terça-feira, dezembro 31, 2013

Prognósticos do Carnaval de 1936

Os "speakers" Afonso Scola, César Ladeira, Cristóvão de Alencar, Aurélio de Andrade, Dilo Guardia e Gastão do Rego Monteiro, avaliam as músicas carnavalescas de 1936 - Fotos: CARIOCA, 01/02/1936.

“O Carnaval está se aproximando rapidamente. O carioca já está começando a se sentir invadido pelo entusiasmo que lhe desperta a presença de Momo — soberano do Riso e da Alegria. As músicas de Carnaval já dominam a cidade. No rádio, nas batalhas de confete e nos bailes.

Era fama na velha Grécia, que o vinho e a música são os dois fatores da alegria humana. A eles dois, devem os foliões render as suas homenagens. Os compositores populares já mostraram as melodias que vão ser cantadas nos três melhores dias do ano. Umas boas, outras más. Todas com esperanças de êxito. Todas com pretensões a sucesso.

CARIOCA, que interpreta o pensamento do nosso povo, quis ter uma impressão acerca das músicas que seriam mais cantadas. Para isto, procurou os “speakers” das nossas estações de rádio. O “speaker” é quem melhor conhece os gostos e preferências do público com quem está sempre em contato através o microfone. Eles podem dizer, com segurança, quais os sucessos de 1936. Várias músicas foram indicadas. Vencerão umas, falharão outras. É muito difícil descobrir a preferência do público, quando se sabe que o sucesso, às vezes, é devido a uma insignificância.

Dilo Guardia, o “speaker” da Rádio Transmissora — a estação mais nova da cidade, declara:

— “A marcha que julgo ser o mais formidável sucesso neste Carnaval é a “Marcha do grande galo”, uma criação de Almirante. Seus autores, Paulo Barbosa e Lamartine Babo foram felizes, pois possui esta música o fator principal para a vitória —  originalidade.

Outras marchas existem que também eletrizam pelas suas melodias, pelas suas letras, mas... os seus estribilhos são menos fáceis de serem cantados pela massa popular carnavalesca da cidade. Refiro-me à “Cadência”, de Nássara, e “A. M. E. I.”, de Nássara e Frazão, ambas lançadas por Francisco Alves.  O “Marido da Eva”, só pelo título é quase que uma cartada certa. Gosto bastante da marcha de Oswaldo Santiago “Você ainda não me deu”, que Gastão Formenti gravou. Também promete.

Sambas? ... Este caso é bastante complicado para se resolver. Não quero que se julgue que pretendo antever sucessos, mas, a julgar pelo que vejo, tenho a impressão que “Palpite infeliz”, de Noel, não deve perder este páreo: “Carnaval de 1936”. Aracy de Almeida lançou-o com grande precisão e depois (dizem os mais entendidos a Vila é o reduto dos sambas que nascem para vencer. Vai daí o meu prognóstico. Orlando Silva também possui criações suas que devem trazer surpresas e não sei como ficará definida tão grande prebenda”.

“Marchinha do Grande Galo”, de Lamartine Babo:

O galo de noite cantou,
Toda gente quis ver
O que aconteceu!
Nervoso, o galinho respondeu:
Có, có, có, có, có, có, có, ró
A galinha morreu...

Có, có, có, có, có, có, có, ró
Có, có, có, có, có, có, có, ró
O galo tem saudade
Da galinha carijó. (Bis)

A minha vizinha também
Certa noite gritou
Toda gente acordou!
Nervoso, o marido respondeu:
Có, có, có, có, có, có, có, ró
Hoje o galo sou eu!

Cesar Ladeira dispensa apresentações. Mais do que ninguém, pode ter autoridade para responder à nossa enquete. Cesar Ladeira é, porém, muito “diplomata” e não quer desgostar ninguém:

— “A experiência já me ensinou a não fazer profecias. Por temperamento, sou realista: amo as coisas positivas. Por isso não gosto de “palpites”. Todas as marchas e sambas que são apresentadas para o Carnaval têm, como objetivo, é claro, vencer, o páreo difícil da preferência pública. Dar “palpites” nesse caso é descontentar os meus particulares amigos — os compositores, prodígios de inspiração carnavalesca. Prefiro gostar de todas. Meu coração é grande: “deixai vir a mim as marchinhas” ... E por falar nisso, que marchinha formidável a do Noel Rosa “Pierrot apaixonado”, hein? Chi! menino, está “abafando”.

Assim falou o mais querido dos “speakers” da cidade.

“Pierrot apaixonado”, marcha de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres:

Um Pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando (bis).

