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segunda-feira, novembro 06, 2017
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
Jovem Guarda: os brotos comandam
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| Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos. |
"A jovem guarda foi a materialização de tudo aquilo com que os pioneiros do rock brasileiro sonhavam. A música pop movida a guitarras provocando nas ruas cariocas, paulistas, gaúchas e pernambucanas a mesma revolução romântica que os adolescentes de londres ou da califórnia experimentavam. De repente, não havia mais “adultos em preparação” ou “crianças crescidas”. Havia jovens. E agora eles davam as cartas."
"Domingo, 22 de agosto de 1965. Faltam poucos minutos para as aguardadas 16h30, e garotas e garotos (todos evidentemente com menos de 20 anos) esperam excitados e ansiosos por seus ídolos na platéia do Teatro Record, na Rua da Consolação, em São Paulo. Quando finalmente as gravações se iniciam, quem está no comando é Roberto Carlos, que, logo de saída, anuncia o seu “amigo, Erasmo Carlos!” A malta delira com o andar do adorável grandalhão. Os dois cantores-compositores-parceiros mais a loirinha mineira Wanderléa, dona das pernas mais famosas do pop brasileiro da época, são o centro do programa e introduzem um desfile de convidados ilustres. Na edição de estréia, passaram pelo palco Os Incríveis (nova encarnação beat do The Clevers dos tempos de rock instrumental), Tony Campello, Rosemary, The Jet Black’s, Prini Lorez e Ronnie Cord.
O sucesso imediato do programa Jovem Guarda era fruto da percepção empresarial do dono da TV Record, Paulo Machado de Carvalho, mas também (e principalmente) resultado da ebulição cultural que conspirava em favor da juventude. A locomotiva de tudo era o monstruoso sucesso dos Beatles, que, depois de tomar de assalto os Estados Unidos um ano antes, consolidou a dominação mundial com o longa-metragem Os Reis do Ié, Ié, Ié! (A Hard Day’s Night), um dos filmes mais lucrativos da história do cinema.
No Brasil, Roberto Carlos já era um ídolo jovem bem antes de haver notícia sobre os cabeludos ingleses, graças a hits como “Splish Splash” e “Parei na Contramão” (1963), “É Proibido Fumar” e “O Calhambeque” (1964). Em paralelo, milhares de jovens – migrantes como Roberto Carlos – corriam para os grandes centros urbanos, na trilha da industrialização, em busca de emprego, ascensão social e espaço na sociedade moderna.
Além de responder à demanda por um novo espaço na televisão sintonizado com aquele momento cultural e social, a idéia do programa Jovem Guarda surgiu como uma alternativa para ocupar a grade de programação dominical da TV Record em lugar da transmissão dos jogos do Campeonato Paulista de Futebol, que havia sido proibida. Originalmente, o programa seria chamado de Festa de Arromba (hit de Erasmo Carlos), mas acabou sendo trocado por insistência dos próprios artistas, que achavam que o nome perderia força com a saída da música das paradas de sucesso. Por sugestão do publicitário (comunista) Carlito Maia, foi adotado o nome Jovem Guarda, retirado de uma expressão do líder revolucionário soviético Vladimir Lênin – “O futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada”. Pertencia mesmo, a ponto de valer a mudança de Roberto Carlos para São Paulo, onde, segundo a imprensa da época, o cantor teria condição de “estourar” nacionalmente.
Além do nome do programa, também sua própria formatação original foi alterada. O projeto inicial previa Roberto e a estabelecidíssima rainha do rock brasileiro, Celly Campello. Mas Celly estava resoluta em sua nova vida doméstica e nenhuma proposta conseguiu demovê-la a voltar ao mundo artístico.
