sábado, maio 27, 2017

O cantor das Graças de Iemanjá

"Peguei um Ita no Norte, e vim pro Rio morar ..." e Dorival contempla nostálgico o navio que talvez o
tenha trazido da Bahia ...

Dorival Caymmi é um acontecimento na música popular brasileira. O cronista e compositor Antônio Maria diz que só deixará de falar nele “quando morrer” ... E todos nós gostamos desse poeta do nosso mais puro folclore ... (Reportagem de Zenaide Andréa e fotos de Kásmer)

“Quem quiser vatapá ... que procure fazê, primeiro o fubá, depois o dendê ...”

Parecia estarmos em plena Bahia, com todo o doce feitiço que emana da sua gente, das suas festas mais típicas, e de todas aquelas crendices que tão fundo marcam a alma do seu povo. Era a saudade que falava alto e sonoro, contando a noite, o vento, a aventura dos saveiros pelos mares de Castro Alves, a história do casario colonial, a solidão do Pelourinho “quando a madrugada purifica e salva o homem que a ladeira cansou, que a vida tentou matar” — conforme disse mesmo Antônio Maria, autor do texto do show que nos deu toda essa impressão, lá na boate Casablanca.


Ao seu lado, a incomparável Ângela Maria, indiscutivelmente a nossa maior cantora no gênero, e outra figura feminina que se Impõe nos nossos meios artísticos: Tereza Austregésilo, que interpreta, em gracioso “travesti”, um personagem das ruas de Salvador, o poeta “Cuíca de Santo Amaro”. Há, também, o jovem ator Paulo Maurício (que já viveu na tela o tipo do cantor de “Espumas Flutuantes”) e unia porção de garotas bonitas e bastante harmoniosas com o ritmo dolente que nos vem, assim, da velha Tomé de Souza ...

Carlos Machado, sempre gentil e interessado em presentear o Rio com belas e novas emoções noturnas, faz parar um instante os trabalhos da representação, para que Dorival venha ao nosso encontro. As pequenas, porém, continuam a repetir os últimos versos que ele entoava, e a bambolear os quadris, como as pitorescas vendedoras das praças públicas de Salvador:

“Não pára de mexê, que é pra não embolá ...”

Caymmi começa, então, a conversar conosco. São flagrantes de sua existência, fragmentos de suas inúmeras lembranças, que lhe acodem naturalmente à memória, nesse instante em que lhe pedimos um pouco do seu destino, para narrar aos nossos leitores... Ele é uma dessas vocações autênticas, absolutamente sinceras, e, como tal, não costuma falar muito de si mesmo. Prefere dizer de suas alegrias ou de seus dissabores cantando, ou compondo, “O Mar”, “Marina”, “O que é que a baiana tem” etc, e, agora, esse fatalista samba-canção que andou já na boca de toda gente: “Não tem solução”...

— Qual, dentre as músicas que fez, é a sua predileta? — indagamos, após recordarmos alguns dos seus maiores sucessos.

— Não tenho preferências, nesse sentido. Para mim, todas se parecem e estão no mesmo plano. O povo é que escolhe ... Por último, acho que preferiu, por exemplo, o “Nem eu” e “Não tem solução”, este feito de parceria com Carlos Guinle.

— E como escreve as suas músicas? Tem algum lugar ou hora especial, para isso?

— Faço-as a qualquer momento, em qualquer canto. Mas, geralmente, trabalho em casa.


Como se sabe, Dorival é casado com a cantora Stel Maris, que abandonou as suas atividades profissionais (na Mayrink Veiga, onde esteve por um ano, e isso depois de surgir vitoriosamente como amadora) pelas obrigações do lar. O casal possui três filhos, Dorival, Danilo e Nana, que constituem o encanto dos Caymmis e dos quais ele nos fala com o mais grato e espontâneo entusiasmo.

Tínhamos sabido que se cogitava de uma reedição do “Cancioneiro da Bahia”, a notável compilação de Dorival, com prefácio de Jorge Amado e ilustrações de Clóvis Graciano. O “cantor das graças de Iemanjá” confirmou a informação — o que é especialmente interessante para quantos apreciam o nosso folclore, e ainda não dispõem desse volume, como é o nosso caso — e acrescentou:

— Será completada pelas minhas novas canções.

A seguir, passamos a tratar de cinema e teatro. Dorival fez parte da representação de “Joujoux e Balangandans”, levada à cena no Municipal há alguns anos, conforme devem recordar os que nos leem. E na tela ainda pela mão do escritor Henrique Pongetti, o responsável por aquele espetáculo, apareceu no “short” “A jangada voltou só”, de Ruy Santos, tendo ainda figurado noutro filme de valor, “Estrela da manhã”, com “script” de Jorge Amado, para a Filmoteca Cultural.

Hoje, porém, dada a intensidade do seu trabalho, na boate da Praia Vermelha, no rádio e na Televisão Tupi, nesta capital e em São Paulo, e às suas gravações e outros misteres correlatos, Caymmi não dispõe de maior tempo para devotar aos estúdios cinematográficos e ao palco. Aliás, em relação ao teatro, embora elogiando o que Pongetti dele conseguiu àquela ocasião a que nos referimos, afirma ter desistido por completo.


Cremos que a sétima arte também não o atrai muito, a não ser como espectador, talvez. Seu gosto pelas coisas da Bahia e o seu amor sem limites pela música que compõe e que canta, são, em definitivo, as “constante” de seu temperamento. Fora disso, tudo o mais será paisagem, para ele — e não a imorredoura sensação da paisagem de Itapoã ...

Dorival nasceu em 30-4-1914. Seus cabelos vão já grisalhando, mas sua face é límpida e sem rugas, com um ar de candura satisfeita, que lhe deve vir da infância livre e descuidada, lá pelas terras cheias de sol da sua querida Bahia...

