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quarta-feira, janeiro 03, 2018

Martinho da Vila - Vida de Bamba

O 12 de fevereiro de 1938 não seria diferente dos outros dias em Duas Barras, no interior do Rio de Janeiro, se não chovesse tanto - como se o mundo fosse acabar em água - e se o calendário não registrasse um frustrante e encharcado sábado de carnaval. Na sua casa simples, o meeiro Josué Ferreira ouvia a água da chuva bater no teto de zinco e, nervosamente, fumava um cigarro atrás do outro. 


Sua ansiedade só foi quebrada quando a parteira botou metade de sua cara escura na porta entreaberta do quarto para anunciar: "Nasceu! É um menino". Doido de felicidade, Josué jamais poderia imaginar que seu único filho homem, entre quatro mulheres, teria seu destino selado pelo som do batuque que se ouvia ao longe. Com o recém nascido nos braços, a mãe, dona Teresa, abriu-se num sorriso e, trazendo-o para bem junto do peito, não hesitou: "Vai se chamar Martinho José" (foto acima a esquerda: ginga de sambista e música do morro sob a farda de sargento do exército).

Alegria em casa de pobre é um artigo de luxo que dura pouco e, na de Josué e Teresa, ela foi imediatamente substituída pelo desalento de que o pequeno Martinho era, na verdade, mais uma boca para dividir o minguado pão de cada dia. Convencidos de que o trabalho instável de fazenda em fazenda não dava mais para sustentar sua prole, eles decidiram embarcar no sonho de uma vida melhor. Afinal, Josué era alfabetizado e Teresa possuía mãos milagrosas quando assumia o comando de uma cozinha. Juntaram filhos, trapos, ambições e tomaram um trem de segunda classe para o Rio de Janeiro. Os Ferreira foram começar de novo num casebre da então Serra dos Pretos Forros, num lugar conhecido como Boca do Mato. Triste engano. "Foi brabo", recorda Martinho. "Na favela, a água era escassa, não tinha luz, não tinha nada."

No clube Vegas, n o Rio, Martinho divide o palco com Candeia.

Se em Duas Barras o meeiro Josué era um homem humilde, mas respeitado, na então capital da República ele e os seus conheceram a mais cruel de todas as misérias: a falta de esperança. Acossados por uma perversa realidade, cada um deles teve de se virar como pôde. Teresa e as meninas foram fazer faxina e outros afazeres domésticos em casas de família, enquanto o menino Martinho se empenhava nas mais variadas tarefas - como engraxar sapatos e limpar caixas de gordura - que lhe rendessem alguns trocados para reforçar o fraco orçamento familiar. A paisagem de miséria e desesperança, no entanto, foi construindo um fosso entre Josué Ferreira e o mundo. Um dia ele não aguentou mais e se matou.

Martinho brilha no desfile que consagrou a Unidos de Vila Isabel, em 1988.

Na manhã seguinte, ainda aos frangalhos, Teresa comunicou aos cinco filhos que não lhe restara outra alternativa senão a de distribuí-los pelas casas dos fiéis da Igreja Cristo Redentor, paróquia que os Ferreira frequentavam no subúrbio de Lins de Vasconcelos. Martinho se tornou uma espécie de pajem e empregado doméstico de Dona Ida e Dona Alzira, duas professoras solteironas que lhe ensinaram as primeiras letras e o empurravam para a vida sacerdotal. Filhas de Maria, elas queriam transformá-lo em padre. Mas a música ia entrando no seu cotidiano por meio das ladainhas e das folias de reis das festas populares: "O meio em que eu vivia era pleno de sanfonas e foguetes", recorda o compositor.

