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quarta-feira, março 28, 2012

O Entrudo e o zé-pereira

Baile de fantasia no Cassino Fluminense com os figurões políticos em 1864 - "Semana Ilustrada"

A época do Carnaval varia de ano a ano porque está condicionada ao regime das festas móveis ou variáveis no tempo, estatuídas pela Igreja Católica Românica. A base de suas grandes solenidades rituais é a chamada Páscoa da Ressurreição, que jamais deve coincidir com a Páscoa dos judeus, na qual se deu, no mês de nizã ou março, a paixão de nosso senhor Jesus Cristo.

A fim de evitar essa coincidência em qualquer tempo, a Igreja, sabiamente, determinou celebrar a Páscoa da Ressurreição no 1º domingo posterior ao 14º dia da lua que vem após 21 de março. Se compreende isso desde que se tenha em vista que os hebreus se regiam por um calendário lunar e não pelo calendário solar adotado pelos povos cristãos. Assim, cronologicamente, a Páscoa da Ressurreição sempre cairá no 1º domingo seguinte à lua cheia imediatamente posterior ao equinócio da primavera, fixado no dia 21 de março.

Em virtude dessa determinação, se 21 de março for sábado e lua cheia, o dia 22 será o Domingo de Páscoa, caso em que este ocorre o mais cedo possível. Se a primeira lua cheia, isto é, o 14° dia lunar, após o equinócio, for 29 dias depois de 20 de março, por conseguinte, em 19 de abril e esse dia for domingo, o de Páscoa só poderá ser 25 de abril, caso em que ocorre o mais tarde possível. Daí se verifica que o Domingo de Páscoa ou Domingo da Ressurreição somente pode cair entre duas datas extremas: 22 de março e 25 de abril.

Ora, o Domingo de Carnaval, Domingo da Qüinquagésima ou Domingo Gordo cai sete domingos antes do da Ressurreição. Por isso, muitas vezes, se realiza o Carnaval em fevereiro e, noutras vezes, em março.

É o Carnaval festa de fundo pagão, com remotas raízes nos orgíacos festejos de Babilônia, denominados Sacae. Nele se dá liberdade ao instinto da carne: Carne Vale. Só a carne vale e se manifesta nessa comemoração dionisíaca. Ou o nome vem do carrus-navalis, carro naval de triunfo netuniano usado nesses festejos, que duraram em Flandres e na Alemanha até o século 13, relembrando as invasões dos normandos ou viquingues.

Mas, logo que seu tumulto se apaga, após três dias de intensa liberdade, a segunda e a terça-feira, a voz da Igreja, na Quarta-Feira de Cinza, lembra aos desvairados a fatalidade da morte: Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris (Te lembres, homem, que és pó e ao pó voltarás). Assim é a terça-feira de Carnaval espécie introdução às cerimônias litúrgicas que se iniciam na Quarta-Feira de Cinza. Se dizia, em latim, que era o dia do Introitus, isto é, daquela introdução. A palavra introitus se corrompeu a entrudo e, por extensão, se passou a denominar, antigamente, ao Carnaval, Entrudo e, como era inveterado costume, se usar, durante ele, brincadeira com água, hoje a palavra tomou a acepção restrita de Carnaval molhado.

Nos bons tempos de antanho se atirava água, às pessoas que passavam na rua, das janelas e balcões das casas, com jarro, balde, bacia. Havia foliões que punham à porta de sua moradia pipas e tonéis cheios, nos quais, ajudados por outros, mergulhavam os transeuntes desprevenidos. Em compensação, depois do banho, lhes serviam quitute e bebida. Devemos considerar isso reminiscência dos antigos banhos lustrais ou de purificação ritual pra se entrar em vida nova. Ainda aí a palavra introitus encontra significativa aplicação. Perdido o sentido primitivo, esses banhos se tornaram mera brincadeira, às vezes finalizando em conflito e grossa pancadaria, quando quem era molhado a força não estava disposto a suportar o brinquedo, o achando, apesar da tradição, de péssimo gosto.

