domingo, março 12, 2006

Edmundo Otávio Ferreira

Edmundo Otávio Ferreira, instrumentista e tocador de requinta, nasceu em 1870 no Rio de Janeiro e faleceu em 1920, na mesma cidade. Foi aluno do Arsenal de Guerra. Serviu no Corpo de Bombeiros.


Em 1896, com a fundação da Banda do Corpo de Bombeiros, passou a fazer parte da mesma. Compôs chótis e mazurcas. Uma de suas composições conhecidas é a mazurca Esmeraldina.

Sua obra mais famosa, foi o chótis Talento e formosura, que recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense, sendo gravado, entre outros, pela Banda da Casa Edson e pela Banda do Corpo de Bombeiros, na Odeon; pelos cantores João Barros e Mário Pinheiro, já com versos de Catulo, na Victor Record e pelo Grupo Lulu o Cavaquinho, na Columbia, todas no início do século XX.

Em 1977, Talento e formosura foi regravada por Paulo Tapajós na série "Cantares brasileiro - vol. 1 - a modinha", distribuído pela Companhia Internacional de Seguros como brinde de Natal.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Ed. 1998, SP

Cupertino de Menezes

Cupertino de Menezes, compositor, maestro, flautista e violinista nasceu em 18/9/1868 e faleceu em 18/10/1950 na cidade do Rio de Janeiro RJ. Filho de Capitulina Maria da Conceição e Juvêncio Acto de Menezes, nasceu em Porto Alegre, quando lá se detiveram os pais, que atuavam como enfermeiros, ajudando a transportar soldados feridos na guerra do Paraguai. 


Seu nome foi dado em homenagem ao santo do dia, São José de Cupertino. Quando a guerra terminou, em 1870, a família transferiu-se para o Rio de Janeiro.

Aos 14 anos de idade, ingressou como artífice na Marinha, no Arsenal da Ilha das Cobras. Ali aprendeu inicialmente a tocar trompete, abandonando depois esse instrumento para dedicar-se à flauta. Quando deixou o Arsenal, estudou harmonia e orquestração.

Dirigiu bandas importantes como a da Brigada Policial, a da Casa Faulhaber e a da Casa Edison. Escreveu o chótis Tardes amenas, que se tornou a canção Manhãs de abril ao receber letra do poeta Hermes Fontes. Esta composição foi gravada por vários artistas dentre os quais a atriz Abgail Maia que a incluiu em seu repertório. Posteriormente Catulo da Paixão Cearense também colocou letra em Tardes amenas, chamando-a Fascinação por teus olhos, omitindo o nome de Cupertino quando a inseriu na "Lira dos salões".

Em 1914, Alvarenga Fonseca e Armando Oliveira fizeram uma paródia de Tardes amenas - Lua cheia - para o ator Bernardino Machado, que a cantou na revista "Chuá", imitando um bêbado. Em 1923, fundou a Estudantina Euterpe, onde teve diversos alunos entre os quais o compositor Jaime Ovale.

Cupertino

"Grande maestro, flauta fluente e sonoroso "primus interpares" entre seus componentes pelo gosto e modo de exprimir com sentimento as suas produções, e também as de Callado, Rangel, Viriato e de outros tantos por mim descritos. Agora já se acha velho e retirado dos choros, tendo se dedicado ao violino tornando-se um admirador de Paganini. Formou até uma sociedade de aprendizagem de músicos onde tem se aproveitado grande quantidade de moças e moços que já se acham diplomados pelo Instituto de Música. Tem de sua lavra grande quantidade de choros. Apesar de não vê-lo há muito tempo, acho que ainda vive para a felicidade dos seus inúmeros alunos e de seus amigos, que no rol deles se encontra o escritor" (O Choro - Reminiscências dos chorões antigos - Rio de Janeiro, 1936 - Alexandre Gonçalves Pinto).

