segunda-feira, janeiro 06, 2014

Quem é Gaó ...

Gaó, em 1936 - Foto da CARIOCA
Nascido em Salto, SP, em 12/2/1909, aos nove anos de idade, já era pianista profissional do Cine Pavilhão, de sua cidade. Em 1920 organizou uma orquestra que acompanhava filmes de cinema mudo. Em 1923 transferiu-se para SP e, mais tarde, em 1930, foi para a Rádio Cruzeiro do Sul como diretor e produtor de programas que se tornaram famosos. Abaixo, reproduzo (atualizado para o nosso português atual) uma entrevista feita pela CARIOCA, em publicação de 28/03/1936:

"Mesmo o fã de rádio, que gosta de saber os mínimos detalhes da vida dos artistas ou que se gaba de conhecer fatos que eles próprios desconhecem, não sabe quem é Odmar Amaral Gurgel. As criaturas que às noites vão para as nossas estações de rádio e esperam uma palavra do astro predileto, certamente nunca ouviram falar em tal criatura.

Não sabem se Odmar é moreno ou louro, alto ou baixo. Ignoram se ele é violinista ou canta sambas com o chapéu de palha. Desconhecem qual a sua música predileta e como entrou para o rádio. E no entanto Gaó pode ser considerado um dos pianistas mais populares do Brasil. Em São Paulo, no Rio, ou em Porto Alegre, o seu nome é objeto de comentários sempre favoráveis.

Há oito anos atrás, era fundada, em São Paulo a Rádio Educadora. Era a primeira estação de rádio que surgia na encantadora capital bandeirante. As dificuldades da estação nova, eram, porém, inúmeras. Não havia artistas e os diretores da atual PRB-9 resolveram lançar mão dos alunos do Conservatório de Música. Alguns deles falharam. Outros venceram e, no número destes, estava Gaó, que após alguns ensaios foi contratado pela emissora paulista.

Não ficou, porém, Gaó, muito tempo no rádio. Trocou-o, durante meses, pela gravação de disco. A inauguração da Rádio Cruzeiro do Sul levou-o, porém, novamente ao microfone. Desta vez, porém, com a direção artística da estação. Quando a Cruzeiro juntou-se à Cosmos, ele assumiu a direção artística das duas. Hoje, porém, não pertence a São Paulo. O Rio foi buscá-lo por intermédio da Rádio Ipanema e incorporou-o ao “broadcasting” carioca. Dizem as más línguas que houve quem o chamasse de “ingrato”, quando deixou São Paulo. Resta-lhe porém o consolo de saber que houve lencinho que teve de enxugar lágrimas saudosas.

— Aos onze anos de idade, fiz a minha primeira música. — diz-nos Gaó, sorridente — Era uma mazurca que recebeu o título de “Primeira inspiração”. Se era boa ou má, não sei. Lembro-me, porém, que fez algum sucesso nos serões de família e nas festas da vizinhança.

Gaó interrompe, por alguns momentos sua palestra, e prossegue:

— Mais tarde, ouvindo os discos maravilhosos de Paul Whitman e alguns outros valores da música americana, ocorreu-me a possibilidade de fazer as orquestrações e adaptações que eles fazem. Achei-me capaz de realizar alguma coisa de aproveitável neste setor da música popular. E assim, compus um arranjo tirado da “Thais” de Massenet. Tive sucesso. Adaptei então outras músicas e compus então o meu “Brasil Antigo”, que é uma seleção das velhas melodias brasileiras.

— De tudo que compôs, que mais lhe agrada?

— A partitura musical do “Caçador de diamantes” — um filme feito em São Paulo, cuja parte musical foi toda feita por mim. Deu-me muito trabalho, porém, o resultado não foi mal.

— Qual a sua mais recente composição?

— A “Sinfonia inacabada” trouxe grande popularidade às músicas de Schubert. Todos se impressionaram. Houve até música carnavalesca inspirada na célebre “Sinfonia” ... Eu também não pude fugir à onda e fiz a “Rapsódia mal começada” que é uma estilização das músicas do grande compositor.

— Por que se dedicou ao “fox”?

— Sempre gostei muito da música americana, como disse há pouco. O “fox”, quando comecei a compor, era o ritmo que eu sentia. Logo, a ele dediquei-me. Note-se: considero a música brasileira mais bonita que outra qualquer. Falta-lhe, porém, um acabamento perfeito. Ela não é trabalhada como o “fox”. E’ verdade que nós não tratamos a nossa música com o carinho que ela merece. O americano tem quase veneração pelo “fox”. Trata-o como se fosse uma melodia célebre. E o resultado deste entusiasmo, não se faz esperar: os compositores assim estimulados procuram desenvolver os temas, realizando, às vezes, verdadeiras obras de arte. E aí, reside o grande segredo da vitoria do “fox”: aparentemente uma melodia maluca, mas, na realidade, cheia de inspiração e com muito conjunto e harmonia.