Ilustr. de Momo - Rio de Janeiro, 1862
Com o tempo o costume se amenizou, os baldes e tinas foram abandonados, se passando ao uso menos bárbaro de limões e laranjinhas feitos de leve camada de cera, recheados de água perfumada ou colorida, atirados, de longe, às pessoas descuidadas. Mais tarde, com a aplicação da borracha de seringueira ao uso industrial, as laranjinhas de cera tiveram de ser substituídas por outras do mesmo formato, porém com fino invólucro elástico. As vítimas desse entrudo não se aborreciam tanto com as que os ensopavam com água-de-cheiro como com as que traziam colorantes, que manchavam chapéu e roupa. Isso provocava rixa e barulho, muitas e muitas vezes com gravidade.

Se deram novos e melhorados meios pro entrudo. Se adotaram as pequenas bisnagas de borracha com canudo de metal ou de metal flexível, de vários feitios e tamanhos, as quais, apertadas pelos dedos, esguichavam, quase como um vaporizador, líquidos perfumados aos que tomavam parte na lide carnavalesca. Isso esteve em grande voga na era de 1900. Mas apareceram malvados que carregavam as bisnagas com molho de pimenta ou ácido fênico, produzindo queimaduras e até cegueiras. A polícia, então, proibiu, terminantemente, o uso de tais objetos.

Todavia o velho Entrudo teimava em não morrer, reformando seus processos e rejuvenescendo anos afora. Às bisnagas sucederam, inicialmente, os tubos de cloretil e, afinal, os de vidro e metal dos chamados lança-perfumes, que são coisa de ontem. Houve anos em que se gastaram tantos milhões deles nos carnavais cariocas que suas fábricas de França enviaram representantes especiais pra estudar as admiráveis condições desse mercado no Brasil. Se fundaram, depois, fábricas nacionais que exploraram essa lucrativa indústria. Finalmente, os viciados começaram a procurar no éter contido nos tubos de lança-perfume a embriaguez, quer nas vias públicas, quer nos bailes em recintos fechados, de modo que as autoridades se viram forçadas a proibir o uso.

Morreu, assim, já em nossos dias, metalizado, perfumado e industrializado o velho Entrudo nascido nas bacias e tonéis de água de nossos avós. Nos últimos tempos de sua existência tivera a colaboração inocente do papel colorido sob a forma de confete e serpentina, e de espanador pra fazer cócega, denominado mamãe-sacode.

O emprego de laranjinhas e limões-de-cheiro ou de água-de-cheiro começou no Rio de Janeiro, na época da independência. Se atiravam esses projéteis carnavalescos até nos teatros. As crônicas do primeiro reinado registram um episódio interessante, que ocorreu no então real teatro de São Pedro de Alcântara, no Rossio, hoje substituído por um monstro moderno de alvenaria e crismado como João Caetano. Foi no Carnaval do ano da graça de 1825.

A atriz Estela Sezefredo, então famosa, trêfega, muito jovem e muito divertida, ousou lançar um desses limões na pessoa de sua majestade, o imperador dom Pedro I, sendo, incontinenti, presa e metida nas grades do antigo Aljube, ao pé do morro da Conceição, pra, no silêncio e na solidão, meditar um pouco sobre a estouvada brincadeira.

Estela Sezefredo era natural do Rio Grande do Sul e começou a carreira como dançarina daquele teatro, tendo pronunciado o discurso na festa oficial de reabertura, em 1 de dezembro de 1824, quando ali se representou Engano feliz, de Rossini. Tendo vindo de sua terra natal com 12 anos de idade, em 1822, pois nascera em 14 de janeiro de 1810, contava somente 15 anos ao praticar a pequena loucura carnavalesca que a levou à cadeia. Deixou de ser bailarina e estreou como atriz com 23 anos, em 1833, na comédia Camila. Alcançou êxito ruidoso, desde então, no palco. Se casou com o grande ator João Caetano dos Santos, passando a se chamar Estela Sezefredo dos Santos. Enviuvou em 1863 e pretendeu, embora já maior de 50 anos, voltar a ganhar a vida como atriz, não obtendo mais êxito. Faleceu na maior miséria, em Niterói, em 13 de março de 1874.

