sexta-feira, novembro 05, 2010

Moraes Neto

Moraes Neto (Feliciano Constantino de Moraes Neto), cantor, nasceu em 23/3/1918, no município de Machado, Minas Gerais, e faleceu em 24/11/2009, em Curitiba, Paraná.

Proveniente de uma família de músicos, seu avô, Feliciano Constantino de Moraes, era maestro, condecorado pelo imperador D. Pedro II, no Rio de Janeiro, cidade onde atuava . A mãe, Augusta de Moraes Anoni, tocava piano e acompanhava os artistas que aportavam para se apresentar no Teatro de Machado. O pai era comerciante.

Em 1936, aos 18 anos de idade, foi para Belo Horizonte a convite de Israel Pinheiro, tendo sido aprovado em teste que lhe possibilitou atuar na Rádio Inconfidência, vínculo que manteve por três anos. Em seguida, convidado a apresentar-se na Ceará Rádio Clube (PRF-9) de Fortaleza, manteve-se na cidade durante todo o ano de 1940.

No ano seguinte, ingressou na Tupi, do Rio de Janeiro, onde se firmou, conquistando a admiração de Ary Barroso, que o chamava de Boi, por "não saber a força que tinha" como cantor. Ary preparou então duas músicas para seu disco de estréia: a marcha Chula-ô e o samba Isto aqui, o que é? (Sandália de prata), numa gravação com orquestra comandada pelo maestro Fon-Fon, ambas para o carnaval de 1942.

Gravou oito discos na Odeon, caracterizando-se sempre pelo bom gosto na escolha de seu repertório. Ainda em 1942, participou do famoso filme Tudo é verdade (It's All True), de Orson Welles. Cantou nos estúdios da Cinédia três músicas: Carinhoso (com Odete Amaral no contracanto), Alô, alô, América e Escravos de Jó, substituindo Francisco Alves.

No mesmo ano, gravou o samba Brasil novo, de Saint-Clair Sena  e Alcir Pires Vermelho e a valsa Alma dos violinos, de Lamartine Babo e Alcir Pires Vermelho. Na mesma época, engajado no esforço de guerra gravou o dobrado Pelo Brasil! Pela vitória, de Humberto Teixeira e Caio Lemos.

Em 1943, gravou acompanhado ao acordeom por Antenógenes Silva a canção Luar do sertão, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco. No mesmo ano, voltou a gravar duas músicas de Ary Barroso, a marcha Quem cabras não tem... e o samba Madrugada. No mesmo ano, gravou de Lupicínio Rodrigues, a quem conheceu em Porto Alegre e de quem se tornou amigo, o samba Eu é que não presto.

Em 1944, gravou as primeiras composições de Jair Amorim em parceria com José Maria de Abreu, a valsa Adeus, amor e o fox-canção Bisarei esta canção. Em 1945, gravou a valsa Sonhando, de Joyce, com versão de Paulo Roberto e o fox Hei de encontrar-te algum dia, de Steiner e Washington, com versão de Mário Mendes.

Em 1949, passou a atuar na Rádio Nacional, regressando posteriormente à Tupi. Transferiu-se para a Argentina, onde atuou em várias rádios e casas noturnas, sempre acompanhado pelo violonista Paulinho de Pinho. Ao regressar, fixou-se em Curitiba, onde continuou cantando.

Discografia

(1945) Sonhando / Hei de encontrar-te algum dia, Odeon, 78; (1944) Adeus, amor / Bisarei esta canção, Odeon, 78; (1943) Luar do sertão, Odeon, 78; (1943) Quem cabras não tem... / Madrugada, Odeon, 78; (1943) Eu é que não presto / Quando a saudade vier, Odeon, 78; (1942) Chula- ô / Isto aqui é que é; Odeon, 78; (1942) Brasil novo / Alma dos violinos, Odeon, 78; (1942) Pelo Brasil pela vitória / Canção do estudante, Odeon, 78.

Moraes Neto revive valsas num espetáculo de Gersinho

(Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 13 de julho de 1990).

Há algum tempo, Leon Barg estava em seu escritório quando teve a melhor surpresa ao receber um visitante inesperado: - "Boa tarde, meu nome é Moraes Neto!" Leon quase se assustou. Afinal, há muito desejava estabelecer um contato com o veterano cantor de rádio, mas não esperava, jamais, uma visita pessoal. Surpresa que aumentou quando ele anunciou: - "É que agora estou morando em Curitiba e não poderia deixar de procurá-lo para cumprimentá-lo pelo seu trabalho na "Revivendo".

Coincidentemente, Leon já estava com uma fita preparada para ser encaminhada ao técnico Airton Pisco, com 7 das músicas que Moraes Neto gravou na Odeon, entre fevereiro de 1942 a junho de 1945. A coincidência de Moraes estar em Curitiba, apenas alegrou Leon Barg, que decidiu incluir suas gravações num álbum com Francisco Alves (1898-1952) e que recebeu o nome de "Quando a Saudade Vier", volume 53 da série "Revivendo".

Quem também adorou conhecer Moraes Neto, na verdade Feliciano Constantino de Moraes Neto, mineiro de Machado, 72 anos completados no dia 23 de março último, em esplêndida forma física, foi Alceu Schwab. É que o nosso organizado pesquisador não só lembrava-se da voz equilibrada e romântica de Moraes Neto em programas das rádios Tupi, Nacional e Jornal do Brasil, como, em suas pesquisas para estabelecer a cronologia dos artistas que se apresentaram no Cassino Ahú, havia verificado que por várias vezes ele ali havia atuado. Só que desconhecia maiores dados a seu respeito. Simpático, comunicativo, gozando hoje uma merecida aposentadoria - o que o levou a se fixar em Curitiba, já que aqui reside seu único filho, Mauro Moraes Neto, continua cantando. Só que em círculos familiares, sem pretensões profissionais.

