Arnaldo Passos, compositor, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 24/02/1915, e faleceu na mesma cidade em 1964. Foi parceiro de nomes como Luís Vieira, Monsueto e Geraldo Pereira e as composições das quais foi parceiro foram gravadas por nomes como Nara Leão, Helena de Lima, Ivon Curi e Marlene, entre outros. Na verdade, essas parcerias eram as chamadas "parcerias de divugação", ou seja, o seu nome entrava não por ter feito as composições, mas por ajudar a divulgá-las junto a gravadoras, intérpretes e Rádios.
Assinou como parceiro de Luís Vieira a toada Menino de Braçanã, estrondoso sucesso na década de 1950 que foi gravada, entre outros, por Lúcio Alves em 1959 no LP Lúcio Alves, sua voz íntima, sua bossa nova, interpretando sambas em 3-D, da Odeon. Em 1951, o LP Carnaval da Capitol que reuniu diferentes intérpretes incluiu o samba Ela, com Osvaldo Lobo, na voz de Geraldo Pereira.
Em 1956, o LP Carnaval de 1956 Nº 2 da gravadora Copacabana incluiu a marcha Ai amor, com Manoel Casanova e Rosa de Oliveira, na interpretação de Ângela Maria. No mesmo ano, teve o samba Canta menina canta, com Monsueto Menezes, na gravação de Marlene incluído no LP Vamos dançar com Marlene e seus sucessos da gravadora Sinter, e o cantor Risadinha no LP Na batida do samba da Continental regravou o samba Escurinha.
Ainda em 1956, mais duas composições assinadas por ele foram gravadas: a marcha Na casa de Corongondó, com Monsueto, na voz de Marlene para o LP "Dez sucessos para o carnaval" da Sinter, e a marcha Nem toda flor tem perfume, com Monsueto, registrada por Cauby Peixoto para o LP Carnaval 1956, da Columbia.
Em 1958, o LP Foi a noite" da gravadora Odeon, com a cantora Isaura Garcia e o instrumentista Walter Wanderley, incluiu o samba-canção Quatro paredes, com Geraldo Queiroz. Em 1962, o samba Mora na filosofia, com Monsueto, foi incluído no LP Mora na filosofia dos sambas de Monsueto da gravadora Odeon. Em 1963, Rildo Hora gravou Menino de Braçanã no LP Em ritmo de dança da Som/Copacabana.
Em 1966, Rosa Maria no LP Uma Rosa com bossa da Odeon relançou Menino de Braçanã. Em 1968, o samba-canção Quatro paredes, com Geraldo Queiroz, foi gravado pelos Trigêmeos Vocalistas no LP A volta dos Trigêmeos Vocalistas da Beverly.
Ao longo do tempo a toada Menino de Braçanã, conheceu inúmeras gravações: em 1969, Regininha, no LP Me ajuda que a voz não dá!!! da Polydor; Fábio, em 1972, no LP Os frutos de mi tierra da Polydor; Marisa Gata Mansa, no LP Viagem, em 1973, pela Odeon; Nara Leão no LP Meu primeiro amor de 1975, da Philips; pelo Trio Irakitan no LP Eternamente de 1976, da RCA Camden; por Ivon Cury no LP De corpo inteiro - Um nu artístico, e por Luiz Gonzaga em 1989, no LP Aquarela nordestina da gravadora Copacabana, entre outras gravações.
Em 1973, o cantor Noite Ilustrada, no LP Irmão do samba da gravadora Continental, relançou o samba Ela, que nessa nova versão contou com o nome de Geraldo Pereira como um dos autores, diferentemente da gravação original dos anos 1950. Em 1976, Roberto Silva no LP Interpreta Haroldo Lobo, Geraldo Pereira e seus parceiros, da gravadora Som/Copacabana, incluiu o samba Os caprichos meus, com Geraldo Pereira.
Em 1977, no LP Sambistas de bossa & sambas de breque, da série Documento da RCA Camden, foram incluídos dois sambas seus na interpretação de Geraldo Pereira: Dama ideal, com Alcebíades Nogueira, e A coitadinha fracassou, com Hélio Nascimento.
Em 1979, seu samba Escurinha, com Geraldo Pereira, foi relançado por Raul de Barros no LP O som da gafieira, da gravadora CID. No ano seguinte, o samba "Escurinha", com Geraldo Pereira, na interpretação de João Nogueira foi incluído no LP Geraldo Pereira - Evocação V que o selo Eldorado lançou em homenagem ao sambista Geraldo Pereira.
