sexta-feira, abril 11, 2014

Déo, a baiana que nasceu em São Paulo

"No tabuleiro da baiana tem ..." E Déo Maia "abafou a banca". Era professora pública em São Paulo e São Bernardo. No bairro industrial, ela ia ensinando aos pequeninos pobres, com voz macia, o sentido das letras e das figurinhas. E também as contas de dois e dois, quatro; quatro e quatro, oito.

Dos números veio talvez o sentido do ritmo, e ela se surpreendeu uma dia a cantar: "Dois e dois, quatro". Foi seu primeiro samba.

Um dia descobriram que ela cantava como ninguém em São Bernardo. A antiga aluna da Escola Normal de São Paulo passou a cantar em festinhas de amadores. A Rádio Record a teve em seu microfone. Déo Maia era um sucesso restrito às rosas mais íntimas.

Um dia Jardel passou por São Paulo e descobriu a "baiana" paulista. No Carlos Gomes, Déo Maia foi um sucesso estrondoso. Em "Maravilhosa" passou instantaneamente a ser a estrela preferida da companhia. Quando assoma no palco a casa se enche com a vibração dos aplausos.

"No tabuleiro da baiana tem ...". Depois foi o Cassino Atlântico que descobriu os seus encantos. Agora todo o mundo canta com ela, rodopia em torno dela, pelos salões.

"No tabuleiro da baiana tem ...". Tem o que? Tem o encanto faceiro desses quadris que desenham no espaço curvas fechadas no ritmo estonteante do maxixe. Tem essa voz, aguda e macia ao mesmo tempo, que interpreta o samba com um ar novo e diferente.

— Quem me ensinou a cantar? — E ela se espanta, diante da curiosidade do repórter ... — Quem me ensinou a cantar ... Ninguém. Nunca tinha ouvido nenhum sambista quando comecei a cantar. O que eu faço é meu. E agora, depois que conheço o Rio, parece que tenho uma nova alma e um novo coração. Este povo adorável é adorado por mim. É o público melhor do mundo ... Que bom que ele é. Imagine que no Atlântico me fazem bisar oito, noves vezes ...

— Mas você foi de fato formidável na "Maravilhosa". De repente passou a ser a estrela mais brilhante da constelação do Jardel ...

— Qual o quê — e a "baiana" faz um muxoxo. — Qual o quê! Não valho nada. Isto é bondade de vocês. Nem sei porque me aplaudem tanto! Estudo muito e talvez um dia chegue a ser perfeita. Talvez ... Talvez não. Vou chegar a ser perfeita. Mas até lá ... vai custar muito.

Déo Maia quer trabalhar e progredir. Quer a França, a Inglaterra, Portugal, a Espanha. O Grande Otelo, seu "partner" no "Tabuleiro da baiana", já andou pelo outro lado do Atlântico e lhe conta coisas estupendas. "Oropa, França e Bahia" ... Tudo isso a "baiana" quer ver e sentir.

O contrato do Atlântico está dando lhe dando uma fortuna. Mas não consegue diminuir sua paixão pelo teatro. Ela passa o dia inteiro nos bastidores ensaiando, observando, estudando. Tem uma paixão doida pela cena e pela companhia de revistas do Jardel.

— Estudo o mais que posso. Sei que o teatro no Brasil terá um grande futuro em todos os gêneros e nós devemos fazer o possível para torná-lo cada vez melhor. Que coisa boa fazer teatro para a nossa terra ...

Déo Maia fez como César na Gália. Chegou, viu ... e venceu. Venceu e está na ponta, como revelação estupenda de 1936. O público já a consagrou definitivamente e contra a voz do povo ... não adianta reclamar. O tabuleiro da baiana a consagrou definitivamente como a estrela do samba no teatro nacional, uma estrela perigosa, cujo brilho anda a entontecer muita gente. Déo Maia, a "baiana" paulista, que descobriu a alma do samba".


Fonte: Texto e foto adaptados da revista semanal CARIOCA, de 26/12/1936.