Indústria
Logo nas primeiras semanas, Jovem Guarda atingiu 90% de audiência, segundo o Ibope. Com um padrão de produção inexistente até então, além de música, o programa incrementou uma verdadeira indústria à sua volta, com venda de botas, calças, jaquetas, anéis, bonequinhos e outras quinquilharias. O passo seguinte, o cinema, começou a ser arquitetado no início de 1966. Sob direção de Luiz Sergio Person e produção da mesma agência Magaldi, Maia & Prósperi, que cuidava dos outros produtos licenciados, Roberto, Erasmo e Wanderléa começaram as filmagens de SSS contra a Jovem Guarda. Apesar do roteiro pronto e de diversas cenas rodadas, o longa foi interrompido logo que Roberto rompeu com a agência. Sua carreira cinematográfica só deslancharia em 1968, com Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de Roberto Faria.
Aparentemente ingênua, a poesia jovem-guardista falava para milhões de brasileiros com uma linguagem direta, nada intelectualizada e, no caso de Roberto Carlos, com uma particular e cativante doçura. No universo poético do iê-iê-iê cabiam a paixão por carros, a solidão das grandes metrópoles, os amores impossíveis, os tipos estranhos, como uma síntese saudosista dos anos 50 com a contemporaneidade pop dos super-heróis, das revistas em quadrinhos, dos seriados de TV. Se Chico Buarque de Hollanda foi o grande poeta da consciência nacional dos “anos de chumbo”, Roberto Carlos foi o poeta popular que confortou as almas jovens, dando-lhes esperança de, pelo menos, se apaixonarem sinceramente por alguém. Enquanto Erasmo encarnou o lado irreverente da jovem guarda, Roberto Carlos foi uma espécie de pós-James Dean suburbano, romântico e humilde.
O problema é que essa análise sociocultural e artística não existia em meados dos anos 60. Tão logo o programa entrou no ar, diversos expoentes da tradicional MPB e da intelectualidade oficial decidiram declarar “guerra” ao iê-iê-iê de Roberto Carlos e à jovem guarda . Num dos maiores micos da história da música brasileira, um grupo de artistas encabeçado por Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré e MPB-4 (e com participação de um constrangido Gilberto Gil) foi às ruas em manifestação que ficou conhecida como a “Passeata contra as Guitarras Elétricas”. Mesmo apresentada como um protesto “contra a invasão da música estrangeira”, a mobilização não atraiu artistas mais abertos, como Caetano Veloso e Nara Leão (que se recusaram a participar) e Chico Buarque (que simplesmente não apareceu). Justiça seja feita: alguns anos depois, Elis Regina redimiu-se do equívoco gravando músicas de Roberto Carlos.
Se Roberto incomodava os conservadores, mais controvérsia ainda provocava Erasmo Carlos, o lado mais radical da jovem guarda, o mais jovem e mais rebelde da turma. Autor da clássica versão de “Splish Splash”, primeiro grande sucesso de Roberto, e co-autor da maior parte dos hits seguintes do “Brasa”, Erasmo só estrearia em disco no final de 1964. O Tremendão (que, naquela época, “já tinha umas idéias avançadas”, como diria o tecladista Lafayette muitos anos depois) antecipou diversas novidades, como o órgão Hammond B3 do próprio Lafayette, que se transformou em marca registrada do som jovem-guardista. Logo após a estréia do programa televisivo, Erasmo saiu à frente das discussões entre emepebistas e roqueiros, defendendo um tal de “samba jovem” – que, anos mais tarde, desembocaria no samba-rock tão cultuado hoje em dia.
Já a mineira Wanderléa, apesar da postura contida no palco da TV Record, simbolizou um grande avanço no perfil da cantora de rock nacional – quiçá internacional. Seu som por vezes agressivo (como em “Prova de Fogo”), aliado às roupas ousadas e modernas, em especial as calças justíssimas, fizeram dela um modelo comportamental para as jovens da época. Sua própria presença no programa entre dois homens (em vez do casal tradicional como Elis e Jair Rodrigues no Fino da Bossa ou Tony e Celly Campello no Crush em Hi-Fi) já sugeria um novo papel reservado às mulheres “pra frente”. Não à toa, sua carreira resistiu ao fim do iê-iê-iê, produzindo música interessante por muitos anos além.
