhã
No canjerê,
É Iyá-Bassê
Que tudo faz
Pras abians,
Erês e Ogãs,
E os Orixás.

Tem pipoca e omolucum,
Acarajé, vatapá,
Caruru, cará.
Tem pernil, mocotó, tutu,
Sarapatel e fubá,
Tem arroz-de-hauçá.
Tem buxada, rabada, angu,
Pitu, siri, sururu,
Guaiamum, goiá.
Tem pitomba, araçá e umbu,
Banana, figo e caju,
Sapoti, cajá.
Tem vermute, conhaque, aniz,
Cana de pau-de-raiz,
Vinho e aluá.
Na Quitanda das Iaôs,
O que é que tem pra comer?

Quilombola

P. C. Pinheiro
Quilombola - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Ô, moringa destampou,
Fogareiro que chiou,
Pau no pilão que retumbou.
Foi o galo que cocorocô,
D’Angola que cacarejô,
Candeia que apagou,
Monjolo que rodamunhô,
Foi o dia que raiou!

Ô, Quilombo despertou,
Carapinha que pulou,
Foi batedor que começou.
Foi o milho que descaroçou,
Mucama que caçarolou
O arado que arou,
O gado que nêgo ordenhou,
Foi preto que forriô!

Pega a faca,
Decepa a cana,
Revira a moenda,
Garapa já rolou.
Pega a foice,
Tora a banana,
Derruba a pindoba
Que o teto já furou.
Que dá tempo,
Dá, pro batuque,
Porque Quilombola
Já não tem mais sinhô!

Primeira mão

P. C. Pinheiro
Primeira mão - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Meu samba sempre foi tirado do peito
Quando sai já sai com meu jeito
Com malícia e opinião

Meu samba sempre foi mostrado direito
Por favor exijo respeito
Com a cor do meu pavilhão

Samba de primeira
É pião-de-ponteira
Rodando na cera do chão
Puro pau-pereira
É Portela, é Mangueira
Quintal, gafieira e salão
Falo de cadeira
Sou nó-na-madeira
Samba de primeira-mão
Já tô na fogueira
E levanto a bandeira
Do meu coração

Brasil verde-e-amarelo
Azul-e-branco é o meu brasão
Coincidentemente a cor da Tradição

Pesadelo

P. C. Pinheiro
Pesadelo - Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte

D7/9
Quando o muro separa uma ponte une

Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra, alguém vem me solta

Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo troco

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro

Olha o velho, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte

Da liberdade guardiã
C7/9
O braço do Cristo, horizonte
Bb7/9  D7/9
Abraça o dia de amanhã, olha aí

Perdão

P. C. Pinheiro
Perdão - Paulo César Pinheiro, Mauro Duarte e Maurício Tapajós
 Am  Am/G  Dm Bm5-/7
Ai, perdão
E7                    Am D E7
Venha ao encontro de mim
Am   Am/G      F7
Já ando necessitado
Bm5-/7
De também ser perdoado
E7               Am         Bm5-/7 E7
Para dar o perdão no fim, ai perdão (2x)
G7                     C   A7
Nesse mundo todo mundo erra
Dm          B7
Jesus Cristo quando andou na terra
E7
Não errou mas foi sacrificado
Bm5-/7 E7         Am Am/G
E clamou por todos nós
Dm Bm5-/7
Perdão
E7                   Am Bm5-/7 E7 Am
E eu vou tentar se assim
Am/G        F7
Pois perdoando o pecado
Bm5-/7
Eu posso ser perdoado
E7               Am
Se sobrar perdão pra mim

Passarinhadeira

P. C. Pinheiro
Passarinhadeira - Guinga e Paulo César Pinheiro

Todo meio-dia
No batente da cancela
Pousa um tico-tico
E eu por ela fico à espera
Ela traz a flor da mocidade dentro dela
Feito o tico-tico
Traz no bico a primavera
Ô, o passarinho cantador
Avoou anunciando o meu amor
Toda meia-noite
Num cantinho da janela
Dorme um passarinho
No seu ninho de quimera
Quem me dera a sua rosa branca de donzela
Por detrás da tranca da janela
Ai, quem me dera
Ô, o passarinho sonhador
Despertou denunciando a minha dor
E acorda toda a passarada
Revoando na roseira
Da moça passarinhadeira