Foi necessário que Gersinho Bertinez, que vem procurando recuperar o Teatro do Paiol, conhecesse Moraes Neto e, entusiasmado com sua obra, sua plena forma e simpatia, o convidasse para participar de um espetáculo musical, ao seu lado, de Fernandinho de uma música especialmente convidada, a clarinetista curitibana Solamy de Oliveira, integrante da Sinfônica da Bahia. Tendo como título o nome da belíssima valsa de Luiz Antônio Schiavo e Cardoso Silva, que Moraes Neto gravou em 2 de maio de 1943, na Odeon, "Quando a Saudade Vier", este espetáculo terá apenas duas apresentações (amanhã e domingo, 21h, ingressos a Cr$ 200,00) no asfixiante Teatro Universitário (galeria Júlio Moreira).

Mesmo considerando que no Paiol, a partir de hoje, acontece a temporada (aliás, mal promovida) da gaúcha Adriana Calcanhoto, é de se lamentar que uma produção tendo a participação de um artista como Moraes Neto seja relegada a um espaço pouco apropriado. Ao contrário, uma homenagem que se deveria estender ao próprio produtor Leon Barg (a exemplo do que Valêncio Xavier, o competente diretor do Museu da Imagem e do Som soube fazer há meses), o trabalho do editor da "Revivendo" mereceria um reconhecimento local maior, que hoje obtém repercussão nacional.

Talvez o temor de que não houvesse público para lotar o Paiol, tivesse influído na escolha do TUC para as duas apresentações de "Quando a Saudade Vier" - e levado o sempre educado e gentil Gersinho a aceitar este espaço. De qualquer forma, a promoção mereceria melhor tratamento.

Sobre Moraes Neto, é bom lembrar, também conta Abel Cardoso Júnior, na contracapa de seu LP na "Revivendo", que nascido numa família de 10 irmãos, ele ganhou o nome Feliciano em homenagem ao avô Feliciano Constantino de Moraes, maestro, condecorado, no Rio, onde atuava, pelo imperador Pedro II. Sua mãe, Augusta de Moraes Anoni tocava piano e acompanhava os artistas que se apresentavam no teatro na cidade de Machado. Só seu pai, comerciante, não se dedicava à música.

Em 1936, com 18 anos, Moraes Neto, a convite de Israel Pinheiro, foi para Belo Horizonte, onde, depois de aprovado no teste, atuou na Rádio Inconfidência durante três anos. Veio um convite para cantar alguns dias na Ceará Rádio Clube (PRF-9), de Fortaleza, que se estendeu por todo o ano de 1940. Em 1941, foi para a Tupi no Rio de Janeiro, onde começou sua amizade com Ary Barroso, que o chamava de "Boi", por "não saber a força que tinha" como cantor.

Para o seu disco de estréia - feito em dezembro de 1941 - Ary lhe deu duas músicas: a marcha "Chula-Ô" e "Isto aqui o que É", ambas para o carnaval de 42. A segunda se tornaria um grande sucesso, merecendo, anos depois, gravações de Gilberto Gil e João Gilberto. Mesmo não sendo uma música propriamente carnavalesca, "Isto aqui o que É" (mais um samba-exaltação ao Rio de Janeiro), ganhou muito com o arranjo marcante do maestro Fon-Fon (Otaviano Romero Fontana, Alagoas - 1908/Atenas, Grécia, 1951).

Embora tenha gravado pouco, Moraes Neto foi o primeiro a registrar "Adeus Amor" e "Bisarei esta Canção", de Jair Amorim. De Lupicínio Rodrigues (1914-1974) lançou "Eu é que não Preciso" e se tornou grande amigo do compositor gaúcho, de quem recebeu algumas composições que permanecem inéditas. Moraes também conheceu Orson Welles (1915-1985): quando o diretor de "Cidadão Kane" esteve no Brasil, em 1942, ele esteve em algumas filmagens de "It's all True". Participaria de três músicas - "Carinhoso" (com Odete Amaral no contracanto), "Alô, Alô, América" e "Escravos de Jó" (em substituição a Francisco Alves, que havia pedido um cachê muito alto: Moraes, como substituto, recebeu 20 mil contos). Infelizmente, Welles nunca pôde concluir o filme e a esperança de Moraes Neto é que entre os negativos encontrados há 3 anos, nos antigos depósitos da RKO, em Hollywood, possa estar esta seqüência.

Passando por vários prefixos (Tupi, Nacional, Jornal do Brasil), com o seu casamento com Marina Fraga Moraes, sua vida sofreu algumas modificações. Sua esposa, diplomata, foi trabalhar na embaixada do Brasil em Buenos Aires, onde o casal residiu entre 1975/82. 

Mesmo sem pretender fazer carreira profissional, Moraes atuou em rádios e casas noturnas na capital argentina, acompanhado do violonista Paulinho de Pinho. Hoje radicado em Curitiba, discreto, só agora sua importância começa ser revelada. Suas duas apresentações, como convidado, no show "Quando a Saudade Vier", neste fim de semana, é apenas um trailer para um espetáculo maior, que ele - e a "Revivendo" merecem. LEGENDA FOTO - Moraes Neto, 72 anos, um famoso cantor de rádio nos anos 40, apresenta-se amanhã e domingo no TUC.

Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira; Gazeta do Povo - Obituário; Tablóide digital: Moraes Neto revive...; Bibliografia Crítica: AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.