Movimento
Ainda na carona do sucesso do programa, um ano depois de sua estréia, a TV Record organizou o Festival de Conjuntos da Jovem Guarda, com eliminatórias em diversas regiões do país que mobilizaram milhares de grupos e cantores. Na final, realizada em São Paulo, também sob o comando de Roberto Carlos, classificou-se em primeiro lugar o grupo paulista Loupha, de orientação psicodélica, com uma cover para “I Can’t Let Go”, dos Hollies. Em segundo lugar ficaram os gaúchos d’Os Cleans. Entre os intérpretes, o vencedor foi o mineiro Vic Barone. Oficialmente, Jovem Guarda deixava de ser um programa de TV para se transformar em um movimento, com enorme capacidade multiplicadora, fazendo brotar um novo grupo de guitarras em cada esquina do país. (Estrategicamente, Roberto assumiu a paternidade da coisa toda, lançando logo em 1965 o álbum Jovem Guarda, que trazia o megahit “Quero Que Vá Tudo pro Inferno”).
Os astros instantâneos e as carreiras meteóricas surgidas em volta do iê-iê-iê ajudaram a forjar uma identidade profunda e verdadeira para o rock produzido no Brasil. Apesar da sintonia comportamental com a beatlemania que grassava o planeta, o iê-iê-iê, na realidade, compartilhava influências com o som dos Beatles mais do que o reproduzia – na receita, rock americano primitivo, o “som da Motown”, surf rock e pop pré-fabricado internacional. Ainda que apolíticos, os astros da jovem guarda eram afinados cultural e esteticamente – algo que se estenderia, anos depois, para a tropicália, por exemplo.
Entre os principais “contribuintes” desse núcleo original do iê-iê-iê, destacaram-se cantores como Ronnie Von, Eduardo Araújo, Jerry Adriani, Sérgio Reis, Wanderley Cardoso, Bobby di Carlo (de “O Tijolinho”), Ed Wilson e cantoras como Meire Pavão, Valdirene, Cleide Alves, Rosemary, Silvinha e Vanusa. Ainda alcançaram grande projeção as duplas e os grupos vocais, como Os Vips, Deny e Dino, Golden Boys, Os Caçulas, Leno & Lilian e Os Iguais (que revelou Antônio Marcos), entre outros.
Ronnie Von, em particular, talvez tenha representado a maior ameaça ao reinado de Roberto Carlos. Arrebatadoramente belo, cabelos longos e lisos, filho da aristocracia carioca, Ronnie também era contratado da TV Record, mas O Pequeno Mundo de Ronnie Von era exibido nas noites de sábado. Depois do sucesso de uma versão de “Girl”, dos Beatles (transformada em “Meu Bem”, obviamente sem as referências à maconha da original), o cantor conquistou rapidamente o epíteto de “Príncipe” – claro que numa provocação velada da mídia em relação ao “rei” Roberto. Pelo Pequeno Mundo, passaram principalmente grupos de garagem de São Paulo, notadamente Os Mutantes, a quem ele deu o nome. Dali a pouco, insatisfeito com o rumo comercial de sua carreira, Ronnie partiria para uma série de trabalhos experimentais, voltados para a psicodelia e o pop barroco e outras vertentes tão radicais como seus “concorrentes” nem sonhavam.
Também Eduardo Araújo – a bordo de seu “carro vermelho, sem espelhos”, e com um programa próprio, O Bom – atingiu grande sucesso popular. Egresso da geração anterior, ele teve um relativo sucesso com a gravação de “Prima Daisy” em 1960. Com o estouro da jovem guarda, fez grande sucesso com a música-título de seu programa – e também como autor, junto com Carlos Imperial, de “Vem Quente Que Estou Fervendo”, lançada por Erasmo.
Entre as bandas, curiosamente, as principais eram egressas do rock instrumental e da surf music. Os Youngsters (que gravaram com Roberto Carlos o clássico álbum É Proibido Fumar, de 1964), eram The Angels no início dos anos 60. Os Incríveis, talvez a melhor reunião de bons músicos de todo o movimento, atendiam por The Clevers. É esse também o caso de um grupo que começou em 1960 com o esdrúxulo nome de Bacaninhas do Rock da Piedade e se transformou na principal formação jovem-guardista: Renato & Seus Blue Caps.
