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domingo, março 18, 2012

O morro e o asfalto cantando juntos

Almoço na casa de Cartola; ao alto, o anfitrião e
Lamartine Babo; de pé, Sinhozinho, J. Efegê, Lan,
M. Camus e assistente, e Zica, mulher de Cartola.
Um domingo (mas não apenas algumas horas, todo um domingo) Lamartine Babo contaminou a Mangueira com sua alegria alvoroçante, comunicativa. Convidado para saborear uma muqueca, que seria preparada pela Zica, companheira do famoso Cartola (Angenor de Oliveira) em homenagem a Marcel Camus, o cineasta francês chegado ao Rio para aqui realizar o Orfeu do Carnaval, o Lalá acedeu prontamente.

Teria não só a grata oportunidade de visitando o decantado morro reencontrar uma de suas figuras mais expressivas e que tem o seu nome ligado à vitoriosa Estação Primeira (a aplaudida Escola de Samba dos suntuosos desfiles em nosso Carnaval).

Iria, ao mesmo tempo, conhecer um estrangeiro interessado em dar toda autenticidade ao seu filme que, embora vivendo uma lenda mitológica, ia ter como ambiente o morro com seus barracos, sua gente. E pairando sobre tudo isso, a música simples, espontânea que ali nasce.

E Lamartine lá chegou sem cerimônia, irradiando simpatia. Pouco depois, na roda que se formou antecedendo ao almoço e na qual havia tocadores de violão, de pandeiro, de tamborins, todos convocados pelo Cartola, Lamartine cantava suas composições empolgando um auditório numeroso e que ia aumentando continuamente. Não entoava apenas as suas marchinhas brejeiras, os seus sambas buliçosos.

Naquele seu jeito muito próprio, incorporando uma orquestra, ora imitava o pistão, reproduzia o trombone levando e trazendo a vara do instrumento, ora fazia a tuba grave no contra-canto que a melodia dava oportunidade. Mostrava assim os metais que sempre os queria predominantes nas introduções de suas músicas. Revezando com ele, num dueto em que se juntavam dois compositores de tendências diversas, Cartola entoava também os seus sambas.

O morro e o asfalto cantando juntos e embevecendo Camus que, pela primeira vez, via e ouvia o ritmo brasileiro em várias de suas nuances e numa exibição pura, emoldurada por um cenário exato. Depois, à mesa, fazendo piadas, elogiando a comida, Lamartine ainda manteve todos em constante alegria, envolvendo-os no seu bom-humor.

Findo o almoço, formou-se novamente a roda e então, mais animada, a mostra das canções do morro e do asfalto prosseguiu empolgante na interpretação de duas figuras exponenciais: Cartola e Lamartine Babo.

Desse domingo festivo, de gala para a música popular brasileira, ficou uma recordação muito grata entre a gente da Mangueira desejosa de uma nova visita do querido compositor da cidade que com ela comungou casando sua música com a do sambista dali, do morro. Esse reencontro, a prometida volta de Lamartine à Mangueira não deixará de ser cumprida por sua morte.

Ele voltará não somente num domingo, mas sempre que algumas de suas composições ali se fizerem ouvir tornando-o presente numa evocação saudosa e amiga.

(O Jornal, 23/6/1963)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

São João no cancioneiro

Apesar de toda a força renovadora do progresso que, indiferente, vai matando o tradicional para implantar coisas novas, atualizadas, os festejos de São João continuam, ainda encontram lugar nas cidades. Procurando transplantar para o asfalto as ingênuas comemorações roceiras nas quais o profano e o religioso se misturam, os citadinos as revivem todos os anos numa constância terna e grata.

E de par com as representações, os compositores populares dão também sua contribuição com canções que se juntam aos refrãos originados nas várias lendas ligadas ao nascimento do Baptista. Algumas têm voga rápida que não ultrapassa o curso de junho sendo logo esquecidas. Outras voltam todos os anos embora sem o alarde de seu lançamento, mas numa recordação que positiva seu agrado, marca seu êxito.