Porém, até os 16 anos, era o mundo da bola que o fascinava. Martinho sonhava com o dia em que, envergando a camisa do Clube de Regatas Vasco da Gama, pisaria a grama verde do Maracanã para brilhar com á mesma intensidade de seu ídolo Ademir Menezes. Até que ele levava jeito defendendo as cores verde e branca do Boquense, mas, agora se convence, nunca passou de um projeto de craque. O futebol, com suas farras e excursões, fez, no entanto, desabrochar o compositor. Entre os companheiros, ele cantava paródias que compunha, colocando letras em melodias de sucesso naqueles anos 50. Ouvindo a marchinha que Martinho havia composto para a torcida de seu time, Tolito, o diretor de harmonia da recém-fundada Aprendizes da Boca do Mato, vislumbrou seu talento e o convidou para se integrar à escola de samba.

No seu segundo carnaval, Martinho já ganhou o respeito e a admiração dos mais velhos, ao escrever o samba-enredo Carlos Gomes. Entre os sambistas de renome, passou a correr a notícia de que na Aprendizes estava surgindo um menino genial, um compositor de futuro, e muitos deles foram até a Boca do Mato para conhecê-lo. Foi assim que, pela primeira vez, ele viu celebridades como Silas de Oliveira, Walter Rosa e Padeirinho e passou a ser uma presença constante na quadra de grandes escolas, como Portela, Mangueira, Império Serrano... "Eu nem sabia quem era quem", confessa ele. "Achava, por exemplo, que Cartola era uma lenda."

Nem passava por sua cabeça tornar-se um compositor profissional, embora sua pequena e aguerrida escola dependesse cada vez mais de suas criações no carnaval. Achava que samba não dava camisa, não garantia o futuro de ninguém. Por isso, fez um curso de auxiliar de químico industrial no Senai e, durante o serviço militar, conseguiu com muito esforço ser designado para trabalhar na farmácia do quartel. Botou fé na carreira militar. Foi promovido a cabo, chegou ao posto de sargento e, nas horas de folga, compunha sua história particular do Brasil para a Boca do Mato contar na avenida. Escreveu sambas-enredo sobre o escritor Machado de Assis, o almirante Tamandaré, o diplomata Rui Barbosa e contou, entre outros acontecimentos, a independência e a construção do Rio de Janeiro.

Companheiro de palco e de samba: Martinho da Vila e Paulinho da Viola.

Promovida ao primeiro grupo, em 1960, numa sofrida escalada, a Boca do Mato voltou ao fundo do poço no ano seguinte. Teve o azar de entrar na Rio Branco logo depois do Salgueiro, que naquele carnaval promovia uma revolução com o enredo "Zumbi das Palmares". Ninguém viu a Boca do Mato, ninguém ouviu o samba de Martinho.

A frustração fez que ele cedesse ao assédio da Unidos de Vila Isabel. Na época, ele já namorava Anália Mendonça, que viria ser a mãe de Martinho Antonio, Analimar e Martinália - seus filhos mais velhos. Recebido de braços abertos, chegou cantando "Boa Noite Vila Isabel", um samba de quadra: "... Boa noite, diretor de bateria/ Quero contar com a sua marcação/ Boa noite, sambistas e compositores/ Presidente e diretores/ Para a Vila eu trago toda a minha inspiração...".

Um ano depois, em 1967, acertou na mosca ao entregar à escola o antológico Carnaval de Ilusões, feito em parceria com Gemeu, samba-enredo que avalizou a presença da Vila Isabel entre as grandes agremiações. Nascia o Martinho da Vila. Em seguida, ele conheceu o sucesso nacional com "O Pequeno Burguês", e sua vida nunca mais foi a mesma.

Pediu dispensa do exército, tirou a mãe e as irmãs das casas das patroas e adquiriu imóveis, inclusive um sítio na mesma região de Duas Barras, onde os Ferreira comeram o pão que o diabo amassou. "Achava que tudo seria passageiro e tratei de aproveitar", revela ele. "Na minha casa tinha festa todo dia." Inspirado em tanta alegria, compôs "Casa de Bamba" e botou para quebrar, em 1968, no IV Festival de Música Popular Brasileira: "...Na minha casa/ Todo mundo é bamba/ Todo mundo bebe/ Todo mundo samba...".

