quarta-feira, maio 24, 2017

Esther de Abreu, o Rouxinol de Coimbra


Esther de Abreu foi ficando no Brasil ... e o Brasil gostou de Esther de Abreu - Uma voz do cancioneiro português que sabe também interpretar a nossa música popular. (Reportagem de Armando Migueis e fotos de Milan)

Não foi sem surpresa que entramos no apartamento de Esther de Abreu, numa rua tranquila de Copacabana. É que a bonita intérprete do cancioneiro português entregava-se, então, à limpeza do lustre que orna a sua sala de estar. Percebendo nosso espanto, fez questão de declarar que, como ex-interna do Colégio Santo Antônio, em Lisboa, é uma completa dona de casa, sabendo cozinhar, cerzir meias, fazer tricô e, ainda, cuidar da arrumação do “lar, doce lar”, conforme víramos.

Espírito comunicativo e folgazão, Esther de Abreu coloca o jornalista a vontade, lamentando a ausência de um bom licor da santa terrinha. E, com a desculpa, vem a informação de suas preferências culinárias. Ela não é do bacalhau à moda, nem tampouco das papas. Gosta, isto sim, de uma valente feijoada completa. Também admira, e muito, a comida à baiana. Às vezes, porém, para variar, enfrenta mesmo um cozido.

A “glamorosa” intérprete de “Coimbra” não fuma. Justifica esse desinteresse pelo cigarro por entender que ele quebra a linha de feminilidade que toda representante do sexo frágil deve possuir. Em compensação, distrai-se jogando “buraco”. Confessa fazer diabruras quando consegue uma “canastra” ... Aliás, Esther lamenta o tamanho do apartamento, em que se encontra provisoriamente e que não permite reunir as pessoas de suas amizades para uma partidazinha. Em compensação, de sua varanda, pode olhar sua filhinha Maria Manoela, que estuda num colégio em frente, e isto, a seu ver, compensa.

Numa atitude glamorosa, a intérprete do cancioneiro português posa com seu vestido de baile.

A exclusiva da Rádio Nacional é uma recordista de viagens. Conhece o território brasileiro de ponta a ponta. Já cantou para os nossos irmãos do Norte; exibiu seus dotes vocais para os nossos patrícios do Sul, e vive alegrando a turma do Centro. Assim, quando do lançamento de “Coimbra”, conseguiu vender quase cem mil discos, embora tivesse de enfrentar a concorrência de outros grandes intérpretes, como Alberto Ribeiro, Albertinho Fortuna, etc. Aliás, com a belíssima composição de Antônio Ferrão, Esther de Abreu levantou a taça de “Parada dos maiorais”, instituída pelo programa César de Alencar.

Mas não só a música portuguesa tem entrado nas cogitações da vitoriosa artista. Ela é francamente de nossas melodias: estreou num dos carnavais cariocas interpretando duas marchinhas. Fez sucesso, e acabou caindo no samba rasgado e no baião, cantando “Serenata”, samba escrito por Linda Batista há mais de dez anos, e “Baião do Amor”, composto pela queridíssima Carolina Cardoso de Meneses. São duas gravações Sinter que revelam claramente as qualidades de Esther de Abreu para a música popular brasileira.

Esther tem ganho lembranças artísticas e vários troféus. Eis um deles no flagrante.

Vindo ao Brasil para participar do show “Sonho nas berlengas”, apresentado pelo Copacabana Palace, a intérprete de “Cabral no Carnaval” convenceu, deixando-se ficar por estas plagas. É que seu contrato com aquela casa de espetáculos, em virtude do êxito obtido, teve de ser dilatado.
E, nessa altura dos acontecimentos, aconteceu a Rádio Nacional. Ingressando no “cast” da PRE-8, conquistou de imediato, a simpatia geral, a ponto de participar da maioria de programas musicais dessa estação. Com o contrato da Rádio Nacional vieram outras propostas. Turnês pelo Brasil fora. Participação nos shows das grandes boates. Temporadas nas emissoras do interior. Tudo isso, trocado em cruzeiros, representa uma apreciável parcela no orçamento de quem vive do canto.