O infatigável e probo historiador da cidade do Rio de Janeiro, Vieira Fazenda, desenterrou, da poeira dos arquivos, alvarás, avisos e posturas municipais sobre o Entrudo carioca desde o século 17. O Entrudo continuou aqui no século 18 mas com proibição absoluta, de acordo com as próprias ordenações do reino, do uso de máscaras e embuçados, sob penas variadas: Prisão, multa, açoite e até degredo.

O Carnaval de rua, com préstitos alegóricos, como o conhecemos, parece datar, no Rio de Janeiro, de 1854, ano em que se fundaram as duas primeiras sociedades carnavalescas da cidade: Veneziana e Sumidades Carnavalescas. Os primeiros bailes à fantasia realizados em 1846.

Durante o segundo reinado surgiu no Rio, e se alastrou nas províncias, nova modalidade do Carnaval, a zabumbada ou zé-pereira, antepassado dos cordões e Ranchos, com uma cantiga, cujo estribilho andava na boca de toda gente:

Viva o zé-pereira
que a ninguém faz mal!
Viva a pagodeira
no dia do Carnaval!


O criador desse novo Carnaval existiu de verdade. Era o português José Nogueira de Oliveira Paredes, sapateiro na rua São José 22, antigo caceteiro miguelista em Portugal, que ali participara das famosas rebeldias populares: A Patuléia e a Maria da Fonte, vindo, fugido dos liberais vencedores com dom Pedro I, dar com os ossos no lado de cá do Atlântico. Mal se anunciava o Carnaval e reunia uma dúzia de patrícios que comiam e bebiam à boa maneira lusitana e saíam ruas afora, batucando tambor, tocando zabumba e cantando:

Viva o zé-pereira
que a ninguém faz mal!
Viva a bebedeira
no dia do Carnaval!


A zabumbada de Paredes e seus companheiros obedecia a ritmo tão certo e espalhafatoso que ninguém podia imitar. Sua passeata nas ruas públicas atraía verdadeira multidão de acompanhante. Muitos pretenderam imitar, capitaneando bando de tocadores de bombo e outros instrumentos de pancadaria, mas sem que lhe levassem as lampas na famosa toada.

Vieira Fazenda nos dá conta da origem do nome de zé-pereira prà batucada de José Nogueira de Oliveira Paredes assim: "Uns dizem que, em certas localidades de Portugal, é o bombo conhecido por zé-pereira. Outros querem, e é mais provável, que, na primeira noitada de bom sucesso, os companheiros de Paredes, na força do entusiasmo e influenciados pela vinhaça, trocaram o nome do chefe e davam vivas a Zé Pereira em vez de Zé Nogueira".

Como quer que seja, Zé Nogueira ou Zé Pereira presenciou seu triunfo na ribalta, quando a célebre companhia teatral Heller levou, no Rio, a cena uma paródia dos Pompiers de Nanterre sob o título sugestivo de O zé-pereira Carnavalesco, tendo Paredes comparecido ao espetáculo de cartola e sobrecasaca, e chorando em público, de alegria.

José Nogueira ou Zé Pereira, criador do verdadeiro Carnaval de rua do Rio de Janeiro, inventor do rancho ou cordão, iniciador da batucada, morreu dum ataque de apoplexia na véspera dum carnaval, depois de examinar cuidadosa e carinhosamente, em sua oficina de sapateiro, os bombos e tambores de seu bando folião, instrumentos de sua fama, cuja integridade zelava com amor paternal e aos quais chamava, emocionadamente, meus queridos amigos. Fora, em verdade, o rei da batucada.

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Fonte: O Entrudo e o zé-pereira, Gustavo Barroso - Revista O Cruzeiro, 18/2/1950.

quarta-feira, março 29, 2006

O Entrudo


Avô e pai do Carnaval, o Entrudo era festejado antes de Cristo para comemorar a chegada da primavera. D. Pedro II e membros da família imperial gostavam de participar do Entrudo. É lógico que o faziam em palácio, que o imperador não iria sair pelas ruas molhando suas irmãs. A brincadeira que precedeu o Carnaval era adotada em todo o país, embora às vezes beirasse à violência e algumas leis municipais proibissem a prática considerada nociva.


Oriundo de Portugal, onde acontecia entre o Sábado Gordo e a quarta-feira de Cinzas, na abertura da primavera, o Entrudo era realizado entre famílias amigas ou pessoas conhecidas, ganhando mais tarde as ruas, envolvendo desconhecidos, atingidos por baldes de água, farinha, cinzas, lama, onde quer que a vítima se encontrasse. Casas ficavam inundadas, passantes nas ruas encharcados e todos, senhores e escravos, senhorinhas e mucamas, se divertiam.

Já mais civilizado, o costume chegou ao início do século XX, as pessoas sendo atingidas por limõezinhos de cera, cheios de água perfumada. Até o Carnaval se impor no país.

Diário de Thomas Ewbank sobre o Entrudo

Dia 21/02

"Durante a semana passada, encontrei à venda, aqui e acolá, bolas coloridas expostas sobre pratos. As verdes poderiam confundir-se com pequenas maçãs, as amarelas com laranjas e limão. Algumas têm a forma de peras e outras de melão. O conhecimento que tive de algumas esta manhã eliminou a indiferença com que vinha passando a seu lado. Outro artigo também chamou-me a atenção. Tratava-se do amido nativo, não granulado como o nosso, mas sim um pó extraordinariamente branco e fino, colocado em cilindros de papel de quinze centímetros de comprimento por trinta de diâmetro. Para usá-lo, abre-se uma das extremidades do cilindro e deixa-se o pó sair.

Enquanto estava sentado tomando o seu café da manhã, S. passou por trás da cadeira de J. e, com grande espanto meu, esvaziou um par de cilindros sobre a cabeça e os ombros do mesmo. A operação foi realizada tão silenciosamente e o pó caiu tão leve que J. não percebeu o acontecido, senão quando um punhado de pó lhe foi aplicado ao rosto e às orelhas. Cuspiu, ergueu-se e, meio cego, foi saudado com esguichos de líquidos de uma garrafa de água da colônia de gargalo comprido. Meio encolerizado e entre muitas risadas, efetuou uma rápida retirada, vestiu-se e saiu para a cidade.

Enquanto perguntava a mim mesmo o que significaria tal coisa, senti caírem de minha testa uma ou duas partículas. Erguendo a mão verifiquei que meus cabelos também haviam sido cobertos de pó. Meus gritos provocaram gritaria geral. Levantei-me para fugir, mas isso fora previsto e a única porta através da qual podia escapar encontrava-se fechada à chave. Cercado agora por um exército de inimigos femininos, esquivei-me e corri até me sentir quase exausto, tentando fugir aos incessantes ataques de amido e água. Finalmente protestei que se a desonesta guerra continuasse, eu deveria chegar e chegaria a um corpo a corpo e, "vi et armis", capturaria e utilizaria contra o inimigo a sua própria artilharia. Tais ameaças foram recebidas com novos ruídos de alegria e novos ataques. Finalmente todos concordaram com um armistício, que se prolongaria durante aquele dia. Contaram-me então que o entrudo começava no dia seguinte quando os membros de todas as classes, dentro ou fora das casas, empoeiram e borrifam uns aos outros, sendo habitual fazer um pouco disso no dia anterior à guisa de prefácio.

Retirei-me para trocar roupa, mas não tinha ainda dado cinco passos quando fui assaltado por uma tempestade de bolas coloridas carregadas com algum líquido e semelhante às que eu notara na cidade. Surpreendido diante dessa violação declarada de um compromisso e pelos fragmentos vermelhos e azuis com que eu for a salpicado, não perdi tempo em chegar a meu quarto e fechar a porta. Tirei da estante um antigo dicionário português para obter informações. De acordo com o mesmo, entrudo ou intrudo deriva-se do latim introitu – entrada ou princípio. O dicionário descrevia o festival como algo em que, como bacantes, as pessoas brincam, festejam-se, dançam e fazem travessuras dentro das casas, enquanto for a realizam toda espécie de brincadeiras, molhando e empoeirando umas às outras. Sobre a origem da festa – da qual eu já experimentara um pouco antecipadamente – não pude descobrir nada. Nem o vigário nem qualquer outra pessoa a quem perguntei, puderam dar-me o menor detalhe sobre sua história. Admite-se, porém, que date de épocas remotas.