A Colombina entrou no botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim....
Dizendo: Pierrot “cacete”
Vá tomar sorvete
Com o Arlequim.

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o Pierrot aconteceu assim
Levando esse grande “shoot”
Foi tomar “vermouth”
Com amendoim.

Aurélio de Andrade tem sobre os outros “speakers” da cidade a vantagem de haver vencido em torneio deste gênero, derrotando inúmeros adversários, quando da inauguração da Rádio Tupy. Eis o que nos disse:

— Fazer prognósticos sobre sucessos é quase impossível, por enquanto. O concurso das “ruas” só se decide em definitivo, na quarta-feira de cinzas. Aí é que se conhece o vencedor. Mas... creio que “O marido da Eva” e “Querido Adão” são concorrentes bastante sérios. Ambas as marchas possuem grandes credenciais para o triunfo, tem características de vitória, em sua composição. Assis Valente, que todos nós conhecemos de um sem número de sucessos anteriores, tem “A infelicidade me persegue”, que é um samba ótimo. Não está ainda, é verdade, bastante conhecido. Em pouco tempo porém, sê-lo-á, e então...

“Querido Adão” — Marcha de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago:

Meu querido Adão
Todo mundo sabe
Que perdeste o juízo
Por causa da serpente tentadora
O nosso mestre te expulsou, do Paraíso.

Mas em compensação
O teu pobre coração
Que era pobre, pobre,
Muito pobre de amor
Cresceu e eternizou, meu Adão
O teu pecado encantador.

Gastão do Rego Monteiro é um dos novos na sua arte. Tem pouco tempo de “speaker”, porém, está agradando e dentro em breve será, por certo, um dos primeiros da cidade. Novo como “speaker”, não o é, porém, no rádio. Ao contrário, conhece-o a fundo e sabe o que agrada ao público.

— “Marchinha do Grande Galo” é a que tem mais chance de vencer. Tem mais “carnaval” que qualquer outra e possui uma alta dose de originalidade. Sei que ela está fazendo sucesso, não só pelos pedidos que me vêm às mãos, como também, pelo que tenho observado nas festas. Há outras que devem também agradar, como: “Pierrot apaixonado”, “Vem meu amor” e “Oh! Oh! Não” que, por sinal, é ótima! Em sambas, destaco “Samba”, de Hervé Cordovil, música que tem no nome, o reflexo exato de seu valor. “As lágrimas rolavam”, que é muito carnavalesco e “Palpite infeliz”, são, também concorrentes muito autorizados.

“As lágrimas rolavam” — Samba de Kid Pepe, Germano Augusto e Guará:

As lágrimas rolavam
Na face da mulher
Que eu mais amava e deixei
A meus pés ajoelhada
Ela me implorava... implorava
Perdoa... perdoa.

E eu rude, embrutecido
Fui me embora convencido
E não tive explicação
Desde daí tenho amargado
Por ela ter chorado
A nossa separação.

Eu agora vou voltar
A teus pés para implorar
Com uma dor no coração
Nesta vida me maldigo
Do que aconteceu comigo
Tenho que pedir perdão...

Pouca gente conhece Armando Reis. Muita gente conhece Cristóvão de Alencar. O primeiro é conhecido pelo “pessoal” do rádio. O segundo é conhecido pelo público. A diferença existente entre ambos é que o Armando é compositor e o Cristóvão é o “speaker” da PRC-8, Duas personalidades distintas, numa só criatura — aquele que aos sábados “canta” ao microfone da Guanabara as músicas de sucesso. Como o Armando Reis, não está este ano inscrito no “Grande Prêmio Carnaval de 1936”, o Cristóvão sente-se à vontade para falar:

— Três marchas há, que são dignas de grande sucesso: “O marido da Eva”, “A. M. E. I.” e “Pierrot apaixonado”.  Cada uma dela apresenta uma característica distinta: “O marido da Eva” é toda alegria e vivacidade, “A. M. E. I.” é a marcha sentimental, tipo “Formosa” e, por isso mesmo, capaz de grande sucesso. O “Pierrot” está entre as duas: tem uma parte sentimental que é o estribilho e logo nos versos sente-se a alegria e o bom-humor do autor.

Quanto a sambas, destaco “Palpite infeliz”. Sou aliás, suspeito para falar porque se trata de um samba dedicado à Vila Isabel, bairro que é “do coração”. Reconheço, porém, que “As lágrimas rolavam”, tem muito ritmo carnavalesco e pode mesmo, “abafar”, no Carnaval de rua, no Carnaval popular. Poucas vezes, tenho visto um samba com caráter tão carnavalesco e tão bom para “ranchos” e “cordões”.