A bela vivenda de Manoel Vianna

"Fui convidado pelo grande Professor Cupertino, para assistir um conjunto de chorões lá para as bandas de Água Santa. Tomando um trem de subúrbios, saltei no Engenho de Dentro, onde esperei um ônibus para aquelas bandas. Depois de muito esperar, enfim, chegou o tal ônibus, onde me foi impossível embarcar, tal o assalto da grande população que ali também esperava. Enfim, pacientemente esperei outro, porque no primeiro fui completamente barrado, pisado, e com a roupa toda amassada. Na chegada do segundo, tomei coragem, e consegui entrar, não sem grande custo. E lá fui no tal veículo que cai daqui, cai para acolá, lá cheguei com os órgãos internos todos soltos de seu competente lugar. Já um pouco distante, já eu ouvia o mavioso som da maravilhosa flauta do Professor Cupertino.

Em passos cadenciados, cheguei à casa, que era um verdadeiro paraíso, onde habitaram nossos primeiros pais. Ao chegar à porteira da casa, visto por Vianna e Cupertino, foi um delírio! Vianna todo sorridente veio me receber à porteira dando-me um abraço que ainda sinto o seu contato. Cupertino recebeu-me sorridente e agradecendo o meu comparecimento ao seu convite. Estavam todos tocando em um belo terraço que tem a sua casa. Sentando-me em uma das cadeiras depois de ter cumprimentado a todos, agarrei de unhas e dentes um mavioso violão, que pousava em cima de uma cadeira, e assim fui fazendo um Mi menor com seus acordes, agradando a todos os componentes do conjunto. Faltava ali um cavaquinho, e tocando eu também este instrumento, Vianna trouxe-me um e entregou-me, eu então o afinando comecei manhosamente a dedilhar contentando mais ou menos a todos.

- Então Cupertino disse: Vamos a um choro? E colocando a sua maviosa flauta aos lábios tocou uma belíssima polca de Callado, que eu felizmente, apesar dos anos passados, ainda me lembrava. Pois todos os chorões sabem que o cavaquinho é um instrumento que nestes choros é de uma necessidade de grande valor. E então o Professor Cupertino, desfiou o rosário, tocando Callado, Viriato, Silveira, Luizinho e outros grandes flautas antigos e modernos, que era uma delícia" (O Choro - Reminiscências dos chorões antigos - Rio de Janeiro, 1936 - Alexandre Gonçalves Pinto).


Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora - São Paulo, 2000; O Choro - Reminiscências dos chorões antigos - Rio de Janeiro, 1936 - Alexandre Gonçalves Pinto.

O choro


O "choro" é o gênero criado a partir da mistura de elementos das danças de salão europeias (como o schottisch, a valsa, o minueto e, especialmente, a polca) e da música popular portuguesa, com influências da música africana. De início, era apenas uma maneira mais emotiva, chorosa, de interpretar uma melodia, cujos praticantes eram chamados de chorões.


Como gênero, o choro só tomou forma na primeira década do século 20, mas sua história começa em meados do século XIX, época em que as danças de salão passaram a ser importadas da Europa. A abolição do tráfico de escravos, em 1850, provocou o surgimento de uma classe média urbana (composta por pequenos comerciantes e funcionários públicos, geralmente de origem negra), segmento de público que mais se interessou por esse gênero de música.

Em termos de estrutura musical, o choro costuma ter três partes (ou duas, posteriormente), que seguem a forma rondó (sempre se volta à primeira parte, depois de passar por cada uma). A origem do termo choro já foi explicada de várias maneiras. Para o folclorista Luís da Câmara Cascudo, esse nome vem de xolo, um tipo de baile que reunia os escravos das fazendas; de xoro, o termo teria finalmente chegado a choro. Por outro lado, Ary Vasconcelos sugere que o termo liga-se à corporação musical dos choromeleiros, muito atuantes no período colonial. José Ramos Tinhorão defende outro ponto de vista: explica a origem do termo choro por meio da sensação de melancolia transmitida pelas baixarias do violão (o acompanhamento na região mais grave desse instrumento). Já o músico Henrique Cazes, autor do livro Choro – Do Quintal ao Municipal, a obra mais completa já publicada até hoje sobre esse gênero, defende a tese de que o termo decorreu desse jeito marcadamente sentimental de abrasileirar as danças europeias.

Grupo de chorões, Rio de Janeiro, 15/11/1916. No centro, em pé, o compositor Sinhô.