Tem já o seu nome numa praça de Salvador, na qual cantou para uma grande multidão, que o aplaudiu delirantemente. Não há quem não goste dele. E Antônio Maria escreveu que só deixará de falar de Caymmi, quando morrer ... Nada mais justo e compreensível, acreditem.


Fonte: Cinelândia, edição 24, novembro de 1953 (Rio Gráfica e Editora)

Mary Gonçalves: Ela ama a vida e é amada por todos ...


Estreando no rádio aos 14 anos de idade, Mary Gonçalves só tem colhido aplausos em sua trajetória artística ... Elogiada por Villaret ... O cinema é seu sonho ... (Reportagem de Rita D'Assis e fotos de Milan - Cinelândia, novembro/1953)

Neste minúsculo apartamento em que nos encontramos, já couberam nada menos de 70 pessoas, festejando o aniversário de Mary Gonçalves ... É a sua residência, na qual imprimiu todo o encanto de uma personalidade moça e vibrante, apesar da exiguidade do espaço. Na parede nobre do living (que serve também de dormitório), uma original decoração que logo indica ser uma cantora moderna quem mora ali: capas de álbuns de discos de Sinatra, Elvira Rios, Frankie Lain, Ella Fitzgerald, Billy Eckstine e de Dick Haymes, o novo amor de Rita Hayworth ...

Achamos Incompleta essa exposição: faltava-lhe justamente a capa do long-play “Convite ao romance”, que a artista vem de gravar na Sinter, com oito canções que são “O que é amar”, “Dentro da noite”, “Tédio”, “Não vá agora”, “Duvidando”, “Podem falar”, “Escuta” e “Estamos sós” ... E foi Isso que lhe dissemos, quando veio toda sorridente ao nosso encontro, alguns minutos após a nossa chegada, desculpando-se muito por não ter aparecido imediatamente.

— É que estive filmando o dia inteiro, lá no Jóquei Clube, certas cenas de “Uma vida em 15 minutos”, da Sociebrás. Acabava de entrar debaixo do chuveiro ... Quanto ao meu disco, a que se refere, ainda não o recebi, e, por isso, não pode figurar aí ...

O calor da sua presença juvenil, dos seus gestos tão cheios de graça e de espontaneidade, como que faz viver de uma nova vida todo aquele pequeno mundo que a cerca, e que é um pouco de si mesma. Trajando “slacks” e suéter, sua plástica surgia admiravelmente realçada pelas linhas bonitas do conjunto. E, em seu rosto, limpo de qualquer pintura, brilhava o entusiasmo dos verdes anos ...

— Você faz o papel de amazona, nesse filme, não?

— De uma proprietária de alados corcéis, como diria o poeta ... Tão alados, que hoje quase levei uma queda, cavalgando um deles, que tomou o freio nos dentes ...

— Gosta de trabalhar no cinema?

— Adoro! É o que mais me empolga. Entretanto, até então não tive muita sorte com os papéis que me confiaram. Sonho com muito mais!

— E merece, sem dúvida. Não é à-toa que você já ganhou dois “Índios”: em 1948, com “Fantasma por acaso”, de que vimos uma reprise recente; e, em 47, com “Vidas solitárias”, do saudoso Moacyr Fenelon ...

— Este foi o meu primeiro filme. E o último que fiz, até “Uma vida em 15 minutos”, foi “Asas do Brasil”, também desse inesquecível batalhador do cinema nacional. Isso, há três anos já.

Como se vê, era essa uma pausa longa demais para quem tanto se apaixona pela arte da tela. Acontece, porém, que, não obstante a sua esplêndida vitalidade, Mary Gonçalves não chega para as encomendas ... Atua nos “shows” do Casablanca, nos programas das rádios Nacional e Mayrink Veiga, grava discos e, às vezes, integra elencos teatrais. E, é lógico, há ainda o amor, a moda, as reuniões sociais, e tudo o mais quanto a existência oferece a uma pequena assim interessante e sempre interessada por este nosso humano universo ...

Sabíamos, contudo, que a rainha do rádio de 1952, estando nos Estados Unidos, em 51, tivera uma proposta da Columbia Pictures para filmar, e que fizera um teste na RKO para uma gravação “double-face”, em inglês e português.

Confirmou-nos ela ser tudo verdade. Mas, acerca da Columbia, não lhe foi possível aceitar o convite, por estar já de partida marcada para o Brasil.

Indo até à pequenina cozinha do seu apartamento, que ela mesma guarneceu de faceiras cortininhas, Mary começou a preparar um café para nós, enquanto prosseguiu a conversa.

— É solteira? — indagamos, ao constatar assim as suas habilidades de dona de casa.

— Completamente...

— Mas tem seus amores, não?

— Até agora, e por dois anos consecutivos, tive um amor definitivo: Bill Parr.

— Teve? ...

— Bem, nunca se sabe, ao certo, o que pode suceder a um amor, mesmo definitivo ...

Pronto o café, e servido em xícaras coloridas, Mary nos disse que o seu hobby n.º 1 é arrumar o seu cantinho doméstico, escolher os objetos que ali põe logo em uso (nada para guardar — acrescenta — que o lar não é museu!) e ... no momento procurar um novo apartamento, pois quer morar com mais conforto e poder receber melhor as suas relações.

— E qual o seu maior desejo?

— Conservar-me sempre jovem, e também viajar.

— E quanto às suas aspirações artísticas?

— Que o público me aplauda sempre, que jamais me esqueça!

Isto, realmente, não é difícil, tratando-se de Mary Gonçalves, elogiada por todos, querida das plateias elegantes e dos radiouvintes de todo o país, e a quem Villaret saudou como a intérprete mais pessoal no gênero de canções a que ela se dedica.