Martinho com a saudosa Clara Nunes.

Trinta anos de carreira depois, é fácil constatar que Martinho José Ferreira conseguiu com sua ginga mas acima de tudo com sua integridade e com a força de seu canto - percorrer caminhos difíceis, superando obstáculos que acabaram com muitas outras carreiras promissoras.


Fontes: MPB Compositores - Martinho da Vila - Editora Globo - 1996

quinta-feira, outubro 03, 2013

Sonho de um sonho

Sonho de Um Sonho (carnaval, 1980) - Martinho da Vila, Rodolpho e Graúna - Intérprete: Martinho da Vila

Compacto duplo Martinho Da Vila / Título da música: Sonho de Um Sonho / Martinho da Vila (Compositor) / Graúna (Compositor) / Rodolpho (Compositor) / Martinho da Vila (Intérprete) / Gravadora: RCA Victor / Ano: 1979 / Nº Álbum: 102.0284 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Samba.


Tom: G

Introd.:  G6  D/F#  Am7/E  G+7/D  Am/C  G/B  Am7  G

D7  G   Am
Sonhei
G/B           Em                 Am
Que estava sonhando um sonho sonhado
       D7                     G7
O sonho de um sonho /   Magnetizado
Em       Am         D7            G
As mentes abertas / Sem bicos calados
Em          Am      D7           G
Juventude alerta /  Os seres alados

E7           Am
Sonho meu
   D7              G
Eu sonhava que sonhava 
E7           Am
Sonho meu
     D7            G
Eu sonhava que sonhava
                   D7
Por isso eu sonhei

      G
Sonhei
Am        G/B                              Am
Que eu era o rei que reinava como um ser comum
          D7                    G
Era um por milhares, milhares por um
Em         Am      D7             G
Como livres raios riscando os espaços
Em               Am
Transando o universo
D7                G
Limpando os mormaços 

E7          Am
Ai de mim
 D7                    G
Ai de mim que mal sonhava 
       D7
Na limpidez

G          D/F#          Em       Em/D      Am/C
Na limpidez de uns beijos só vi coisas limpas
Am        D7/F#      D7                 G
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
D7             G         Bbo        Am
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
          D7          Ebo                  Em
A clemência e a ternura puro amor na clausura
               Am        D7        Dm/F      
A prisão sem tortura, inocência feliz 

E7            Am
Ai meu Deus
   D7                      G
Falso o  sonho que eu sonhava 
E7           Am
Ai de mim
    D7                 G
Eu sonhei que não sonhava
            D7
Mas sonhei

terça-feira, outubro 01, 2013

Amor não é brinquedo

Amor Não É Brinquedo (samba, 1978) - Martinho da Vila e Candeia - Intérprete: Martinho da Vila

LP Tendinha / Título da música: Amor Não É Brinquedo / Candeia (Compositor) / Martinho da Vila (Compositor) / Martinho da Vila (Intérprete) / Gravadora: RCA Victor / Ano: 1978 / Nº Álbum: 110.0019 / Lado B / Faixa 1 / Gênero musical: Samba.


Introdução: 

G  F  Em  Dm  C  G
  F  Em  G7  C  G7

A     F#7        Bm                 E7
Se quiser se distrair, ligue a televisão
             A     F#7                       BIS
Amor comigo não              
Bm         E7            A   A7    
Se estás procurando distração      
 D            E7          A       Bm
 o romance terminou mais cedo
C#m       F#°             Bm            F#7      Bm
Peço por favor pra não brincar com meu segredo
           E7              A        Bm                               BIS
Verdadeiro amor não é brinquedo
                        E7
Tens que chorar do meu choro
                                   A
Sorrir no meu riso, sonhar do meu sonho
                                       A7
Versar nos meus versos, cantar no meu coro
                                     D
Pra minha tristeza tens que ser tristonho
                  Dm     
Avise se estás brincando 
                                  C#m
  que eu vou ficar também de brincadeira 
    F#7                             Bm
Não choro teu choro, não sonho teu sonho
               E7                  A   
Não verso teus versos nem marco bobeira
       E7            A
 (Se quiser se distrair...)
                  E7                                    A
Eu te abri o meu peito e deixei penetrar na minha intimidade
                 A7                                   D
Tu conheces meu passado, a minha mentira e a minha verdade
                                              Dm           C#m
Mas se estás deixando furo e não estas se portando com dignidade
               F#7                Bm
Eu fecho essa porta e te deixo de fora
   E7              A           E7            A
Depois curto uma saudade (Se quiser se distrair...)