As canções tradicionais e imperecíveis

Nascidas das interpretações fantasiosas do nascimento do filho de Zacarias e Isabel que formaram o lendário e místico, várias quadrinhas tornaram-se em canções. Deram-lhes musiquinhas primárias, facílima, e elas vieram bem de longe até aos nossos dias: “Capelinha de melão/ É de São João./ É de cravos, é de rosas,/ E de manjericão.” Depois, como sempre acontece, apareceram as variantes: "Capelinha, capelinha / É de São João./ É de ouro, é de prata,/ É de manjericão.

Muitas outras, sempre na constante da capelinha e do manjericão, este último favorecendo a rima intuitiva e desejada, surgiram e são encontradas nos registros dos folcloristas. Não foi esquecido, também, que o sono longo privou o precursor de festejar o seu dia e, então, afora o espoucar dos foguetes para despertá-lo, imaginou-se outra cançãozinha na mesma infantilidade de suas congêneres: “São João está dormindo,/ Não acorda, não,/ Dê-lhe cravos e rosas/ E manjericão.

As sortes e as crendices entram no cancioneiro

Festejos que, como já ficou dito, baralharam o essencialmente religioso e o profano, eles permitiam igualmente o surgimento de um punhado de crendices ainda cultivadas como simples brinquedo ou na esperança mesmo de seus possíveis efeitos. Todas, ou quase todas, bastante conhecidas, tornam dispensável sua especificação já que até nas comemorações citadinas permanece a prática das mesmas.

Tais sortes, crenças ou presságios incorporaram-se, como seria óbvio, aos cantares juninos e deles é bem representativo o que aqui se mostra: “Ó meu São João/ Eu vou me lavar./ Se eu cair no rio/ Mandai-me tirar.” Em versinhos simples, espontâneos, aparece clara a confiança no milagre que o santo pode realizar atendendo a quem o pede.

Compositores da cidade incorporam-se aos festejos

Sugerindo novas canções, algumas valendo-se dos aspectos folclóricos dos festejos, outras apenas relacionando-se a eles, os compositores da cidade buscaram nas comemorações de São João motivos vários para suas músicas. E os mais expressivos dentre eles: Lamartine Babo, Getúlio Marinho, Assis Valente, Herivelto Martins, José Maria de Abreu, Oswaldo Santiago, Alcyr Pires Vermelho e outros, incorporaram seus nomes ao cancioneiro que alegra os folguedos em louvor do popularíssimo santo.

Não ficou ausente o famoso Noel Rosa, e também ele, recordando tristemente uma alegre noite de 23 de junho, fez um de seus mais bofitos sambas dizendo: “Nosso amor,/ Que eu não esqueço,/ E que teve o seu começo/ Numa festa de São João,/ Morre hoje sem foguete,/ Sem retrato e sem bilhete,/ Sem luar e sem violão...“. O compositor punha em ritmo dolente, o relato de uma aventura amorosa ocorrida em ambiente festivo propiciado por uma comemoração junina e que findava de maneira total, até mesmo sem o luar poético.

Perdem intensidade os festejos de São João

Perdurando, ensejando ainda grande número de festas onde a fogueira (que a lenda conta haver sido o anúncio do nascimento do filho de Isabel) se faz imprescindível o foguetório espoucante tem o fito de despertar João, as comemorações do precursor do Messias vão perdendo a intensidade de outrora. As agremiações, mesmo as carnavalescas, não ousam repetir hoje a profanação de sua congênere, a dos Zuavos, já desaparecida, que na noite de 23-6-1912 convidava seus associados para um “são jonático e maxixático baile” em sua sede na Rua Maranguape nº 34. As poucas que comemoravam a efeméride, valiam-se da data para a promoção das noitadas em arraiais que improvisam em seus salões e nas quais os participantes se apresentavam em trajes à caipira.

Tudo, como acertadamente disse Mariza Lyra, numa macaqueação (Dicionário Folclórico do Distrito Federal) sem a pureza das autênticas festas da roça. Isso com o alheamento das promoções festivas oficiais e oficiosas que eram levadas a efeito no Campo de Santana, na Quinta da Boa Vista e outros locais reconhecidamente propícios. Nem mesmo certos anúncios sedutores, que na época as companhias de navegação publicavam no Jornal do Commercio, oferecendo à colônia lusa passagens para assistir às festas de São João de Braga ao preço de 40 mil réis (hoje quarenta cruzeiros) agora são encontrados.