Vários músicos e compositores contribuíram para que esse maneirismo inicial se transformasse em gênero. Autor da polca Flor amorosa, que é tocada até hoje pelos chorões, Joaquim Antonio da Silva Callado foi professor de flauta do Conservatório de Música do Rio de Janeiro. De seu grupo fazia parte a pioneira maestrina Chiquinha Gonzaga, não só a primeira chorona, mas também a primeira pianista do gênero. Em 1897, Chiquinha escreveu para uma opereta o cateretê Corta-Jaca, uma das maiores contribuições ao repertório do choro. Outro pioneiro foi o clarinetista e compositor carioca Anacleto de Medeiros, que realizou as primeiras gravações do gênero, em 1902, à frente da Banda do Corpo de Bombeiros. Assim como outros registros posteriores, essas gravações indicam que a improvisação ainda não fazia parte da bagagem musical dos chorões naquela época.

Essencial para a formação da linguagem do gênero foi a obra de Ernesto Nazareth, que desde cedo extrapolou as fronteiras entre a música popular e a erudita. O autor de clássicos como Brejeiro, Odeon e Apanhei-te cavaquinho destacou-se como criador de tangos brasileiros e valsas, mas de fato exercitou todos os gêneros musicais mais comuns daquela época. A sofisticação da obra de Nazareth era tamanha, que (exceto no caso de Radamés Gnattali, um de seus melhores intérpretes) sua obra só foi definitivamente integrada ao repertório básico dos chorões nos anos 40 e 50, por meio das gravações de Jacob do Bandolim e Garoto.

Também genial, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, contribuiu diretamente para que o choro encontrasse uma forma definida. Para isso, introduziu elementos da música afro-brasileira e da música rural nas polcas, valsas, tangos e schottische dos chorões. É o caso do maxixe Os Oito Batutas, gravado em 1918, cujo título antecipou o nome do primeiro conjunto a conquistar fama na história da música brasileira. Protagonistas de uma polêmica temporada de seis meses em Paris, no ano de 1922, Pixinguinha e seus parceiros na banda Oito Batutas (um septeto, na verdade) dividiram a imprensa e o meio musical brasileiro, entre demonstrações de ufanismo e desqualificação. Foi também sob duras críticas que Lamentos (de 1928) e Carinhoso (composto em 1917 e só gravado pela primeira vez em 28), dois inovadores choros de Pixinguinha, foram recebidos pela crítica. O fato de ambos terem sido feitos em duas partes, em vez de três, foi interpretado pelo preconceituoso crítico Cruz Cordeiro como uma inaceitável influência do jazz.

Outra personalidade de peso na história do gênero foi o carioca Jacob Pick Bittencourt, o Jacob do Bandolim, famoso não só por seu virtuosismo como instrumentista, mas também pelas rodas de choro que promovia em sua casa, nos anos 50 e 60. Sem falar na importância de choros de sua autoria, como Remeleixo, Noites Cariocas e Doce de Coco, que fazem parte do repertório clássico do gênero. Contemporâneo de Jacob, Waldir Azevedo superou-o em termos de sucesso comercial, graças a seu pioneiro cavaquinho e choros de apelo bem popular que veio a compor, como Brasileirinho (lançado em 1949) e Pedacinhos do céu.

Um dos exemplos mais bem resolvidos de união entre o choro e o jazz pode ser encontrado na obra do maestro e arranjador pernambucano Severino Araújo, que pouco depois de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1944, decidiu adaptar sambas e choros à linguagem das big bands. À frente da Orquestra Tabajara, Araújo gravou vários choros de sua autoria, como Espinha de bacalhau e Um chorinho em Aldeia, exemplos seguidos por outras orquestras do gênero ou compositores como Porfírio da Costa e K-Ximbinho. Outro brilhante adepto da fusão do choro com o jazz foi o maestro Radamés Gnattali, ao lado de quem atuaram talentosos músicos do gênero, como os violonistas Bola Sete, Laurindo de Almeida e Garoto. Mas foi com dois saxofonistas que Gnattali aprofundou mais suas experiências de aproximação com o jazz: Zé Bodega e Paulo Moura, músico que desde os anos 70 dedica parte de seu repertório ao choro.