Talvez seja de perguntar se o entrudo e o carnaval da Itália sejam a mesma cousa. Embora ambos estejam associados ao grande jejum da Quaresma, existe entre eles grandes pontos de divergência aparente. O primeiro, em sua etimologia, não faz referência à abstinência de carne, de que o último é uma expressão literal. Carni, carne; vale, adeus. A época do carnaval estende-se desde primeiro de janeiro até o princípio da Quaresma, ao passo que o entrudo se realiza na parte final de fevereiro e dura apenas três dias, principiando invariavelmente no domingo que prece à quarta-feira de cinzas. Além disso, o lançamento de pós e água é sua característica especial e o mais destacado de seus ritos.

As bolas de entrudo, como são chamados aqueles objetos coloridos, ao invés de serem os frutos com que se parecem, são apenas cascas de cera cheias de água. Têm resistência suficiente para conter o líquido e para serem delicadamente apanhadas e lançadas a considerável distância. Da mesma forma que outras bombas fatais, explodem quando atingem o alvo; a cera fragmenta-se então e fica em sua maior parte grudada onde atinge. Recebi como presente espécimes de superior qualidade, em forma de garrafa ou jarro de mesa e decorados com pintura e douração. O gargalo era fechado numa imitação de rolhas seladas. Para serem utilizadas, são carregadas com água de colônia ou outros líquidos perfumados.

Dia 22/02

Hoje é dia do entrudo. Ao se levantar, meu amigo R. encontrou as extremidades inferiores de suas calças costuradas. Não é anormal colocar meia dúzia de bolas em cada perna, mas como R. encontra-se bastante indisposto, foram-lhe poupadas essas singulares manifestações de afeição e banhos de pé. Por ocasião dos cumprimentos habituais, esmagaram-me uma ou duas bolas na mão. Alguém encontrou seu café da manhã sem açúcar, outro achou o seu com sal e um terceiro começou a tirar fios da boca, o que causou novas explosões de riso; nos dois pratos de torradas todos os pedaços haviam sido envoltos em fios finos, de tal forma que os dentes de quem os comesse fatalmente ficariam presos àquela rede de fios. Alguns negociantes estrangeiros pararam, a caminho do Jardim Botânico. T. convidou-os a entrar. Os simplórios aceitaram! Pouco depois seus trajes de montaria estavam transformados em trajes de banho. Um deles saiu sem chapéu e afastou-se de cabeça descoberta! Voltou porém durante a tarde com um escravo trazendo uma grande cesta de projéteis de cereais e, entrando calmamente pela retaguarda, pagou com juros a seus adversários.

O vigário entrou e foi recebido com água de colônia. Sua sotaina porém foi poupada aos ataques do amigo. Mencionou então vários casos em que ficara quase afogado após receber as mais solenes promessas de que não seria molestado. Acreditei realmente e, voltando-me para algumas senhoras, perguntei-lhes como podiam, em um domingo, mentir assim… "Oh!", responderam-me, "As mentiras do entrudo não são pecados". Não é possível acreditar em coisa alguma enquanto dura o entrudo. O padre prudentemente safou-se; não ousou ficar para o jantar, pois seus aposentos poderiam ser roubados por amigos que em seu nome iriam buscar tudo que lá houvesse de valioso, dona F., por meio de uma esperteza dessa espécie, conseguiu uma dúzia de garrafas de cerveja do carpinteiro de J., que as tinha sob sua guarda. Ele próprio pregou uma peça no vigário no ano passado. Além disso, com o auxílio de um escravo, privou um amigo de um peru e várias outras aves, que foram servidas num jantar em que o próprio proprietário e sua família supunham que fossem convidados sem sonhar sequer que haviam contribuído para o ágape. Era costume colocar diante dos comensais pernis de madeira, pastéis de areia, doces e pudins de materias não comestíveis, pratos dos quais saltavam sapos, etc. No entanto, o entrudo, como outros festivais, não é mantido da mesma forma que outrora.

