segunda-feira, julho 10, 2017

Vitrine


Vitrine (samba-canção, 1958) - Adelino Moreira - Interpretação: Carlos Augusto

Disco 78 rpm / Título da música: Vitrine / Moreira, Adelino (Compositor) / Carlos Augusto (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Polydor, 16/01/1958 / Nº Álbum 245 / Lado A / Gênero musical: Samba-canção.


D     A7         D     
Vi gracioso e sutil   
        B7         Em   B7
Num magazin da cidade
Em              A7       
Numa vitrine infantil 
                    D    A7
Um manequim de verdade
D     A7          D       Am7       D7        G
O seu olhar endeusado   / Era um convite ao amor
           Gm   (D)  (C7) (B7)
Pois tinha cor do pe  ca   do
Em      A7        D    Gb7
Se é que pecado tem cor
  Bm     Gb7      Bm
Quando a vi na vitrine
B7                   Em
De um magazin, tal qual um manequim
Em6              Bm
Floriu em mim o desejo
Bb7               Gb7
De lhe dar um beijo ardente sem fim
 Bm       Gb7      Bm                       B7
Moço, loucura não faça   / Não quebre a vidraça
Em      B7
Ouvi de um senhor
Em      Em6          Bm
Mas não segui seu conselho
Bm/A       Db7        
Quebrei o espelho
Gb7       Bm      A7  (p/repetir)
Sedento de amor      Gb7  Bm  (p/finalizar)

quinta-feira, junho 01, 2017

Vanja Orico: Ela tem Sangue Índio


Vanja Orico, a mais brasileira das nossas artistas internacionais, descobriu os caminhos do Mundo com a sua voz e o seu violão ... Depois de “O Cangaceiro” ela não quer voltar à tela como se fosse uma “raiz selvagem” ... O namorado italiano ... (Cinelândia, novembro de 1953)

Quem não a conhece, por aqui e até no estrangeiro? Neta de índio e de italiano, tem em sua alma jovem, mas já tão vivida, a herança dos nossos antepassados mais puros e aquele senso de universalidade das coisas que caracteriza o temperamento latino. Sente-se presa à terra, a esta nossa terra de tanta cor e de tanto ritmo instintivo, e, ao mesmo tempo, é um coração aberto às emoções de todos os povos, de toda a civilização atual.

Nenhuma outra tão brasileira — e não só no seu cálido tom de epiderme e naqueles fartos e revoltos cabelos negros que lhe emolduram o rosto, mas também no amor que dedica ao nosso folclore e a todas as nossas boas tradições que se possam converter em motivos para a sua arte, numa canção do seu repertório.

E, entretanto, nenhuma outra tão capaz de vibrar ao som das castanholas daquela Espanha sempre sonora, onde passou largo período da sua adolescência, ou de um violino cigano, andarilho, corredor de mundo, que tanto soa aqui como ali, mais adiante, com a mesma e nervosa disposição romântica ...

Assim é Vanja Orico em todo o esplendor de sua mocidade já viajada pelos quatro cantos mais conhecidos deste nosso planeta. Uma sensibilidade íntima do progresso das grandes capitais. Fez um curso de teatro em Paris, sob a direção de René Simon. Diplomou-se em canto pelo Conservatório Santa Cecília, de Roma.

E na Cidade Eterna é que realizou o seu debute cinematográfico, atuando sob as ordens de Alberto Lattuada — o formidável diretor de “Moinho do Pó”, “O Bandido” e “Sem piedade”, (este um legítimo poema de imagens, realizado com todo o vigor da escola neorrealista italiana de após-guerra). Intitulava.se “Mulheres e luzes” (Luci del Varietá), esse filme que marca a sua estreia na tela, em 1951.  A seguir, ganhou o estrelato em “Itália, terra do sol”.

Enquanto isso se dava, continuava ela cantando para reis e princesas reais, para artistas de nomeada e para políticos de grande popularidade, desses que tem clichês nos jornais tanto da Europa quanto da África e da América ... São famosos os seus recitais, que incluem números de procedência europeia, alguns deles bastante eruditos, e músicas daqui da casa, de todo este vasto Brasil, inclusive “pontos de macumba” autênticos ...