E, na corrida comercial, sempre ávida e disposta a aproveitar qualquer evento ou comemoração, compositores menores, fabricam musiquinhas, produzem canções tolas, favorecidas pela rima primária que São João lhes aponta.

(O Jornal, 23/6/1963)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

quarta-feira, março 07, 2012

O condutor de bonde

O condutor de bonde vem sendo, há bastante tempo, personagem glosada em muitos sambas e marchinhas carnavalescas. Os compositores transformaram-no em mote, em assunto satírico, chistoso, de suas produções. As dificuldades que o humilde servidor da Light enfrenta nos dias da pagodeira quando os bondes rodam cheios, superlotados, carregando foliões em algazarra, dão motivo aos nossos musicistas de Carnaval para canções humorísticas, ironizantes, maliciosas, quase sempre de estribilho leve, de letra fácil de ser aprendida.

Um sem número de marchinhas e de sambas já foi feito. Seria difícil, quase impossível, rememorá-los todos com precisão. Todos foram cantados pela cidade inteira e passaram, muitas vezes, de um Carnaval para Outro, a despeito de canções novas que apareciam, de outros sambas e marchinhas mais recentes que traziam, ainda, a figura do condutor como assunto de suas letras.

Uma dessas canções feitas, há já bastante tempo, por J. Cascata e Leonel Azevedo, tinha o seguinte estribilho:

Não pague o bonde iáiá,
Não pague o bonde iôiô,
Não pague o bonde
Que eu conheço o condutor...
Quando estou na brincadeira
Não pago o bonde,
Nem que seja por favor.”

Era uma marchinha bonita, de música simples, que os foilões retinham no ouvido. E, depois, em blocos, grupos e cordões, trepados no estribo ou sentados nas costas dos bancos do bonde, entoavam bem alto, animados, enquanto o condutor, a custo, suando muito, equilibrando-se no balaústre, recolhia os níqueis, apanhava os tostões dos passageiros, ou seja das “iáiás” e dos “iôiôs”. Estes e aquelas, atendendo ao que pedia a canção, fazendo o que a marchinha mandava, esquivavam-se ao apelo do “faz favor”, relutavam em pagar a passagem.

Alvarenga e Ranchinho, os dois caipiras que o falecido Duque (Amorim Diniz) trouxe de São Paulo para apresentar ao Rio quando dirigia a Casa de Caboclo, que funcionou durante muito tempo no Teatro Phoenix, também usaram o condutor numa marchinha feita para animar um de nossos Carnavais passados.

Os dois conhecidos artistas, hoje já muito aplaudidos em nossos cassinos, teatros e auditórios de emissoras em que têm atuado com grande êxito, apresentaram, então, nessa canção carnavalesca, o condutor num segundo plano, pois que a letra se demorava passando em revista a nomenclatura e o itinerário dos bondes:

O bonde da Lapa
É cem réis de chapa.
o bonde Uruguai
Duzentos que vai.
o bonde Tijuca
Me deixa em sinuca
E o Praça Tiradentes
Não serve pra gente.”

A letra, engraçada, divertida, além de focalizar o recebedor da passagem, criticar os nomes das linhas, glosava o preço das viagens. Na composição, para lhe dar característica própria, para colori-la, entrou como efeito musical o “tim-tim” da campainha, recurso que a tornou espontânea e interessantíssima.

Era assim o seu estribilho:

Seu condutor, tim-tim,
Seu condutor, tim-tim,
Pára o bonde
Pra descer o meu amor.”

Nos idos de 46, no “Carnaval da Vitória”, assim chamado por ser o primeiro que se realizou após o término da Segunda Guerra Mundial, o mesmo Alvarenga, já então dissociado do seu companheiro Ranchinho e agora em parceria com Felisberto Martins, lançaram os dois uma sátira musicada ao sempre lembrado condutor. Era em ritmo de marcha a nova composição carnavalesca que teve o título de Canção do Condutor.