sexta-feira, junho 01, 2012

Adonis Karan

Adonis Karan, produtor cultural, nasceu na cidade de Novo Horizonte, SP, em 28/06/1943. Foi diretor nacional de projetos e eventos especiais da Rede Tupi de Televisão e coordenador geral de eventos da Rede Globo.

Durante seis anos, Karan viveu em Paris, como correspondente da Rede Globo. Nessa ocasião , foi ainda diretor artístico da casa noturna "Via Brasil", que levava artistas brasileiros e os divulgava na Europa. E foi assim que levou Martinho da Vila, Beth Carvalho, Jorge Ben Jor, Jair Rodrigues, Tânia Maria, Baden Powell e outros.

Para a RTF- Antenne 2, realizou um curta-metragem com Martinho de Vila. E dirigiu o documentário: "Bresil Insolite".

Além disso, organizou e coordenou festivais de música popular brasileira, como o" MPB-TV" Record em São Paulo; o "Brasil Canta no Rio", pela TV Excelsior; o "Festival Universitário" e de "Músicas para o Carnaval", da Rede Tupi; o "MPB Shell", para a Rede Globo; o "Som das Águas", para a Rede Manchete. Foram esses festivais que revelaram nossos principais compositores e compositores, tais como: Chico Buarque, Ivan Lins, Caetano Veloso. Gilberto Gil, Alceu Valença, Geraldo Vandré, Martinho da Vila e muitos outros.

Tendo essa ligação tão forte com todos esses artistas, produziu e dirigiu shows com todos eles, tanto  no Brasil, como nos Estados Unidos, onde, além dos citados acima, promoveu show com Elba Ramalho, João Gilberto, Carlos Lyra.

Karan foi diretor geral  da comemoração dos 50 anos de carreira de Sérgio Ricardo, que aconteceu no Rio de Janeiro e que contou com a presença de inúmeros outros artistas de relevância e também da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio.

Foi ainda produtor e coordenador geral do " Festival de Choro do Estado do Rio de Janeiro', que foi transmitido pela TVE- Rede Brasil.

Fonte: Museu da TV.

domingo, junho 19, 2011

Oi, compadre


Oi, Compadre (samba, 1977) - Martinho da Vila - Intérprete: Martinho da Vila

Compacto duplo (7") / Título da música: Oi, Compadre / Martinho da Vila (Compositor) / Martinho da Vila (Intérprete) / Gravadora: RCA Victor / Ano: 1977 / Nº Álbum: 102.0182 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Samba.



Oh, compadre
Mete o dedo na viola (2x)

Se segura no cavaco,
porque tem remandiola.

Oh, compadre
Solta o bicho e se escora
Pois o velho gavião,
ja está com as unhas de fora, compadre...

Oh, compadre
Mete o dedo na viola (3x)

Canta samba dos quilombos,
quilombeta e quilombola.
Meu compadre,
mete o dedo na viola.
Já tem mente alienada,
e nego pisando na bola.

Oh, compadre
Mete o dedo na viola (3x)

Oh, compadre
Vascaíno não se engana
Temos que ser mais fiéis
do que a fiel corintiana.

Oh, compadre
Mete o dedo na viola
Calangueia no quilombo
Canta samba na escola
Brasileiro tá cansado
de cocada e mariola.
Abre o olho, meu compadre
Porque tem remandiola.
Atrás de um som inocente
Tem um fraque, uma cartola, eu já disse...

