sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Meu casamento (Olhos de veludo)

Almirante: "Na memória dos mais antigos fixou um número bastante grande de músicas de seu tempo. Se pedirmos a alguém que já tenha passado dos 50 que nos lembre as músicas que mais o impressionaram em sua meninice, teremos uma enquete curiosa, revelando a predominância de certas melodias. Uma música que fatalmente há de aparecer em todas as respostas é a que se chamou inicialmente “Meu Casamento”.

Seu autor foi um modesto flautista que morreu tragicamente aí por 1929 sob as rodas de um trem na estação do Engenho Novo numa tarde em que se dirigia para casa depois de sair do seu emprego de tecelão na fábrica Confiança de Vila Isabel. A música de Pedro Galdino, destinada inicialmente só à execução, recebeu, logo que ganhou popularidade, uns versos de Gutenberg Cruz.

E foram esses versos, ouvintes da velha guarda, que a fizeram chegar ao máximo da fama difundindo-a por todo o Brasil. E ainda mais, versos que tiveram a influência decisiva de mudar inteiramente o seu nome. Pois de “Meu Casamento”, a schottisch passou a ser conhecida principalmente por Olhos de Veludo” (Programa O Pessoal da Velha Guarda - 22-11-1951).

Almirante: "A música que abriu este comentário aqui, aquela famosa “Flausina”, que tinha esses versos: Anda vem cá, vem ver meu pobre coração como está é o cartão de visitas do autor da peça que vai também abrir o programa de hoje. Mas se nós quiséssemos, nós poderíamos usar outro cartão de visitas para o mesmo autor, como a sua xótis que foi célebre, aquela que se cantava com os versos 'Quando na luz desses seus olhos de veludo', lembram? Pois o autor que produziu tais maravilhas nunca poderia ter sido medíocre na certa. Eis por quê vocês devem agora apreciar bem para sentir também bem toda a beleza de uma polca-choro daquele mesmo Pedro Galdino...." (Programa O Pessoal da Velha Guarda - 03/03/1948).

Vicente Celestino gravou um LP intitulado "Saudade palavra doce" (1960) e canta numa faixa "Olhos de Veludo" cuja autoria é creditada (neste disco) ao pianista e compositor Azevedo Lemos (Rio de Janeiro, 1860 - 1920). Acessando o site do Instituto Moreira Sales encontro a mesma música com o título de "Meu casamento", cujo gênero musical é "chótis", compositor Pedro Galdino, intérprete Pessoal do Bloco, gravadora Favorite record, número do álbum 1454047 (data de gravação 1910-1913). Então fico com o Almirante: Quando na luz desses seus olhos de veludo.

Meu casamento (Olhos de veludo) (chótis, 1910) - Pedro Galdino e Guttenberg Cruz - Intérprete: Vicente Celestino



Quando na luz destes teus olhos de veludo
Meus olhos tristes chorando ponho
Esqueço a dor que ando sofrendo
Esqueço tudo
E ao céu crescendo dentro de um sonho

Fazem sonhar estes teus olhos coloridos
Que andam perdidos
Numa saudade
Olhos magoados como os teus
São corações crucificados
Pelo amor na cruz imensa d'uma dor

Em meio desta vida para mim
Foram teus olhos dois escolhos
Eu não posso caminhar assim
Ai, meu Deus o que será de mim?

Não posso mais deixar
De adorar O teu olhar
Que me atormenta
E me prende, me seduz
Esse olhar que me acorrenta
Em criols de luz

Pensei que existe alguém
Que ama também
Os olhos teus
Não são os meus
Não são meus olhos espressados
Pelos teus magoados
Que o teu olhar aquece

Meu Deus, ouve esta prece
E me arranque esta paixão
Do coração
Que tu fizeste para o amor
Amar sem esperança
Antes morrer... Senhor!

Favorito

O tango "Favorito" (1895) foi gravado em 1912 na Odeon pelo seu autor, Ernesto Nazareth, que ao piano foi acompanhado por Pedro de Alcântara em solo de flautim. No entanto há registros de gravações anteriores como a do cantor Mário Pinheiro que interpretou “Favorito” em 1908 (provavelmente), com letra atribuída a Catulo da Paixão.

Em 1915, o palhaço-cantor Eduardo das Neves grava na Odeon (álbum número 121026) a canção intitulada "Amor avacalhado" com versos de letrista anônimo e música do tango de Nazareth. Em 1929, Francisco Alves viria a gravar uma versão modificada da mesma letra sob o título de “Favorito” (álbum número 10518).

Favorito (tango, 1895) - Música de Ernesto Nazareth / Amor avacalhado - Letrista desconhecido - Interpretação de Eduardo das Neves - Disco 76 rpm - Imprenta [S.l.]: Odeon, 1915-1921 - Nº Álbum 121026



Meu amor se tu queres saber
Qual a razão deste meu padecer
Por que motivo me ausento de ti
Vem me escutar aqui
Não é medo meu bem, qual o que!
Eu te digo qual é a razão
Eu gosto muito de você
Mas dou o fora nesta ocasião.

Tens um pai que é de tremer
E é quem me faz sofrer
Perder o tempo até
Bem sabes como ele é...
Se descobre que eu vou lá
Tenho mesmo que fugir
Pois não dou pra fubá
Na porta não posso ir.

Esse seu pai é uma fera
Se você ainda espera
Que eu caia nesse arrastão
Mas eu não vou nisso não
Nestas contas, eu vou por mim
Pois não tem graça, meu bem
Eu perder o meu latim
Nestas contas, vou por mim.

Tua mãe, ai Jesus, não tem mais!
Porque eu hei de dizer de teus pais
Tem por mãe uma víbora feroz
Que do inferno caiu entre nós!
É maldosa, cruel, é um azar
Pois não me dá uma folga sequer
Que [viro], que paixão, que contrariedade!
Isto não é mulher!

Tens um pai que é de tremer...

Teus maninhos me pedem tostões
Sujam-me a roupa, me arrancam os botões
Tu achas isso muito natural
Eu sei que não é por mal!
Mas não posso, a despesa é demais
Cair no Mangue é melhor, minha flor
Crio alma nova, me vou para embora
Saúde e fica, [Deusinho] meu amor

Tens um pai que é de tremer...


Fontes: As Crônicas Bovinas - Amor Avacalhado; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora; Instituto Moreira Sales.