sábado, junho 14, 2014

Radamés Gnatalli e o Congresso Radiofônico

O grande maestro Radamés Gnatalli, numa foto da Carioca de 3/7/1937.

"No Brasil é recente o cultivo da música artística. Mas se considerarmos que a música de um país deve ser constituída principalmente de elementos próprios, concluiremos que a nossa vida musical é recentíssima. Até a Grande Guerra (1), depois da qual o nacionalismo invadiu o mundo, vivemos artisticamente, dependentes do resto do mundo, da Europa, principalmente.

Somente após o colossal morticínio conseguimos certa independência que, de tão boa, se vem acentuando sempre e nos conduzindo à formação de um cabedal que para o bem dos povos já vai sendo incorporado ao patrimônio artístico universal.

No programa radiofônico de CARIOCA deve prevalecer a preocupação de evidenciar os valores autênticos daqueles cuja obra seja de utilidade para a sociedade. Radamés Gnatalli, mais que um artista de rádio, é um artista do Brasil.

Eis o que ele disse a CARIOCA:

— É um prazer a gente trabalhar em rádio. Esse meio colossal de divulgação nos estimula, consciente que estamos de que o nosso trabalho ecoará pela vastidão do Brasil. É necessário que o artista de rádio, mais que os outros artistas, tenha bem presente o fato de que a sua atuação terá uma repercussão enorme, se esforçando tanto quanto o possível para se produzir de maneira mais útil à coletividade. O rádio é uma coisa muito mais séria do que uma simples diversão, como alguns o consideram.

— Qual o programa que prefere executar?

— Diante do microfone eu abdico de qualquer egoísmo, levando em conta unicamente a necessidade dos ouvintes, a maneira melhor de cooperar pela cultura coletiva. Já lhe disse que o artista de rádio pertence à humanidade, cumprindo um apostolado. Todo apostolado tem o seu martírio ...

— Nesse caso, quais os programas que devem ser executados, na sua opinião?

— É esse um problema muito complexo e a sua revista seria pequena para conter a vastidão de todo um programa. Antes de tudo eu imagino um Congresso Nacional de Radiodifusão onde fossem discutidos os programas tendentes à beneficiarem o povo e onde fosse combinada uma ação conjunta. No Ministério da Educação já existe um departamento de rádio. Futuramente teremos um Ministério do Rádio.

— O que acha sobre a literatura, no rádio?

— Tem um papel tão grande como a música. Livros como "Macunaíma", de Mário de Andrade, têm uma grande influência sobre o povo e o levam a uma unificação maior e mais produtiva.

— Quais as suas últimas composições?

— As minhas últimas composições ainda não foram compostas ... Estou encarregado de organizar a parte musical de "Alegria", o próximo filme de Oduvaldo Vianna. Para tanto estou harmonizando alguns temas populares ciganos, cheios de melancólico sentimentalismo característico da raça nômade.

Do estúdio "A" da Rádio Nacional, já solicitavam a presença do maestro Gnatalli. Despedimo-nos, satisfeitos por termos realizado, com tão poucas palavras, uma entrevista tão interessante."

Nota: (1) A Primeira Guerra Mundial (1914-1918).


Fonte: Foto e artigo da revista semanal "Carioca" - edição 89, de 3/7/1937.

quinta-feira, junho 12, 2014

Carmen Barbosa, um exemplo de perseverança

"Carmen Barbosa é uma das nossas estrelas do samba, e a história de sua ascensão é bem curiosa. No Brasil, o rádio já tem vida própria e nessa vida a nossa heroína de hoje penetrou, foi derrotada, lutou, venceu -- bem como acontece nas outras vidas.

Eis a bem vivida de Carmen Barbosa, uma das avelhas desta vasta colmeia que é o meio radiofônico:

— Comecei como corista das gravações de Carmen Miranda, na Victor. Sempre tive um ouvido ótimo e aprendia, com grande facilidade, os sambas lançados em primeira mão nos estúdios da Victor. Cantava-os, depois, aos microfones de rádio, quase sempre no mesmo dia em que os ouvira. A música, a popular, principalmente, pertence a todos. É um patrimônio da humanidade que a concebeu. Era com a consciência absolutamente livre de qualquer culpa que eu lançava mão dessas músicas, utilizando-as em meu proveito. Mas a Victor não tem as mesmas ideias que eu, e devido a essa divergência de opiniões eu fui pra rua ...

— E depois? ...

— Depois, fiquei na rua bastante tempo, vivendo a vida amarga dos "chômeurs" do rádio; de estúdio em estúdio, cantando em audições experimentais para diretores apressados e distraídos, a minha existência era a mesma dos falidos, dos que não alcançaram o ideal e que se desesperançaram de alcançá-lo.

— Mas ...

— Mas ... Não pode haver um vocabulário mais decisivo na sua expressão indecisa. Surgiu-me um "mas" certa noite, na Rádio Cruzeiro. Uma infelicidadezinha de Madelú de Assis foi toda a minha felicidade. Madelú ficou ligeiramente doente e, à última hora, avisou o estúdio de que não lhe seria possível participar do programa para o qual estava escalada. Eu estava presente, e aproveitaram-me. Agradei, e a direção da Rádio Cruzeiro contratou-me imediatamente.

Carmen, pela "Carioca" - Junho/1937
Mais tarde passei para a Rádio Tupi, contratada por três meses. E tão feliz tenho sido que essa transmissora vem renovando sucessivamente seus contratos comigo, de maneira que já estou no elenco há mais de um ano e meio; e tudo faz crer que na Tupi eu ainda continue por muito tempo, porque ali me tenho sentido perfeitamente bem.