Oh, compadre
Mete o dedo na viola (6x)

quinta-feira, maio 28, 2009

Meu laia-raiá



Meu Laiá-Raiá (samba, 1970) - Martinho da Vila - Intérprete: Martinho da Vila

LP Meu Laiáraiá / Título da música: Laiá-Raiá / Martinho da Vila (Compositor) / Martinho da Vila (Intérprete) / Gravadora: RCA Victor / Ano: 1970 / Nº Álbum: BBL 1533 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Samba.



Tom: Bm
Introdução: Bm B7 Em  F#7 Bm Bm/A   G F#7 Bm 

Bm          Em    F#7          Bm     
você é meu povo,  você é meu samba 
           C#m7/5-    F#7         Bm 
você é a bossa        e a minha voz 
               Em  F#7           Bm     
pra você, eu trago, um sambinha novo 
            C#m7/5-   F#7             Bm 
que fiz na fossa        pra cantar a sós 
           A7              Bbº    Bm 
 e também vieram beijos nunca    dados 
              C#m7/5-   F#7   F#m7/5-   B7 
abraços guardados pra você sentir 
              Em           F#7         Bm     Bm/A 
mas eu quero mesmo é me enroscar num leito 
             C#m7/5-   F#7           Bm 
apertar seu peito        e depois dormir 
  
           Em        F#7         Bm 
 dormir sonhando com você enamorada 
       Bm/A        C#m7/5-     F#7       F#m7/5-   B7 
minha noiva muito amada, meu pedaço de mulher 
                      Em             F#7          Bm 
minha história, meu segredo, minha estrela, minha fé 
        D7            C#m7/5-    F#7           Bm 
 minha escola, meu enredo, meu cigarro e meu café 
  
    B7   Em     F#7  Bm   D7 
lalaiá-raiá, lalá laiá 
          C#m7/5-   F#7    Bm 
 você é o meu laiá raiá, raiá 

quinta-feira, abril 16, 2009

Iaiá do Cais Dourado


Iaiá do Cais Dourado (samba-enredo/carnaval, 1969) - Martinho da Vila e Rodolpho - Intérprete: Martinho da Vila

LP Martinho Da Vila / Título da música: Iaiá Do Cais Dourado / Martinho da Vila (Compositor) / Rodolpho (Compositor) / Martinho da Vila (Intérprete) / Gravadora: RCA Victor / Ano: 1969 / Nº Álbum: BBL 1488 / Lado A / Faixa 4 / Gênero musical: Samba / MPB.



No cais dourado da velha Bahia
Onde estava o capoeira
A Iaiá também se via
Juntos na feira ou na romaria
No banho de cachoeira
E também na pescaria

Dançavam juntos
Em todo fandango e festinha
E no reisado
Contra mestre e pastorinha

Cantavam, iaiaralaiá, iaiá
Nas festas do alto do Cantuá
Mas loucamente

A Iaiá do cais dourado trocou seu amor
Ardente por um moço requintado
E foi-se embora
Passear de barco à vela
Desfilando em carruagem
Já não era mais aquela

E o capoeira
Que era valente chorou

Até que um dia a mulata
Lá no cais apareceu
Ao ver o seu capoeira
Pra ele logo correu

Pediu guarida
Mas o capoeira não deu
Desesperada
Caiu no mundo a vagar
E o capoeira
Caiu no mundo a vagar
Ficou com o seu povo a cantar...
Laiá, iaiá, iaiá iaiá
Laiá, iaiá, iaiá iaiá

quinta-feira, abril 13, 2006

Martinho da Vila

Martinho José Ferreira, compositor, cantor e sambista de Vila Isabel, nasceu em Duas Barras, interior do estado do Rio, em 12 de fevereiro de 1938. Começou sua carreira no III Festival de Música da TV Record, em 1967, concorrendo com a música "Menina Moça", e repetindo a experiência em 68 e 69.



