quarta-feira, maio 15, 2013

Plácida dos Santos

Maxixe - Ilustr. de 1903
Plácida dos Santos (Circa 1853 - 1935 - Rio de Janeiro, RJ) foi a primeira cantora a se apresentar interpretando música brasileira em Paris. Uma outra brasileira, a Lapinha (Joaquina Maria da Conceição Lapa), atriz e cantora de teatro, foi outra pioneira que também floresceu na "Cidade Maravilhosa" entre fins do séc. XVIII e inícios do séc. XIX, apresentando-se na cidade do Porto, em Portugal, em concertos realizados nos dias 27/12/1794 e 03/01/1795. 

Mas voltemos à cantora Plácida: iniciou sua carreira apresentando-se em cabarés e cafés-cantantes que existiam no Rio de Janeiro no final do século XIX. Em 1895, fez sucesso quando se apresentava no café Eldorado na atual Rua Teotônio Regadas, na Lapa, centro do Rio de Janeiro e então intitulada de Rua do Império. Na ocasião cantava com o cançonetista Mr. Brunet, e se destacou com a canção "Mazurca". Segundo jornais da época: "Sucesso indescritível de Mme. Plácida na apetitosa Mazurca!".

Alguns anos depois, quando se apresentava no Teatro Santana, situado no local onde atualmente se acha o Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro, foi ouvida com agrado pela cançonetista Dzelma, natural da Martinica que a aconselhou a tentar a sorte em Paris onde, dizia, teria sucesso e ganharia muito dinheiro. Entusiasmada com a idéia embarcou para Paris.

Na capital francesa, visitou o diretor teatral do jornal Gil Blas e conseguiu com que o mesmo a colocasse numa sessão beneficente. Com o agrado obtido nessa sua primeira apresentação em terras francesas, conseguiu ser contratada pelo famoso Follies Bergères onde se apresentou cantando e dançando maxixe.

Algum tempo depois retornou ao Brasil e em 1900 estreou no Alcazar Parque, apresentando-se ao lado de nomes como Geraldo Magalhães e Jenny Cook. Em 1903, passou a atuar no Jardim-Concerto Guarda Velha na Rua Senador Dantas, centro do Rio de Janeiro, e no mesmo ano passou para o Teatro Cassino, na Rua do Passeio, onde foi apresentada como "Uma brasileira que já fez furor em Paris".

Em 1910, resolveu encerrar a carreira artística com duas apresentações, uma no Tetaro Apolo e outra no Cabaret-Concert.

Em 1933, foi entrevistada pelo jornal "A Noite Ilustrada" e na ocasião, afirmou: "Fui eu quem primeiro cantou em Paris a música brasileira!".

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Fontes: EFEGÊ, J. Figuras e coisas da Música Popular Brasileira. Volume 2. Rio de Janeiro: MEC/Funarte, 1980; Revista de História da Biblioteca Nacional - Pioneira em Aplausos; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha - 2a. Edição - 1998..

Plácida, o primeiro vôo de nossa música

Hoje, a música popular brasileira, embora nem sempre legítima, mesmo perdendo sua característica rítmica, aquele sabor de simplicidade que a põe facilmente no cantar das ruas, está nas Europas, nos States, no mundo. Mas nos fins do século XIX e ainda no princípio deste, subestimada, tida como espúria, ficava contida na classe inferior, não sendo de bom tom alguém declarar apreciá-la.

Claro que ela existia a despeito do esnobismo dos da alta, do menosprezo da gente chique. E nos muitos cabarés e cafés-cantantes do velho Rio, entre as cançonetas trazidas pelas chanteuses gommeuses ou chanteuses comiques, sempre havia uma patrícia nossa (ou patrício) cantando lundus, tanguinhos, chulas e maxixes.

A brasileira Plácida dos Santos, que, em 1895, se apresentava no Eldorado, do Beco do Império (atual Rua Teotônio Regadas) na Lapa, e que por ser de boa família se anunciava como Mme. Plácida, era uma dessas patrícias. Ali, com o cançonetista Mr. Brunet e Miss Josephine Bracesco, célèbre charmeuse des serpents, interpretava bem à brasileira, dengosa e provocante, canções de franco agrado dos frequentadores. Entre os vários números que compunham seu repertório sobressaía-se um que, por isso, era posto em destaque no noticiário dos jornais: “Sucesso indescritível de Mme. Plácida na apetitosa Mazurca”.