 No seu, no nosso país, Vanja Orico andou já pelas selvas, na pele da “Maria Clódia” de “O Cangaceiro” (que, em verdade, foi locado pelo notável Lima Barreto nas matas de Vargem Grande do Sul, no interior de São Paulo) — e agora deslumbra as plateias cosmopolitas de Copacabana, atuando na boate “Meia-Noite”.

Como se vê, é uma quase menina (nasceu no dia 15 de novembro de 1931) que já tem história, que já possui um passado. Mas é no tempo presente que ela vive; é o que a cerca atualmente que lhe desperta o mais vivo interesse (e aqui podemos incluir, talvez, a figura de Jorge, o apaixonado que ela deixou na Itália, mas que deve vir breve ao seu encontro, se é que já não veio, e para ficar ...).

Foi às vésperas da realização do Festival do Rio de Janeiro, para o qual estava comprometida, que tivemos ocasião de conversar com ela em sua residência, num magnífico apartamento de onde se descortina o mar, e que traz aos nossos olhos as lembranças da longa estada na Europa, como diplomata, do escritor Oswaldo Orico, o pai de Vanja. Quadros de Zuloaga, Sorolla, Gauguin, Goya, De Chineo e outros mestres da paleta. Móveis igualmente preciosos, tapeçarias francesas, santos antigos, cristais, raridades recolhidas, com carinho e bom gosto, em vários lugares.

Muito elegante no seu modelo francês, com o qual posou para um dos nossos " kodachromes", e exibindo uma cintura deveras fina, Vanja fez questão de nos declarar que está disposta a não surgir mais na tela como uma “raiz selvagem”, e sim num papel bem feminino, de linha dramática de preferência, e que lhe permita evidenciar um pouco de sex-appeal ...

— Já tem, então, algum filme em vista?

— indagamos.

— Entre outros projetos que acalento no momento está o que se relaciona com a vinda de Lattuada ao Brasil, em março próximo — respondeu-nos. O objetivo desse cineasta é efetuar aqui um filme, “O Fogo”, cuja ação transcorre no norte do Paraná, e do qual devo ser a estrela, junto ao ator italiano Folco Luri (o intérprete de “Vidas Perdidas”). Será esse um papel que gostarei de desempenhar, forte, dramático, e bastante adequado ao meu modo de sentir a realidade cinematográfica. Antes disso, porém, seguirei para a Alemanha, onde efetuarei oito concertos, e logo após para os Estados Unidos, a fim de cumprir ali o maravilhoso contrato que fiz com a televisão americana.

Sabíamos que o poeta paulista Guilherme de Almeida, que afirmara nunca ter ouvido na tela uma voz tão bonita quanto a de Vanja, em “O Cangaceiro”, estava trabalhando no roteiro de uma história que Oswaldo Orico escreveu para o cinema — “Areia menina” — e que a Vera Cruz deve filmar, tendo Vanja como protagonista, e lhe falamos sobre isso.

— É fato, assegurou-nos ela. Mas ainda não sei nada, ao certo, sobre a filmagem.

Desfechamos, então, de surpresa, a pergunta que, de há muito, trazíamos engatilhada, à espera de uma oportunidade:

— E esse rapaz italiano, o Jorge, que chegaram a dizer até que já era seu noivo, representa o seu primeiro amor? Ou já teve outros namorados pelos quais sentisse mais do que simples afeição?

Tornando-se imprevistamente solene, Vanja retrucou:

— Não é ele o meu primeiro amor, mas é o meu grande amor!

E por que não? O jovem é digno de tanto fervor, por parte da nossa encantadora patrícia. Bonito, advogado, amando-a com entusiasmo, tem todas as qualidades para merecer toda essa exaltação de sentimentos. Há uma certa cena de “Fabíola” em que Jorge aparece, na garbosa interpretação de um soldado da época ... Vejam se adivinham quem é ele ... Nós o descobrimos, para espanto de Vanja, numa foto desse filme (que ela própria nos mostrou) e na qual havia mais três rapazes.

É o sexto sentido dos repórteres, meninas ...


Fonte: Revista "Cinelândia" - Novembro de 1953 - Rio Gráfica e Editora.