Nesse último ano saiu o primeiro disco, "Martinho da Vila", com os explosivos partidos-altos Casa de bamba e O pequeno burguês e os sambas-enredo em estilo compactado "Iaiá do Cais Dourado" e "Carnaval de Ilusões", que alterariam o formato tradicional. Sua fama ampliou-se em 1974 com Canta canta, minha gente, disco que incluía o samba Disritimia, muito executada pelas rádios.

Com o velho sambista Donga.
Em 1981, voltado para o público que busca um repertório mais romântico, gravou o disco "Sentimentos", com a faixa "Ex-amor". No ano de 1988 a Vila Isabel foi a campeã com o samba-enredo "Kizomba, Festa da Raça", escrita por Martinho. No mesmo ano lança o disco "Festa da Raça" pela CBS e no ano seguinte explode como o samba Dancei, popularizado pela novela "Tieta", da TV Globo.

Tá delícia, tá gostoso, de 1995, é um novo marco na carreira do compositor, com mais de um milhão de cópias vendidas, e os sucessos Mulheres (Toninho Gerais), Cuca maluca (Garcia do Salgueiro), Devagar, devagarinho (Eraldo Divagar) e a faixa-título.

Em 1997 abriu um bar em Vila Isabel, o Butiquim do Martinho, que se tornou ponto de encontro de sambistas. No ano seguinte o lançamento de "3.0 Turbinado Ao Vivo", pela Sony, fez uma recapitulação de sua carreira, incluindo antigos sucessos ("Quem É do Mar Não Enjoa", "Vem Chegando, Chega Mais", "Casa de Bamba", "Canta, Canta Minha Gente") e clássicos do samba (Batuque na cozinha, de João da Baiana; Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida).

O arranjador Rildo Hora que dá o tom final a alguns sambas de Martinho.

Com suas enormes vendagens, Martinho quebrou o tabu dos sambistas que precisavam de vozes intermediárias para chegar à massa. Outros grandes êxitos são Assim Não É Brinquedo, Oi Compadre, Pra que dinheiro, Meu laiaraiá, Segure tudo, Balança povo, Você não passa de uma mulher, Na aba, Sonho de um Sonho, Cresci no Morro, Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade. Em 1999 lançou o CD "O Pai da Alegria".

Uma roda de samba com os integrantes da seleção de 70.

Vida de bamba

O 12 de fevereiro de 1938 não seria diferente dos outros dias em Duas Barras, no interior do Rio de Janeiro, se não chovesse tanto - como se o mundo fosse acabar em água - e se o calendário não registrasse um frustrante e encharcado sábado de carnaval. Na sua casa simples, o meeiro Josué Ferreira ouvia a água da chuva bater no teto de zinco e, nervosamente, fumava um cigarro atrás do outro. Sua ansiedade só foi quebrada quando a parteira botou metade de sua cara escura na porta entreaberta do quarto para anunciar: "Nasceu! É um menino".

Doido de felicidade, Josué jamais poderia imaginar que seu único filho homem, entre quatro mulheres, teria seu destino selado pelo som do batuque que se ouvia ao longe. Com o recém nascido nos braços, a mãe, dona Teresa, abriu-se num sorriso e, trazendo-o para bem junto do peito, não hesitou: "Vai se chamar Martinho José" (foto acima a esquerda: ginga de sambista e música do morro sob a farda de sargento do exército).

Alegria em casa de pobre é um artigo de luxo que dura pouco e, na de Josué e Teresa, ela foi imediatamente substituída pelo desalento de que o pequeno Martinho era, na verdade, mais uma boca para dividir o minguado pão de cada dia. Convencidos de que o trabalho instável de fazenda em fazenda não dava mais para sustentar sua prole, eles decidiram embarcar no sonho de uma vida melhor. Afinal, Josué era alfabetizado e Teresa possuía mãos milagrosas quando assumia o comando de uma cozinha. Juntaram filhos, trapos, ambições e tomaram um trem de segunda classe para o Rio de Janeiro. Os Ferreira foram começar de novo num casebre da então Serra dos Pretos Forros, num lugar conhecido como Boca do Mato. Triste engano. "Foi brabo", recorda Martinho. "Na favela, a água era escassa, não tinha luz, não tinha nada."

