sábado, dezembro 28, 2013

Lupe, a moreninha da praia

—— “Acabaram de ouvir Lupe em “Paris”, marcha de sua autoria”, —— anunciou o “speaker”.  Ficamos atônitos, à porta do estúdio. Como Lupe Velez estava de novo no Brasil? A nossa curiosidade durou pouco, pois a porta não tardou em se abrir para dar passagem a uma morena muito brasileira, de grandes olhos negros e cabelos grudados com “gomina”, formando uma espécie de capacete, onde, fazendo prodígios de equilíbrio e desafiando a lei da gravidade, se encontrava uma minúscula boina verde.

Lupe Ferreira representa o último tipo da garota “made in Rio for 1935”. Se fosse necessário eleger o tipo ideal da carioca de hoje, caberia a Lupe, sem dúvida, o título.

Esta “pequena” inteligente, que passa os dias enfrentando o sol em Copacabana e nas horas vagas, compõe sambas, num torneio como esse, não poderia deixar de sair triunfante. Não é por ventura a carioquinha ideal, uma morena queimada, que saiba conversar e nas horas vagas compor sambas? ...

Para uma criatura como Lupe, a apresentação é franco passadismo. Foi por isso que não procuramos intermediário para a nossa conversa. Lupe é muito amável e em se tratando de uma “carioca”, os deveres que o coleguismo impõe, fizeram com que esta amabilidade aumentasse cinquenta por cento.

—— Muita animação para o Carnaval?

Lupe preferiu responder cantando a sua marcha, que é, efetivamente, um sucesso. Basta dizer que, quando ela acabou estávamos rodeados de todo o “cast” da Tupy que fazia o coro.

—— Como fez a marcha?

—— Comecei a pensar no Carnaval. Sonhei que estava em plena folia, “puxando” um “cordão”. Veio a inspiração nesta hora e aí está o resultado.

Recordamos a Lupe, aqueles tempos em que ela cantava na Mayrink Veiga, canções francesas e ela nos respondeu:

—— Isto foi há quatro meses. Eu agora sou francamente do samba. Não quero saber de outras coisas. Nele há vários gêneros. Na canção francesa temos que nos limitar à imitação de Luciam Boyer. Além disso, creio que o samba me é mais sensível. É natural: sou brasileira.

—— A que tipo de samba pretende se dedicar?

—— Ao samba bem carioca. Aquelas batucadas de morro, onde o malandro chora eternamente as suas mágoas, num ritmo capaz de comover o mais ríspido bretão...

Lupe continua:

—— Tenho outra marcha para o Carnaval: “Uê, Uê, Macacada”. Creio, porém, que “Parei” agradará mais. Pretendo mesmo, me consagrar com ela. Tem uma letra interessante e cheia de “veneno” que o povo tanto gosta. Tenho receio porém dos outros concorrentes: “Querido Adão” é, dos conhecidos, o mais perigoso. Ainda assim creio que terei a emoção de ouvir a minha marchinha, cantada por algum “cordão”, durante os três dias...

—— Pretende continuar compondo?

—— Tenho pela música, verdadeira paixão. À ela dedico todos os momentos de lazer. Pretendo mesmo, continuar compondo. Aliás, “Parei” não é a minha primeira música. Já tenho feito muitas outras, que eu guardei para mim: inúmeras “fantasias” sobre músicas variadas e até uma vez cantei na Mayrink, uma canção de minha autoria. Agora porém, eu sou do samba e para as outras músicas só tenho uma resposta: “parei” ...


Fonte: CARIOCA, de 11/01/1936.

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