Salve o bem-te-vi
Salve o sanhaço, o coleirinho, o colibri
O curió
Rolinha e chororó

Sabiá
Vai, diz pra ela todo o meu penar
E diz pra ela que eu vivo a esperar

Pano pra manga

P. C. Pinheiro
Pano pra manga - Rosa Passos e Paulo César Pinheiro

Ele fez tanto agrado
Fiz por ele mil planos
E no pano sagrado
Nós juntamos os panos

Entre quatro paredes
Foi mudando o contrato
Ele no pano verde
E eu no pano de prato

Todo dia os parentes
A falar do fulano
E eu apor panos quentes
Por debaixo do pano

Como eu 'tava de touca
Ele ganhava o mundo
Fui o pano-de-boca
Pro seu pano-de-fundo

Se é assim que ele gosta
Vou mostrar pro fulano
Mais que um pano-de-amostra
Velas a todo pano

Não vai ser mais com zanga
Vai ser no mano-a-mano
Vai dar pano pra manga
Quando cair o pano

Pajé

P. C. Pinheiro
Pajé - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

Foi num ritual de fé
Que um caboclo me levou
Na cabana de um pajé
Feiticeiro da Nação Kraô

Na beira da fogueira pajé sentou
Bebeu meu de Jurema, desencarnou
Deixou seu corpo preso no mundaréu
Foi visitar seu povo, no céu do céu

Seu olho faiscava quando voltou
Na mão trazia o toque de curador
Pegava brasa viva no fogaréu
E ao pôr numa ferida
Purgava mel

Ele andava com um bastão
De raiz de pau
Que virava em sua mão
A cobra-coral

Ele amançava onça com seu licor
Ele beijava bico de beija-flor
Tocava o seu chocalho de cascavel
E o rio recuava seu macaréu

Ele entortava o rumo de caçador
E achava curuminho que não voltou
Quando pescava peixe, não tinha arpéu
Peixe pulava dentro do seu batel

Diz-que em noite de luar
Jura o povo ali
Que já viu ele virar
Uma sucuri

Outro quilombo

P. C. Pinheiro
Outro quilombo - Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Ponta de pedra, costeira, perau, quebra-mar
Mangue, colônia pesqueira, Pontal do Pilar
Barro, sapé e aroeira, é a casa de lá
Bule de flandres, esteira, moringa e alguidar
Beira de mar

Praia de areia de ouro de alumiar
Luz de vagalume, estrela, candeia e luar
A lua cheia se mira nas águas de lá
Lá que a sereia costuma surgir pra cantar
Beira de mar

Cana negro olhar
Sangue de África
Centro de aldeia, bandeira, nação Zanzibar
Da mesma veia guerreira do povo Palmar
Tudo palmeira de beira de mar
Tudo palmeira de beira de mar
Tudo palmeira de beira de mar

Oluô

P. C. Pinheiro
Oluô - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Do rosário dos ifás
Nem zumbi é sabedor
Os segredos do seu povo
Só quem sabe é Oluô

Êh! Diz quem que tá com guia
Que pouco, pouco durou.
Êh! Diz quem que tá com cria
Que pouco, pouco gorou.

Diz quem que tá com gira
De traidor.
Diz quem que tá com ira,
Quem tá com dor

Diz quem que tá com arrêgo
Diz quem que tá com quê,
Diz quem que tá com o nêgo
Diz quem que tá com ‘Nhô.

Diz quem que tá com canga,
Diz quem que tá, cadê?
Diz quem que tá com Ganga,
Diz quem que tá com feitor.

Diz quem que tá zambeta,
Diz quem que tá zere,
Diz quem que tá com a preta,
Diz quem que tá com pretor.

Diz quem que tá com o dono,
Quem que tá com a bota,
Diz quem que tá com o trono,
Quem que tá Macota,
Se disser, cambono,
Ganga perde o Oluô

Olorum

P. C. Pinheiro
Olorum - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Por que padece tanto
O povo de Olorum?
Quando eu pergunto a Zâmbi
Não tem eco algum.
Por que tanto amargor?
Por que, me diz, Xangô?
Ô justiceiro,
Por que ele é sofredor?