— E que pensa do “broadcasting” no Rio e em São Paulo?

Gaó calou-se. Sentimos que a pergunta era indiscreta e o antigo diretor artístico da Cruzeiro tinha receio de magoar alguém.

— Procurarei ser sincero. Acho os programas de São Paulo mais variados. As estações procuram sempre novidades: ou companhia de “sketches” ou artistas novos. É possível que isto seja devido ao desinteresse do público, que não é entusiasta como o carioca. É necessário, talvez, variar muito para chamar a atenção do ouvinte paulista. Agrada-me, também, muito, em São Paulo, a estreita correlação existente entre a parte artística e a publicidade das estações. Enquanto aqui, são entidades inteiramente independentes entre si, lá, estão unidas, a ponto de serem sempre consultados os diretores artísticos, sobre a publicidade. O Rio possui porém, sobre São Paulo, a grande vantagem dos artistas, superiores, quer qualitativa quer quantitativamente. Há, aqui, nomes de cartaz, por si sós suficientes para garantir o êxito de uma irradiação. Lá, infelizmente, ainda não existe disso.

— E do público?

— O daqui é mais sincero e expansivo. Estimula os artistas que se sentem capazes de realizar sempre coisas melhores. Este assunto, aliás, é muito perigoso, pois o público não quer, nunca, saber o que nós pensamos dele ... — concluiu Gaó, despedindo-se."


Fonte: CARIOCA, de 28/03/1936.

domingo, janeiro 05, 2014

Linda Batista, a rainha do Rádio

"Naquela tarde, sua Majestade, o rei Momo, presidindo o baile dos artistas de rádio, promovido pela Rádio Tupy, a bordo do iate "O Laranja", em que reinou o maior entusiasmo, elegeram rainha do rádio a jovem cantora Linda Baptista, que figura no medalhão acima." (texto adaptado da CARIOCA, de 22/2/1936).

Essa jovem talentosa, cantora e futura compositora, chamava-se, na verdade, Florinda Grandino de Oliveira. Nasceu em São Paulo, SP, em 14/6/1919. Filha do ventríloquo e humorista Baptista Júnior (João Batista de Oliveira) e irmã da cantora Dircinha Batista, sua família já residia no Rio de Janeiro, no bairro do Catete.

Em 1936, por um atraso de Dircinha, substituiu-a, estreando como cantora no programa que Francisco Alves fazia na Rádio Cajuti, interpretando Malandro, de Claudionor Cruz. Obteve sucesso, sendo convidada para outras apresentações nessa emissora.


Fonte: CARIOCA.

sábado, janeiro 04, 2014

Amaro Silva

Amaro Silva (Circa 1910 Pernambuco), flautista e compositor, teve sua primeira composição gravada, quando Aurora Miranda lançou seu samba Não tem rival, em 1934, na Odeon.

Em 1937, teve os sambas Triste fim de um coração e Respeita a cadência gravados por Odete Amaral na Columbia. No ano seguinte,
Ciro Monteiro gravou pela Victor o samba Ela não compreende.

Em 1940, o samba Com você e sem você, com Nelson Teixeira, foi gravado por Arnaldo Amaral na Columbia.

Em 1941, foram gravadas a marcha Tinha gente assim, com Raul Longras, pela dupla caipira Alvarenga e Ranchinho, e o samba Confessa, com Ary Barroso, pelo cantor Deo, ambos em discos Odeon.

Em 1942, Odete Amaral gravou na Odeon a marcha Vitaminas, com Djalma Mafra e Domício Augusto. No ano seguinte, os sambas Desta vez vou ser feliz e Réu primário, com Djalma Mafra, foram gravados por Marilu na Victor. Em 1944, a marcha Salve o inventor da mulher, com Djalma Mafra, foi gravada na Odeon por Odete Amaral.

Em 1987, seus sambas Triste fim de um coração e Respeita a cadência, na interpretação de Odete Amaral e acompanhamento musical do Conjunto Regional Cruzeiro do Sul, foram incluídas no LP "Grandes cantoras", que o selo Revivendo lançou com gravações de Odete Amaral, Laís Marival, Araci Cortes e Carmen Barbosa.