Aliás, desde muito cedo que a risonha artista revelou a sua vocação. Nascida em Santos, a 25-10-1927, estreou como rádio-atriz na Tupi de São Paulo, já aos 14 anos de idade. A arte estava em seu sangue, pois seu pai, hoje advogado, o Dr. José Figueiredo Rocha, que é português de origem, fora ator em Coimbra, e, em Santos, onde a família fixou residência, atuou na rádio Atlântida.

Daquela cidade do litoral paulista, vem Mary paia o Rio, na época em que funcionavam os casinos, contratada como “crooner” da boate Meia-Noite e para o show do “Grill-room” do Copacabana. E daí para o cinema o rádio e o teatro cariocas foi apenas um pulo, ou melhor, um recorde de salto para as alturas.

Sorte é o que não lhe falta, apesar do que ela nos declarou sobre os papéis que tem desempenhado no cinema. Também, pudera: Mary não passa debaixo de escada, não pode ouvir a palavra "azar" sem bater na madeira, etc. e tal! ... Em compensação, julga o número 13 um bom fetiche. Entenda-se a alma feminina ...


Fonte: Revista "Cinelândia", edição 24, novembro de 1953 - Rio Gráfica e Editora.

quarta-feira, maio 24, 2017

Esther de Abreu, o Rouxinol de Coimbra


Esther de Abreu foi ficando no Brasil ... e o Brasil gostou de Esther de Abreu - Uma voz do cancioneiro português que sabe também interpretar a nossa música popular. (Reportagem de Armando Migueis e fotos de Milan)

Não foi sem surpresa que entramos no apartamento de Esther de Abreu, numa rua tranquila de Copacabana. É que a bonita intérprete do cancioneiro português entregava-se, então, à limpeza do lustre que orna a sua sala de estar. Percebendo nosso espanto, fez questão de declarar que, como ex-interna do Colégio Santo Antônio, em Lisboa, é uma completa dona de casa, sabendo cozinhar, cerzir meias, fazer tricô e, ainda, cuidar da arrumação do “lar, doce lar”, conforme víramos.

Espírito comunicativo e folgazão, Esther de Abreu coloca o jornalista a vontade, lamentando a ausência de um bom licor da santa terrinha. E, com a desculpa, vem a informação de suas preferências culinárias. Ela não é do bacalhau à moda, nem tampouco das papas. Gosta, isto sim, de uma valente feijoada completa. Também admira, e muito, a comida à baiana. Às vezes, porém, para variar, enfrenta mesmo um cozido.

A “glamorosa” intérprete de “Coimbra” não fuma. Justifica esse desinteresse pelo cigarro por entender que ele quebra a linha de feminilidade que toda representante do sexo frágil deve possuir. Em compensação, distrai-se jogando “buraco”. Confessa fazer diabruras quando consegue uma “canastra” ... Aliás, Esther lamenta o tamanho do apartamento, em que se encontra provisoriamente e que não permite reunir as pessoas de suas amizades para uma partidazinha. Em compensação, de sua varanda, pode olhar sua filhinha Maria Manoela, que estuda num colégio em frente, e isto, a seu ver, compensa.

Numa atitude glamorosa, a intérprete do cancioneiro português posa com seu vestido de baile.

A exclusiva da Rádio Nacional é uma recordista de viagens. Conhece o território brasileiro de ponta a ponta. Já cantou para os nossos irmãos do Norte; exibiu seus dotes vocais para os nossos patrícios do Sul, e vive alegrando a turma do Centro. Assim, quando do lançamento de “Coimbra”, conseguiu vender quase cem mil discos, embora tivesse de enfrentar a concorrência de outros grandes intérpretes, como Alberto Ribeiro, Albertinho Fortuna, etc. Aliás, com a belíssima composição de Antônio Ferrão, Esther de Abreu levantou a taça de “Parada dos maiorais”, instituída pelo programa César de Alencar.

Mas não só a música portuguesa tem entrado nas cogitações da vitoriosa artista. Ela é francamente de nossas melodias: estreou num dos carnavais cariocas interpretando duas marchinhas. Fez sucesso, e acabou caindo no samba rasgado e no baião, cantando “Serenata”, samba escrito por Linda Batista há mais de dez anos, e “Baião do Amor”, composto pela queridíssima Carolina Cardoso de Meneses. São duas gravações Sinter que revelam claramente as qualidades de Esther de Abreu para a música popular brasileira.

Esther tem ganho lembranças artísticas e vários troféus. Eis um deles no flagrante.

Vindo ao Brasil para participar do show “Sonho nas berlengas”, apresentado pelo Copacabana Palace, a intérprete de “Cabral no Carnaval” convenceu, deixando-se ficar por estas plagas. É que seu contrato com aquela casa de espetáculos, em virtude do êxito obtido, teve de ser dilatado.
E, nessa altura dos acontecimentos, aconteceu a Rádio Nacional. Ingressando no “cast” da PRE-8, conquistou de imediato, a simpatia geral, a ponto de participar da maioria de programas musicais dessa estação. Com o contrato da Rádio Nacional vieram outras propostas. Turnês pelo Brasil fora. Participação nos shows das grandes boates. Temporadas nas emissoras do interior. Tudo isso, trocado em cruzeiros, representa uma apreciável parcela no orçamento de quem vive do canto.

Esther de Abreu descende de uma família de artistas. Agora mesmo, na Companhia de Walter Pinto, figura uma de suas irmãs. É a vedete Gilda Valença. Anteriormente, outra de suas irmãs brilhou numa companhia de revistas. Referimo-nos a Julieta Valença, que o casamento afastou da ribalta, apesar da carreira promissora que vinha realizando. Outro parente próximo da cantora integra um conjunto musical. Com esse punhado de valores entre os seus, Esther não escapou à vocação. Tanto que continua aumentando o cartaz da família, quer participando dos programas da Rádio Nacional, quer gravando bonitas composições, como o fado “Confesso”, de Frederico Valério, que a Sinter lançou. Também de Paulo Tapajós, a exclusiva da PRE-8 gravou “Segredo”. Com esse número, Paulo Tapajós estreou no fado. Estreou por sinal auspiciosamente conhecendo-se a personalidade da intérprete.