Em 1983, o LP Geraldo Pereira - Pedrinho Rodrigues e Bebel Gilberto lançado pela Funarte como um tributo ao sambista Geraldo Pereira incluiu quatro parcerias suas com ele: Boca rica; Escurinha; Ministério da Economia e Que samba bom. Em 1985, o cantor Francisco Carlos no LP Francisco Carlos - O cantor namorado do Brasil, da RCA Camden, registrou a toada Promessa de um caboclo, de Geraldo Pereira.
Em 1987, o samba Escurinha foi gravado de forma instrumental pelo pianista Pedrinho Rodrigues em LP do selo Recarey. Em 1995, Luis Melodia no LP Relíquias da EMI-Odeon regravou A coitadinha fracassou, com Geraldo Pereira.
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Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; Revista do Rádio.
segunda-feira, junho 03, 2013
domingo, junho 02, 2013
Mary Gonçalves
Mary Gonçalves (Nice Figueiredo Rocha), cantora a atriz, nasceu em Santos, SP, em 25/10/1927. Iniciou a carreira artística como atriz de cinema. No início da década de 1950 foi contratada pela Rádio Nacional.
Estreou em disco em 1951 pela gravadora Sinter interpretando os sambas-canção Penso em você e Só eu sei, ambos de Paulo Soledade e Fernando Lobo com acompanhamento de Lírio Panicali e seu conjunto de boite.
Em seguida, gravou o bolero Aquele beijo, de Claribalte Passos e Lírio Panicali e o samba-canção Chega mais, de Pernambuco e Marino Pinto, com acompanhamento da orquestra de Lírio Panicali. Ainda nesse ano, gravou o samba São Paulo, de Antônio Maria e Paulo Soledade e a marcha Carnaval na Bienal, de Heitor dos Prazeres. Nessa época, passou a atuar como contratada na Rádio Nacional.
Em 1952, foi eleita a Rainha do Rádio com um votação de 744.826 votos. Nesse ano, gravou pela Sinter o LP Convite ao romance no qual incluiu três composições de Johnny Alf, Estamos sós, O que é amar e Escuta. Lançou também, em disco de 78 rotações os sambas-canção Rotina, de Billy Blanco e Vem depressa, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti.
No ano seguinte, gravou com Lírio Panicali e sua orquestra o baião Coreana, de Humberto Teixeira e Felícia de Godoy e o bolero Aperta-me em teus braços, de José Maria de Abreu e Jair Amorim. Ainda nesse ano, gravou o samba-canção Podem falar, de Jonny Alf.
Em 1954, gravou seu último disco na Sinter com o samba-canção Dentro da noite, de Oscar Bellani e Luiz de França e o beguine Não vá agora, de Billy Blanco.
No mesmo ano, foi contratada pela Odeon e gravou o bolero Obsessão, de José Maria de Abreu e Jair Amorim e o samba-canção Diga, de Júlio Nagib. Gravou no ano seguinte o samba-canção Nem eu, de Dorival Caymmi e o baião Meu sonho, de Luiz Bonfá.
Gravou o samba Deixa disso, e Newton Ramalho e Nanci Wanderley e o samba-canção Patati-patatá, de Hianto de Almeida e Francisco Anísio em 1956.
Segundo o jornalista e pesquisador Sylvio Túlio Cardoso, ela "Gravou excelentes discos para a Sinter em 1951, mas os mesmos não tiveram boa repercussão devido a péssima qualidade técnica que o produto daquela gravadora ostentava na ocasião."
Ainda na década de 1950, abandonou a carreira artística e foi viver na Colômbia.
Discografia
(1951) Penso em você/Só eu sei • Sinter • 78
(1951) Aquele beijo/Chega mais • Sinter • 78
(1951) Dorme filho (canção de ninar)/Presente de Natal • Sinter • 78
(1951) Carnaval na Bienal/São Paulo • Sinter • 78
(1952) Rotina/Vem depressa • Sinter • 78
(1952) Convite ao romance • Sinter • LP
(1953) Coerana/Aperta-me em teus braços • Sinter • 78
(1953) O que é amar/Podem falar • Sinter • 78
(1954) Dentro da noite/Não vá agora • Sinter • 78
(1954) Obsessão/Diga • Odeon • 78
(1955) Nem eu/Meu sonho • Odeon • 78
(1956) Deixa disso/Patati-patatá • Odeon • 78
Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.
Estreou em disco em 1951 pela gravadora Sinter interpretando os sambas-canção Penso em você e Só eu sei, ambos de Paulo Soledade e Fernando Lobo com acompanhamento de Lírio Panicali e seu conjunto de boite.
