segunda-feira, dezembro 16, 2013

Dois apitos...

Gastão Formenti
Gastão Formenti e Moreira da Silva? Dois cantores em atividades duplas no ano de 1935. O primeiro, já um consagrado intérprete, artista, pintor de quadros. O segundo, chofer de ambulância e iniciando a futura e duradoura carreira de mestre-cantor do samba-de-breque...

No meio radiofônico há um grande número de figuras que tocam “dois apitos”, como se diz em linguagem popular, ou melhor, que se dedicam a dois gêneros diferentes de atividade.

Uma dessas figuras é o aplaudido cantor Gastão Formenti, muito conhecido através dos discos que tem gravado para diversas empresas e pela sua longa atuação perante o “broadcasting”.

Gastão Formenti é um dos nomes de maior relevo dos nossos círculos radiofônicos, aliando ao seu merecimento de cantor a discrição e a modéstia das atitudes.

O artista Gastão -1935
Gastão fez estudos para pintor na Escola de Belas Artes e tem figurado em várias exposições, concorrendo ao “Salão” oficial em diversas oportunidades. Tem seu estúdio à rua Joaquim Silva, 67. É aí que, ao mesmo tempo, pinta suas telas e ensaia as canções que canta ao microfone.

Também toca “dois apitos” o cantor Moreira da Silva, que foi o criador de “Implorar, só a Deus”, um dos sambas de maior sucesso do ano passado, vitorioso no concurso carnavalesco instituído pela Municipalidade.

Moreira da Silva, ao mesmo tempo que atua no microfone, é também funcionário municipal, trabalhando como motorista da Assistência.

Sua atuação no “broadcasting” tem que ser pautada não por sua própria vontade, mas pela escala dos plantões na Assistência. Volante habilíssimo, seu sucesso, na direção de uma ambulância, é igual ao que alcança no microfone, como intérprete festejado de sambas e marchinhas.

O cantor Moreira da Silva na direção uma ambulância - Foto: "Carioca" - 1935



Fonte: "Carioca", de 23/11/1935.

Lair de Barros: a sedução do microfone

A cantora Lair de Barros num artigo da "Carioca". A entrevista foi publicada em 16/11/1935 e transcrevo na ortografia da época:  

“Lair de Barros é uma figura ainda nova no radio carioca. Surgiu ha pouco menos de um anno no “Programma das Donas de Casa”, da Mayrink. Hoje é uma das mais destacadas figuras da Radio Sociedade. Possue, como poucas, o segredo de interpretar as nossas marchas e sambas, e ao par destas qualidades é uma creatura interessante, muito “Seculo XX”.

— Comecei no Paraná, — diz-nos Lair, sorrindo, — uma noite, estava numa festa e cantei acompanhada por violões. Devido á insistencia de algumas amigas fiz um ensaio numa estação local. Parece que agradei e, vindo para o Rio, comecei a cantar no “Programma das Donas de Casa” da Mayrink. Uma tarde, estava ensaiando quando Cesar Ladeira me convidou para actuar nos programmas irradiados nos domingos á noite. Dos domingos passei aos dias de semana. Estava contentissima na PRA-9 quando surgiu a Tupy e propalou-se a noticia que eu ia trocar de estação. Resultado: estou na Radio Sociedade.

— Qual o genero de musica que prefere?

— Marchas e sambas. O samba é, sem “bairrismo”, a musica mais bonita que existe no mundo. E’ tão lindo que não póde ser definido com palavras. Tem o ritmo triste de quem chora as magoas de um amor perdido... — A minha maior emoção? quando cantei no Guayra, no Paraná. Nunca havia cantado em palco e foi sob forte tensão nervosa que appareci perante o publico. Felizmente agradei... A outra grande emoção, foi a primeira vez que cantei na Mayrink.

— Quaes os seus autores preferidos?

— Volentina Biosca, José Maria de Abreu, J. Barcellos, Damaglio, Armando Silva Araujo, Mario Lago, Rogerio do Nascimento...

— Dos artistas, quaes prefere?

— Carmen Miranda e Francisco Alves, reis absolutos do microphone.

— Que pensa do Radio?

— Microphone é peor do que uma bebida doce de que a gente não póde se furtar. Gosto do meio e espero triumphar, pois não imito a ninguem. Como tenho força de vontade, espero um dia chegar á Gloria, de quem, por ora, estou ainda muito longe. Não fómos sequer apresentadas, uma á outra.”




Fonte: "Carioca", de 16/11/1935.