O senhor F. levantou-se para sair, mas foi convencido a sentar-se de novo em sua cadeira sobre a qual um vizinho colocara uma quantidade de farinha e bolas de água. Ergueu-se de um salto quando esse ninho de ovos foi esmagado e os autores da brincadeira tiveram convulsões de riso. A algazarra não esmoreceu com o seu jeito de limpar as partes afetadas Achando impossível permanecer, despediu-se com bom humor, acenando com uma das mãos, enquanto com a outra colocava o chapéu na cabeça – para cair em nova armadilha. O chapéu estava cheio dos ingredientes habituais do dia. Duas extremidades de sua pessoa encontravam-se agora nas mesmas condições em que a cabeça de dom Quixote, quando pediu inesperadamente seu elmo, num momento inconveniente para Sancho entregá-lo.

Retirando-me para meu quarto, encontrei uma senhora desconhecida escrevendo sobre a mesa. Parei e dirigi-lhe a palavra. Não deu resposta alguma, nem fez qualquer movimento. Avancei então. A intrusa era apenas um travesseiro ao qual haviam adicionado mangas, saias, gorros, xale, etc. muito artisticamente. Abrindo as gavetas, verifiquei que as mangas e os colarinhos de todas as camisas estavam costurados, enquanto as outras peças de roupas encontravam-se também hermeticamente fechadas, de tal forma que seria necessário muito tempo ou paciência para vesti-las.

As pessoas de ambos os sexos são peritas em acalmar uma vítima após o ataque e fazê-la abandonar sua atitude de reação. As senhoras mostram as palmas da mão abertas, esfregam-nas no corpo, para provar que não têm projéteis ocultos, sentam-se ao lado da vítima, manifestam cansaço e dizem que um pouco de brincadeira é bastante bom, mas seu excesso é uma tolice e uma vulgaridade; mostram-se inocentes, como madonas e concluem dizendo: "Chega de entrudo". Desfazem-se as suspeitas, mas em dez vezes contra uma, naquele mesmo momento, a vítima recebe no rosto um par de bolas de cera, cheias de água com sabão ou é alvo de um canudo de um amigo. A bela inimiga afasta-se da vítima com um grito e causa-lhe nova surpresa. Retira de sua pessoa miríades de bolas e canudos, até forçar a vítima à conclusão de que é feita de tais coisas ou tem consigo alguma máquina para produzi-las.

É costume também enviar pessoas em missões que só podem ser consideradas idiotas. Assim, por exemplo, uma pessoa de boa fé é mandada tratar do que imagina ser um assunto confidencial de grande importância para seu amigo – tomar dinheiro emprestado, por exemplo. A carta que leva em síntese: "Envie o tolo para o senhor B. e peça-lhe para enviá-lo a outro, com o mesmo pedido!"

Aconteceu o caso de uma família ser banqueteada com suas próprias vitualhas. Um guloso reverendo vingou-se de uma peça semelhante que lhe haviam pregado, aproveitando-se prodigamente da mesa de um vizinho. Sua hilariedade foi maior quando um esplêndido bolo foi trazido e colocado à sua frente. Com os olhos brilhantes investiu decisivamente sobre o bolo e, quando três quartos do mesmo já haviam sido consumidos, uma insinuação fê-lo levantar-se, permanecer em pé horrorizado e pedir paciência! O bolo – presente valiosíssimo de uma amiga – fora surrupiado de sua própria despensa.

Caminhei em direção do Passeio e vi alguns indivíduos serem molestados. Um cavalheiro vestindo terno novo recebeu duas ou três bolas e indignou-se deveras; dirigiu-me algumas observações e apontou para a janela de onde haviam partido as bolas. É inútil ficar encolerizados, pois aqueles que o fazem terão sua cólera refrescada por um chuveiro frio.