Em seguida, gravou o bolero Aquele beijo, de Claribalte Passos e Lírio Panicali e o samba-canção Chega mais, de Pernambuco e Marino Pinto, com acompanhamento da orquestra de Lírio Panicali. Ainda nesse ano, gravou o samba São Paulo, de Antônio Maria e Paulo Soledade e a marcha Carnaval na Bienal, de Heitor dos Prazeres. Nessa época, passou a atuar como contratada na Rádio Nacional.
Em 1952, foi eleita a Rainha do Rádio com um votação de 744.826 votos. Nesse ano, gravou pela Sinter o LP Convite ao romance no qual incluiu três composições de Johnny Alf, Estamos sós, O que é amar e Escuta. Lançou também, em disco de 78 rotações os sambas-canção Rotina, de Billy Blanco e Vem depressa, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti.
No ano seguinte, gravou com Lírio Panicali e sua orquestra o baião Coreana, de Humberto Teixeira e Felícia de Godoy e o bolero Aperta-me em teus braços, de José Maria de Abreu e Jair Amorim. Ainda nesse ano, gravou o samba-canção Podem falar, de Jonny Alf.
Em 1954, gravou seu último disco na Sinter com o samba-canção Dentro da noite, de Oscar Bellani e Luiz de França e o beguine Não vá agora, de Billy Blanco.
No mesmo ano, foi contratada pela Odeon e gravou o bolero Obsessão, de José Maria de Abreu e Jair Amorim e o samba-canção Diga, de Júlio Nagib. Gravou no ano seguinte o samba-canção Nem eu, de Dorival Caymmi e o baião Meu sonho, de Luiz Bonfá.
Gravou o samba Deixa disso, e Newton Ramalho e Nanci Wanderley e o samba-canção Patati-patatá, de Hianto de Almeida e Francisco Anísio em 1956.
Segundo o jornalista e pesquisador Sylvio Túlio Cardoso, ela "Gravou excelentes discos para a Sinter em 1951, mas os mesmos não tiveram boa repercussão devido a péssima qualidade técnica que o produto daquela gravadora ostentava na ocasião."
Ainda na década de 1950, abandonou a carreira artística e foi viver na Colômbia.
Discografia
(1951) Penso em você/Só eu sei • Sinter • 78
(1951) Aquele beijo/Chega mais • Sinter • 78
(1951) Dorme filho (canção de ninar)/Presente de Natal • Sinter • 78
(1951) Carnaval na Bienal/São Paulo • Sinter • 78
(1952) Rotina/Vem depressa • Sinter • 78
(1952) Convite ao romance • Sinter • LP
(1953) Coerana/Aperta-me em teus braços • Sinter • 78
(1953) O que é amar/Podem falar • Sinter • 78
(1954) Dentro da noite/Não vá agora • Sinter • 78
(1954) Obsessão/Diga • Odeon • 78
(1955) Nem eu/Meu sonho • Odeon • 78
(1956) Deixa disso/Patati-patatá • Odeon • 78
Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.
sábado, junho 01, 2013
Marília fala de Noel
Mais poeta que sambista - A antiga parceira de Noel desconhece Wilson Batista - A exploração do nome do autor de "Palpite infeliz" - As implicâncias com os garis e com o Casé - Respostas massacrantes - Uns que falando do sambista, fazem autobiografia - Um apelo: "respeitem o ritmo, a melodia e a arte de Noel... e cuidem da sepultura".
"Muito se há escrito e falado sobre a vida de Noel Rosa, o maior compositor de música popular brasileira de todos os tempos. Na ânsia incontida de falar daquele cujo nome ainda ressoa, através de seus bonitos sambas, mais poemas que sambas, pelos quatro cantos do Brasil, muita imprecisão tem sido cometida, muita coisa inventada, pondo à prova a fértil imaginação daqueles que se lançam a biografá-lo. E há até quem, falando de Noel, faça autobiografia completa.
Admiradores que somos, assim como todo o povo brasileiro, do autor de “Palpite Infeliz”, desejamos, em rápidas tintas, que a tanto nos permite o espaço a nós reservado nesta revista, contar a nossos leitores alguns fatos da vida do poeta da Vila. Para isto, procuramos o senhor Almirante que possui farto repositório de tudo o que se relaciona com o assunto que tínhamos em mira focalizar. Para nossa surpresa, porém, ele, sob a alegação de que se fornecesse dados para nosso trabalho, estaria prejudicando seus objetivos, negou-se, peremptoriamente a falar. Explicamos-lhe nosso objetivo, invocamos sua amizade a Noel e ele sugeriu:
— Faça a reportagem sobre o meu programa; assim eu concordo!