No clube Vegas, n o Rio, Martinho divide o palco com Candeia.

Se em Duas Barras o meeiro Josué era um homem humilde, mas respeitado, na então capital da República ele e os seus conheceram a mais cruel de todas as misérias: a falta de esperança. Acossados por uma perversa realidade, cada um deles teve de se virar como pôde. Teresa e as meninas foram fazer faxina e outros afazeres domésticos em casas de família, enquanto o menino Martinho se empenhava nas mais variadas tarefas - como engraxar sapatos e limpar caixas de gordura - que lhe rendessem alguns trocados para reforçar o fraco orçamento familiar. A paisagem de miséria e desesperança, no entanto, foi construindo um fosso entre Josué Ferreira e o mundo. Um dia ele não aguentou mais e se matou.

Martinho brilha no desfile que consagrou a Unidos de Vila Isabel, em 1988.

Na manhã seguinte, ainda aos frangalhos, Teresa comunicou aos cinco filhos que não lhe restara outra alternativa senão a de distribuí-los pelas casas dos fiéis da Igreja Cristo Redentor, paróquia que os Ferreira frequentavam no subúrbio de Lins de Vasconcelos. Martinho se tornou uma espécie de pajem e empregado doméstico de Dona Ida e Dona Alzira, duas professoras solteironas que lhe ensinaram as primeiras letras e o empurravam para a vida sacerdotal. Filhas de Maria, elas queriam transformá-lo em padre. Mas a música ia entrando no seu cotidiano por meio das ladainhas e das folias de reis das festas populares: "O meio em que eu vivia era pleno de sanfonas e foguetes", recorda o compositor.

Porém, até os 16 anos, era o mundo da bola que o fascinava. Martinho sonhava com o dia em que, envergando a camisa do Clube de Regatas Vasco da Gama, pisaria a grama verde do Maracanã para brilhar com á mesma intensidade de seu ídolo Ademir Menezes. Até que ele levava jeito defendendo as cores verde e branca do Boquense, mas, agora se convence, nunca passou de um projeto de craque. O futebol, com suas farras e excursões, fez, no entanto, desabrochar o compositor. Entre os companheiros, ele cantava paródias que compunha, colocando letras em melodias de sucesso naqueles anos 50. Ouvindo a marchinha que Martinho havia composto para a torcida de seu time, Tolito, o diretor de harmonia da recém-fundada Aprendizes da Boca do Mato, vislumbrou seu talento e o convidou para se integrar à escola de samba.

No seu segundo carnaval, Martinho já ganhou o respeito e a admiração dos mais velhos, ao escrever o samba-enredo Carlos Gomes. Entre os sambistas de renome, passou a correr a notícia de que na Aprendizes estava surgindo um menino genial, um compositor de futuro, e muitos deles foram até a Boca do Mato para conhecê-lo. Foi assim que, pela primeira vez, ele viu celebridades como Silas de Oliveira, Walter Rosa e Padeirinho e passou a ser uma presença constante na quadra de grandes escolas, como Portela, Mangueira, Império Serrano... "Eu nem sabia quem era quem", confessa ele. "Achava, por exemplo, que Cartola era uma lenda."

Nem passava por sua cabeça tornar-se um compositor profissional, embora sua pequena e aguerrida escola dependesse cada vez mais de suas criações no carnaval. Achava que samba não dava camisa, não garantia o futuro de ninguém. Por isso, fez um curso de auxiliar de químico industrial no Senai e, durante o serviço militar, conseguiu com muito esforço ser designado para trabalhar na farmácia do quartel. Botou fé na carreira militar. Foi promovido a cabo, chegou ao posto de sargento e, nas horas de folga, compunha sua história particular do Brasil para a Boca do Mato contar na avenida. Escreveu sambas-enredo sobre o escritor Machado de Assis, o almirante Tamandaré, o diplomata Rui Barbosa e contou, entre outros acontecimentos, a independência e a construção do Rio de Janeiro.

