domingo, outubro 29, 2006

Pena Branca e Xavantinho


A dupla formada pelos irmãos José Ramiro Sobrinho (Pena Branca), nascido em Uberlândia (MG), em 1939, e Ranulfo Ramiro da Silva (Xavantinho, Uberlândia, 1942-1999) é um raro caso de fidelidade às raizes caipiras no universo sertanejo atual.

Criado na roça com cinco irmãos, José Ramiro aprendeu "de orelha" no cavaquinho do pai antes de passar para a viola. A dupla com o irmão começou em mutirões, feiras, folias de reis e teve outros nomes como José e Ranulfo, Peroba e Jatobá, Zé Mirante e Miramar e até Xavante e Xavantinho.

Num festival organizado pelo sertanejo Zé Bétio, eles conquistaram o primeiro lugar e o direito de gravar uma música, Saudade, de Xavantinho, num compacto duplo em 1971. Em 1980, outra música de Xavantinho, Que Terreiro é Esse?, foi classificada para a final do festival MPB-Shell da TV Globo e a dupla finalmente estreou em LP, Velha Morada - Rodeio, já se distinguindo pela escolha do repertório: incluía entre as faixas a dissonante O cio da terra de Chico Buarque e Milton Nascimento.

A audácia de afrontar o comercialismo do mercado gravando material selecionado, das folclóricas Cuitelinho (recolhida por Paulo Vanzolini) e Calix Bento (recolhida e adaptada por Tavinho Moura) a Vaca Estrela e Boi Fubá (do cearense Patativa do Assaré), deu certo. Logo a dupla seria um dos esteios do programa de TV Som Brasil, apresentado pelo ator e intérprete Rolando Boldrin, que a incluiria em seus shows Brasil adentro.

Boldrin produziu o segundo disco dos dois, Uma Dupla Brasileira. Milton Nascimento cantou (e gravou) com eles o Cio da Terra, além de levá-los ao Teatro Municipal para o espetáculo em que recebia o Prêmio Shell, de 1986.

Além de Tavinho Moura, com quem Xavantinho faria Encontro de Bandeiras, a dupla foi ampliando sua participação na MPB em encontros (e gravações) com Fagner, Almir Sater, Tião Carreiro, Marcus Viana, entre outros.

Em 1990, eles ganharam o Prêmio Sharp de melhor música com Casa de barro, de Xavantinho e Moniz, e de melhor disco, Cantadô do mundo afora. Dois anos depois, ao vivo em Tatuí levaram outro Sharp de melhor disco e também foram escolhidos pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Sempre mesclando repertório matuto, clássicos da MPB e obras de lavra própria, PB & X gravaram de Mário de Andrade, Viola quebrada, a Ivan Lins e Vitor Martins, Ituverava, Caetano Veloso, O ciúme, e o Uirapuru (Murilo Latini/Jacobina), sucesso do grupo Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano em Violas e Canções, de 1993, ano em que os dois excursionaram também aos EUA.

Em Pingo d'água (1996), o rei do baião Luiz Gonzaga, A vida do viajante, convive com os caipiras históricos João Pacífico e Raul Torres da faixa título. E no Coração matuto (1998), entram Djavan, Lambada de serpente, Milton Nascimento, Morro Velho, com participação do próprio, e até Guilherme Arantes, Planeta Água.

Já sem o irmão, falecido no ano anterior, Pena Branca prosseguiria solo em Semente caipira (2000). Congregando de Tom Jobim e Luiz Bonfá, Correnteza, a Renato Teixeira, Quando o amor se vai, Joubert de Carvalho, Maringá, e composições próprias, Casa amarela, Rio abaixo vou viver, o disco de Pena Branca mantém acesa a chama de integridade que marcou a trajetória da dupla e continua lhe servindo de farol.

Tárik de Souza / ENSAIO / 21/2/1991