Sim, era uma ótima solução... para ele.
Desistindo, ficticiamente, de nosso desideratum, fomos bater a outra porta, onde não encontramos, felizmente, a má vontade do Sr. Almirante.
Fala Marília Batista
Se há algum que não devia ser procurada para falar sobre Noel, esse alguém é Manha Batista, porque hoje vive inteiramente devotada a seu marido e seus três irrequietos filhinhos e afastada das lides radiofônicas. Mas; como, depois da primeira tentativa fracassada, desejamos, já agora por questão de brio, mostrar ao Sr. Henrique Foreis que faríamos, de qualquer maneira, nosso registro, telefonamos a D. Marília Batista.
— D. Marília, aqui fala da “Revista da Semana”. Nós queríamos uma entrevista sobre Noel.
Através do fio, a resposta veio animadora:
— Estou às suas ordens.
Chegando à sua residência, travamos contacto com ela, o Dr. Hugo, seu marido e seus três levadíssimos garotos.
Entramos logo no assunto:
— Em que circunstâncias a senhora conheceu Noel?
D. Marília recostou-se à poltrona, caminhou no espaço e no tempo e respondeu:
— Conheci-o no Grêmio Esportivo Onze de Junho. Eu ia cantar numa hora de arte naquele grêmio. Cheguei, acompanhada de meu pai, deixei meu violão a um canto e fui, com papai, fazer não me lembro o que. Quando voltei e procurei meu instrumento, ele não estava mais onde o havia deixado. Pensei que o tivessem roubado. Mas não! No palco, um rapaz cantando o “Gago apaixonado” dedilhava meu violão — era Noel...
— E depois disso...
Reclamei, e ele veio pedir-me desculpas. Fui ao palco e cantei algumas músicas de minha autoria. Ele ouviu e daí começou a me dar músicas suas para eu cantar.
Depois de nos contar este episódio, D. Marília recomendou:
— Tome nota direito, porque estas entrevistas geralmente saem deturpadas.
Explicamos que não aconteceria isto porque temos noção de responsabilidade e depois voltamos a perguntar:
— A senhora pode responder, precisamente, contra quem foi escrito o “Palpite Infeliz’?
— Não sei! Foram feitos contra um certo rapaz que atacara a Vila.
—... Wilson Batista, completamos.
— Isso eu ignoro. Só vim a conhecer Wilson Batista depois que Noel morreu porque, enquanto vivo, eu só tomava conhecimento daquelas respostas massacrantes, a alguém. Agora, que esse alguém seja esse que você citou não me consta.
— A senhora pode lembrar como surgiu o “Palpite Infeliz?”.
— Noel compôs o “Feitiço da Vila”:
“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba”.
— Mais adiante, continua D. Marília, ele dizia que a Vila tinha “feitiço sem farofa”, “a lua nasce mais cedo”, falava na dança dos galhos do arvoredo. Pois bem, alguém escreveu um samba discordando de Noel e ele nos deu então: “Quem é você, que não o sabe o que diz Meu Deus do céu que palpite infeliz..”.
— A senhora quer dizer-nos outras respostas de Noel a Wilson Batista ou a quem seja, afinal.
— Você se lembra daquele: “Deixa de arrastar o tamanco, tamanco nunca foi sandália, tira do pescoço o lenço branco, compra sapato e gravata?”. E’ outra resposta de Noel em que ele pulveriza seu adversário, dizendo mesmo: “eu já te dei papel e lápis, arranja um amor e um violão”, em que parecia desconhecer o valor de seu adversário. Ele diz também: “Joga fora esta navalha que te atrapalha”, o que me faz pensar em algum malandro.
— A senhora sabia que Wilson foi parceiro de Noel?
— Não me consta que ele fizesse nenhum trabalho de parceria com Wilson Batista.
A implicância de Noel
A entrevista decorria animada, quando D. Marília perguntou:
— Você quer um caso interessante?
Claro que queríamos:
— Noel foi contra-regra da antiga Rádio Philips, no programa Casé; nessa época qualquer um era contra-regra, às vezes o próprio Casé. Um dia, exercendo suas funções, aproximou-se de uma cantora clássica e perguntou:
— Que você vai cantar?
— “Você” não, eu sou uma senhora casada, respondeu a mulher, irritada com o tratamento. E foi ao Casé fazer queixa do Noel.
— Qual a atitude do Casé, perguntamos.