Esther de Abreu descende de uma família de artistas. Agora mesmo, na Companhia de Walter Pinto, figura uma de suas irmãs. É a vedete Gilda Valença. Anteriormente, outra de suas irmãs brilhou numa companhia de revistas. Referimo-nos a Julieta Valença, que o casamento afastou da ribalta, apesar da carreira promissora que vinha realizando. Outro parente próximo da cantora integra um conjunto musical. Com esse punhado de valores entre os seus, Esther não escapou à vocação. Tanto que continua aumentando o cartaz da família, quer participando dos programas da Rádio Nacional, quer gravando bonitas composições, como o fado “Confesso”, de Frederico Valério, que a Sinter lançou. Também de Paulo Tapajós, a exclusiva da PRE-8 gravou “Segredo”. Com esse número, Paulo Tapajós estreou no fado. Estreou por sinal auspiciosamente conhecendo-se a personalidade da intérprete.

Entre a música e o lar vive, portanto, Esther de Abreu. Uma vida agradável para quem nasceu “cigarra”. Para quem procura alegrar a alma do povo com as melodias suaves do cancioneiro internacional.  Sim, porque ela canta em quatro Idiomas. Tanto que, ao microfone da Emissora Nacional de Lisboa, conquistou um prêmio interpretando composições em inglês, francês, espanhol, português. Em nosso idioma ela escolheu “Maringá”. Saiu-se a contento e a contento continua no agrado dessa gente hospitaleira que nasceu sob o signo do Cruzeiro do Sul.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 21, setembro de 1953

Neusa Maria, a Rainha do Jingle


De empregada no comércio a um programa de calouros ... e do programa de calouros para a constelação da Rádio Nacional ... eis a história de como a jovem Vassiliki transformou-se em Neusa Maria. (Reportagem de Armando Migueis e fotografias de Milan no Jardim Zoológico do Rio)

Num calmo bangalô de uma tranquila rua do Grajaú, a senhora Vassiliki Purchio construiu seu “home sweet home”. E ali, no aconchego de seus discos, de seus álbuns de recortes, das cartas que recebe dos fãs, que ela passa seus momentos de lazer, entretida com sua filhinha Elizabeth. Isto, desde 1944, quando trocou o rádio bandeirante pelo carioca, atendendo a um convite do veteraníssimo Renato Murce, que, sob a influência do animador César de Alencar, não perdeu tempo em contratá-la para o “cast” da Rádio Clube do Brasil.

Mas, perguntará o leitor desavisado: quem será Vassiliki Purchio, uma vez que os locutores guanabarinos jamais pronunciaram esse esquisitíssimo nome? E, como é do nosso dever, apressamo-nos em esclarecer a dúvida. Trata-se, nada mais nada menos, do que da simpatiquíssima estrelinha Neusa Maria. Sim, da intérprete de tantas melodias de sucesso, cuja presença no elenco da Rádio Nacional, a que está presa por contrato até aos últimos dias de 1954, é uma garantia de popularidade absoluta entre os aficionados do rádio. Aliás, a popularidade de Neusa Maria está confirmada através das numerosas propostas que recebe para participar de diversos shows em diferentes cidades brasileiras.

Recentemente ainda, ao chegar de uma excursão a diversas cidades mineiras, a apreciada cantora recebeu convite para uma ligeira temporada em Curitiba. Mas a oferta não compensava a viagem, motivo por que a estrela aceitou um contrato vindo de sua terra, isto é, de São Paulo.

A exclusiva da PRE-8 iniciou-se no comércio. Por sinal, pregando uma colossal mentira ao gerente da loja que a contratou para caixa. E que ao invés de dar sua verdadeira identidade, preferiu arranjar outra, tão complicado achava o nome de Vassiliki. Por isso, quando teve de apresentar a carteira profissional, a inteligente “caixa” começou a sentir uma furiosa tremedeira. Pensou, de início, numa despedida sumária . . . mas o gerente, após ouvi-la, declarou que bastava aquele Vassiliki para perdoá-la da peta ...

Do comércio, Neusa Maria resolveu dar uma espiada no programa de calouros que o saudoso Otavio Gabus Mendes apresentava ao microfone da Rádio Record. Da espiada, veio a inscrição. Da inscrição veio o convite para ingressar no “cast” da PRB-9. Esse convite, por sinal, veio através do fio telefônico, certa vez quando Otavio Gabus Mendes, no dia do programa, se encontrava acamado. Da PRB-9 a intérprete de nossas melodias populares passou para a Tupi bandeirante, onde recebeu a consagração de “a estrela de 1943”, título obtido por intermédio de empolgante concurso levado a efeito por um dos jornais paulistas. Neusa Maria, na votação popular, ganhou de ponta a ponta.

Sua estrela a começou a brilhar num programa de calouros quando estava empregada no comércio.

