sábado, dezembro 07, 2013

Araci de Almeida - Dicionário Ilustrado

Araci de Almeida, segunda pessoa focalizada neste “Dicionário Ilustrado”, ao contrário da primeira — Ari Evangelista Barroso, que não é tão evangelista assim — é evangelista até a alma. Filha de pastor protestante, nascida no Méier e apaixonada por Vila Isabel e residente em São Paulo, Araci vai mantendo há anos uma dignidade artística invejável, cantando com sobriedade e com bossa, sendo talvez a mais brasileira das cantoras brasileiras. E isto quem afirma não é nenhum filho de jacaré com cobra d’água. É o conhecido e aplaudido escriba Stanislaw (o caloroso).

Amiga dileta do samba, Araci vive também para catequizar os hereges tendo mesmo, certa vez, afirmado: “Eu não sou Anchieta não mas já catequizei muito índio”. Aliás, em matéria de frases célebres, a boa Araci goza de fama somente comparável à de Tia Zulmira, veneranda senhora residente em aprazível casarão da Boca do Mato. A respeito do Eclesiastes, que já leu uma centena de vezes, Araci explicou a Stanislaw: “Tu deves ler, neguinho. Aquilo é puro existencialismo”.

Cantando ou falando, o fato é que Araci de Almeida é personalíssima e detesta imitadores, mas nem por isto deixa de tratar bem a todos, legionária que é da Boa Vontade, sendo portanto seguidora de Alziro Zarur — o que nasceu em Marte.

Dentre as maiores provas de carinho e afeição que vem recebendo através de todos estes anos de longa carreira artística, destacamos a que recebeu recentemente em São Paulo, quando da passagem de seu 40° aniversário, houve uma festa e compareceu gente de tudo que foi jeito, culminando a coisa quando deu entrada no recinto o próprio governador do Estado que, por sinal, não fora convidado. O homem entrou, dirigiu-se para ela e disse: “Vim pessoalmente apertar a mão da maior cantora popular do Brasil”. Araci sorriu encabulada e respondeu sincera: “Governador, isto são lantejoulas de sua parte”.

Assim é Araci de Almeida! O samba em pessoa!


Fonte: Dicionário Ilustrado — Texto de Stanislaw Ponte Preta — Desenho de Lan — Jornal "Última Hora", de 08/01/1958.