Rumo a Paris

Poucos anos depois, quando estava atuando no Teatro Santana (no local onde agora está o novo Teatro Carlos Gomes), Dzelma, cançonetista da Martinica, que fazia parte do elenco, despertou-lhe o interesse de uma viagem à Europa. Constatava todas as noites o êxito das apresentações de Plácida e sugeriu-lhe:

— Você, com essa voz e com essa plástica, se fosse a Paris arranjaria fortuna.

Não só a Mazurca, que continuava no seu repertório, mas os graciosos tanguinhos e lundus empolgariam os parisienses, dar-lhe-iam muitos francos, a fortuna que Dzelma lhe assegurava. Encorajada pelas palavras da colega, sem estar presa a contrato rígido, resolveu “fazer a Europa”. Correu a um comprador de móveis, levou-o ao quarto de aluguel onde morava na Rua Bela de São João e, pelo preço que lhe foi oferecido, liquidou os trastes. Uma semana após, com pequena mala como bagagem, embarcava no Ville de Pernambuco, da Chargeurs Réunis — a companhia que lhe proporcionara passagem ao alcance de seu pouco dinheiro — e foi-se rumo a Paris. Levava a decidida vontade de triunfar, mostrando ao Velho Mundo canções brejeiras.

No Follies Bergères

Em Paris, com a reserva econômica de apenas uma libra, viveu em aperto até conseguir a cobiçada fortuna que a cantora da Martinica lhe sugerira àquela noite no camarim do Santana. Hospedou-se num modesto hotel da Rua Doux e, no dia imediato, visitou o redator teatral do Gil Blas, mostrando-lhe um álbum de atividades artísticas e fazendo uma demonstração de algumas canções de seu repertório. Dessa entrevista, realizada no francês que ela aprendera num colégio de religiosas, resultou breve registro na edição do dia seguinte. Na notícia em questão era também anunciada a participação de Plácida dos Santos num festival de caridade a ser realizado no Embassateur, em cujo programa o jornalista teve a iniciativa de incluir o nome da cantora brasileira.

Na noite do espetáculo, tímida, mas confiante, pois a grande atração do programa eram os famosos cançonetistas Poilis et Thérèze, Plácida procurava vencer o nervosismo. Seu aparecimento em cena causou primeiramente o espanto da platéia, visto ser esperada a presença de uma chanteuse créole, como divulgara a publicidade, querendo denunciar influências africanas nas canções brejeiras que seriam apresentadas. Plácida, porém, venceu imediatamente a surpresa e, assim que cantou, segura do desempenho, dando todo calor brasileiro aos números escolhidos, as palmas e até alguns bis lhe asseguraram que se impusera como desejava.

Do êxito desse primeiro contato com o público parisiense resultou logo ser contratada para uma temporada no Follies Bergères. E no palco onde tantas estrelas internacionais já se haviam exibido, Plácida, dançando um maxixe brésilienne, cantando com vivacidade lundus e tanguinhos nos quais intercalava o argot das ruas para que o público os sentisse na simplicidade de seus versos, assegurou a vitória almejada. Com ela, também vitoriosamente, a música popular brasileira chegava pela primeira vez à Europa na sua legitimidade característica.

Aos 70 e com 18

Muitos anos passaram. Plácida dos Santos — que voltara ao Brasil, depois de sua estada em Paris — em 17 de maio de 1900 estreava no Alcazar Parque. Nessa casa de diversões, da mesma Rua Teotônio Regadas, 77, também conhecida como Alcazar Fluminense, no mesmo lugar em que antes funcionara o Eldorado, ela, Geraldo Magalhães e Jenny Cook eram os grandes cartazes. Dali transferiu-se, em 1903, para Jardim-Concerto Guarda Velha, na Rua Senador Dantas, 57, no qual a célebre Suzanne Casteras tinha as honras de grande étoile française. Nesse mesmo ano, em dezembro, quando a Casteras realizou sua festa artística no Teatro Casino (Rua do Passeio, 44), Plácida participou do programa e, como vinha acontecendo após o seu regresso, apresentavam-na: “Uma brasileira que já fez furor em Paris”.

Vitoriosa, Plácida achou que podia encerrar sua carreira artística. Então, com dois festivais de despedida, o primeiro no dia 7 de janeiro de 1910, no Teatro Apolo, o segundo a 3 de outubro do mesmo ano, no Cabaret-Concert, Rua Senador Dantas, 104, Plácida dos Santos deixava o palco gloriosa. Fazia-o com o orgulho de poder dizer, como o fez, em abril de 1933, quando um repórter de A Noite Ilustrada a entrevistou:

— Fui eu quem primeiro cantou em Paris a música brasileira!