Hoje a cantora paulista é um nome conhecido de Norte a Sul. Gravando para a Sinter, onde tem posto na cera sucessos indiscutíveis, como “Murmúrios”, “Marcha do beijo”, “Eu quero ver um samba” e tantos outros, e figura ainda na vanguarda daqueles que são chamados a gravar jingles. Agora mesmo, esse popularíssimo “Isto faz um bem”, deve-se a voz bonita da nossa entrevistada. Daí, possuir em seu acervo de jingles gravados nada menos de cento e cinquenta “musiquinhas”, que lhe proporcionaram o pomposo e invejável título de “Rainha do Jingle”, láurea que a estrela faz questão de usar.

Atualmente as casas de discos estão expondo à venda “Quisera”, bolero de Getúlio Macedo e Lourival Faissal; “Esperei Alguém”, samba de José Braga; “Usted”, versão de Roberto Faissal, e “Somente ilusão”, de Claribalte Passos, números esses que, como as anteriores gravações da exclusiva da Rádio Nacional, aumentarão a renda da Sinter.

Neusa Maria vive uma vida diferente fora do rádio. Não frequenta boates, nem se Interessa muito pelos jogos de futebol, e prefere a vida ao ar livre. Ela gosta do contato com a natureza. Daí, seus passeios à Quinta da Boa Vista, ao Jardim Botânico, ao Parque da Cidade e a outros recantos pitorescos da Cidade Maravilhosa. Nessas ocasiões, ela se torna uma criança grande, acompanhando sua filhinha Elizabeth, de seis anos de idade, nas diabruras que a mesma prática. Assim aconteceu por ocasião desta reportagem, em que fomos bater às portas do Jardim Zoológico. A cantora divertiu-se a valer com o hipopótamo “Nancy”, gostou de passear no camelo, e tentou fazer uns carinhos à girafa (o que não conseguiu por faltar uma escada).

Elizabeth, a filhinha de Neusa Maria, virou fã do camelo e quer voltar a visitá-lo.

A jovem artista possui um milhão de admiradores que a prestigiam com seu aplauso franco e sincero, tudo fazendo para que ela desfrute, cada vez mais, de maior prestígio no “broadcasting”, a fim de que seu nome permaneça em dia ao lado dos grandes cartazes. E Neusa Maria, compreendendo essa preferência, tudo faz para merecê-la, quer selecionando rigorosamente seu repertório, quer atendendo às solicitações daqueles que lhe endereçam um pedido para interpretar este ou aquele número. E nesse dilúvio de cartas que, muitas vezes, aparece uma declaração de amor, um pedido de casamento, ou mesmo a solicitação de um objeto de uso pessoal, a fim de ser guardado como “hobby”.

Há, por exemplo, entre os missivistas de Neusa Maria, um que é rival do acadêmico Adelmar Tavares. Todas as semanas, inspirado na bonita e agradável voz da exclusiva da PRE-8, ele compõe quadrinhas que o correio se apressa em levar.

Todas essas demonstrações de amizade a estrela corresponde com a interpretação dos bonitos números que formam seu repertório, porque seu coração, meus amigos, já está de há muito ligado ao do seu príncipe encantado, que é o paizinho dessa inteligente e viva Elizabeth.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 20, setembro de 1953.

Nora Ney, a Iracema da Voz de Mel


Da "cantina" de César de Alencar até aos pináculos da carreira radiofônica - Um contrato que teve a duração de vinte e quatro horas (Reportagem de Armando Migueis - Foto de Milan).

Tudo não passou de simples brincadeira. Dona Iracema Pereira Maia, numa dessas noites bem cariocas cismou de distrair o espirito, e foi, em companhia de pessoas amigas, dar um giro pela “cantina” do César de Alencar. Gostou do ambiente. Gostou dos frequentadores e por fim gostou do pedido que lhe fizeram os presentes: para que cantasse alguma coisa. Viu que o ambiente pedia música francesa. Por essa razão, foi buscar no repertório do irrequieto Charles Trenet uma de suas bonitas canções. No final, pediram “bis”, e pediram também outros números deliciosos.

Como complemento, um convite de César de Alencar para que aparecesse no sábado seguinte em seu programa. Ele gostaria de experimentá-la em “Será que eles vão?” Dona Iracema prometeu que ia, e foi realmente. Como na “cantina”, escolheu música francesa. César e o auditório vibraram com aquela voz inconfundível.

Haroldo Barbosa, porém, vibrou ainda mais. Tanto, que não se afastou do aparelho receptor um só segundo, apesar de estar na horinha do Teófilo de Vasconcelos dar o resultado de mais um páreo corrido. E, valendo-se do telefone, fez um convite a dona Iracema: Desejava sua presença nos programas da Rádio Tupi. Como compensação, oferecia cem cruzeiros de cache pelas audições diurnas. A noite, dobrava a parada, isto é, o cache seria de duzentos cruzeiros. Dona Iracema pediu vinte e quatro horas para resolver.