Liderada pelos irmãos Paulo César e Renato Barros, a banda carioca estreou dividindo um LP com os cantores Reynaldo Rayol e Cleide Alves e chegou a ter Erasmo Carlos como vocalista. Seu primeiro sucesso nacional veio em janeiro de 1965, uma versão de “I Should Have Know Better”, dos Beatles, que se transformou em “Menina Linda”. Apesar de grande compositor (como atestam os hits “A Primeira Lágrima” e “Devolva-Me”), Renato Barros acabou célebre como versionista, principalmente de canções do repertório beatle, mas também de raridades dos Troggs, Yardbirds e Del Shannon. Renato também marcou época como instrumentista: ao lado do Hammond B3 de Lafayette, sua guitarra fuzz é das principais marcas da “sonoridade jovem guarda”.
O iê-iê-iê teve sua geração de grandes compositores (Getúlio Côrtes, Lílian Knapp, Helena dos Santos, Roberto e Erasmo etc.), mas, devido à rápida e massiva industrialização do movimento, os maiores sucessos vinham das mãos de versionistas. Em muitos casos, compositores trabalhando com tamanha competência que deram status de “original” para versões de pop italiano, “one hit wonders” e até mesmo obscuros “singles” de bandas de garagem. Os principais foram Fred Jorge e Rossini Pinto, hábeis em recriar canções estrangeiras, adaptando-as à realidade nacional. Especialmente na CBS, o berço da jovem guarda, a produção de versões funcionava como uma linha de montagem, sob a gerência de Evandro Ribeiro. Os singles chegavam da matriz, eram selecionados e direcionados aos artistas mais adequados e então repassados às mãos competentes de Rossini Pinto, especialmente.
Cafona?
A relação da jovem guarda com o rock vigente não era das melhores, com uma nítida separação entre os dois movimentos. Os roqueiros mais tradicionais, fiéis aos padrões externos em voga, recusavam-se a aceitar a linguagem jovem-guardista, classificada por eles como “cafona”. Essa separação só seria rompida pelo tropicalismo, que passou a incorporar em seu repertório canções de Roberto Carlos, especialmente nos primeiros discos “psicodélicos” de Gal Costa.
Nesse sentido, é célebre o artigo de 1972 de Jorge Mautner para o jornal Rolling Stone, em que o poeta-escritor-músico afirmava que “Roberto Carlos é puro instinto empírico e produto de uma sociedade de massas; o primeiro pan-americano da ‘mídia’ e do pop”. Segundo ele, “Celly introduziu o rock com batida de fox, mas não tornou isso um produto sincretizado (...). Roberto torna isso um produto complicado, sintetizando-o com uma alma e melodia brasileiras, fabricando um inconfundível produto pan-americano”. Talvez por tudo isso, o Rei tenha conseguido, melhor do que ninguém, atravessar as diferentes “ondas” a que o pop se submeteu a partir de 1967.
O peso da indústria fonográfica sustentado pela jovem guarda foi inclemente com a maioria dos que nutriam ambições artísticas verdadeiras. “Quando eu vi na televisão Jimi Hendrix e The Who vi quebrando guitarras, pensei: ‘Agora a gente dançou!’”, lembra Renato Barros. “A música mudou muito no final dos anos 60. Fazíamos muita coisa contra nossa vontade, só porque era a ‘fórmula do sucesso’. Trabalhávamos dentro das normas.”
Em junho de 1968, após o afastamento de Roberto Carlos, o programa Jovem Guarda chegou ao fim. Com ele, o movimento musical e comportamental que o sustentou. Ainda hoje desprezada por boa parte dos teóricos e historiadores, a jovem guarda, representou, nas palavras do Tremendão Erasmo Carlos, “a bandeira de todos os jovens do Brasil”. