segunda-feira, março 12, 2012

Tolosa, o campeão do Maxixe

O maxixe bem dançado/ no passo do jocotó,/ é melhor do que melado,/ gostoso como ele só.” Assim, numa simples quadrinha conduzida por música buliçosa o carioca no princípio deste século proclamava o sabor da nova criação coreográfica brasileira. Ao mesmo tempo em que nos clubes carnavalescos e revistas da Praça Tiradentes e adjacências maxixava-se com loucura empolgando participantes e assistentes com os requebros ritmados por bandas de música ou pelo dedilhado ágil do piano.

Tolosa (Antônio Pereira Guimarães) tinha então o seu reinado dentre todos que eram exímios maxixeiros. Pedro Dias, João Mattos (atores), Le Zut, Castrinho, Asdrúbal, Gilete e poucos mais, pois era ele o melhor. Nos muitos concursos que se realizavam nos Democráticos, Fenianos, Tenentes, Galopins, Pirilampos, Caturras, etc., dançando com Ermelinda, Vidinha ou Olinda Life, suas partenaires preferidas, saía sempre vitorioso. Ao invés de ser um estilista ou fantasista como o famoso Duque (Amorim Diniz) dançava o maxixe autêntico, sem figurações, isento de floreios de coreografia.

Tolosa, maxixeiro e “rower”

Desportista, associado do Clube de Regatas do Boqueirão do Passeio, um “garrafa”, como eram apelidados os do tradicional grêmio alvi-verde, Tolosa tinha a classificação de rower no anglicismo correntio da época. Impunha-se, no entanto, como maxixeiro visto que nos volteios coreográficos e acrobáticos da decantada dança ninguém o superava. Primazia que não lograva como “patrão” em virtude de — consoante o depoimento de Chico Brício (do Bola Preta), seu companheiro e colega de agremiação — o desgaste das noitadas prejudicar sua atuação no esporte.

Boêmio, pontificando nas festas dos “carapicus”, dos “gatos”, dos ‘baêtas”, dos “zuavos” onde o aclamavam à sua chegada e interrompiam as danças para que ele com suas damas favoritas se exibisse, Tolosa aparecia na rampa de Santa Luzia mal dormido, concluindo ali a farra. Conseqüentemente foram poucos os bronzes e medalhas que conquistou como participante de regatas oficiais ou íntimas. Deixou, porém, muitos troféus conquistados em competições maxixeiras que sua esposa Ana Guimarães e seus filhos Aloysio, Ary e Arlette guardaram envaidecidos durante muito tempo.

Antônio ganha o apelido de Tolosa

Batizado Antônio, desde menino o apelido de Tolosa passou a substituir seu nome, pois no jogo de frontão ou pelota basca que disputava com a gurizada assim o chamavam porque ele procurava imitar um famoso praticante desse esporte. Via-o participando dos torneios que se realizavam no antigo Jardim Zoológico do Engenho Novo e assimilando o seu estilo provocava o elogio dos companheiros: “Puxa! Você parece o Tolosa”. A alcunha propícia, cabível, ficou para sempre e foi com ela que se popularizou nos clubes de regatas e principalmente, como maxixeiro.

A princípio, vez por outra, o chamamento familiar aparecia nos jornais consoante registro recolhido de um matutino em 1915: “... Antônio venceu o torneio de maxixe realizado no Teatro República”. Mas, uma revista semanal, O Rio Nu, no seu estilo galhofeiro assinalava a mesma vitória impondo o apelido: “O Tolosa foi aquela garapa, fantasiou-se de maxixeiro embasbacando o pessoal que lhe tem inveja. Aí, turuna!”.

Predominava, contudo, a alcunha já então usual entre os familiares como se Tolosa não fosse apenas o nome ganho com seu virtuosismo esportivo.

Maxixe, dança proscrita

Apontado por Luiz Heitor em seu livro 150 Anos de Música no Brasil como sendo “o primeiro tipo de dança urbana” criado em nosso pais, o maxixe não tinha guarida no meio social. Isto por ser, segundo o definiu Oneyda Alvarenga, “sensual e muito desenvolto”. Ficou, portanto, restrita aos clubes carnavalescos e às revistas teatrais da temporada momesca que findavam, obrigatoriamente, com uma competição de maxixe entre representantes do castelo (Democráticos), do poleiro (Fenianos) e caverna (Tenentes). Confrontos esses sempre renhidos e empolgantes.

Algumas vezes nos próprios elencos encontravam-se excelentes maxixeiros como Pedro Dias, João Mattos, Otília Amorim, Maria Lina (que foi partenaire de Duque, antes de Mlle. Arlette Dorgêre e Gaby) e muitos outros, representavam, então, as agremiações disputantes. Nas comemorações dos cinqüentenários das revistas ou outros eventos, as sociedades então participavam com os seus melhores dançarmos e entre eles era forçosamente incluído Tolosa representando os Fenianos. Acontecia, como sempre, o seu triunfo, sob aplausos delirantes de toda a platéia à cunha.

Um campeão cuida de canários

Casando, Tolosa afastou-se das noitadas dançantes nos clubes camavalescos, nos cabarés e competições em teatro. O maxixeiro famoso que, embora sem o renome de Duque e Gaby a quem se deve a divulgação da dança brasileira no estrangeiro, foi seu melhor executante em nosso país, tornou-se chefe de família burguês e caseiro. Tinha apenas, como hobby, a criação de canários em sua modesta vivenda no Rio Comprido e depois, no Méier, onde faleceu em 1948 deixando pequena pensão (através do IAPC) para a dedicada esposa e seus três filhos.

Viu, contudo, seu nome perpetuar-se como virtuose já que aparecia sucedendo-o um grupo de novos impondo a discutidíssima dança: Tolosinha, Paulista (funcionário do Jockey Club), Turquinho (co-proprietário de um dancing na Avenida Rio Branco), Kito, Jayme Ferreira (praticante de luta livre) e pouquíssimos outros. Gente que nos difíceis e acrobáticos “parafusos”, “piões”, “cobrinhas”, etc., da terminologia coreográfica do maxixe, não o deixava morrer.

Acabaram, porém, sendo vencidos impatrioticamente pelo cha-cha-cha, rock’n’roll e twist vindos dos Estados Unidos e sem sabor algum de brasilidade.

(O Jornal, 10/3/1963)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.