Entre a música e o lar vive, portanto, Esther de Abreu. Uma vida agradável para quem nasceu “cigarra”. Para quem procura alegrar a alma do povo com as melodias suaves do cancioneiro internacional.  Sim, porque ela canta em quatro Idiomas. Tanto que, ao microfone da Emissora Nacional de Lisboa, conquistou um prêmio interpretando composições em inglês, francês, espanhol, português. Em nosso idioma ela escolheu “Maringá”. Saiu-se a contento e a contento continua no agrado dessa gente hospitaleira que nasceu sob o signo do Cruzeiro do Sul.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 21, setembro de 1953

Neusa Maria, a Rainha do Jingle


De empregada no comércio a um programa de calouros ... e do programa de calouros para a constelação da Rádio Nacional ... eis a história de como a jovem Vassiliki transformou-se em Neusa Maria. (Reportagem de Armando Migueis e fotografias de Milan no Jardim Zoológico do Rio)

Num calmo bangalô de uma tranquila rua do Grajaú, a senhora Vassiliki Purchio construiu seu “home sweet home”. E ali, no aconchego de seus discos, de seus álbuns de recortes, das cartas que recebe dos fãs, que ela passa seus momentos de lazer, entretida com sua filhinha Elizabeth. Isto, desde 1944, quando trocou o rádio bandeirante pelo carioca, atendendo a um convite do veteraníssimo Renato Murce, que, sob a influência do animador César de Alencar, não perdeu tempo em contratá-la para o “cast” da Rádio Clube do Brasil.

Mas, perguntará o leitor desavisado: quem será Vassiliki Purchio, uma vez que os locutores guanabarinos jamais pronunciaram esse esquisitíssimo nome? E, como é do nosso dever, apressamo-nos em esclarecer a dúvida. Trata-se, nada mais nada menos, do que da simpatiquíssima estrelinha Neusa Maria. Sim, da intérprete de tantas melodias de sucesso, cuja presença no elenco da Rádio Nacional, a que está presa por contrato até aos últimos dias de 1954, é uma garantia de popularidade absoluta entre os aficionados do rádio. Aliás, a popularidade de Neusa Maria está confirmada através das numerosas propostas que recebe para participar de diversos shows em diferentes cidades brasileiras.

Recentemente ainda, ao chegar de uma excursão a diversas cidades mineiras, a apreciada cantora recebeu convite para uma ligeira temporada em Curitiba. Mas a oferta não compensava a viagem, motivo por que a estrela aceitou um contrato vindo de sua terra, isto é, de São Paulo.

A exclusiva da PRE-8 iniciou-se no comércio. Por sinal, pregando uma colossal mentira ao gerente da loja que a contratou para caixa. E que ao invés de dar sua verdadeira identidade, preferiu arranjar outra, tão complicado achava o nome de Vassiliki. Por isso, quando teve de apresentar a carteira profissional, a inteligente “caixa” começou a sentir uma furiosa tremedeira. Pensou, de início, numa despedida sumária . . . mas o gerente, após ouvi-la, declarou que bastava aquele Vassiliki para perdoá-la da peta ...

Do comércio, Neusa Maria resolveu dar uma espiada no programa de calouros que o saudoso Otavio Gabus Mendes apresentava ao microfone da Rádio Record. Da espiada, veio a inscrição. Da inscrição veio o convite para ingressar no “cast” da PRB-9. Esse convite, por sinal, veio através do fio telefônico, certa vez quando Otavio Gabus Mendes, no dia do programa, se encontrava acamado. Da PRB-9 a intérprete de nossas melodias populares passou para a Tupi bandeirante, onde recebeu a consagração de “a estrela de 1943”, título obtido por intermédio de empolgante concurso levado a efeito por um dos jornais paulistas. Neusa Maria, na votação popular, ganhou de ponta a ponta.

Sua estrela a começou a brilhar num programa de calouros quando estava empregada no comércio.

Hoje a cantora paulista é um nome conhecido de Norte a Sul. Gravando para a Sinter, onde tem posto na cera sucessos indiscutíveis, como “Murmúrios”, “Marcha do beijo”, “Eu quero ver um samba” e tantos outros, e figura ainda na vanguarda daqueles que são chamados a gravar jingles. Agora mesmo, esse popularíssimo “Isto faz um bem”, deve-se a voz bonita da nossa entrevistada. Daí, possuir em seu acervo de jingles gravados nada menos de cento e cinquenta “musiquinhas”, que lhe proporcionaram o pomposo e invejável título de “Rainha do Jingle”, láurea que a estrela faz questão de usar.

Atualmente as casas de discos estão expondo à venda “Quisera”, bolero de Getúlio Macedo e Lourival Faissal; “Esperei Alguém”, samba de José Braga; “Usted”, versão de Roberto Faissal, e “Somente ilusão”, de Claribalte Passos, números esses que, como as anteriores gravações da exclusiva da Rádio Nacional, aumentarão a renda da Sinter.

Neusa Maria vive uma vida diferente fora do rádio. Não frequenta boates, nem se Interessa muito pelos jogos de futebol, e prefere a vida ao ar livre. Ela gosta do contato com a natureza. Daí, seus passeios à Quinta da Boa Vista, ao Jardim Botânico, ao Parque da Cidade e a outros recantos pitorescos da Cidade Maravilhosa. Nessas ocasiões, ela se torna uma criança grande, acompanhando sua filhinha Elizabeth, de seis anos de idade, nas diabruras que a mesma prática. Assim aconteceu por ocasião desta reportagem, em que fomos bater às portas do Jardim Zoológico. A cantora divertiu-se a valer com o hipopótamo “Nancy”, gostou de passear no camelo, e tentou fazer uns carinhos à girafa (o que não conseguiu por faltar uma escada).