Por que a paz não chega
Ao coração Nagô?
Quando eu pergunto,
Escuto o seu bata-cotô.
Por que que o baticum,
Me diga agora, Ogum,
Santo guerreiro,
Tem que ser de lutador?

Por que se diz que o preto
Que é de cor?
Por que que o Kêtu
Tem que ter sinhô?
Olorum, Oxalá, Zâmbi, ô!
Por que que o Bantu
Quer cantar o amor
E o canto é de dor?

O poder da criação

P. C. Pinheiro
O poder da criação - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Não, ninguém faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação
Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração

Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
E acende a mente e o coração
É, faz pensar
Que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Vem no meio da noite ou no claro do dia
Chega a nos angustiar
E o poeta se deixa levar por essa magia
E um verso vem vindo e vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar!

O cristal e o marfim

P. C. Pinheiro
O cristal e o marfim - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Eu te amei
Fui ao céu
Mas ceguei
Ao descortinar o véu
Pois era um olhar de cristal
Prisma de luzes sem fim
Que nunca olhou por igual
Para mim
Face da cor da ilusão
Entre a sombra e o carmim
Que tinha o meu coração
Como o seu camarim
Eu chorei
Foi cruel
Pois nem sei
Até hoje o meu papel
E a gota de dor que rolou
Não foi pintada a nanquim
Como você ensaiou para mim
Fora de cena esse amor
Se tornou frio assim
E em suas mãos sem calor
Eu virei manequim
Mas saí de cartaz
Personagens não quero mais
Contra o amor meu peito fez motim
Que o coração quebrou nesse seu folhetim
Me isolei em torre de marfim
Pra colar o que sobrou de mim

O cavalo de São Jorge

P. C. Pinheiro
O cavalo de São Jorge - Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro

O cavalo de São Jorge foi passear na areia
Vamos fazer samba que o santo guerreiro hoje está na aldeia
Tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia
Oi, tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar sereia

É que diz o povo
Que hoje a poliça não contrareia
Tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia

Quando o cavalo de São Jorge corcoveia
O que é que cai de seu alforje, lua cheia
Luz que alumeia quem samba na beira do mar, sereia
Luz que clareia no samba só me faz lembrar Candeia

Vem sambar, que tem samba no mar
Vem sambar que tem samba no mar
Não vadeia quelé Clementina, não vadeia

Eu queria poder pegar na cintura dela
Eu queria poder pegar na cintura dela
Mas seu namorado está de olho nela
Mas seu namorado está de olho nela

O cavalo de São Jorge foi passear na areia
Vamos fazer samba enquanto o cavalo de Ogum passeia
Tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia
Oi, tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia...

Novo novelo

P. C. Pinheiro
Novo novelo - Sueli Costa e Paulo César Pinheiro

Não me culpe por coisas passadas
não reabra essas velhas feridas
porque nas cicatrizes fechadas
existem guardadas dezenas de vidas

Não condene essas fases erradas
e não lembre as antigas fraquezas
que das recordações apagadas
as mais atiçadas são de novo acesas

Não me queira mudar as passadas
não procure afastar-me das ruas
porque na confusão das calçadas
existem ciladas maiores que as tuas

Não receie por causas deixadas
não se iluda com o seu pesadelo
porque a vida no fim das estradas
começa as meadas de um novo novelo

Nove luas

P. C. Pinheiro
Nove luas - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

Eu parti na lua cheia
Pra correr o mar
Só parei aqui para mercar

Mas vi o mar no olhar de uma mulher
Puxando como a força da maré
Morena Mariana, eu sou marinheiro
Fiquei pra te navegar

Cada morena que faz
Meu navio ancorar
Merece ser o meu cais
Derradeiro de amar

Mas eu tenho que embarcar
Eu quero o mar alto, o mirante
A miragem, o mar

Eu cheguei na lua nova
Pronto pra zarpar
Se passaram nove luas já

A maresia chama igual mulher
Pra me levar pra cama da maré
Morena Mariana, eu sou marinheiro
Eu sempre morei no mar

