sexta-feira, janeiro 17, 2014

Tupinambá: o pioneiro da música regional

"Há vinte anos atrás a música brasileira não tinha o valor que hoje merecidamente lhe damos. Ninguém com ela se preocupava e as pessoas que se dedicavam a compor músicas com caráter típico e regional eram apontadas como objeto de ridículo.

As nossas canções e os lundus que fizeram a alegria dos nossos antepassados não tinham, no nosso século, direito de ingresso num salão elegante. Eram relegadas para um plano secundário e tinham que se contentar com a aceitação das criaturas de cultura inferior que ainda assim preferiam ver mais inspiração nas valsas estrangeiras que nas nossas modinhas.

O nosso folclore era desconhecido dos grandes centros de população e das metrópoles dos Estados, todas impregnadas de música estrangeira. Reagir contra este estado de coisas, reabilitar a nossa música, dar-lhe o lugar merecido, eram tarefas árduas, capazes de aniquilar os mais decididos. Só um espírito dotado de grande ânimo e muita vontade de vencer, poderia triunfar numa luta desigual como esta: de um lado, a opinião pública, eivada de esnobismo e do outro, talento de um homem. Passaram-se os anos e esse homem venceu. Foi um prélio árduo: as primeiras músicas recusadas, combatidas, perseguidas até.

Vem, porém, uma pequena vitória, outra mais, e Marcelo Tupinambá venceu. Hoje é uma personalidade de relevo da nossa música. O seu nome é conhecido por todo o Brasil, este mesmo Brasil que quando ele apareceu zombou dos seus esforços de bandeirante, ansioso por desbravar a nossa música e mostrar o que de realmente belo, nela existe.

Em 1912, Marcelo Tupinambá ainda não existia. Existia apenas, um rapaz de pouca idade, ainda estudante na Escola Politécnica de São Paulo. Fernando Lobo era o seu nome. Pertencia a uma das tradicionais famílias que honra São Paulo. Desde criança revelara grandes pendores para a música. E olhava com essencial carinho para os motivos brasileiros, até então, completamente desprezados. Quatro anos depois, vamos encontrá-lo já com o título de doutor, que lhe conferia a mesma escola. Aí, porém, já começava a nascer Marcelo Tupinambá. O Dr. Fernando Lobo, aos poucos ia desaparecendo, absorvido por Tupinambá. A Arte vencia a Ciência.

E em 1916 surgiu em público sua primeira composição: “Alma em flor”, uma valsa com letra do poeta Arlindo Leal, hoje falecido. O sucesso não foi grande, pois o ambiente era hostil. Vieram, em seguida, mais composições: “O matuto”, “Viola cantadera”, “Canção do cigano” e outros. Foi quando lhe pediram para musicar um filme: “Nos sertões do Avanhandava” da “Independência Omnia Film”, produzido e dirigido pelo Dr. Armando Pamplona. O filme teve sucesso, em grande parte devido sem dúvida à esplêndida partitura composta por Tupinambá que foi alvo dos maiores elogios,

A consagração, porém, não havia ainda chegado. Os êxitos obtidos até então não haviam sido mais que pequenas vitórias, rapidamente esquecidas. Porém, os dias que faltavam para o triunfo completo, estavam contados. E este veio, com a estreia, no antigo Teatro Boa Vista, da peça “São Paulo Futuro”, onde toda a parte musical era de sua autoria. Daí por diante, a estrela de Marcelo Tupinambá não conheceu mais desfalecimentos: abandonou um pouco o caráter ligeiro de suas músicas para enveredar pelo nosso folclore, onde produziu peças encantadoras.

Dedicou-se em seguida a musicar poesias de autores consagrados e, no ano passado, fez a sua primeira tentativa de teatro lírico, escrevendo a opera “Abrahão”, sobre motivos sacros. A Rádio Cosmos irradiou esta ópera, durante a semana santa, e tão grande foi o seu êxito, que repetiu este ano a irradiação.

Marcelo Tupinambá que é, atualmente, o presidente do Sindicato dos Músicos de São Paulo, dedica-se hoje, principalmente, à composição de peças para quartetos vocais, sobre motivos variados, onde é inexcedível. Dentre estes, destaca-se “Assombração”, que é baseado numa lenda brasileira e tem muito caráter regional.

Marcelo Tupinambá, vive hoje em São Paulo, querido de todos e respeitado na sua glória. Muito modesto, procura sempre fugir às demonstrações de entusiasmo que lhe são tributadas pelo povo paulista, demonstrações sinceras pela sua realização gloriosa — ter sido o pioneiro da música regional brasileira."
Texto de JORGE MAIA


Fonte: CARIOCA, de 23/5/1936 (texto atualizado).