“Marido da Eva” Marcha de Nássara:

Você ganhou mas não leva
Eu sou o marido da Eva.

Certidão de casamento
Não resolve de momento
A questão
Se ainda tenho no pescoço
“Entelado” este caroço
Eu sou mesmo, “Seu” Adão.

Descobri no fim da festa
Que a maçã era indigesta
Fiz asneira,
Se a serpente não me engana
Eu comia, era banana
Sobremesa brasileira.

Afonso Scola é o dono daquela voz simpática, a que já se habituaram os ouvintes da PRD-2. Um dos organizadores dos programas de discos, da Cruzeiro do Sul, conhece perfeitamente quais as preferências do público, com quem está sempre em contato pela numerosa correspondência que diariamente lhe chega às mãos, com pedidos de músicas. A sua resposta foi breve, porém expressiva:

— Creio que “Carnaval é rei” é sério concorrente. Possui o nosso ritmo e tem um acento nitidamente carnavalesco. “Pierrot apaixonado”, também é perigoso — mexe com os nervos do carioca. Há ainda uma marcha que está pouco falada porque ainda não está bastante conhecida. É “Fra Diavolo no Carnaval”, da autoria de Carlos Dix. Creio que ela está no páreo. Sambas? ... Acho que para o Carnaval, a marcha é que se impõe. Em todo o caso, dos sambas apresentados “Palpite infeliz” e “As lágrimas rolavam”, são os mais cotados.”

“O Carnaval é rei” — Marcha — Letra de Ernani Campos; música de Antenógenes Silva:

O Carnaval é rei
O rei da animação
Quando ele vem chegando 
Todos nós vamos perdendo
Do juízo a noção (bis).

O seu amor garota
Firmeza nenhuma tem
É como o nosso Carnaval
De duração tão curta
e deixa a gente mal.

Quando você vier
Buscar o meu coração
Você o encontrará pisado
Junto aos confetes
a rolar no chão.


Fonte: CARIOCA, de 01/02/1936

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Aldo Taranto

Aldo Taranto (1918 São Paulo, SP), maestro, compositor e arranjador, iniciou a carreira artística como compositor no começo da década de 1930. Em 1931, seu samba Candinha, com André Filho, foi  gravado por Sílvio Caldas, e as canções Flor agreste, com João Martins, e Naquele altar, foram lançadas na Victor por Gastão Formenti.

Em 1933, compôs com Donga, o samba Quando você morrer, gravado por Carmen Miranda. No ano seguinte, teve nova música gravada por Carmen Miranda, a marcha Agora não, parceria com Valfrido Silva.

Teve também no mesmo ano, o samba Eternamente, e a valsa Esquecer, com Osvaldo Santiago, e a canção Perjúrio, com Valentina Biosca, gravadas na Victor por Gastão Formenti.

No começo da década de 1940, passou a dirigir sua própria orquestra. Em 1941, acompanhou com sua orquestra, na Columbia a dupla Joel e Gaúcho na gravação da valsa Sempre o mesmo Rio..., de João de Barro e Alberto Ribeiro, e da rancheira Cabocla do coração, de Constantino Silva. Em 1947, seu bolero Os cabelos de Maria, parceria com José Mauro e Geraldo Mendonça, foi gravado na Continental por Dircinha Batista.

No início da década de 1950, foi diretor musical dos Discos Rádio. Em 1952, fez os arranjos para o LP Poeta da Vila - Sambas de Noel Rosa gravados por Marília Batista, o primeiro lançado pelo selo Rádio da Rádio Serviços e Propaganda Ltda. Por essa época, compôs jingles comerciais em parceria com o compositor e jornalista Antônio Maria.

Em 1954, seu tango Taça do amargor, com Romeu Fernandes, foi gravado na Sinter por Romeu Fernandes. Nesse ano, acompanhou com sua orquestra na Continental, o cantor Vicente Celestino na gravação das canções Nas asas brancas da saudade, Renúncia em prantos e Entre lágrimas, na toada-canção Dileta, e na valsa Noite cheia de estrelas, de Cândido das Neves; na canção-patriótica Meu Brasil, de Pedro de Sá Pereira e Olegário Mariano; na serenata Os milhões de arlequim, de Drigo, e na valsa Último beijo, de W. Paans e Eustórgio Wanderley.