Elizabeth, a filhinha de Neusa Maria, virou fã do camelo e quer voltar a visitá-lo.

A jovem artista possui um milhão de admiradores que a prestigiam com seu aplauso franco e sincero, tudo fazendo para que ela desfrute, cada vez mais, de maior prestígio no “broadcasting”, a fim de que seu nome permaneça em dia ao lado dos grandes cartazes. E Neusa Maria, compreendendo essa preferência, tudo faz para merecê-la, quer selecionando rigorosamente seu repertório, quer atendendo às solicitações daqueles que lhe endereçam um pedido para interpretar este ou aquele número. E nesse dilúvio de cartas que, muitas vezes, aparece uma declaração de amor, um pedido de casamento, ou mesmo a solicitação de um objeto de uso pessoal, a fim de ser guardado como “hobby”.

Há, por exemplo, entre os missivistas de Neusa Maria, um que é rival do acadêmico Adelmar Tavares. Todas as semanas, inspirado na bonita e agradável voz da exclusiva da PRE-8, ele compõe quadrinhas que o correio se apressa em levar.

Todas essas demonstrações de amizade a estrela corresponde com a interpretação dos bonitos números que formam seu repertório, porque seu coração, meus amigos, já está de há muito ligado ao do seu príncipe encantado, que é o paizinho dessa inteligente e viva Elizabeth.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 20, setembro de 1953.

Nora Ney, a Iracema da Voz de Mel


Da "cantina" de César de Alencar até aos pináculos da carreira radiofônica - Um contrato que teve a duração de vinte e quatro horas (Reportagem de Armando Migueis - Foto de Milan).

Tudo não passou de simples brincadeira. Dona Iracema Pereira Maia, numa dessas noites bem cariocas cismou de distrair o espirito, e foi, em companhia de pessoas amigas, dar um giro pela “cantina” do César de Alencar. Gostou do ambiente. Gostou dos frequentadores e por fim gostou do pedido que lhe fizeram os presentes: para que cantasse alguma coisa. Viu que o ambiente pedia música francesa. Por essa razão, foi buscar no repertório do irrequieto Charles Trenet uma de suas bonitas canções. No final, pediram “bis”, e pediram também outros números deliciosos.

Como complemento, um convite de César de Alencar para que aparecesse no sábado seguinte em seu programa. Ele gostaria de experimentá-la em “Será que eles vão?” Dona Iracema prometeu que ia, e foi realmente. Como na “cantina”, escolheu música francesa. César e o auditório vibraram com aquela voz inconfundível.

Haroldo Barbosa, porém, vibrou ainda mais. Tanto, que não se afastou do aparelho receptor um só segundo, apesar de estar na horinha do Teófilo de Vasconcelos dar o resultado de mais um páreo corrido. E, valendo-se do telefone, fez um convite a dona Iracema: Desejava sua presença nos programas da Rádio Tupi. Como compensação, oferecia cem cruzeiros de cache pelas audições diurnas. A noite, dobrava a parada, isto é, o cache seria de duzentos cruzeiros. Dona Iracema pediu vinte e quatro horas para resolver.

Nessas vinte e quatro horas, deixou de preparar o jantar, esqueceu-se de telefonar para a costureira, e não conseguiu pregar olhos, embora se deitasse mais cedo.

As seis horas da manhã do dia imediato, sua resolução estava tomada: Trocaria os afazeres domésticos pela carreira radiofônica. Deixaria de ser formiga para se tornar cigarra. E, quando Haroldo Barbosa abriu a porta de sua sala de trabalho, lá encontrou dona Iracema. Ela madrugara nos
estúdios da PRG-3, embora soubesse que o produtor de “Semana em Revista” sempre chega atrasado.

Houve o costumeiro bate-papo. Haroldo falou numa carreira promissora. Disse que a Tupi era o caminho aberto para o estrelato. Por fim, prometeu um contrato, desde que ela correspondesse.

Nessa altura dos acontecimentos, dona Iracema Ferreira Maia passou a ser Nora Ney. Um nome simples, porém radiofônico. Ela gostou, e os ouvintes também.

Nora Ney correspondeu. Haroldo Barbosa cumpriu a promessa. Deu-lhe um contrato. Três mil cruzeiros por mês. Esse contrato, porém, teve a curta duração de vinte e quatro horas: é que a Rádio Nacional, no afã de contratar elementos de valor para seu “cast”, dobrou a quantia oferecida pela
PRG-3.

E lógico que a estrela preteriu quem pagava mais. Todavia, teve de permanecer “na cerca” durante trinta dias, afim de conseguir a rescisão do contrato que assinara. Feito isso, passou-se com armas e bagagens para a PRE-8, sua atual estação.

Nora Ney é urna criatura diferente. Nela há naturalidade nos gestos, nas palavras, e nas atitudes. Não faz segredo dos contratempos, nem esconde os dissabores por que tem passado. Dos seus triunfos, porém, quase não fala. Parece ficar encabulada quando tem de mencioná-los.

A estrela tem uma profissão liberal: Formou-se contadora pela Escola Amaro Cavalcanti. Do contato com os estudos nasceu uma certa ojeriza pelos afazeres domésticos, a ponto de preferir os quitutes que outros fazem a ter de enfrentar a cozinha. No lar, divide seu tempo entre Vera Lúcia, uma garota de nove anos, e Hélio, um menino de cinco. Fora disso, cuida de sua coleção de xícaras e de seus selos.