Cada morena que faz
Maré-cheia no olhar
Faz o meu olho marujo
Também marejar

Mas eu tenho que embarcar
Eu quero o mar alto, mirante
A miragem, o mar

Não vim pra ficar

P. C. Pinheiro
Não vim pra ficar - Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro

Não vim pra ficar
Não reserve um espaço no armário pra me acostumar
Não espere no horário arrumada na sala de estar
Não pretendo trazer minha vida pro seu bangalô

Não vim pra ficar
Não separe um cantinho pra eu ler o jornal no sofá
Não pergunte o que eu gosto, que vai me fazer pro jantar
Me desculpe o mau jeito que é o jeito que eu sou

Não vim pra ficar
Não me guarde uma escova de dentes, não vou pernoitar
Não faz cópia da chave, não quero invadir o seu lar
Quero vir como sempre, feito um beija-flor

Não vim pra ficar
Não me põe monograma na fronha da gente deitar
Não pendure no tanque gaiola pro meu sabiá
Não faz do nosso encontro uma obrigação, por favor

Não vim pra ficar
Eu não quero assumir compromisso da gente juntar
Por enquanto é melhor não mexer, deixe assim como está
Vamos ver que destino vai ter nosso amor

Não demore

P. C. Pinheiro
Não demore - Eduardo Gudin, Roberto Riberti e Paulo César Pinheiro

Mas não demore pra voltar, oh não!
Há muito tempo que eu não sou feliz
Tire este peso do meu coração
Corte este mal pra não criar raiz
Eu tenho o peito cheio de perdão
Mas não demore pra voltar, oh não!

Acho que tudo que eu tinha que fazer, eu fiz
Volta que eu estou precisando de consolação
Do jeito que eu tenho andado demais infeliz
Eu posso até relevar a sua ingratidão
Mas oh! não demore pra voltar oh não!
Mas oh!não demore pra voltar oh não!

Nagô

P. C. Pinheiro
Nagô - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Terreiro,
Quando o nêgo toca o tambor,
Nêgo não quer dinheiro,
Quê que quer? Quer Agô.

Trabalho,
Quando o nêgo tem batedor,
Nêgo não quer só calo,
Quê que quer? Quer um jimbô.

Carrêgo,
Quando o nêgo se quebrantou,
Nêgo não quer ebó, não quer,
Quê que quer? Babalaô.

Kizomba,
Quando o nêgo já bambelô,
Nêgo não quer maromba,
Quê que quer? Quer N’gô

Capenga,
Quando o nêgo já marafou,
Nêgo não quer arenga,
Quê que quer? Quer quem zoiô.

Zoado,
Quando o nêgo a nêga argolou,
Nêgo não quer parar, não quer,
Quê que quer? Quer gongolô.

Ô Ialê,
Ê, Iaô,
Ô, nêgo quer,
Quê que quer?
Quer um muana,
Nêgo quer
Quer um cafunje,
Nêgo quer
Mais um Nagô

Na volta que o mundo dá

P. C. Pinheiro
Na volta que o mundo dá - Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro

Um dia eu senti um desejo profundo
De me aventurar nesse mundo
Pra ver onde o mundo vai dar

Saí do meu canto na beira do rio
E fui prum convés de navio
Seguindo pros rumos do mar

Pisei muito porto de língua estrangeira
Amei muita moça solteira
Fiz muita cantiga por lá

Varei cordilheira, geleira e deserto
O mundo pra mim ficou perto
E a terra parou de rodar

Com o tempo
Foi dando uma coisa em meu peito
Um paerto difícil da gente explicar

Saudade, não sei bem de quê
Tristeza, não sei bem por que
Vontade até sem querer de chorar

Angústia de não se entender
Um tédio que a gente nem crê
Anseio de tudo esquecer e voltar

Juntei os meus troços num saco de pano
Telegrafei pro meu mano
Dizendo que ia chegar

Agora aprendi por que o mundo dá volta
Quanto mais a gente se solta
Mais fica no mesmo lugar

Mordaça

P. C. Pinheiro
Mordaça - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar

Minha missão

P. C. Pinheiro
Minha missão - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Quando eu canto
É para aliviar meu pranto
E o pranto de quem já
Tanto sofreu
Quando eu canto
Estou sentindo a luz de um santo
Estou ajoelhando
Aos pés de Deus
Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite
Canto também contra a tirania
Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo
A esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz!