— Nem queira saber, disse D. Marília arrancou da mão do Noel a papeleta que usava para anotações, humilhou-o passou-lhe uma lição incrível.
— E a cantora, quem era? Quisemos saber.
— Com todo “senhora” não sei quem é. Ofuscou-se completamente. Quanto a Noel, todos já sabemos, começou a subir... subir sempre.
— Quer dizer-nos alguma característica interessante de Noel?
— Era muito implicante. Casé foi uma de suas maiores vítimas. Certa vez, evoca D. Marília, chegou ao programa depois de o mesmo começado. Casé estava irritadíssimo e quis saber o motivo. Calmamente ele respondeu:
— O bonde furou o pneu, Casé...
Outra vez, prossegue nossa, entrevistada, explicou em idênticas circunstâncias:
— Esqueci onde era a Rádio Philips, Casé...
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quando Noel lançou “Conversa de Botequim” o samba fez um sucesso absoluto: os pedidos choviam para que introduzisse sempre a música em seu programa.
— Como Noel sempre repetia o mesmo número, Casé proibiu-o de cantar o samba.
— Mas, um dia, já na Rádio Sociedade, sendo Casé o contra-regra e perguntando a Noel o que ele iria cantar, chegou o dia da vingança:
— Vou cantar, informou o poeta, o samba cm primeira audição intitulado “Ilusão”, e dizendo isto, deu o tom a Nonô (nessa época não havia ensaio). Como se tratava de uma primeira audição, fato sempre esperado com ansiedade, todos fomos ouvir, inclusive o Casé. Alias o próprio Noel recomendar que ninguém faltasse e que reparássemos no Casé, quando ele iniciasse o samba. Dada a introdução, ele cantou: “Ó seu garçom faça o favor...” provocando gargalhadas gerais... Era “ilusão” para o Casé!
— Alguma outra implicância com o Casé?
— Assim de pronto não me lembro; sei que ele costumava imitá-lo falando com a esposa ao telefone. Mas há uma outra implicância digna de registro: voltando de uma hora de arte, vínhamos eu e papai, Noel e Djalma Ferreira, no carro do Djalma. Quando passávamos por uns garis, Noel que sempre mexia com os mesmos, gritou:
— A galinha comeu...
— Interessante..., aventuramos.
— Não, o interessante veio depois, quando, o carro enguiçou mais adiante e os garis sairam correndo atrás do veículo com suas vassouras. Que susto!
— Outra implicância D. Marília.
— Lembro-me da última: já doente, poucos dias antes de morrer, pediu a sua mãe que o levasse até a janela. Feita a vontade, gritou ao jardineiro, com quem implicava desde criança:
— Tesoura! Tesoura!
— Por que fazia isto, perguntamos.
— Só para ouvi-lo xingar...
A morte do poeta
Já se fazia tarde e não queríamos continuar tomando tempo daquela que tão gentilmente nos ajudara a compor nosso modesto trabalho: por isto fizemos a última pergunta:
— Como foi a morte de Noel?
— Foi um episódio tristíssimo. A vila inteira compareceu para chorar o passamento de seu poeta. Meu pai que estava presente, diz nunca haver assistido a coisa mais comovedora.
— A senhora se lembra de algumas de suas últimas palavras?
— Guardo como o maior elogio à minha carreira artística, uma de suas últimas frases. Na hora da morte chamou meu irmão Henrique e disse:
— Seu amigo, Henrique, agora, "nunca mais".
— Nunca mais, respondeu Henrique, é o nosso samba, meu e da Marília.
— Sim, respondeu Noel, o mais simples e o mais bonito.
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quero que você apele para esta gente para que respeite o ritmo, a melodia e a arte de Noel e... que cuide da sua sepultura.
O repórter na Vila
Depois da entrevista que tivemos com D. Marília, fomos à vila ouvir os velhos moradores; uma vizinha de Noel, de nome Dorica, íntima da família acrescentou alguns subsídios ao nosso trabalho:
— Um dia dei uma festa aqui em casa, época de São João, e Noel era convidado obrigatório. Eu estava lá dentro arrumando umas coisas quando ele entrou e disse:
— Dorica, dê-me papel e lápis.
— Estranhei, mas fiz-lhe a vontade. Daí há pouco, ouvi acordes de um violão e a sua voz que cantava: "Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa noite de S. João...' Compreendi, então, para o que pedira o lápis e o papel.