Em 1955, teve os boleros Um caso de amor e Um dia a menos, e o beguine Exatamente agora gravados Waldir Calmon e Seu Conjunto no LP Ritmos melódicos Nº 1, e o bolero Foi assim no LP  Ritmos melódicos Nº 3 também com Waldir Calmon e Seu Conjunto, ambos da gravadora Rádio. Em 1956, acompanhou com seu conjunto ao cantor Eurístenes Pires na gravação da balada Oh! Mar e no bolero Amor ao luar, ambas de Eurístenes Pires.

Em 1957, o bolero Tudo é amor foi lançado por Waldir Calmon e Seu Conjunto no LP Feito para dançar Nº 6 da gravadora Rádio.  Em 1959, lançou pelo selo Internacional CID o LP Sonhos, amor e violinos interpretando com sua orquestra as composições Por causa de você, de Tom Jobim e Dolores Duran, A volta do boêmio, de Adelino Moreira, Abandono cruel, de Luis Soberano e Anicio Bichara, Vitrine, de Adelino Moreira, Se todos fossem iguais a você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Prece de amor, de René Bittencourt, Abismo, de Anísio Silva, Sonhando contigo, de Anísio Silva e Fausto Guimarães, Conceição, de Dunga e Jair Amorim, Ouça, de Maysa, Graças a Deus, de Fernando César, e Tudo foi ilusão, de Laerte Santos e Arcilino Tavares, todos grandes sucessos românticos da época.

No mesmo ano, o choro Manhoso foi gravado por Dionysio e Seu Quinteto no LP Sax e ritmo da gravadora Internacional CID, enquanto a canção Natal noite de amor foi incluída no LP Dançando com Papai Noel - Guimarães e Seu Conjunto do selo Internacional CID. No ano seguinte, Tudo é amor foi incluída por Dionysio e Seu Quinteto no LP Sax magia.

Em 1965, seu choro O saci na flauta, com José Mauro, foi gravado por Altamiro Carrilho no LP Choros imortais nº 2. Em 1968, no LP O sucesso continua, de Moreira da Silva, teve gravado o samba O velho não bobeia, parceria com Mário Rossi.

Em 1976, seu samba-canção Natal, noite de amor, com Nem, foi gravado por Ângela Maria.

Teve composições gravadas por Sílvio Caldas, Gastão Formenti, Carmen Miranda, Dircinha Batista, Moreira da Silva e Altamiro Carrilho, entre outros. Foi parceiro de Mário Rossi, Osvaldo Santiago, Ary Barroso, Valfrido Silva e André Filho, destacando-se como compositor e também como arranjador.

Obra

Agora não (c/ Walfrido Silva), Cabelos de Maria, Candinha (c/ André Filho), Devagar, senão eu caio, Esquecer (c/ Osvaldo Santiago), Eternamente (c/ Osvaldo Santiago), Exatamente agora, Flor agreste (c/ João Martins), Jurei me vingar, Labaredas do amor (c/ Ary Barroso), Manhoso, Naquele altar, Natal, noite de amor (c/ Nem), O saci na flauta (c/ José Mauro), O velho não bobeia (c/ Mário Rossi), Os cabelos de Maria (c/ José Mauro e Geraldo Mendonça), Perjúrio (c/ Valentina Biosca), Poltrona surrada (c/ Antonio Maria), Taça do amargor (c/ Romeu Fernandes), Tudo é amor, Um caso de amor.


Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB - Bibliografia Crítica: AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982;    CARDOSO, Sylvio Tullio. Dicionário Biográfico da Música Popular. Rio de Janeiro: Edição do autor , 1965; VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Martins, 1965.

Como se fazia samba em 1930

"Se quiséssemos reunir tudo o que já se tem dito e escrito acerca dos sambas e marchas carnavalescas, obteríamos material capaz de encher grossas colunas. Há, porém, algo que o público que ouve o samba no rádio ou no disco desconhece. É a resposta que se pode dar à pergunta: como se faz um samba? ...

O cenário é, em geral, o mesmo: uma mesa de café e alguns “sambistas” — três ou quatro. Mais do que isto, “não dá certo”. A localização do café varia: às vezes é na Avenida Rio Branco, às vezes no Estácio. Geralmente, aliás, daí é que tem saído os melhores sambas. O sambista que se preza não abandona o Estácio.

A hora de reunião é sempre depois de meia-noite. Antes, não haveria tempo do “malandro” sentir a “bossa”. Três, quatro horas da madrugada é ideal. Mais cedo, só quando os sambas são feitos na Avenida...