Do poder da criação
Sou continuação
E quero agradecer
Foi ouvida minha súplica
Mensageiro sou da música
O meu canto é uma missão
Tem força de oração
E eu cumpro o meu dever
Aos que vivem a chorar
Eu vivo pra cantar
E canto pra viver

Quando eu canto, a morte me percorre
E eu solto um canto da garganta
Que a cigarra quando canta morre
E a madeira quando morre, canta!

Mar corrente

P. C. Pinheiro
Mar corrente - Theo de Barros e Paulo César Pinheiro

Chegaste estrela, foste a mais cadente
No mar corrente dessa vida errante
E em meu semblante há muito descontente
Se fez presente esta emoção gigante

Chegaste estrela, foste a mais brilhante
No mesmo instante em que fiquei contente
Foste inocente como a flor fragrante
E foste amante por amor somente

Chegaste estrela, foste a mais ardente
E de repente foste a mais distante
Na variante desse amor poente
Partiste estrela na maré vazante

E eu de amante me tornei descrente
Tragicamente, amor, tragicamente

Mãos vazias

P. C. Pinheiro
Mãos vazias - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Mal se acende a luz
Nasce o grão das ilusões
Nas mãos do sonhador
A natureza pões
Maravilhosos dons
E faz da vida
Dia de graça
E faz do tempo
A cura da desgraça
Faz da paixão
Essa magia
Depois envolve o dia
Na escuridão

E a noite reduz
A carvão as ilusões
Que o dia alimentou
Nos corações cruéis
Nos sentimentos bons
E faz da vida
A lenha escassa
E faz do tempo
Apenas fumaça
Faz da paixão
Cinzas sombrias
Depois inventa o dia por solução

Maior é Deus

P. C. Pinheiro
Maior é Deus - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

É, maior é Deus
Pequeno sou eu
O que eu tenho foi Deus quem me deu
O que eu dou é o que eu tenho
Foi Deus quem me deu

Eu nada sou
Mas também não sou nenhum fariseu
Vim aqui pra falar, falou
Porque o cala boca já morreu
Maior é Deus

Mas é o que eu vou
Lhe mostrar o que de melhor for meu
Quem quiser me escutar, escutou
Não quero glória, fama ou apogeu

Lito e Bolão
Miltinho e Pinheiro, xará meu
O Romeu e o Cebion
Gudin, Márcia, Luciana e eu
Maior só Deus

Lenda praieira

P. C. Pinheiro
Lenda praieira - Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Nasceu num barco pesqueiro
Pescava desde menino
Mestre das águas proeiro
Do litoral nordestino

Em roda de jangadeiro
Deixou seu nome Quirino
Quem vive em chão de saveiro
É o chão do mar seu destino

Foi isso que deu-se um dia
Cação virou seu veleiro
Foi luta de valentia
Do peixe contra o barqueiro
Sangue, suor, maresia
O ar ficou com esse cheiro
Subia água e batia
Tudo sumiu no aguaceiro

Houve arrastão na baía
Do quebra-mar à costeira
Do fundo nada surgia
Só da jangada a madeira

As moças em romaria
Puxava reza praieira
No fim do sétimo dia
Fez-se a oração derradeira

A sua história foi bela
Virou cordel seu destino
Tem nome em pano de vela
Verso em chegança e divino
Mas uma moça donzela
Teve depois um menino
A cara do filho dela
Era de novo Quirino

Leão do norte

P. C. Pinheiro
Leão do norte - Lenine e Paulo César Pinheiro

Sou o coração do folclore nordestino
Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá
Sou o boneco do Mestre Vitalino
Dançando uma ciranda em Itamaracá
Eu sou um verso de Carlos Pena Filho
Num frevo de Capiba
Ao som da orquestra armorial
Sou Capibaribe
Num livro de João Cabral
Sou mamulengo de São Bento do Una
Vindo no baque solto de Maracatu
Eu sou um alto de Ariano Suassuna
No meio da Feira de Caruaru
Sou Frei Caneca do Pastoril do Faceta
Levando a flor da lira
Pra nova Jerusalém
Sou Luis Gonzaga
E eu sou mangue também
Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte
Sou Macambira de Joaquim Cardoso
Banda de Pifo no meio do Carnaval
Na noite dos tambores silenciosos
Sou a calunga revelando o Carnaval
Sou a folia que desce lá de Olinda
O homem da meia-noite puxando esse cordão
Sou jangadeiro na festa de Jaboatão
Eu sou mameluco...