Dona Dorica foi pessoa íntima da família de Noel e sabia de muitas coisas interessantes sobre o poeta da Vila. Solicitada por nós, continou contando:
— Uma vez eu estava já deitada. Seriam duas horas da manhã quando alguém me chamou à janela: "Dorica, ó Dorica, abra a porta". Era Noel que me explicou que precisava tomar um banho e mudar a roupa porque a que usava, branca, estava enxovalhada pela chuva. Dei-lhe toalha e sabonete e, pouco depois, saía ele para outra festa que não aquela de onde viera.
— Lembra-se de mais alguma coisa D. Dorica?
— Muita coisa poderia contar ainda. Lembro-me de que ele penetrava em casa de gatinhas ao passar pela janela do quarto de D. Marta para não acordá-la; dos jogos de botões, as serenatas que costumava fazer até altas horas, uma série de coisas que lhe contaria, se tivesse tempo para isto.
De repente, nossa entrevista nos chamou a dar uma volta pela Vila. Consultamos os antigos moradores: um lhe aconselhava sempre a ir embora mais cedo, outro farreara com ele, mas não se lembrava de mais nada. De positivo mesmo, nada.
De casa em casa, D. Dorica nos levou à residência de uma senhora cujo nome, a seu pedido, omitimos e que foi noiva de Noel, antes de ele casar-se:
— Os retratos que eu tinha destruí quando me casei, declarou-nos, a única recordação que tenho é que ele passava por mim, já meu noivo, com outras moças.
— E a senhora não brigava com ele?
— Reclamava, mas ele sempre dizia:"Isso é brincadeira, minha filha, eu só caso com você". E casou com outra...
Deixando aquela senhora, D. Dorica nos levou a um dos velhos habitantes que nos contou:
— Lembro-me quando o "queixinho" surgiu, aí por volta de 1919 ou 1920. Cantou, num clube local, uma embolada de sua autoria, de improviso. O garoto tinha bossa e passou a ser assunto obrigatório da Vila.
— Lembra-se de mais alguma coisa?
— Recordo-me de que, em toda a casa onde havia festa, Noel e os componentes do antigo Vila Izabel F. C. usavam de um expediente interessante para comer toda a ceia dos festejadores. Noel cantava uma seresta e enquanto os moradores cativados por aquela voz desviavam sua atenção para a música, seus colegas faziam a limpeza..."
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Fonte: Reportagem de Jorge Lyra - Revista da Semana, de 21/07/1951.
"Muito se há escrito e falado sobre a vida de Noel Rosa, o maior compositor de música popular brasileira de todos os tempos. Na ânsia incontida de falar daquele cujo nome ainda ressoa, através de seus bonitos sambas, mais poemas que sambas, pelos quatro cantos do Brasil, muita imprecisão tem sido cometida, muita coisa inventada, pondo à prova a fértil imaginação daqueles que se lançam a biografá-lo. E há até quem, falando de Noel, faça autobiografia completa.
Admiradores que somos, assim como todo o povo brasileiro, do autor de “Palpite Infeliz”, desejamos, em rápidas tintas, que a tanto nos permite o espaço a nós reservado nesta revista, contar a nossos leitores alguns fatos da vida do poeta da Vila. Para isto, procuramos o senhor Almirante que possui farto repositório de tudo o que se relaciona com o assunto que tínhamos em mira focalizar. Para nossa surpresa, porém, ele, sob a alegação de que se fornecesse dados para nosso trabalho, estaria prejudicando seus objetivos, negou-se, peremptoriamente a falar. Explicamos-lhe nosso objetivo, invocamos sua amizade a Noel e ele sugeriu:
— Faça a reportagem sobre o meu programa; assim eu concordo!
Sim, era uma ótima solução... para ele.
Desistindo, ficticiamente, de nosso desideratum, fomos bater a outra porta, onde não encontramos, felizmente, a má vontade do Sr. Almirante.
Fala Marília Batista
Se há algum que não devia ser procurada para falar sobre Noel, esse alguém é Manha Batista, porque hoje vive inteiramente devotada a seu marido e seus três irrequietos filhinhos e afastada das lides radiofônicas. Mas; como, depois da primeira tentativa fracassada, desejamos, já agora por questão de brio, mostrar ao Sr. Henrique Foreis que faríamos, de qualquer maneira, nosso registro, telefonamos a D. Marília Batista.
— D. Marília, aqui fala da “Revista da Semana”. Nós queríamos uma entrevista sobre Noel.
Através do fio, a resposta veio animadora:
— Estou às suas ordens.
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| "Entre eu e Noel Rosa, só existiu uma grande e desinteressada amizade" - disse-nos Marília |
Entramos logo no assunto:
— Em que circunstâncias a senhora conheceu Noel?
