Mostrando postagens com marcador dolly ennor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dolly ennor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, março 13, 2014

Dolly Ennor, querida e aplaudida

Dolly Ennor em Dezembro de 1936
"Dolly Ennor não se lembra perfeitamente, até hoje, quando começou a perceber que possuía uma linda voz. Ouvindo, em menina, os agudos das prima-donas célebres, Dolly achava muita graça e procurava imitá-las, fazendo o maior barulho possível.

Nesse tempo, ela ainda se chamava Dorothy e era uma criança turbulenta a quem os parentes alcunharam de “Trovão”, “Relâmpago” e outros apelidos assim denunciadores de um temperamento irrequieto e barulhento.

Dolly Ennor nasceu em São Paulo, no dia de São Bartolomeu, 25 de agosto, e, talvez por isso, ela tivesse particular simpatia pelas tempestades e dias de borrasca. Hoje, no entanto, olhando os olhos calmos e azuis, ouvindo a linda voz de Dolly Ennor, ninguém é capaz de acreditar nas suas façanhas de menina.

Muito cedo Dolly mudou-se para a Inglaterra, pátria de seus pais, onde, se educou. Ela gostava da Inglaterra e dos seus métodos de ensino, porém sentia falta do sol do Brasil, da despreocupada liberdade que perdera.

Quando voltou, foi para se sentir mais brasileira, embora tudo nela indique a sua verdadeira origem.

Dollly Ennor, antes de cantar ao microfone, atuou em companhias teatrais, mas se entusiasmou verdadeiramente com o "broadcasting", cantando canções italianas e folclóricas brasileiras, demonstrando a extraordinária capacidade para interpretar os mais variados gêneros.

— Estreei-me ao microfone em 1934 na Rádio Educadora Paulista — informa Dolly Ennor, e desde então nunca mais me afastei dos estúdios radiofônicos. Fui feliz, porque tive em São Paulo uma carreira sem acidentes vindo para o Rio contratada pela Rádio Transmissora, estação que deixei ao surgir a Rádio Nacional.

Na PRE-8, Dolly Ennor é uma artista querida e aplaudida até pelos próprios colegas.

Sylvinha Mello, por exemplo, se declara sua fã, além de Roxane, que é sua amiga íntima e inseparável.


Essas três artistas, que seguiram ultimamente para São Paulo, obtêm grande sucesso em conjunto, ou separadas, interpretando cada qual seu gênero preferido. Dolly Ennor possui linda voz de soprano, uma voz que reúne inegáveis qualidades. Cantando, ela não se limita a provar que tem um apurado estudo e voz extensa; demonstrando além disso grande riqueza de expressão e interpretação.

— Creio que tudo que o artista der de si durante a interpretação será pouco — declara ela. — Sou inteiramente a favor do máximo entusiasmo.

Ela admira Ghyta de Jambloux, a voz-cigana da PRE-8, porque essa artista se comove tanto ao microfone ao ponto de quase romper em soluços. Da mesma forma aprecia interpretações alegres embora não seja fã da música popular.

— Gosto da música folclórica brasileira e da variedade dos seus ritmos.

Na sua vida particular, Dolly confessa que é muito filosofia, “não correndo atrás das coisas ruins” ...

Ela modificou inteiramente o seu próprio temperamento, antes buliçoso e irrequieto. Hoje, Dolly é uma criatura que pretende passar o Carnaval em Paquetá. Preza a sua carreira com a seriedade de quem cumpre uma obrigação agradável. E não pretende da vida nada além do que a vida lhe queira dar. Sentimental ela sabe que é, mas não afirma se isso é uma qualidade ou defeito. Não gosta da tristeza, embora prefira uma vida calma.

Dolly Ennor, que é um dos elementos mais prestigiosos do “cast” da Rádio Nacional, encontra-se presentemente em período de férias, voltando aos programas daquela estação depois do Carnaval.

— Wagner é o meu compositor favorito.

Ela é fã da música sinfônica e aprecia particularmente as óperas “La Boheme” e “Madame Butterfly”."

Fonte: CARIOCA, 19/12/1936 (artigo atualizado ortograficamente)


Rita Lee, nossa roqueira máxima dos anos 1980/1990, também tem pai inglês, engenheiro da empresa Light de São Paulo, que se casou com uma italiana do bairro do Bixiga.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Roxane


Roxane (Lucy da Silva Prado), cantora, nasceu em Santos, SP, em 26 de janeiro. Estudou no Mackenzie College de São Paulo. Estreou-se no rádio na Cruzeiro do Sul, da capital paulista, em setembro de 1934. Cantou também na Rádio Cosmos e foi exclusiva da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, onde cantava "foxes", blues e canções francesas.

Sua canção predileta era "Chez moi" e dentre os foxes destacava "Solitude". Paulista fanática, não permitia que se falasse mal de S. Paulo em sua presença ... 