P. C. Pinheiro
- Mário Gil e Paulo César Pinheiro

Lá onde eu nasci / Beira-de-mar
Brejal de flor / Cheiro de sal
Colônia de pescador

Lá passava um trem / Cortando o chão
Dos capinzais / pros Armazéns
Da Estação / Do Velho Cais
Onde eu cresci / Vendo as marés
Marujos mil / Com seus bonés
E um dia eu fui / Com roupa azul
Pra um convés

Fui nesse mundão / Vi tanto mar
De toda cor / Ouvi demais
Cantigas de pescador / Vi vagões de trem
Noutros sertões / Vidas iguais
E comecei a recordar / Meu velho cais
Onde eu cresci / Rei das marés
Quero largar / Chão do convés
Voltar e não tirar jamais / De lá meus pés

Kêkêrêkê

P. C. Pinheiro
Kêkêrêkê - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Kêkêrêkê
Quê que ele quer?
Quem diz é Vovó
Quer seu catimbó.
Quer seu padê,
Quer seu despacho,
Quer seu ebó
Pra abrir gira e canjerê

Kêkêrêkê
Quer pó de pemba,
Arruda e guiné,
Quê mais que ele quer?
Mel de bangüê

Quer seu marafo,
Quer, na coité,
Farofa, sal e dendê

Põe miúdo de boi, quimbombô,
Põe fita e vela de cor,
Põe fumo de rolo pro Kêkêrêkê.

Põe fundanga no risco do chão,
Bota conta no cordão,
E espalha a moeda pro Kêkêrêkê.

Com padê na tronqueira, dotô,
Saúda o seu zelador,
E pede licença pro Kêkêrêkê.

Jongo de João-Congo

P. C. Pinheiro
Jongo de João-Congo - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

O jongo tem que ser
Tem candogueiro pra bater, tem
Tem que ter, ter calo na mão, tem que ter
Toca o tambu,
Gazunga vai tremer,
Angóia vai mexer,
E é o gonguê que vai responder: teteretê...
Vai gemer bem longe a puíta
Tem que ter,
Ter sola de pé no balance,
Tem que ter, ter palma de mão,
Tem que ter que se bambear, tem que ter
Saravá pro seu Alabê!

O jongo tem que ter,
Ter dançadeiro pra valer, tem
Tem que ter, que ter que rodar, tem que ter
No baticum
A roda vai crescer
E o povo vai fazer fuzuê
Que nem seu Exu-kêkêrêkê.
Tem que ter Sá-moça catita
Tem que ter a voz de vovó de Vassuncê
Tem que ter um canto nagô,
Tem que ter um de Ioruba, tem que ter
Saravá pro seu Benguelê.

Vem pro jongo,
Ô vem jongueiro ver,
João-Congo,
O jongo tem que ter
Mais um herdeiro
Nesse terreiro
Pro jongo não morrer.

Justiça

P. C. Pinheiro
Justiça - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Não
Vou mais te socorrer
Pois o que foi feito por Deus
Eu não vou desfazer

Já me botei contra deus
Quis julgar o que achei
Que eu mesmo podia
Pra mim você não merecia sofrer
Me enganei porque Deus
Nunca traça nossos caminhos
Diretos
Mas sempre dá tudo certo no fim
E quantas vezes eu não sei
Eu te perdoei
Mas era eu te perdoar
E Deus castigar

Juparanã

P. C. Pinheiro
Juparanã - Joyce e Paulo César Pinheiro

Juparanã, aldeia, brejal
Juparanã, paul, pantanal
Juparanã
Nação de igarapé
Chão de curimatã
Jazida do pajé
Da muiraquitã
Juparanã, Juparanã, Juparanã

Juparanã, o boto é de lá
Tem sucuri, pacu, tracajá
Tem tucumã
Imbira, mussambê
Ingá, pariatã
Sagüi, juruetê
Arara, mussuã
Juparanã, Juparanã, Juparanã