Nessas vinte e quatro horas, deixou de preparar o jantar, esqueceu-se de telefonar para a costureira, e não conseguiu pregar olhos, embora se deitasse mais cedo.

As seis horas da manhã do dia imediato, sua resolução estava tomada: Trocaria os afazeres domésticos pela carreira radiofônica. Deixaria de ser formiga para se tornar cigarra. E, quando Haroldo Barbosa abriu a porta de sua sala de trabalho, lá encontrou dona Iracema. Ela madrugara nos
estúdios da PRG-3, embora soubesse que o produtor de “Semana em Revista” sempre chega atrasado.

Houve o costumeiro bate-papo. Haroldo falou numa carreira promissora. Disse que a Tupi era o caminho aberto para o estrelato. Por fim, prometeu um contrato, desde que ela correspondesse.

Nessa altura dos acontecimentos, dona Iracema Ferreira Maia passou a ser Nora Ney. Um nome simples, porém radiofônico. Ela gostou, e os ouvintes também.

Nora Ney correspondeu. Haroldo Barbosa cumpriu a promessa. Deu-lhe um contrato. Três mil cruzeiros por mês. Esse contrato, porém, teve a curta duração de vinte e quatro horas: é que a Rádio Nacional, no afã de contratar elementos de valor para seu “cast”, dobrou a quantia oferecida pela
PRG-3.

E lógico que a estrela preteriu quem pagava mais. Todavia, teve de permanecer “na cerca” durante trinta dias, afim de conseguir a rescisão do contrato que assinara. Feito isso, passou-se com armas e bagagens para a PRE-8, sua atual estação.

Nora Ney é urna criatura diferente. Nela há naturalidade nos gestos, nas palavras, e nas atitudes. Não faz segredo dos contratempos, nem esconde os dissabores por que tem passado. Dos seus triunfos, porém, quase não fala. Parece ficar encabulada quando tem de mencioná-los.

A estrela tem uma profissão liberal: Formou-se contadora pela Escola Amaro Cavalcanti. Do contato com os estudos nasceu uma certa ojeriza pelos afazeres domésticos, a ponto de preferir os quitutes que outros fazem a ter de enfrentar a cozinha. No lar, divide seu tempo entre Vera Lúcia, uma garota de nove anos, e Hélio, um menino de cinco. Fora disso, cuida de sua coleção de xícaras e de seus selos.

Não acorda cedo nem por um decreto. Justifica-se: é que saí do Copacabana às três horas da manhã. Sim, porque Nora Ney é uma das atrações máximas do show que essa boate oferece a seus frequentadores. Interpretando como ninguém as bonitas composições do notável Antônio Maria, a exclusiva da Rádio Nacional criou um público bastante invejável. E, quando a cantora anuncia “Menino Grande” ou “Ninguém me ama” um frenesi domina completamente a turma.

Por falar em “Ninguém me ama”, esse número constitui um recorde de vendagem de gravações. Antônio Maria e Fernando Lobo não poderiam ser mais felizes quando fizeram esse grande samba. Do Leblon até Santa Cruz, toda a população cantarola a melodia. Sucesso quase tão grande teve
“Menino Grande”. As casas de discos não tem mãos a medir. Quanto disco apareça, quanto disco é vendido.

Com trinta anos de idade, um ano e pouco de rádio, e um futuro promissor à sua frente, Nora Ney promete, agora, depois do carnaval, uma nova gravação. Como sempre, Antônio Maria está no meio. Trata-se de “Onde anda você”, em que aparece também Reinaldo Dias Leme. Na outra face, um número de Luiz Bonfá, intitulado “De cigarro em cigarro”. A julgar-se pelas gravações anteriores, e pelo nome dos compositores, teremos um novo sucesso.

Iracema Ferreira Mata, que cedeu lugar a Nora Ney, calça sapatos número 35, usa manequim 42, não tolera bebidas e é francamente da comida italiana. Aliás, descende de italianos e alemães. Fuma cigarros Hollywood, e, nas refeições, bebe cerveja preta. Sua cor predileta é o verde.

Por estranho que pareça, a feliz intérprete de “Ninguém me ama” aspira, no futuro, a possuir uma bomba de gasolina, mesmo não tendo nenhum “cadillac”.


Fonte: Revista Cinelândia, edição 14, junho de 1953.