Não acorda cedo nem por um decreto. Justifica-se: é que saí do Copacabana às três horas da manhã. Sim, porque Nora Ney é uma das atrações máximas do show que essa boate oferece a seus frequentadores. Interpretando como ninguém as bonitas composições do notável Antônio Maria, a exclusiva da Rádio Nacional criou um público bastante invejável. E, quando a cantora anuncia “Menino Grande” ou “Ninguém me ama” um frenesi domina completamente a turma.

Por falar em “Ninguém me ama”, esse número constitui um recorde de vendagem de gravações. Antônio Maria e Fernando Lobo não poderiam ser mais felizes quando fizeram esse grande samba. Do Leblon até Santa Cruz, toda a população cantarola a melodia. Sucesso quase tão grande teve
“Menino Grande”. As casas de discos não tem mãos a medir. Quanto disco apareça, quanto disco é vendido.

Com trinta anos de idade, um ano e pouco de rádio, e um futuro promissor à sua frente, Nora Ney promete, agora, depois do carnaval, uma nova gravação. Como sempre, Antônio Maria está no meio. Trata-se de “Onde anda você”, em que aparece também Reinaldo Dias Leme. Na outra face, um número de Luiz Bonfá, intitulado “De cigarro em cigarro”. A julgar-se pelas gravações anteriores, e pelo nome dos compositores, teremos um novo sucesso.

Iracema Ferreira Mata, que cedeu lugar a Nora Ney, calça sapatos número 35, usa manequim 42, não tolera bebidas e é francamente da comida italiana. Aliás, descende de italianos e alemães. Fuma cigarros Hollywood, e, nas refeições, bebe cerveja preta. Sua cor predileta é o verde.

Por estranho que pareça, a feliz intérprete de “Ninguém me ama” aspira, no futuro, a possuir uma bomba de gasolina, mesmo não tendo nenhum “cadillac”.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 14, junho de 1953.

terça-feira, maio 23, 2017

Carmélia Alves, a Rainha do Baião

Carmélia é a simpatia em pessoa, em todos os momentos e todos os flagrantes. 

Começou nos programas de calouros, a “Rainha do Baião” ... Gosta de onça, sem ser “amiga” da mesma ... Tudo teve início em “Calouros em Desfile”. Carmélia Alves, fã incondicional de Carmem Miranda, inscreveu-se no veterano programa da Tupi, para cantar “Veneno para dois”, número de invulgar sucesso do repertório da “Pequena Notável". A Interpretação parece ter saído a contento, porque nem Makalé funcionou no gongo, nem Ari Barroso deixou de premiá-la com a nota cinco. (Reportagem de Armando Migueis - Fotografia de Milan)

O primeiro sucesso abriu perspectivas para nova incursão. Carmélia apresentou-se na “Hora do Tiro”, ainda interpretando um sambinha que Carmem gostava de incluir nas suas audições: “Polichinelo”. Barbosa Júnior, tal como o “homem da gaitinha”, não teve dúvidas em conceder-lhe o prêmio máximo, convidando-a mesmo para auxiliá-lo nas audições do famoso “Programa Picolino”. Ela topou o negócio que, no fim do mês, lhe rendia trezentos cruzeiros. Mas, nessa altura dos acontecimentos, a Mayrink Veiga viu partir sua grande estrela, e precisou portanto contratar um bom elemento para preencher a vaga de Carmem Miranda, e lembrou-se da garota que continua sendo uma de suas maiores admiradoras. Carmélia assinou um contrato regular, dando começo à sua carreira profissional. Teve sorte, porque se fez notar entre as demais intérpretes de nossa música popular.

Com um posto assegurado no sem-fio, a atual “rainha do baião” voltou-se para o cinema, inscrevendo-se num concurso instituído pela Cinédia, e do qual faziam parte Celestino Silveira e José Lina do Rego. Encerrado este, a cantora viu-se premiada em fotogenia e dicção. Fracassou nos demais testes, mas não desanimou, e como recompensa recebeu vantajosa proposta para atuar no “show” do cassino Copacabana, tornando-se um dos números mais aclamados.

Dois anos decorridos dessas vitórias, foi chamada para gravar na RCA Victor. Completou-se assim um sonho alimentado em pleno desabrochar da mocidade, e Carmélia gravou na cera “Quem dorme no ponto é chofer”, um samba de Assis Valente (Ainda aqui, vemos o compositor preferido de Carmem Miranda servindo de “abre-te sésamo” para Carmélia, numa demonstração de apreço pela grande Carmem).

O ano de 1944 encontrou a atual exclusiva da PRE-8 brilhando ao microfone da PRA-9, e no “show” do Copacabana, onde veio a conhecer Jimmy Lester, com quem se casou. Foi um namoro relâmpago, pois no fim de três meses ambos compareciam à Pretoria. Iniciaram, então, uma excursão à Bahia, e lá permaneceram algum tempo, em virtude da calorosa acolhida. A seguir, rumaram para São Paulo, atendendo a um compromisso com o cassino de Guarujá. Daí, em virtude do término do jogo e consequente fechamento dos cassinos, o casal de artistas passou a trabalhar nas boates bandeirantes.

Numa delas, por sinal, a intérprete de “No mundo do baião” lançou, com indiscutível aceitação, esse ritmo que a tornou famosa. Para tanto, utilizou-se de um “balancê”, ao qual imprimiu o sentido de baião. Foi quanto bastou para que a boate Jequiti vivesse repleta.

Três longos anos separaram Carmélia Alves de seus fãs cariocas. Mas, numa noite de 1949, Vítor Costa, de passagem por São Paulo, deu um pulo até a boate Marabá, e ali encontrou a cantora. Conversaram bastante, e por fim Vítor propôs-lhe um contrato na Rádio Nacional, que não chegou a ser assinado, em virtude da estrela ingressar na Mayrink e voltar aos “shows” do Copacabana, em substituição a Elda Mayda. Nesse mesmo ano, a premiada de “Calouros em Desfile” foi eleita “Princesa do Rádio”, título que voltou a conquistar no ano seguinte, e em 1952.

Em 1951 ingressou na Nacional, a sua presente emissora. Também mudou de fábrica de gravações, assinando contrato com a Continental, onde lançou com extraordinário êxito “Me leva”, baião de Hervé Cordovil, que já anda pela casa dos cento e vinte mil discos vendidos. Gravou, ainda, “Diga que sim” e “Tic-Tac do relógio”, além de “Trepa no coqueiro”, número criado por Bibi Ferreira, e que mais tarde, transformado em baião, mereceu as honras da bonita voz de Carmélia Alves. Recentemente, botou na cera, com o trio Melodia, a composição de Humberto Teixeira, “Ajuda teu irmão”, destinado às vítimas da seca.

O cinema, diante da ascensão da cantora, foi-lhe ao encontro. Assim, apareceu em “Tudo Azul”, fazendo um número, trabalhou em “Agulha do Palheiro”, a ser lançado. Participou de “Está com tudo”, uma produção de Luiz de Barros (só apareceu no trailer, porque a cópia pegou fogo. Daí a crítica de Celestino Silveira, lamentando o ocorrido).

Nascida e criada em Bangu, torcendo pelo clube dos irmãos Silveirinha, sonhando com uma excursão pelo Velho Mundo, Carmélia Alves prepara-se para uma visita a Buenos Aires, atendendo ao chamado da Rádio Splendid. Nessa oportunidade, levará um pequeno conjunto de que farão parte Sivuca, Jimmy Lester e um baterista. Caso tudo corra às mil maravilhas, ela estenderá a excursão ao país de Tio Sam.

Mas, enquanto não chega esse momento, a exclusiva da PRE-8 continua devotada às crianças, pelas quais tem invulgar afeição, embora não tenha filhos. Em compensação, tem um punhado de sobrinhos que adoram a voz da “titia”. Depois das crianças, Carmélia é francamente dos bichos. Gosta de cachorros, gatos, passarinhos ... e de onças. Aliás, é dona de um belíssimo exemplar desses felinos, trazido do Piaui. Isto não quer dizer, porém, que ela seja “amiga da onça” ... Com seu metro e sessenta de altura, e seus cinquenta quilos de peso, a criadora de “Quem dorme no ponto é chofer” não despreza um camarão com chuchu, nem um filme de James Mason. E. quando o tempo permite, bota no “pick-up” uma gravação de Carmem Miranda ou de Sílvio Caldas.

Modesta ao extremo, não será difícil encontrá-la metida num vestido azul, com a cabeleira de falsa loura, a palestrar com os fãs que a procuram. Talvez nisso, e na personalíssima interpretação das nossas melodias populares, resida a razão de ser do seu enorme cartaz no rádio brasileiro.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 13, maio de 1953.

Adelaide Chiozzo provoca desastres ...

De caloura do programa "Papel Carbono", Adelaide atingiu a glória ao microfone da PRE-8.

A história tem alguma coisa de semelhante à de Cinderela ... Não que Adelaide Chiozzo fosse descoberta pelo sapatinho ... Todavia, há a figura providencial daquele senhor que, passando pela imobiliária do "seu" Geraldo, procurou saber quem arrancava do acordeom tão bonitas melodias. E, quando descobriu, fez tudo para inscrevê-la no programa "Papel Carbono", a ser apresentado no dia seguinte. (Reportagem: Armando Migueis; Fotografia: Milan)

Sobraçando o instrumento do “papai", Adelaide Chiozzo, mais nervosa do que calma, bateu um ligeiro papinho com Renato Murce, e, após ensaiar "Mariana", propôs-se imitar o sanfoneiro Pedro Raimundo, enquanto o “mano” Afonso, também presente ao programa, inscrevia-se para bancar o Luís Gonzaga. Na hora da apresentação, a nossa entrevistada fez o auditório da Rádio Nacional vibrar com a imitação, levando Vítor Costa a contratá-la por três meses, para constituir, em dupla com o Afonso, uma nova atração para os sintonizadores da PRE-8.

Desconhecendo por completo uma nota musical sequer, Adelaide Chiozzo ingressou no “broacasting” carioca através da mais popular emissora brasileira. Isto, porém, não constituiu fato importante na vida da estrela. Tanto que, decorridos os três meses de contrato, a dupla Irmãos Chiozzo passou a atuar em diversas estações.

Só em 1949, com o casamento de Afonso, é que Adelaide voltou à Rádio Nacional, como integrante do conjunto de Dante Santoro. A essa altura, porém, o cinema nacional já contara com seu concurso, em "Este mundo é um pandeiro", em que apareceu executando um número ao lado do “cowboy” Bob Nelson. A esse filme seguiu-se "E com este que eu vou", ainda com Bob Nelson.

Quando tudo parecia correr às mil maravilhas, "seu" Geraldo enguiçou com a presença da filha no rádio. Como consequência, veio seu imediato afastamento dos programas da PRE-8 e um descanso forçado, que durou até 1951, quando Renato Murce, com muito jeito, convenceu “seu” Geraldo a deixar a filha excursionar pelo interior paulista. Nessa excursão, apesar da presença da mamãe, Adelaide descobriu seu príncipe encantado, na figura do violonista Carlos, que, como os demais excursionistas, fazia parte do “cast” da Nacional.

Adelaide Chiozzo, ao retornar ao Rio, voltou a ser assediada pelos diretores da PRE-8 com um contrato vantajoso. Como sabe contar até dez, não teve dúvidas em assiná-lo, passando a exclusiva. Hoje, gozando de popularidade imensa, a filhinha do “seu” Geraldo é a segunda colocada no volume de correspondência, recebida, a qual responde religiosamente. A média de cartas que lhe são remetidas por semana atinge a duas mil e quinhentas.