A estação da rua Santo Cristo me deu a oportunidade felicíssima de conhecer bem de perto Benedito Lacerda, o celebrado compositor popular. Eu venho sendo a criadora das suas músicas, gravando-as na Victor e as lançando ao público, pelo microfone, em primeira mão. Sem dúvida alguma essa fato empresta um grande prestígio à minha atuação.

De tudo o que lhe disse, o senhor concluirá, por certo, que muito vale a perseverança na carreira radiofônica; e estará certo. Por minha parte ficarei satisfeitíssima se esta entrevista, lida por alguém que neste momento sofra as mesmas contrariedades que já sofri, tenha a utilidade de lhe reavivar a esperança, guiando-o para um chance qualquer — Termina Carmen Barbosa.

E a estrela de hoje, com a mesma simpaticíssima modéstia de seus tempos "brabos" nos estendeu a mão, com aquele sorriso que faz lembrar a expressão espiritual de Marian Anderson, a sacerdotisa negra."


Fonte: "Carioca", edição 88, de 26/6/1937.

terça-feira, junho 10, 2014

Horacina Correia, a Patativa do Sul


"Estava pela metade o programa de Horacina Correia na Tupi. Ela acabou de cantar e veio respirar um pouco de ar livre. O repórter a cumprimentou. Horacina chegou de Porto Alegre no dia 2 de abril e estreou no dia 5. Agradou muito, pois canta sambas e marchas. Firmou-se no conceito do público ouvinte carioca.

Estava na Farroupilha, onde ainda deixou contrato. Nasceu lá mesmo, em Porto Alegre. Frequentou a Escola Paula Soares e depois a Escola Normal. Era sempre a primeira aluna da aula. Não saiu do Rio Grande do Sul. Aí viveu até ser convidada pela PRG-3 para vir atuar no Rio. É casada. Seu marido também é artista e veio com ela. Ambos na Tupi.

— Quantos anos de rádio?

— Um ano e meio. Estreei na Rádio Gaúcha, onde estive apenas dias. A seguir fui para a Difusora. Sai para descansar e parei alguns meses. Depois o pianista da Farroupilha, Paulo Coelho, procurou-me. Então, transportei-me para essa última estação. Todo mundo me conhece muito.

— Como se iniciou na interpretação de sambas?

— Eu comecei cantando desde pequenininha. Meu pai era cantor e acompanhava meus balbucios artísticos ao violão. Mas sempre em casa ... Tomei parte em diversas festas sociais de Porto Alegre. Em teatros. Em outros festivais. Fiz parte do cordão carnavalesco "Os turunas". Isso foi antes do rádio me tentar.

— Quais as músicas que mais aprecia?

— Em primeiro lugar samba e marcha. Depois uma valsa bem lânguida. Um foxtrot bem dinâmico. Um tango ...

— Sentir-se-ia capacitada para interpretar qualquer outro gênero?

— Além de sambas e marchas? Sim. Canto valsas. Canções. Foxes. Tangos ... Antes de entrar para a Gaúcha eu cantava essas melodias todas. Mas agora parei com elas. Você compreende? O samba é brasileiro ...

— Que acha do rádio?

— É a oitava maravilha do mundo ... O cinema, o avião, a lancha motor, todos esses marcos do progresso podem ser considerados maravilhas, porém, no meu ponto de vista, o rádio é a maravilha das maravilhas ...

— Está satisfeita nesse setor de atividade artística?

— Muito. Muitíssimo. Gosto de cantar. Creio que assim, cantando pelo amor à arte, poderei auxiliar a difusão da música popular brasileira no estrangeiro ...

— Qual é a artista do microfone que mais aprecia?

— Gosto de todas. Mas tenho uma predileção acentuada por Carmen Miranda. No naipe masculino destaco Carlos Galhardo. E penso que esse trunfo vence qualquer parada ...

— O que faz fora do microfone?

— Estudo piano. Leio muito. Adoro os romances policiais ... Há tempos estudava canto. Mas deixei. Creia que não é por me julgar grande coisa ... Uma artista que preza a sua arte jamais se julga suficientemente instruída ... Minhas distrações são quase resumidas numa só: cinema.

— E que artista de Hollywood aprecia mais?

— Katharine Hepburn. Antigamente eu era fã inveterada de Lon Chaney. Ele morreu. Ficou Boris Karloff. Agora sou fã de Karloff ...

— Gostaria de entrar para o cinema?

— Só se fosse para fazer papel de selvagem. De indígena brasileira. Creio que não dava para mais nada. Poderia cantar sambas e marchas ... Não tenho jeito para cinema. Isto se vê logo ...

— O que desejaria mais na vida?

— Vida artística, melhor dizendo ... Meus ideais são quatro que formam uma grande aspiração. Gravar muito. Agradar sempre o público. Ter nome feito no "broadcasting". Difundir cada vez mais a música brasileira ...

— Fez alguma grande viagem?

— Esta de vir à Capital Federal foi a minha maior viagem. No Rio Grande andei correndo aquilo tudo. Estive numa turnê artística pelo interior, chegando até ao Uruguai. O Uruguai para nós, rio-grandenses, é o mesmo que Cascadura para vocês, citadinos cariocas ...

— Espera algumas novidades para breve?

— Espero. Sempre esperei. Estou gravando dois sambas de Benedito Lacerda na Victor. Tive propostas para Buenos Aires e para São Paulo. É muito tentador. Mas você compreende? Ainda tenho o contrato na Rádio Farroupilha de Porto Alegre ...

— Que opinião tem dos ouvintes?

— Prefiro não meter a colher nesse assunto — terminou Horacina Correia sorrindo. — A comidinha tão agradável pode mudar de paladar ..."


Fonte: "CARIOCA" - Edição 83, de 22/5/1937 (artigo atualizado para o nosso português contemporâneo).