Os jovens aqui e acolá brincam com seringas. Há algum tempo notei enormes aparelhos de lata pendurados à porta dos funileiros e certa vez encontrei um indivíduo levando um deles para casa. Desejando saber para que eram destinados, detive-me um dia a examiná-los. Tudo o que pude saber do sorridente profissional foi que o preço de cada um era de dois mil réis. Eram seringas de entrudo de um ou dois litros. Os jovens marotos negros, que as enchem nos esgotos, raramente molestam qualquer pessoa que não seja da sua cor. Os rapazes brancos, porém, não têm cerimônia em molhar os etíopes. B. falou-me de alguns conhecidos seus que ocultavam as bombas no jardim para saudarem com ele seus amigos. Ele próprio tinha uma delas, mas estava desarranjada.

A ilustração, de um artista do Rio, representa magnificamente uma cena de entrudo nas ruas. Vi certa vez um negro carregando água da fonte da Carioca ser atacado precisamente da mesma maneira assim representada. O negro tropeçou e caiu de cabeça para frente. Felizmente sem se ferir. Retirando-me já à noite, não pude encontrar meios de me deitar na cama. Os lençóis e as colchas haviam sido transformados em um saco, cuja boca fechada estava por baixo do travesseiro. Acendendo de novo o candeeiro, desmanchei a costura e finalmente deitei-me para descansar, exausto do entrudo e considerando que ainda devia ser grato por não ter encontrado um monte de bolas no fundo do saco.

As puerilidades do entrudo não seriam dignas de menção se não ilustrassem costumes antigos. Da mesma forma que outros divertimentos, sobreviveram às instituições que deviam comemorar, o que é muito natural, pois todas as pessoas apreciam divertimentos e alegrias.

Têm sido freqüentemente observadas coincidências notáveis na língua, costumes e outras questões que estabelecem uma intimidade, senão identidade, entre os ancestrais dos povos da Europa Ocidental e da Ásia Central. Não tenho conhecimento de que o entrudo tenha tido quanto à sua origem explicação desta maneira. Parece, porém, haver pouca dúvida de que seja o mesmo Hohlee do Indostão – festa que data de épocas míticas e conseqüentemente se envolve em densa obscuridade.

Alguns escritores supõe que o Hohlee refere-se à volta vitoriosa de um famoso herói após a batalha. Outros pensam que se baseia nas orgias de Krishnu, deus mais licencioso que o Júpiter grego. Outros ainda imaginam que se refere ao encerramento do ano velho e à aproximação da primavera, quando a natureza espalha suas flores pela terra. O epíteto de "purpúreo" foi dado à primavera pelos poetas antigos e a mesma estação é caracterizada pelo pó vermelho que os hindus, ao celebrarem o Hohlee, lançam uns sobre os outros.

Um relatório escrito da participação que teve na celebração deste festival na Corte de um princípe hindu é dado pelo senhor Broughton, que diz:

"Celebrar o Hohlee consiste em lançar uma certa quantidade de farinha feita de uma noz aquática chamada singara e colorida com tinta vermelha: essa farinha chama-se abeer e o principal divertimento é lançá-la aos olhos, à boca e ao nariz dos foliões e enlameá-los completamente com água tingida de cor de laranja. A abeer é muitas vezes misturada com talco em pó, para fazê-la brilhar, e quando penetra nos olhos causa bastante dor. É algumas vezes encerrada em pequenos glóbulos feitos de um material gelatinoso mais ou menos do tamanho de um ovo, com os quais é posssível fazer boa pontaria contra aqueles a quem se deseja atingir; necessitam porém ser manejados habilmente, pois rompem ao mais ligeiro contato…

Poucos minutos depois de termos sentado, grandes bandejas de lata, cheias de abeer e das pequenas bolas já descritas foram trazidas e colocadas diante do grupo, juntamente com água amarelada e uma grande seringa de prata para cada indivíduo. O Mha Raj iniciou a brincadeira atirando um pouco de água vermelha ou amarela sobre nós, com goolabdans – pequenas vasilhas de prata para borrifar água de rosas nas visitas de cerimônia. Todos começaram então a lançar abeer e a orvalhar seus vizinhos. É contra a etiqueta qualquer coisa contra o Raj; no entanto já lhe havíamos dito que tínhamos tomado a resolução de atacar quem quer que nos atacasse e, com bom humor, respondeu que "com todo o seu coração estava preparado para nos enfrentar e disposto a apostar quem atacava melhor". Verificamos, porém, logo que com ele não tínhamos a menor probabilidade, pois além de seus servidores segurarem um pano diante de seu rosto, tinham-lhe posto na mão uma mangueira de bomba de incêndio, cheia de água amarela e operada por meia dúzia de homens. Com esta arma atacou os que se encontravam em torno, com tal resultado que dentro de algum tempo não havia na barraca um único homem que tivesse seca qualquer parte do corpo.