Não avançava na afirmativa além de Paris, sabendo, certamente, que o padre Domingos Barbosa antes já havia cantado em Lisboa modinhas brasileiras (“Sobem nas asas dos ventos/ As modinhas brasileiras”). Estava com 70 anos, os quais declarou sem constrangimento ao jornalista, que se surpreendeu com a jovialidade da entrevistada (“uma senhora idosa, de excelente humor, olhos ainda iluminados e dentadura alva e perfeita”). Mas, como querendo arrefecer o espanto do entrevistador, que a descobrira em Ipanema, ajuntou com um sorriso:

— Setenta de idade. O espírito, porém, ainda não completou 18.

Jornal do Brasil, 01/05/70

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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira - Volume 2 / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

segunda-feira, maio 13, 2013

Carlos Espíndola

Carlos Espíndola (circa 1870 - 1920, Rio de Janeiro, RJ), instrumentista e flautista, pai da cantora Aracy Cortes. Foi feitor de turma da antiga prefeitura do então Município Neutro como se chamava o Rio de Janeiro na época do Império. Foi amigo de Alexandre Gonçalves Pinto a quem conheceu ainda solteiro. Faleceu precocemente.

Era considerado como um bom flautista e aprendeu a tocar com o professor João Salgado, tornando-se um exímio executante de flauta e um chorão inveterado. Tocou em inúmeros bailes na Tijuca, Andaraí, Vila Isabel, Matoso e Itagipe, entre outras localidades do Rio de Janeiro do final do século XIX e começo do século XX.

Alexandre Gonçalves Pinto, o "Animal", comenta em seu livro "O Choro", de 1936, sobre  o flautista Carlos Espíndola:

"Foi um grande amigo e chorão, executor de flauta com grande perfeição, pae da grande artista Aracy Córtes, luminosa estrella theatral no nosso amado Brasil, que tantas glorias, bellezas e applausos tem feito na nossa capital e tambem retumbante successo no estrangeiro. Fui amigo intimo de seu pae, conheci-o ainda solteiro quando frequentavamos bons e maus bailes na Tijuca, Andarahy, Villa Isabel, Mattoso, Itapagipe e muitos outros lugares desta capital, alguns pagodes que estavam acostumados a receber os musicos a café e cachaça, festas estas que Espindola, ia me dizendo vamos dar o fóra pois não estou acostumado a passar a "Pirão de Areia secca" e "Pirão de Bagre", que significava não haver uma bella ceia regada com o competente vinho; então respondia eu vamos sahir de barriga pois ella esta dando horas. Saindo deste pagode hiamos para qualquer botequim, mandavamos vir uma porção de mortadella, pão e vinho e assim faziamos um bello repasto, sahiamos dalli mais ou menos forrados, caminhavamos pela rua afóra rindo e commentando o baile.

Espindola, comia bem e antes de tocar flauta já era grande frequentador de pagodes, pois conhecendo muitos tocadores de chôro escorregava nas aguas delles. Dahi parte o conhecimento delle com o inesquecivel professor João Salgado, também de saudosa memoria. Nesse tempo metteu-se na cabeça de Espindola, aprender a tocar flauta, o que conseguiu comprando uma de novo systema convidando João Salgado para seu professor que promptamente aquieceu. João Salgado que era um professor de grande merito e paciencia para ensinar a mais rude cabeça foi aos poucos ensinando a Espindola, que com a vontade que tinha de aprender foi depressa, pois em poucos tempos tornou-se um flautista respeitado nas rodas dos tocadores, impondo-se á admiração de todos que o conheciam e tambem deste que estas linhas escreve, que muito o apreciava.

Morreu muito moço ainda e, se vivesse, hoje seria a gloria dos grandes chorões com a sua maviosa flauta. Falleceu á rua Barão de Ubá, e o autor destas linhas acompanhou o seu enterramento ao Cemiterio de São Francisco Xavier. Occupava elle, o cargo de feitor de turma da Prefeitura. Não sei de certo, se a sua viuva ainda existe, o que faço votos que sim, pois, quando carteiro que fazia entrega na rua do Lavradio encontrei-a, uma occasião, morando no Hotel Nacional. Palestramos um pouco, finalizando a nossa conversa sobre a vida do seu saudoso esposo.

A sua dilecta filha Aracy Córtes, um dos astros que circula em nosso meio artistico homenageada pelos applausos dos seus admiradores, a vi muito creança."

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Fonte: "O Choro", 1936 - Alexandre Gonçalves Pinto