Brilhando na constelação do rádio, abafando nas grandes cidades do interior brasileiro e enchendo de lucro as marcas de gravações, Adelaide Chiozzo constitui, afinal, um apreciável reforço de bilheteria para o cinema nacional. Depois de participar de “Carnaval no Fogo”, “Aviso aos Navegantes”, “Aí vem o Barão”, “Barnabé, tu és meu”, a vitoriosa acordeonista aparecerá estrelando “É fogo na roupa”, em que fará o papel romântico de “Diana”, ao lado de Benê Nunes, Heloísa Helena e Ivan Curi.

Adelaide Chiozzo, entre os números de sucesso que já gravou, destaca “Tempo de criança”, que alcançou a vendagem de trinta mil discos; "Pedalando”, com sessenta mil, e “Beijinho doce”, que, diga-se de passagem, foi o seu maior êxito, haja vista que até agora, já vendeu noventa e cinco mil. Afora esses números, gravou na cera “Para bombardino”, “Cada Balão uma Estrela”, “É noite, moreno”, “Minha Casa”, “Zé da Banda”, “Vapô de Carangola” e muitos outros.

Conhecendo duzentas e dez cidades brasileiras, a estrelíssima da PRE-8 tem servido de tema para alguns casos pitorescos, como o ocorrido na Avenida Presidente Vargas, em que um fã, embevecido pela intérprete de “Beijinho Doce”, abalroou-lhe o carro, provocando sério prejuízo. Mas, diante da satisfação de falar com Adelaide, prontificou-se a pagar todos os prejuízos, embora recomendasse ao Carlos que lhe arrumasse um retrato da esposa autografado.

Foi também em consequência da popularidade que não lhe foi possível inaugurar, na data marcada, os estúdios da Rádio Timbira, em São Luís do Maranhão, tal o acúmulo do público. Foi preciso transferir para o dia seguinte a solenidade, quando as autoridades providenciaram seguro cordão de isolamento. É desse jeito o prestígio de Adelaide Chiozzo.

Nascida no Braz, em São Paulo, num dia treze de maio, é louca por macarronadas à italiana. Seu maior desejo, consiste em ter seis filhos, e para tanto sonha com uma fazendola para melhor criá-los. Mas, enquanto os guris não nascem, ela sai todas as manhãs, de caniço e samburá, rumo às pescarias, juntamente com o esposo.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 11, março de 1953.

Ângela Maria, a Revelação de 1952

O velho canhão da Praia Vermelha serve de brinquedo para a garota que adora cantar.

A garota revelação de 1952 espera figurar em 1953 entre os maiores valores do nosso rádio ... e bem o merece. Começou cantando no coro da Igreja Batista e sonhava ser cantora de ópera. Tinha um nome bíblico: Abelim. Chamava-se Abelim Maria da Cunha, natural do Estado do Rio. (Reportagem de Waldemar Henrique e Kasmér)

Assim deve começar a biografia de Ângela Maria, a garota revelação do rádio em 1952.

"Sou novata" - diz-nos Ângela Maria sorrindo. "Minhas preferências são: a música, as viagens e os passeios, isto, naturalmente, sem mencionar minha filhinha de criação, a Rosângela, você conhece? Não é um amor? Não parece comigo? ... Pois bem, excluindo a família, Rosângela, e meu trabalho artístico, que muito me preocupa, adoro viver, cantar e ir à praia.

A cantora dolente dos sambas-canção adora o mar e sonha cantar as cantigas praianas de Caymmi.

Não gosto de ser vaidosa nem de ser convencida. Vejo as coisas como elas são. Estreei no rádio há um ano e pouco, contra a vontade da minha família. A princípio foi pouco satisfatório, mas eu senti que pisava em terreno firme. Aos poucos fui vencendo. Estou certa de que em março de 53, quando completar dois anos de "carreira artística", já serei "alguém" no rádio. Imagine que já tenho propostas para ir à Europa.

1 - Rosângela, a filhinha de criação, é uma das grandes paixões que tem a revelação do rádio; 2 -
Entre os coqueiros da praia, posa para o fotógrafo de "Cinelândia" ao lado da carrocinha de frutas.
Presentemente canto na Nacional e na Mayrink. O rádio dá cartaz e abre todas as portas da chance. Vou cantar e representar no filme da Flama, "Departamento Suicida". E também atuo em boates: trabalho no "Casablanca" e no "Monte Carlo", simultaneamente. A boate nos põe em contato com a alta sociedade, e as nossas apresentações tornam-se no palco mais interessantes do que no rádio. Tome nota: em 53 terei já o meu carro, um Jaguar lindo com que sonho sempre. Vou-me apresentar no Carnaval com seis músicas, dentre as quais considero as mais fortes "Mestre da Vila" e "Prece do Senhor". Sou solteira, que, a meu ver, está em bom caminho, mas muito no princípio ainda. Ainda não sou uma estrela como espero vir a ser".

Aí têm os leitores a pequenina história de Ângela Maria, a garota que pertencia à religião batista, como toda a sua família, e que para seguir cantando no rádio teve de abandonar essa religião.

Ao lado dos arcos de Santa Teresa, ela afirma que será "alguém" na nossa música no próximo ano.

O maestro Roberto Inglês disse que Ângela Maria era a mais completa artista para o samba: "Tem voz, emoção, personalidade e ritmo. Quando ela tiver a experiência de Linda e Dircinha Batista, serpa insuperável" - afirmava-nos o maestro após os ensaios com Ângela Maria.

Ângela Maria recebe atualmente numerosa correspondência de todo território nacional e frequentemente vêm pedidos de casamento na correspondência. De modo geral, todas as cartas são respondidas com o maior critério. "Respeito o conceito dos meus fâs", diz ela.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 9, janeiro de 1953.