Tem jacumã, ubá
Bom de atravessar
Os igapós, eu vou pescar
Ê Juparanã

Tem peixe, boitatá
Iara mora lá
Nos aguapés, vem me ajudar
Ê Juparanã

Gongá

P. C. Pinheiro
Gongá - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Vim de longe, de um Reino de além do mar.
Vim marcado que nem o gado de lá,
Num porão de navio,
Sei de dor, fome, frio,
Sem poder nunca mais voltar.
Remo nas mãos,
Ferro nos pés,
Sangue riscando o olhar.
Vim nos grilhões,
Vim nas galés,
Eu vim da África.

Fui escravo, falar de açoites nem dá.
Meu lamento ainda ecoa no ar,
Mas quebrei a corrente,
Ninguém manda na gente,
Nunca mais ninguém vai mandar.
Sou meu senhor,
Meu dono e rei,
Na força de Oxalá.
Da minha cor
Me orgulharei,
Sempre, oh Mãe-África!

Negro, negro,
Mas não sou mais de lá.
Brasil já é meu gongá!
Negro, negro,
Mas não sou mais de lá.
Brasil já é meu gongá!

Ganga-Zumbi

P. C. Pinheiro
Ganga-Zumbi - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Rei Ganga-Zumba foi, foi ver Rei-Congo
Depois da Calunga, além do mar.
Foi, foi pro canjerê de Zambiapongo
No terreiro grande de Oxalá.

Rei Ganga-Zumba foi, foi pra Aruanda,
Mas foi Zâmbi quem mandou chamar.
Quem olha a lua branca de Luanda
Vê Ganga-Zumbi no seu gongá.

Cadê Zumbi?
Meu Ogum-de-Lê
Cadê Zumbi?
Meu Mutalambô
Cadê Zumbi?
Olorum-Didê
Meu Sindorerê,
Que ele Aruandô

Galanga Chico-Rei

P. C. Pinheiro
Galanga Chico-Rei - Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro

Ganga
Galanga era Ganga
De jaga e Catanga,
Quebrava com anga
Cafife e cafanga,
Galanga era Ganga...

O Rei do Reino do Congo foi Aluquene
Muene-Congo
O seu fundador, seu rei imortal.
Senhor dos Jibas, dos Dembos e dos Engombes
E dos Mulumbos
Do Congo era Ganga, era o Rei Geral.
Senhor de Angola, Benguela, Canga, Cabinda
Tanga, Calinda, Malembo, Matamba, Dunga-tará,
Soba dos Matambulas,
Dos reinos de aquém e de além-mar

Galanga vinha do sangue de Aluquene
Ganga-Muene
Macota-Babá da Casa Real.

O Capitão-Comandante da Guerra Preta
De Maramara
O grã-lutador, o Rei maioral.
Muzungo veio e Galanga foi no tumbeiro
Pro cativeiro,
Deixando o sagrado Congo para trás,
Mas rei de Zâmbi-Apongo
É rei onde chega, Obá dos Obás

Foi assim, hoje eu sei
Que nasceu Chico-Rei
Rei da África e Rei das Minas Gerais!

História antiga

P. C. Pinheiro
História antiga - Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Na varanda da sacada
Clareando a noite nua
O olhar da minha amada
Refletia a luz da lua
E na noite enluarada
Não se ouvia quase nada
Só meu violão na rua

Pela sombra da ramada
No portão da moradia
O olhar da minha amada
Docemente reluzia
E com voz apaixonada
Eu cantava ao pé da escada
Uma triste melodia

Quando vinha a madrugada
No soprar de um vento frio
O olhar da minha amada
Retornava ao casario
E eu seguia a caminhada
Mas deixava pela estrada
O meu resto de assovio

Hoje a lua na calçada
É só uma velha amiga
O olhar da minha amada
Já virou história antiga
Muita vida foi passada
Mas em noite enluarada
Inda lembro da cantiga

Flor da Bahia

P. C. Pinheiro
Flor da Bahia - Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Dor da Bahia
Chega a machucar meu peito
Na garganta dá nó
Conviver com preconceito
Dá revolta e dá dó
Quem no coração
Não faz distinção
Compreende a minha dor