Reproduzimos aqui seus maliciosos e satíricos versos:

“Seu condutor,
Ali right!
Você assim
Vai acabar sócio da Light.

Seu motorneiro
Toca o bonde, toca o bonde,
o meu amor está esperando por mim.

Senão eu canto a canção do condutor
Que é sempre assim:
Um pra Light,
Um pra Light,
E dois pra mim.”

Duvidamos que o condutor, mesmo abusando dessa percentagem de “tubarão” acabe sócio da Light como os autores da marchinha preconizavam.

O condutor continua, até hoje, pendurado no balaústre dos bondes, usando o seu clássico “faz favor” como convite ao pagamento da passagem, como apelos aos caronas que se fazem surdos ou distraídos.

Após o “Carnaval da Vitória” os compositores deixaram em paz por muito tempo os condutores não os trazendo mais para motivo de suas produções. Cremos que nenhuma marchinha ou sambinha voltou a satirizá-los nesses oito anos.

Eis porém que A. Netto, Aldacir Louro e Rubens Fausto resolvem fazer ressurgir o inefável condutor e, quase reeditando as velhas canções, usando frases características de tais composições: o “tim-tim”, o “dois pra Light e um pra mim”, deram-nos no Carnaval deste ano o “Conduta do Taioba”.

o condutor veio apresentado na corruptela que a gíria usa e o veículo de segunda classe acompanhou-o também vindo na sua designação pitoresca.

Eis a letra em questão:

O conduta deste taioba,
diz que é honesto quando cobra,
mas toda vez que faz fim . . . fim...
logo vai dizendo, dois pra Light e um pra mim.
Ele anda pendurado o ano inteiro.
É muito vivo e não tem nada de otário.
Fazendo tim... tim ...
Fazendo fim... tim ...
Este conduta acaba milionário.”

(Revista da Música Popular, n° 5 — Fev. — 1955) 
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

As pastorinhas – Uma tradição que desapareceu

Alguns dias antes do Natal já as pastorinhas traziam para as ruas da cidade o seu cortejo álacre de mocinhas e rapazes que cantavam e caminhavam dançando ao som das melodias que entoavam. Era uma tradição que vinda dos Estados se ambientava aqui na capital e dava uma nota característica aos festejos do nascimento do Menino-Deus.

Procuravam esses grupos reproduzir, rememorar a jornada dos pastores à cidade de Belém onde nascera o filho do carpinteiro José e da Virgem Maria, onde a criança escolhida para trazer os ensinamentos e os exemplos de bondade e cordura do Deus-Pai se fazia homem e iniciava assim o seu sublime apostolado de redenção, de reunir a humanidade novamente no seio do seu Criador do qual se desgarrara.

À frente desses bandos festivos, graciosa menina vestida com alva túnica branca trazia na ponta de uma vara, o mais alto possível, uma pequenina estrela. Era a guia, a estrela que levara os magos do Oriente à estrebaria humilde onde se encontrava o Messias.

Seguiam-na os três reis, com seus mantos bordados, compridos, rentes ao chão, carregando as pequenas arcas com os presentes que iam oferecer ao Menino.

Logo depois, puxando o cortejo de pastores vinha o “velho”, o Papai Noel. Barbas brancas, farta cabeleira de algodão, caminhava a custo, tremendo muito, apoiando-se no seu cajado. E cantava com voz grossa:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.”

E as pastoras, batendo as castanholas nas palmas das mãos, sacudindo os chocalhos, repetiam em coro, com alegria, sempre marchando e gingando o corpo mansamente ao ritmo da música suave que entoavam:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.

Esses passeios, esses desfiles eram feitos para as visitas aos presépios armados nas casas de pessoas amigas onde então as pastoras “tiravam a lapinha”, realizavam a cerimônia da adoração ao Menino-Deus e, ao mesmo tempo, faziam a apresentação do grupo. Chegando à casa onde estava armado o presépio o grupo de pastoras abria-se numa roda ao centro da sala e entoando os cânticos de saudação mostravam as figuras que o compunham.

Eram o caçador, a borboleta, a Samaritana, o Anjo Gabriel, os soldados, enfim um punhado de tipos que vinham, cada um por sua vez, ao centro do grande círculo e cantavam uma quadrinha ou sextilha na qual descreviam a personagem que representavam.