D. Marília recostou-se à poltrona, caminhou no espaço e no tempo e respondeu:
— Conheci-o no Grêmio Esportivo Onze de Junho. Eu ia cantar numa hora de arte naquele grêmio. Cheguei, acompanhada de meu pai, deixei meu violão a um canto e fui, com papai, fazer não me lembro o que. Quando voltei e procurei meu instrumento, ele não estava mais onde o havia deixado. Pensei que o tivessem roubado. Mas não! No palco, um rapaz cantando o “Gago apaixonado” dedilhava meu violão — era Noel...
— E depois disso...
Reclamei, e ele veio pedir-me desculpas. Fui ao palco e cantei algumas músicas de minha autoria. Ele ouviu e daí começou a me dar músicas suas para eu cantar.
Depois de nos contar este episódio, D. Marília recomendou:
— Tome nota direito, porque estas entrevistas geralmente saem deturpadas.
Explicamos que não aconteceria isto porque temos noção de responsabilidade e depois voltamos a perguntar:
— A senhora pode responder, precisamente, contra quem foi escrito o “Palpite Infeliz’?
— Não sei! Foram feitos contra um certo rapaz que atacara a Vila.
—... Wilson Batista, completamos.
— Isso eu ignoro. Só vim a conhecer Wilson Batista depois que Noel morreu porque, enquanto vivo, eu só tomava conhecimento daquelas respostas massacrantes, a alguém. Agora, que esse alguém seja esse que você citou não me consta.
— A senhora pode lembrar como surgiu o “Palpite Infeliz?”.
— Noel compôs o “Feitiço da Vila”:
“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba”.
— Mais adiante, continua D. Marília, ele dizia que a Vila tinha “feitiço sem farofa”, “a lua nasce mais cedo”, falava na dança dos galhos do arvoredo. Pois bem, alguém escreveu um samba discordando de Noel e ele nos deu então: “Quem é você, que não o sabe o que diz Meu Deus do céu que palpite infeliz..”.
— A senhora quer dizer-nos outras respostas de Noel a Wilson Batista ou a quem seja, afinal.
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| Na Rua Teodoro da Silva, n. 392, ainda pode ser vista a casa onde nasceu e morreu o poeta da Vila. |
— A senhora sabia que Wilson foi parceiro de Noel?
— Não me consta que ele fizesse nenhum trabalho de parceria com Wilson Batista.
A implicância de Noel
A entrevista decorria animada, quando D. Marília perguntou:
— Você quer um caso interessante?
Claro que queríamos:
— Noel foi contra-regra da antiga Rádio Philips, no programa Casé; nessa época qualquer um era contra-regra, às vezes o próprio Casé. Um dia, exercendo suas funções, aproximou-se de uma cantora clássica e perguntou:
— Que você vai cantar?
— “Você” não, eu sou uma senhora casada, respondeu a mulher, irritada com o tratamento. E foi ao Casé fazer queixa do Noel.
— Qual a atitude do Casé, perguntamos.
— Nem queira saber, disse D. Marília arrancou da mão do Noel a papeleta que usava para anotações, humilhou-o passou-lhe uma lição incrível.
— E a cantora, quem era? Quisemos saber.
— Com todo “senhora” não sei quem é. Ofuscou-se completamente. Quanto a Noel, todos já sabemos, começou a subir... subir sempre.
— Quer dizer-nos alguma característica interessante de Noel?
— Era muito implicante. Casé foi uma de suas maiores vítimas. Certa vez, evoca D. Marília, chegou ao programa depois de o mesmo começado. Casé estava irritadíssimo e quis saber o motivo. Calmamente ele respondeu:
— O bonde furou o pneu, Casé...
Outra vez, prossegue nossa, entrevistada, explicou em idênticas circunstâncias:
— Esqueci onde era a Rádio Philips, Casé...
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quando Noel lançou “Conversa de Botequim” o samba fez um sucesso absoluto: os pedidos choviam para que introduzisse sempre a música em seu programa.
— Como Noel sempre repetia o mesmo número, Casé proibiu-o de cantar o samba.
— Mas, um dia, já na Rádio Sociedade, sendo Casé o contra-regra e perguntando a Noel o que ele iria cantar, chegou o dia da vingança:
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| Marília divide a atenção entre seus filhos e a entrevista que nos presta. |
— Alguma outra implicância com o Casé?
— Assim de pronto não me lembro; sei que ele costumava imitá-lo falando com a esposa ao telefone. Mas há uma outra implicância digna de registro: voltando de uma hora de arte, vínhamos eu e papai, Noel e Djalma Ferreira, no carro do Djalma. Quando passávamos por uns garis, Noel que sempre mexia com os mesmos, gritou:
— A galinha comeu...