Em 1985, o samba Mulher bonita, com Domício Alves Magalhães, foi gravado pelo Trio Palestina. Em 1991, o samba Vitaminas, com Djalma Mafra e Domício Augusto, na interpretação de Odete Amaral foi incluído no LP "A coroa do Rei", que o selo Revivendo lançou com gravações de Francisco Alves, Rosina Pagã, Dircinha Batista e Odete Amaral.

Em 2004, o samba Confessa, com Ary Barroso, em gravação de Deo foi relançado pelo selo Revivendo no CD triplo "Ary Barroso - Nossa Homenagem", em homenagem ao centenário de Ary Barroso.

Começando a compor aos dez anos de idade

Quando Amaro Silva começou a rabiscar as primeiras letras num caderno escolar, fez um samba. Um samba onde havia muito de frevo e maracatu nortista. Ele nasceu em Pernambuco. Chegando ao Rio, garoto de calças curtas, começou a compor melodias inspiradas ao som de uma pequena flauta. Alicinha de Archambeau ouviu o novo Pan precoce e levou-o a presença de Joaquim Medina, o saudoso violonista falecido. Assim Amaro Silva ingressou no ambiente radiofônico. Logo depois, Carmen Miranda lançou um samba seu que obteve sucesso: “Artigo brasileiro”.

Falando à CARIOCA, Amaro diz:

— Cecília Miranda de Carvalho foi, no entanto, a verdadeira madrinha e pioneira de todas as minhas composições musicais. Hoje a irmãzinha de Carmen e Aurora Miranda encontra-se afastada do microfone, aguardando a chegada de um encantador bebê ao seu lar feliz.

Madame Abílio de Carvalho deixou Amaro Silva às voltas com Dircinha Batista. A deliciosa garota tomou a si o encargo de espalhar as músicas do jovem compositor, alcançando grande êxito com a interpretação de “Mocidade brasileira”, inegavelmente uma das melhores composições de Amaro Silva.

— Os meus sambas e marchas quase sempre exploram de preferência motivos patrióticos e coisas da nacionalidade — informa ele.

À exceção do seu primeiro samba, feito aos 10 anos de idade e intitulado: “Se fosses minha...”, o qual foi indiscutivelmente um verdadeiro caso de precocidade. Hoje, Amaro Silva dedica-se também a compor músicas para o teatro. Custódio Mesquita, notando o seu valor, levou-o para abrilhantar, musicalmente, as peças da Casa de Caboclo.

— Já estou escrevendo em “Alma de violão”, a nova peça de Duque e Miranda. Confesso que me desinteressei das gravações e edições musicais ao notar a desarmonia reinante no meio. Sinto-me bem no teatro.

Amaro Silva não deixará, no entanto, os estúdios radiofônicos e declara:

— Acho que não há um compositor melhor que outro: depende tudo da oportunidade da sua inspiração. Lamartine Babo tem tantos sucessos como Ary Barroso ou Assis Valente.

As suas artistas prediletas são: Carmen e Aurora Miranda, Dyrcinha Baptista e Aracy de Almeida, no rádio. Martha Eggerth, no cinema. Dulcina, no teatro.

— Também admiro profundamente Sylvio Caldas que é, sem favor, a voz do Brasil. César Ladeira — “speaker” absoluto e Cristóvão de Alencar — que anda seguindo de perto os valores do primeiro. Gosto de Procópio e admiro Bing Crosby.

Amaro Silva tem uma porção de composições musicais inéditas e várias gravadas, “Sem carinho”, samba, e “Canção de inverno” foram algumas das suas últimas produções lançadas, respectivamente, por Dircinha e Moacyr Montenegro, na PRA-9.

— O meu último samba intitula-se “Noite de São João” e destina-se ao concurso “Da Noite”, tendo sido feito de parceria com Salomão Suissa — termina Amaro Silva.

CARIOCA, de 06/06/1936

Algumas obras

Artigo brasileiro, Com você e sem você (c/ Nelson Teixeira), Confessa (c/ Ary Barroso), Desta vez vou ser feliz (c/ Djalma Mafra), Ela não compreende, Mocidade brasileira, Mulher bonita (c/ Domício Alves Magalhães), Não tem rival, Respeita a cadência, Réu primário (c/ Djalma Mafra), Salve o inventor da mulher (c/ Djalma Mafra), Tinha gente assim (c/ Raul Longras), Triste fim de um coração, Vitaminas (c/ Djalma Mafra e Domício Augusto).


Fontes: CARIOCA, de 22/2/1936 e 06/06/1936; Dicionário da MPB.