Depois, como nota humorística desse desfile, fazia-se o “Namoro do Velho”. Era uma cena simples, intuitiva, na qual o ancião se tornava “gaiteiro” e cheio de tremeliques aproximava-se das moças para dirigir- lhes galanteios. As pastoras evitavam-no, repetiam o velho cantando:

Sai daqui ó velho,
Velho impertinente,
Não faça vergonha
No meio da gente.”

o velho insistia. As moças repeliam-no cantando outra vez a quadrinha até que entre risos dos assistentes finalizava a cena. Cessava a música. Interrompia-se o cântico. Silenciava o compasso das castanholas. Os donos da casa traziam em bandejas, castanhas, rabanadas, figos, passas e distribuíam-nos com as pastorinhas e assistentes.

Ouvia-se o apito do mestre de cerimônias ou do diretor do conjunto e os visitantes aprestavam-se para sair. Os músicos atacavam a introdução da marchinha e as pastoras, arrastando os pés, marcando passo, deixavam a sala sob palmas e entre vivas, cantando:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.

Iam-se para outras visitas, seguiam em busca de outras casas para repetirem o mesmo espetáculo, para “tirando a lapinha” rememorarem o nascimento de Jesus na pequenina Cidade de Belém.

E, de casa em casa, cantando pelas ruas e nas salas que as recebiam festivamente, as pastorinhas passavam a noite procurando reproduzir ao vivo a jornada da gente humilde que acorreu pressurosa à estrebana onde aconchegado no feno da manjedoura foram encontrar Jesus - a criança escolhida para salvar a humanidade.

Eram assim as pastorinhas que em tempos idos anunciavam o Natal e enchiam de música e alegria a noite do nascimento do Messias.

Hoje, o progresso que destrói tradições, que mata os símbolos de saudade, que não permite a sinuosidade das divagações em que se rememora o passado e quer tudo em linha reta, rápida e decisiva, apontando do presente para o futuro, afugentou de nossas ruas os bandos festivos das pastorinhas.

Os poucos grupos que restam ficaram pelos subúrbios, pelos arrabaldes, onde ainda, na noite festiva da cristandade, continuam entoando seus cânticos, seguindo o velho trôpego que os conduz na jornada alegre, animando-os a prosseguir sempre:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.

(Revista da Semana, 28/12/1940)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

Os musicistas populares esqueceram o Natal

João de Barro
Outrora quando as festas carnavalescas não começavam tão cedo como sucede hoje, em que desde novembro os rádios já estão lançando as modinhas que vão empolgar os foliões no tríduo de Momo, e a temporada do rei da galhofa tinha o seu verdadeiro início com os bailes de máscaras na noite de São Silvestre, os musicistas populares, os sambistas e “marchistas” (esta designação é de Orestes Barbosa) dedicavam também ao Natal muitas de suas produções.

Um sem número de canções brejeiras, de marchinhas saltitantes, falava do nascimento de Jesus, exaltava a bondade do Papai Noel, amigo das crianças, que enchia os sapatinhos postos à janela ou ocultos nos fogões, de brinquedos, de festas. Outras, chorosas, dolentes, interpretavam o lamento, a queixa do menino pobre, desprezado, a quem o velhinho não visitava, não lhe deixava um presentinho qualquer.

Umas e outras, tristes ou alegres, sentidas ou exultantes, diferenciavam inteiramente, no ritmo e no motivo, dos cânticos que os grupos de pastorinhas entoavam nos seus desfiles e nas lapinhas dos presépios. Eram simples canções das ruas, com música e letra fáceis, espontâneas, que o povo de pronto aprendia e as assoviava e cantava nos seus folguedos, nas comemorações natalinas.

Houve uma dessas canções, uma marchinha, composta pelo musicista Assis Valente, que alcançou sucesso extraordinário. Êxito este ainda bem recente e que nos permite lembrar, sem grande esforço de memória, muitos dos seus versos bonitos e expressivos. Era alguém, uma criança pobre, talvez sem mimos. que contava a história do seu Natal triste, sem árvores carregadas de brinquedos, o sapato vazio:

Anoiteceu,
O sino gemeu
E a gente ficou
Tristonha a rezar.