— Interessante..., aventuramos.
— Não, o interessante veio depois, quando, o carro enguiçou mais adiante e os garis sairam correndo atrás do veículo com suas vassouras. Que susto!
— Outra implicância D. Marília.
— Lembro-me da última: já doente, poucos dias antes de morrer, pediu a sua mãe que o levasse até a janela. Feita a vontade, gritou ao jardineiro, com quem implicava desde criança:
— Tesoura! Tesoura!
— Por que fazia isto, perguntamos.
— Só para ouvi-lo xingar...
A morte do poeta
Já se fazia tarde e não queríamos continuar tomando tempo daquela que tão gentilmente nos ajudara a compor nosso modesto trabalho: por isto fizemos a última pergunta:
— Como foi a morte de Noel?
— Foi um episódio tristíssimo. A vila inteira compareceu para chorar o passamento de seu poeta. Meu pai que estava presente, diz nunca haver assistido a coisa mais comovedora.
— A senhora se lembra de algumas de suas últimas palavras?
— Guardo como o maior elogio à minha carreira artística, uma de suas últimas frases. Na hora da morte chamou meu irmão Henrique e disse:
— Seu amigo, Henrique, agora, "nunca mais".
— Nunca mais, respondeu Henrique, é o nosso samba, meu e da Marília.
— Sim, respondeu Noel, o mais simples e o mais bonito.
— Mais alguma coisa D. Marília?
— Sim, quero que você apele para esta gente para que respeite o ritmo, a melodia e a arte de Noel e... que cuide da sua sepultura.
O repórter na Vila
Depois da entrevista que tivemos com D. Marília, fomos à vila ouvir os velhos moradores; uma vizinha de Noel, de nome Dorica, íntima da família acrescentou alguns subsídios ao nosso trabalho:
— Um dia dei uma festa aqui em casa, época de São João, e Noel era convidado obrigatório. Eu estava lá dentro arrumando umas coisas quando ele entrou e disse:
— Dorica, dê-me papel e lápis.
— Estranhei, mas fiz-lhe a vontade. Daí há pouco, ouvi acordes de um violão e a sua voz que cantava: "Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa noite de S. João...' Compreendi, então, para o que pedira o lápis e o papel.
Dona Dorica foi pessoa íntima da família de Noel e sabia de muitas coisas interessantes sobre o poeta da Vila. Solicitada por nós, continou contando:
![]() |
| Marília posa com sua sobrinha após entrevista com a Revista da Semana. |
— Lembra-se de mais alguma coisa D. Dorica?
— Muita coisa poderia contar ainda. Lembro-me de que ele penetrava em casa de gatinhas ao passar pela janela do quarto de D. Marta para não acordá-la; dos jogos de botões, as serenatas que costumava fazer até altas horas, uma série de coisas que lhe contaria, se tivesse tempo para isto.
De repente, nossa entrevista nos chamou a dar uma volta pela Vila. Consultamos os antigos moradores: um lhe aconselhava sempre a ir embora mais cedo, outro farreara com ele, mas não se lembrava de mais nada. De positivo mesmo, nada.
De casa em casa, D. Dorica nos levou à residência de uma senhora cujo nome, a seu pedido, omitimos e que foi noiva de Noel, antes de ele casar-se:
— Os retratos que eu tinha destruí quando me casei, declarou-nos, a única recordação que tenho é que ele passava por mim, já meu noivo, com outras moças.
— E a senhora não brigava com ele?
— Reclamava, mas ele sempre dizia:"Isso é brincadeira, minha filha, eu só caso com você". E casou com outra...
Deixando aquela senhora, D. Dorica nos levou a um dos velhos habitantes que nos contou:
— Lembro-me quando o "queixinho" surgiu, aí por volta de 1919 ou 1920. Cantou, num clube local, uma embolada de sua autoria, de improviso. O garoto tinha bossa e passou a ser assunto obrigatório da Vila.
— Lembra-se de mais alguma coisa?
— Recordo-me de que, em toda a casa onde havia festa, Noel e os componentes do antigo Vila Izabel F. C. usavam de um expediente interessante para comer toda a ceia dos festejadores. Noel cantava uma seresta e enquanto os moradores cativados por aquela voz desviavam sua atenção para a música, seus colegas faziam a limpeza..."
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Fonte: Reportagem de Jorge Lyra - Revista da Semana, de 21/07/1951.
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