O Rio de Janeiro é a incontestável capital do choro, mas não faltaram músicos de expressão no gênero, originários de outras partes do país. Um dos pioneiros foi o violonista João Pernambuco, que trocou o sertão pernambucano pelo Rio, em 1904. Além de ter feito parte do conjunto Os Oito Batutas, ele é até hoje cultuado pelos violonistas brasileiros, que continuam interpretando suas composições para violão. Incentivado pelos Batutas, o paraibano Severino de Carvalho, o Ratinho, também migrou para o Rio, em 1922. Um dos pioneiros na utilização do sax soprano, além de compositor de clássicos do gênero, como Saxofone, por que choras?, ficou mais conhecido, porém, ao formar a famosa dupla caipira Jararaca e Ratinho. Outro solista nordestino de destaque, nos anos 20 e 30, foi o clarinetista e saxofonista sergipano Luís Americano, que integrou o inovador Trio Carioca, ao lado do pianista e maestro Radamés Gnattali, em 1937. Já o bandolinista pernambucano Luperce Miranda, que também tocava cavaquinho, radicou-se no Rio de Janeiro, em 1928, depois de tocar com os Turunas da Mauricéia. Notável também é o violonista e compositor Francisco Soares de Araújo, o Canhoto da Paraíba, que surpreende ao tocar seu instrumento sem inverter a posição das cordas, apesar de ser canhoto.

Outro centro de cultivo e desenvolvimento do gênero foi São Paulo, onde se destacaram chorões como os violonistas Armandinho Neves, Antônio Rago e, especialmente, Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto. Virtuose do violão, ele acompanhou a cantora Carmen Miranda nos EUA, em 1939. O contato direto com o jazz influenciou sua obra, inclusive seus choros, que hoje são tocados por violonistas de vários cantos do mundo, incluindo o também paulista Paulo Bellinati, um dos principais divulgadores da obra de Garoto. Embora o choro continue sendo mais cultuado no Rio, é em São Paulo que têm acontecido os mais significativos eventos dedicados ao gênero, como os festivais promovidos pela TV Bandeirantes, nos anos 70, ou a recente série Chorando Alto, no Sesc Pompeia.

Estimulado pelo show Sarau, com Paulinho da Viola e o grupo Época de Ouro (e em parte pelo sucesso do grupo Novos Baianos), o choro conheceu um período de revitalização, nos anos 70. Não apenas surgiram grupos jovens dedicados ao gênero, como os cariocas A Fina Flor do Samba, Galo Preto e Os Carioquinhas, mas um novo público se formou, ampliado por clubes de choro criados em cidades como Brasília, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia e São Paulo, entre outras. O novo interesse pelo gênero propiciou também a redescoberta de veteranos chorões, como Altamiro Carrilho, Copinha e Abel Ferreira, além de revelar talentos mais jovens, como os bandolinistas Joel Nascimento e Déo Rian. Sem dúvida, o músico mais brilhante dessa nova geração foi o violonista carioca Rafael Rabello, que apesar de ter morrido prematuramente, aos 32 anos, em 1995, deixou gravada uma obra de peso.

Já a partir dos anos 80, o choro passa a estabelecer outras conexões musicais. Grupos de espírito chorão, como a Camerata Carioca e a Orquestra de Cordas Brasileiras, também traziam em seus repertórios música erudita de Bach, Vivaldi e Villa-Lobos, ou mesmo o tango contemporâneo de Astor Piazzola. Por outro lado, a música popular brasileira passou a flertar mais com o choro através de obras de influentes compositores e letristas, como Paulinho da Viola e Chico Buarque, ou instrumentistas, como Hermeto Pascoal. Já na última década, o choro vem recebendo uma ênfase especial na parceria do violonista e compositor Guinga com o veterano letrista Aldir Blanc, que elevaram o patamar das experiências com o choro vocal. Entre os músicos da atualidade que dedicam considerável parte de seu repertório ao choro chamam atenção o pianista Leandro Braga, o gaitista Rildo Hora, o clarinetista e saxofonista Nailor Proveta Azevedo e os flautistas Antônio Carlos Carrasqueira e Dirceu Leitte.


Fonte: Choro - Uma música sentimental, sofisticada e muito brasileira (Carlos Calado)