E a canção prosseguia, assim, triste, lamuriosa:

E eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel.

Anos depois, já nas proximidades dos festejos de Momo, quando todo o repertório de músicas alegres, ligeiras, já estava riscado nos discos que as emissoras irradiavam dia e noite, João de Barro lançava uma canção de Natal que havia feito em parceria com Noel Rosa.

O seu ritmo cadenciado, lento, idêntico aos das marchinhas de ranchos e cordões carnavalescos, fez com que a classificassem como “marcha de rancho” embora a sua letra não fizesse referência alguma a pierrôs, colombinas, baianas de roda ou outro qualquer motivo carnavalesco. Descreviam os seus versos, isto sim, e com muita fidelidade a jornada das pastorinhas ao presépio de Belém, seguindo a estrela que anunciava o nascimento de Jesus:

A estrela d’alva
No céu des ponta
E a lua anda tonta
Com tamanho esplendor.

As pastorinhas
Pra consolo da lua
Vão cantando na rua
Lindos cantos de amor.

Seguiam-se outros versos que bem poderiam ser atribuídos ao “velho”, figura característica dos grupos de pastorinhas, ou a um pastor enamorado que os cantasse à sua amada:

Linda pastora,
Morena, da cor de Madalena,
Tu não tens pena
De mim que ando tonto
Pelo teu olhar.

Linda criança,
Não me sai da lembrança,
Meu coração não descansa
De tanto, tanto te amar.

Mas os foliões sem se importar com a letra fizeram-na marchinha carnavalesca. E, nos três dias de folia, blocos, grupos e mascarados cantavam sob chuva de confete o cântico dedicado aos bandos álacres de pastorinhas, a canção que elas deveriam cantar caminhando pelas ruas quando saíssem na noite de Natal para visitar os presépios.

Os musicistas populares esqueceram o Natal...

Dão todo o seu estro, toda a sua bossa ao Carnaval, aos amores de malandro, à vida dos barracos, às histórias dos morros, como se só aí encontrassem inspiração.

Os musicistas populares esqueceram o Natal....

E o nascimento do Menino-Deus é um manancial sublime e encantador de motivos que se podem cantar em versos espontâneos, com melodias fáceis e bonitas.

(Revista da Semana, 21/12/1940)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

sábado, novembro 24, 2007

Jota Efegê

Jota Efegê (João Ferreira Gomes), jornalista, pesquisador, cronista, musicólogo e escritor, nasceu no Rio de Janeiro-RJ em 27/1/1902, e faleceu na mesma cidade em 25/5/1987.

Entre 1919 e 1920, escreveu para o Jornal das Moças. Por essa mesma época, colaborou com o jornal Idéia Nacional que, entre seus redatores, contava com Carlos Maul. Em 1928, ingressou no jornal carioca Diário da Noite, passando a auxiliar Eustórgio Wanderley, fazendo crônicas carnavalescas.

A partir de 1930, trabalhou no Diário Carioca, aí permanecendo até 1960, quando se aposentou. Paralelamente, colaborou nas revistas Carioca, Noite Ilustrada e no terceiro caderno de O Jornal. Em 1931 publicou O Cabrocha, livro de crônicas e reportagens sobre as gafieiras cariocas.

Depois de alguns anos de aposentadoria, voltou a atuar na imprensa carioca, como colaborador do Jornal do Brasil (1964-1967) e depois em O Globo.

A partir da década de 1960, tornou-se historiador de nossa música popular, publicando os livros Ameno Resedá, o rancho que foi escola, Rio de Janeiro, 1965; Maxixe — a dança excomungada, Rio de Janeiro, 1974; Figuras e coisas da música popular brasileira — vol. 1, Rio de Janeiro, 1978, e vol. 2, Rio de Janeiro, 1980; Figuras e coisas do Carnaval carioca, Rio de Janeiro, 1982; e Meninos, eu vi, Rio de Janeiro, 1985, sendo os quatro últimos coletâneas de trabalhos publicados em jornais.

Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.