A inspiração chega sempre.  O motivo para o samba é encontrado nas coisas mais insignificantes: um homem que entra pra vender bilhetes, um sujeito que bate na porta, um garçom que demora a trazer a “média”, uma notícia de sensação nos jornais, às vezes um simples anúncio pregado numa parede e temos a melodia lá encaminhada, pelo tamborilar dos dedos na mesa do café ou numa caixa de fósforos. Às vezes entra em cena o chapéu de palha. Quando acaba a noite, o sambista se retira para casa, leva no ouvido a música e não raro as palavras.

Nas mesas dos cafés, o samba começa a nascer...


Nem todos os sambas, porém, se fazem assim. Muitos surgem após uma briga com a “pequena”: são os sentimentais. Ao invés de serem imaginados num café, o sambista procura um lugar quieto, longe do ruído e dos companheiros. E assim se fazem os mais belos sambas, dos quais “Pra esquecer” é o padrão.

Com o ouvido cheio da melodia da véspera e a memória ainda transbordante do ritmo da música improvisada, vai no dia seguinte o sambista procurar quem lhe escreva a música, pois ele é, na maior parte das vezes, completamente leigo no assumto e desconhece inteiramente o valor de uma nota musical. Sabe apenas murmurar os compassos, que é incapaz de traduzir no papel.

Aldo Taranto ao piano
Aldo Taranto é o nome da criatura que vai resolver as dificuldades em que se encontra o autor da música. Foi ele quem rascunhou “O teu cabelo não nega”, “Linda morena”, “Trem blindado”, “Garota da rua”, “Agora é cinza”, “A tua vida é um segredo” e alguns outros legítimos sucessos da carnavais passados. Diante dele o sambista põe-se a cantar a melodia e Aldo Taranto, com uma surpreendente facilidade e, graças ao seu extraordinário valor como pianista, em breves instantes transporta ao piano o que ouve cantarolar. Do piano, para a pauta musical, a distância é pequena, mormente para ele que não acredita que a música tenha segredos...

Há cinco anos que Aldo Taranto se vem dedicando a isto. Pela sua mão já passaram milhares de másicas. Centenas de sucessos foram por ele escritos e adaptados e, no emtanto, quando o “speaker” anuncia um samba de sucesso ninguém se lembra, sequer, de sua existência...

Já com o samba escrito e pronto para ser interpretado ao piano, o sambista deixa Aldo Taranto e vai procurar o que lhe falta, para que a música possa ser gravada: a orquestração. Não raro, uma orquestração bem feita é o maior fator de êxito de uma música e dela depende sempre mais de cinquenta por cento de seu sucesso.

Rua do Chichorro, 25, sobrado. Sobe-se uma escada e logo uma voz amável nos atende:

— Queiram se sentar.

Estamos diante de Alfredo Vianna. Este nome, aliás, ninguém conhece. Pixinguinha, o orquestrador, entra em ação...

É possível, porém, que o Pixinguinha tenha alguma popularidade. Eis o homem. É ele que faz a orquestração. Como ninguém, possui em alta dose o senso de efeito que podem causar ao público os vários tipos de orquestração. Conhece e sabe perfeitamente quais as modulações que deve colocar e o resultado: “Ride, palhaço”, “Foi ela”, “Formosa”, “Teu cabelo não nega” e muitas outras, sucessos absolutos de orquestra.

O magnífico Pixinguinha
— Este ano tive poucas músicas: umas oitenta mais ou menos. Não é nada, em relação ao ano findo, em que tive quatrocentas.

Estará fraco este carnaval? Não, apenas um pequeno atraso. No ano passado, por esta época, os estúdios de gravação já tinham encerrado os seus trabalhos. Este ano, agora é que está começando a atividade.

Saímos, deixando Pixinguinha, homem que mais músicas tem orquestrado, o ponto final da confecção do samba.

Não falta mais nada para o samba ser lançado. Falta apenas um nome de cartaz que queira cantá-lo. Começa agora para o sambista o mais difícil, mormente se ele é pouco conhecido. Um cantor de nomeada não lança uma marcha ou um samba de um desconhecido. Uma cantora de nome prefere sempre uma composição de gente já popularizada.

Começam as desilusões, os padecimentos: “contras”, estações de rádio que para ele se fecham, diretores “que não estão em casa”, etc. E o pobre sambista vê que o ambiente é contra si e que as suas ilusões, uma após outra, estão desfeitas. E o malandro sofredor volta e na mesa do café compõe uma melodia talvez mais linda que a outra, narrando a amarga história de um samba que foi recusado e ninguém quis cantar..."


Fonte: Artigo, desenho e fotos da revista CARIOCA, de 18/01/1936.