Cor da Bahia
É a paixão da minha vida
Quando olho em redor
A cidade construída
Misturando suor
Quanta história então
De sangue e paixão
Sobre o chão de Salvador

Na Bahia
Grão de amor é forte medra
E eu sou flor da Bahia
Semeada em chão de pedra
Flor da Bahia
Que oferece a primavera
Desse grão
Dessa flor
Desse chão
Desse amor

Flor da Bahia
É flor que ninguém arranca
Quando o amor é maior
Pele escura, pele branca
Flor da pele é uma só
Corpos que se dão
Mais sementes são
Sobre o chão de Salvador

Flor ardente

P. C. Pinheiro
Flor ardente - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

Foi minha procura
Pela noite escura
Que selou a jura de depois
E a minha espera
Trouxe a primavera aos dois

Uma flor como nenhuma
Dissolveu a bruma
Num clarão de espuma
E um sândalo perfuma
O corpo que se inflama
O peito de quem ama
E essa flor em chama
Despetala luz na minha cama

Foi tua chegada
Flor iluminada
Que floriu a estrada de depois
E a claridade
Trouxe a eternidade aos dois

Foi procura e confiança
Espera e esperança
Estrela, fé, vontade
Foi assim, que assim somente
Brota a flor ardente
Da felicidade

Eu, hein, Rosa!

P. C. Pinheiro
Eu, hein, Rosa! - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Eu, hein, Rosa!
Se manca
Segura essa banca
De escrupulosa
Eu, hein, Rosa!
O meu jogo é na retranca
Área muito perigosa

Você parecem que nem lembra mais
De tempos atrás
A tua figura era vergonhosa
Eu me reparti
Querendo reconstituir
A quem hoje me
Vira o rosto assim
Mas eu nem me abalo
Você vai cair do cavalo
Quando precisar de mim

Eu, hein, Rosa!
Vem mansa
Porque a contradança
É mais audaciosa
Eu, hein, Rosa!
Apelar pra ignorância
É uma coisa indecorosa

Acho que estou é forçando demais
As cordas vocais
Você não merece um dedo de prosa
E pra resumir
Faço questão de conferir
Se se quebra ou não
Um vaso ruim
Saia no pinote
Senão vai ser de camarote
Que eu vou assistir seu fim

Estrela da terra

P. C. Pinheiro
Estrela da terra - Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Por mais que haja dor e agonia
Por mais que haja treva sombria
Existe uma luz que é meu guia
Fincada no azul da amplidão
É o claro da estrela do dia
Sobre a terra da promissão.

Por mais que a canção faça alarde
Por mais que o cristão se acovarde
Existe uma chama que arde
E que não se apaga mais não
É o brilho da estrela da tarde
Na boina do meu capitão.

E a gente
Rebenta do peito a corrente
Com a ponta da lâmina ardente
Da estrela na palma da mão.

Por mais que a paixão não se afoite
Por mais que minh'alma se amoite
Existe um clarão que é um açoite
Mais forte e maior que a paixão
É o raio da estrela do noite
Cravada no meu coração.

E a gente
Já prepara o chão pra semente
Pra vinda da estrela cadente
Que vai florescer no sertão.

Igual toda lenda se encerra
Virá um cavaleiro de guerra
Cantndo no alto da serra
Montado no seu alazão
Trazendo a estrela da terra
Sinal de uma nova estação

Essa moça

P. C. Pinheiro
Essa moça - Mario Gil e Paulo César Pinheiro

Ah ! como é bonita
Essa moça que me fita
É pra mim visão bendita
Quem lhe fez teve a visita
De Orfeu, de Deus, de artista
De artesão

Ah ! essa senhora
A mulher que me namora
Como é bela à luz da aurora
Mão se Deus ! chega, apavora
Que parece em certas horas
Sombração

Agradeço tanto
Ter em mim esse dom santo
De fazer teu corpo um manto
Me vestindo desse encanto
De paixão, de amor, de espanto
De ilusão

Vou nesse momento
Pela luz do firmamento
Te fazer um juramento
Te entregar meu sentimento
Até quanto eu tenha dentro
Coração