segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Abigail Parecis, uma cantora de classe

Quando ela nasceu, recebeu o primeiro beijo do sol. Porque nas tabas dos índios o sol entra à vontade dentro das casas, como um senhor onipotente. 

No interior da oca humilde da tribo dos seus pais, ela confundiu os seus primeiros vagidos com o som desordenado do maracá.

Depois cresceu como “Iracema”. Aos 9 anos de idade era uma indiazinha de grandes olhos negros, dentes fortes e expressão ingênua. Mas já não estava mais nas selvas do Paraná.

Uma expedição civilizadora levou-a, junto com os seus pais, para longe dos tacapes e murucus, para longe do seu querido sol selvagem.

E só por isso ela deixou de ser Iracema.

Abigail, seu nome de batismo, servia agora para conduzir pela vida uma menina civilizada, que estudava vários idiomas, aprendia a saber-se portar na sociedade, dentro de todas as normas da boa educação.

Mas os traços do seu rosto falavam de uma heroína de romance que existiu outrora nas selvas do Brasil, dentro da fantasia de Alencar. “Iracema”, dona de cabelos tão negros como a asa da graúna e tão longos como o seu talhe de palmeira ...  Também ela concertava com “ará”, sua companheira e amiga, o canto agreste. “Iracema” também devia ter uma linda voz.

Mas Abigail, deixando de ser a índia mais linda da sua tribo, guardava outro destino mais glorioso. Um bondoso professor italiano, maestro Phillipo Alessio adotou-a como filha, notando logo, assim que a menina chegou aos doze anos, o timbre puro e encantador da sua voz.

Depois de estudos persistentes, apareceu a cantora. Estava morta a lenda. Surgiu Abigail Parecis.

A vida que parece um romance ...

Diante de Abigail Parecis a curiosidade — romancista inveterada — tem um interesse maior. Porque ela surge como uma evocação. Junto dela estão figuras lendárias, fragmentos de romances, restos de páginas lidas.

Insensivelmente vamos desejando sentir na sua vida um capítulo qualquer de fantasia.

Mas Abigail desfaz essas impressões com um sorriso claro e despreocupado.

— A minha vida parece um romance, inegavelmente, mas um romance que parou no meio ou mudou de rumo. Falta-me, principalmente, para parecer com a “Iracema”, o “Guerreiro branco” — não tenho guerreiros na vida ... — declarou, sorrindo.

Ela não se interessa pelo amor. Declarou-o com simplicidade, com os olhos negros, muito abertos, num desafio ás opiniões alheias. Pensa, principalmente, na sua arte.

— Quando comecei a cantar, adotando o gênero lírico, sonhei em realizar grandes viagens, já fui à América do Norte, país adorável onde consegui, com felicidade, agradar plenamente. Pretendo, muito em breve, ir a Itália, aperfeiçoar-me, afim de ter inteira segurança na carreira que estabeleci para o meu destino.

Ela não tem outros ideais. Conseguir a glória e dar uma boa situação aos seus velhos pais.

Abigail adora sua mãe, a qual, além de amiga e conselheira é uma lembrança viva e permanente da sua romanesca origem.

Hoje, que Abigail já não parece índia, sendo muito mais clara que qualquer garota moderna que frequenta as praias cariocas, se declara saudosa dos ambientes onde não viveu ...

Restos de lembranças ancestrais.

Como cantora lírica, Abigail é, presentemente um dos elementos de relevo do “cast” da Rádio Nacional, interpretando, com perfeição, todas as óperas célebres.

— “Madame Butterfly” e “La Bohéme”, são as minhas óperas prediletas. Cantei, quando me exibi no Teatro Municipal a “Traviata” mas não estabeleço comparações entre essas músicas. Gosto de todas. Também já filmei em Hollywood para a Paramount e sincronizei parte falada de “Noivado de ambição”, um filme exibido há pouco tempo.

Ela não é fanática pelo cinema. Gosta de esportes violentos, box, luta romana, etc. Mas também gosta de bordar e pintar.

Fala com perfeição o francês, o inglês, italiano e espanhol. Mas em nenhum desses idiomas é capaz de dizer — “eu te amo”!

— Estou casada com a minha arte e acho que os homens são muitas vezes criaturas que não desconfiam de nada.

Ela é alegre e atenciosa. Incapaz de uma indelicadeza, tem no entanto essa ojeriza pelo sentimento —- fato que poderá ser, talvez, a única fantasia da sua vida — uma vingança espiritual de “Iracema” contra todos os sofrimentos do amor.


Fonte: CARIOCA, de 31/10/1936 (texto atualizado).