Às vezes dirigia a água contra os que estavam sentados a seu lado com tal força que não era fácil à pessoa conservar-se sentada. Toda oposição a esse formidável aparelho seria fútil. Pazadas inteiras de abeer eram lançadas, seguidas imediatamente por um esguicho de água amarela, de tal forma que éramos alternadamente empoeirados e ensopados, até que o chão em que nos sentávamos tivesse ficado coberto com algumas polegadas de espessura de uma espécie de lama cor de rosa e alaranjada. Nunca testemunharia em minha vida cena semelhante.

Imaginai grupos sucessivos de dançarinos, enfeitados com fitas de ouro e prata, com seus vistosos enfeites manchados de abeer e gotejantes como náiades, com água cor de laranja – cantando agora as canções do Hohlee, com todas as árias da libertinagem e pouco depois gritando com afetadas exclamações, quando recebiam um novo jato de água de parte do Raj; a dissonância dos tambores, trombetas, violinos e címbalos, tocando como se tentassem apenas abafar os outros ruídos que se ouviam ao redor; o triunfo daqueles que lançavam com êxito a abeer e os clamores das vítimas dos ataques; as grandes explosões de risos e os aplausos que se ouviam por todos os lados entre a multidão alegre; imaginai se puderdes tal reunião de objetos extraordinários, em seguida pintai-os com duas brilhantes pinceladas de róseo e amarelo, e tereis uma idéia da cena, que vai além absolutamente de qualquer descrição".

Em outros pontos o entrudo e o Hohlee concordam. O último, ao que nos informa "é realizado quase na mesma época que nossa quarta-feira de cinzas e também precede a Quaresma ou temporada de expiação hindu" – coincidência de época e finalidades, tornada ainda mais notável pelo fato de ambos os festivais serem celebrados com poeira e água, com bolas e seringas. O Hohlee é celebrado por todas as classes na India inteira, constituindo uma oportunidade de divertimento universal. Entre suas principais brincadeiras incluem-se as que entre nós caracterizam o primeiro de abril.

Em diversos aspectos o festival asiático assemelha-se à antiga Saturnália e ao moderno carnaval, sendo permitidas as maiores liberdades às pessoas de todas as categorias. Já foi comparado ao Hilaria celebrado em Roma no equinócio vernal em honra da mãe dos deuses, quando sua estátua era levada em procissão acompanhada por pessoas fantasiadas que por seus trajes e maneiras assumiam então a máscara da personalidade que lhes agradava.

Na verdade quase todas as nossas antigas festas religiosas são ligadas a instituições semelhantes da India, Egito, Grécia e Roma.

Para concluir este curioso assunto, deve-se recordar que nos últimos anos a borracha da India tem sido aplicada a uma multidão de finalidades úteis. Contribui com numerosos aparelhos valiosos para a ciência. Garrafas de borracha constituem uma espécie nova e única de instrumentos de exaustão e compressão. Fazem-se também com borracha cintas e ventosas assim como substitutos para seringas. Esta última invenção é devida aos aborígenes do norte do Brasil. No Pará, região da borracha, as seringas de goma elástica são comuns desde há muito tempo, e durante o entrudo podem ser vistas nas mãos dos índios, dos brancos e dos negros.

É também bastante curioso o fato de ser lançada pelos foliões uma terra ou ocre amarelo, assim como amido de caçava."


Fontes: História do Samba - Editora Globo; EWBANK, Thomas: 'A vida no Brasil' ou 'Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras'. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1976. Reconquista do Brasil, 26.