Companheiro de palco e de samba: Martinho da Vila e Paulinho da Viola.

Promovida ao primeiro grupo, em 1960, numa sofrida escalada, a Boca do Mato voltou ao fundo do poço no ano seguinte. Teve o azar de entrar na Rio Branco logo depois do Salgueiro, que naquele carnaval promovia uma revolução com o enredo "Zumbi das Palmares". Ninguém viu a Boca do Mato, ninguém ouviu o samba de Martinho.

A frustração fez que ele cedesse ao assédio da Unidos de Vila Isabel. Na época, ele já namorava Anália Mendonça, que viria ser a mãe de Martinho Antonio, Analimar e Martinália - seus filhos mais velhos. Recebido de braços abertos, chegou cantando "Boa Noite Vila Isabel", um samba de quadra: "... Boa noite, diretor de bateria/ Quero contar com a sua marcação/ Boa noite, sambistas e compositores/ Presidente e diretores/ Para a Vila eu trago toda a minha inspiração...".

Um ano depois, em 1967, acertou na mosca ao entregar à escola o antológico Carnaval de Ilusões, feito em parceria com Gemeu, samba-enredo que avalizou a presença da Vila Isabel entre as grandes agremiações. Nascia o Martinho da Vila. Em seguida, ele conheceu o sucesso nacional com "O Pequeno Burguês", e sua vida nunca mais foi a mesma.

Pediu dispensa do exército, tirou a mãe e as irmãs das casas das patroas e adquiriu imóveis, inclusive um sítio na mesma região de Duas Barras, onde os Ferreira comeram o pão que o diabo amassou. "Achava que tudo seria passageiro e tratei de aproveitar", revela ele. "Na minha casa tinha festa todo dia." Inspirado em tanta alegria, compôs "Casa de Bamba" e botou para quebrar, em 1968, no IV Festival de Música Popular Brasileira: "...Na minha casa/ Todo mundo é bamba/ Todo mundo bebe/ Todo mundo samba...".

Martinho com a saudosa Clara Nunes.

Trinta anos de carreira depois, é fácil constatar que Martinho José Ferreira conseguiu com sua ginga mas acima de tudo com sua integridade e com a força de seu canto - percorrer caminhos difíceis, superando obstáculos que acabaram com muitas outras carreiras promissoras.

Algumas músicas:




























Fontes: MPB Compositores - Editora Globo; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora PubliFolha.

domingo, março 26, 2006

Patrão, prenda seu gado

Patrão, prenda seu gado (chula-raiada, 1931) - João da Baiana, Donga e Pixinguinha - Intérprete: Martinho da Vila (1974)



Ô patrão / Ô patrão / Ô patrão, prenda seu gado /
Na lavra tem um ditado / Quem mata gado é jurado /
Missa de padre é latim/ Rapaz solteiro é letrado /
Em vim preso da Bahia / Só porque era namorado /
Madame Diê, lalá


Samba ioiô, samba iaiá / Que o dia e vem, doná

Eu bem sei / Eu bem sei / Eu bem sei que fui culpado/
De vir preso da Bahia / Só porque fui namorado /
Vou tirar meu passaporte / Meu camarote de proa /
Eu aqui não vou ficar / Vou-me embora pra Lisboa /
Senhorita vai ver, doná


Samba ioiô, samba iaiá / Que o dia e vem, doná

Ô, Joana, ô Maria, / Saruê pra que trabalha /
No pescoço da cutia / No pavilhão, da atalaia /
Era hoje, era ontem, era donte / Era donte, era ontem, era hoje /
Sinhazinha mandou me chamá / Corri quatro cantos /
Balão de iaiá / Balão ê, balão á