Figuras de Cartaz

“Roxane não se chama Roxane. O nome dela é outro muito diferente e trezentas vezes menos complicado e mais brasileiro. Não me lembro qual é no momento, mas deve ser semelhante ou pouco mais ou menos parecido com Antônia Perpedigna da Fonseca. Compreendendo, porém, que no rádio o nome é tudo, ela resolveu arranjar esse apelido em francês, que, aliás, diga-se de passagem, lhe fica muito bem. Seu antigo nome não dava certo. Imaginem se o “speaker” a cada momento fosse obrigado a dizer, por exemplo:

— “Acabaram de ouvir D. Antônia Perpedigna da Fonseca ...”

O ouvinte meio desconfiado, torceria o “dial”:

— “Ora, D. Antônia ... Isso é lá nome que se use! ... Parei convosco ...

No “broadcasting” o nome é o próprio artista. Imaginem se Alzirinha Camargo se chamasse Marcolina Ferreira ... Poderia cantar qual um rouxinol ou uma patativa. Ninguém a levaria a sério com semelhante “epitáfio”. Se a Carmen Miranda se chamasse Joaquina de Vasconcelos estaria condenada a nunca voar para o Chile, nem Buenos Aires. Da mesma forma se o Chico Alves tivesse o nome de Bonifrates Assumpção, estaria irremediavel- mente perdido. Quando ele abrisse o peito para uma serenata daquelas, o amigo ouvinte iria logo atalhando:

— “Qual, seu Bonifrates ... Cuide de outra coisa. Páre com essa cantiga. Não amole a paciência alheia ...

Está, pois, demonstrado que o nome influi bastante no sucesso. Roxane fez muito bem em mudá-lo.

Continuemos a falar dessa morena paulista que nasceu em Santos e vive no Rio porque acha a Guanabara mais formosa do que Guarujá.

Encontrei-a pela primeira vez na praia do Flamengo. Havia muito sol e de vez em quando a ressaca espadanava espuma por cima da amurada. Eu e Sylvinha Mello presentes no local para fazermos umas fotografias, dissemos várias vezes:

— “Roxane, saia daí, senão você se molha nas águas do mar ...”

Ela, teimosa como trinta, queria à força se debruçar no cais para ver um homem que (dizia ela) estava morrendo afogado.

— “Deixe o rapaz afundar sossegado ...” — insisti eu.

— “Não tem importância — disse a Sylvinha — é um homem somente. Se fosse mulher ainda valia a pena salvar ...”

Todos olhávamos agoniados para as ondas inquietas e depois de muito olhar chegamos à conclusão de que Roxane estava inventando história. Não disse nada porque ela poderia não gostar. E enquanto nós caminhávamos para fazer outras fotos a cantora de “blues” ficou teimando em dizer que um homem se afogava dentro d’água. Insistia em espiar a curva da enseada. Foi-se chegando para o gradil de cimento. Foi-se aproximando mais. Mais... Nesse momento veio uma ressaca daquelas que ergue um leque branco da altura de um poste. A curiosa pagou com um banho o seu noviciado no posto de “life guard”. Nós nos rimos bastante e a paulistinha morena ainda riu mais do que nós.

Roxane é assim. À primeira vista se tem a impressão de que ela é uma pequena misteriosa e complicada. Observando-se melhor chega-se à conclusão de que houve equívoco de nossa parte. Ela não é complicada: é complicadíssima. Mas não é misteriosa. Quando julga-se que está zangada, está mais alegre do que nunca. Muitas vezes a gente julga que ela está contente, quando está com o coração de guarda-chuva armado.

Certa vez um cronista achou-a um tanto romântica. Roxane ficou indignada e protestou. Como estivesse presente, perguntei:

— “E você é mesmo romântica?”

— “Nunca! Deus me defenda ...”

Ergueu os olhos e suspirou longamente enquanto eu ficava abismado.

É uma criatura estranha, porém muito bondosa. Toda vez que um réporter vai entrevistá-la, ela oferece doce, queijo, uma cadeira, um copo d’água e um palito.

Gosta muito ... da música europeia porque é obrigada a cantá-la nos seus contratos com a Tupy. Sua mania, porém, é o fox-trot americano. Interpreta-o sempre que lhe é possível. Interpreta direitinho. Sua voz nem é de contralto e nem de contrabaixo. É de meio-soprano. Mas isso não tem importância. Há muita gente por aí que chega a ser soprano lírico e não reclama.

Como dizíamos a princípio, Roxane não se chama Roxane. O nome dela é outro, quinhentas vezes menos complicado e mil vezes mais brasileiro. O verdadeiro nome dela (agora me lembro) é Lúcia Prado e não Antônia Perpedigna da Fonseca. Ela prefere Roxane. E uma vez que quer assim, o melhor é deixar como está. Não faz mal. Ela fica sendo Roxane mesmo. Não há ser nada ...”

Escrito por Theophilo de Barros
Desenho de Augusto Rodrigues


Fonte: CARIOCA, de 7/11/1936 e 14/8/1937.

sábado, julho 13, 2013

Dolly Ennor

Revista Fon Fon (11/3/1944)
Dolly Ennor (Dorothy Margaret Ennor), cantora, nasceu em São Paulo, SP, em 25/08/1900, e faleceu na mesma cidade em 20/01/1977. Filha de um inglês casado com uma maranhense, pertenceu à alta sociedade paulista. Aos sete anos de idade os pais a enviaram para estudar na Inglaterra onde fez o curso colegial completo e também estudou canto e piano.

De espírito boêmio seguiu a carreira artística contrariando a família. Embora ficasse noiva várias vezes nunca se casou. Foi muito ligada à colônia britânica paulista e costumava cantar em casamentos. Foi chamada pelos fãs de a "Jeanette Mac Donald brasileira".

Iniciou a carreira artística na década de 1920 e fez sua primeira apresentação pública no Teatro Municipal de São Paulo com a Sociedade Dramática de Ópera de São Paulo em 1924. No mesmo ano, foi convidada para cantar na inauguração da Rádio Cruzeiro do Sul, em São Paulo.

Em 1927, ingressou na Rádio Educadora Paulista utilizando seu nome verdadeiro. Nesse ano, apresentou-se em show no Salão Germânia sendo bastante aplaudida. Na ocasião, assim reportou o jornal O Estado de São Paulo: "Com a sua bela e generosa voz, a srta. Dorothy Ennor encantou todo o distinto e numeroso auditório, conquistando-lhe palmas sobre palmas, sempre calorosas e tão insistentes, que teve de voltar ao palco para interpretar números fora do programa, aumentando, assim, os motivos de agrado que lhe tem valido a mais decidida simpatia do nosso meio artístico."

Já o jornal Diário da Noite assim se referiu sobre sua apresentação: "Que linda voz! Cantando, vai colorindo as notas, dando-lhes relevo, irradiando-as com a sua fantasia, iluminando-as com a sua espiritualidade. A sala toda escutou, vibrou, emocionou-se ao ouvi-la a cantar "A fonte e a flor", de Feliz Otero, e "Eu tenho adoração por meus olhos", de Marcelo Tupinanmbá."

Em 1929, passou a atuar em companhias de operetas em teatros paulistas e cantou em concertos. Em 1930, gravou seu único disco, pela Victor, com acompanhamento da Orquestra Victor Paulista de Salão, interpretando as canções Oh! Ma Rose Marie e Chant indien, ambas de Frimi, Ferreol e Saint Granier. Nesse disco seu nome aparece no selo como Dorothy Ennor. Na década de 1930, alternou sua atuação artística entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Em 1935, foi para o Rio de Janeiro e estreou na Rádio Transmissora na qual atuaria até fins de julho de 1936. Nesse ano, foi convidada para a inauguração da Rádio Nacional no Rio de Janeiro, cantando ao lado de nomes como Bidu Sayão, Silvinha Mello, Roxane, Sônia Carvalho, Araci de Almeida, Marília Batista, Francisco Alves, Nuno Roland e outros.

Em novembro do mesmo ano foi dirigida pelo maestro Gaó juntamente com as cantoras Silvinha Mello e Roxane. Na ocasião o trio interpretou, entre outras, a canção Meu limão, meu limoeiro, tema do folclore brasileiro. Em fins de 1936, retornou para São Paulo juntamente com a cantora Silvinha Mello com quem foi atuar na Rádio Educadora Paulista.

Em janeiro de 1937, atuou na Rádio Educadora Paulista, junto com Elisa Coelho, Nair Duarte Nunes, Roxane, Gaó, e Gilda Farnesi. Nesse período, assim falou sobre ela a revista Carioca: "Dolly Ennor, que é um dos elementos mais prestigiosos do "cast" da Rádio Nacional, encontra-se presente em período de férias, voltando aos programas daquela estação depois do carnaval".

De volta ao Rio de Janeiro atuou na Rádio Clube e na Rádio Cruzeiro do Sul. No mesmo ano, voltou a São Paulo para atuar na Rádio Cruzeiro do Sul paulista.

No final de 1937, embarcou para Pernambuco onde atuou na Rádio Clube de Pernambuco. Em 1938, depois de três meses em Pernambuco retornou à São Paulo e voltou a cantar na Rádio Cruzeiro do Sul.

No mesmo ano, juntamente com Gastão Formenti, Lauro Borges, Dilermando Reis e Rogério Guimarães voltou ao Rio de Janeiro para fazer parte do programa "Variedades Esso", apresentado por Renato Murce, um programa patrocinado pela Standard Oil Company of Brazil na Rádio Sociedade Nacional do Rio de Janeiro e na Rádio Tupi de São Paulo.

Em 1939, permaneceu atuando no programa "Variedades Esso" na Rádio Nacional. Em 1940, retornou definitivamente à São Paulo onde ainda permaneceria durante vários anos atuando na Rádio Difusora paulista.

Atuou até o começo da década de 1950, quando chegou a se apresentar na televisão sendo entrevistada por Hebe Camargo.

Discografia


1930 - Oh! Ma Rose Marie/Chant indien - Victor - 78

___________________________________________________________
Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; Revista Fon Fon, de 1944..