sábado, fevereiro 16, 2008

Bambino

Ernesto Nazareth
Bambino (tango, 1913) - Ernesto Nazareth

Dedicado ao bom amigo Cezar d’Araújo. Depois de mais de uma década sem ter obras publicadas pela Casa Arthur Napoleão (a última fora a valsa Genial, em 1900), Nazareth teve editado seu vigésimo sexto tango, Bambino, dedicado a um dos então proprietários desse tradicional estabelecimento. Abaixo uma gravação de Bambino por Custódio Mesquita e orquestra:

Disco 78 rpm - Título da música: Bambino - Autoria: Nazareth, Ernesto, 1863-1934 (Compositor) - Mesquita, Custódio, 1910-1945 (Intérprete) - Orquestra (Acompanhante) - Imprenta [S.l.]: Rca victor, 1943 - Nº Álbum 800097 - Gênero musical: Choro



Quanto ao título, trata-se do nome artístico do afamado caricaturista Arthur Lucas, responsável, inclusive, pelo desenho de algumas capas de partituras do compositor. Entusiasmado com o grande êxito alcançado por Bambino, Catulo da Paixão Cearense, assim como fizera com Nenê, Bicyclette-club e Brejeiro, também resolveu dedicar-lhe versos e um novo título, Você não me dá!...:

Como tão linda está / Como tão linda está / Mas se um beijo eu pedir / Você não me dá / Você não me dá

Quem lhe implora é o amor / A inocência, o candor / Mas você é tão má / Que eu sei que você / não dá, não dá

Não tem pena de ver / Um poeta sofrer / Quem lhe implora é o amor / É a doida aflição
do meu coração

Se me promete dar / Eis-me aqui,a chorar / Mas você é tão má / Que eu sei que você / não dá, não dá

Sua boca é um primor / Uma abelha do amor / Sou capaz de jurar / Que o seu beijo / Há de Ter o sabor do luar

Sua boca é um altar / Onde eu quero rezar / E após confissão / Nos seus lábios rismar / Os meus lábios então

Sua boca cheirosa / é a essência da rosa / Mais bela e mais langue / É uma estrela , uma estrela de sangue / Um luar de sangrento rubor

Quem me dera um carinho / Deixar oscilando num terno cantinho / Desse mau pedacinho do inferno, do averno / Do céu mais azul

A minha alma voando do palmo da terra / Tão cheia de horrores / Nesse berço feliz dos amores / As minhas glórias pudera cantar

E se acaso duvida do que hora lhe diga / Venha, experimente / Que minh'alma ardente / Na sua boquinha deseja sonhar

Como tão linda está / Ai meu Deus, como está / Pra uma santa ficar / Devia um beijinho agora me dar

O seu beijo é o licor / Dos travores da dor / Há de ter o sabor da antera da flor / Do seu amor



Fontes: Choromusic; Agenda do Samba & Choro.

O sairá

O sairá (marcha-rancho, 1911) - José Rebelo da Silva e Antenor de Oliveira

Junto a um bosque copado e airoso
Tem um jardim tão rico e mimoso
Se eu pudesse gozava as delícias
Deste jardim de tantas carícias

E todas as manhãs um sairá
Vai ali colher um resedá
Para ofertar às faceiras
Filhas das jardineiras.

E assim cantava um sairá
Quando pousava no resedá
Sou o senhor destas flores mimosas
Destes vastos jardins.

Vastos jardins
Venho a colher resedás
Para ofertar aos meus querubins
Meus querubins

Eu vou depressa e mui pressuroso
Qual brisas fagueiras.
Brisas fagueiras
Para entregar este ramo odoroso
Às filhas das jardineiras
Das jardineiras

Estela

Estela (modinha, 1910) - Abdon Lyra e Adelmar Tavares - Interpretação: Paraguassu (1945)



De noite
O plenilúnio é como um sol
Nasce tristonho
Olhando pelo céu
Beijando o mar
As estrelas no azul
Brilham sorrindo,
Estás dormindo
E eu venho, meu amor,
Te despertar

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo lindo
Acorda, abre a janela
Estela


Desperta
Dorme toda a natureza
Que beleza
Venho unir tua voz
A minha voz
Entre lírios, violetas, crisantemos
Cantaremos
Como dois infelizes rouxinóis

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo lindo
Acorda, abre a janela
Estela


No teu leito de seda
Dormes quieta
E o teu poeta
Canta para o teu sono suavizar
Dorme, que eu cantarei
Como é o suave canto de ave
Que gorjeia de amor
Fitando o luar

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo lindo
Acorda, abre a janela
Estela


Canto
Embora amanhã
Encontres morta
À tua porta
A visão de quem te amava no abandono
Dirás ao ver Estela
Que sou eu o pombo correio
O rouxinol que te embalava os sonhos

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo bonito
Não abras a janela
Estela



O Monteiro no sarilho

Carramona (Albertino Pimentel) era pistonista, regente e compositor. Sua formação musical era resultado do aprendizado na Casa dos Meninos Desvalidos e na própria Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, cujo comando assumiu dez anos depois de seu ingresso em 1900. Vale também destacar o aprendizado que teve nas inúmeras rodas de choro da cidade, visto que esta é a tradicional escola de músicos melodiosos e harmônicos (figura ao lado: partitura para flautim da polca O Monteiro no sarilho).

A vivência musical na cidade o fez um apaixonado pelo Rancho Ameno Resedá, o mais conhecido rancho da História, para o qual compôs uma polca de mesmo nome. Os ranchos eram agrupamentos carnavalescos, descendentes do pastoril, que incluíam instrumentos de corda e de sopro, porta-estandarte, coro para entoar a marcha-rancho, mestre-sala etc. O bom entendedor já pôde perceber que os ranchos foram os precursores da escolas de samba.

Consciente de sua importante tarefa à frente da Banda após a morte de Anacleto de Medeiros, Carramona manteve a excelência dos músicos da corporação e a tradição de compor polcas, choros, mazurcas, valsas e outros gêneros populares. Compôs também um dobrado em homenagem ao mestre, intitulado Memórias de Anacleto.

Várias outras criações suas ficaram no repertório popular como, por exemplo, O Monteiro no Sarilho, sucesso musical no ano de 1910. A polca foi gravada provavelmente nesta época (1908-1910) pelo Grupo Lulu O Cavaquinho, selo Columbia, álbum nr. 1191612.




Fontes: Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro; Instituto Moreira Sales.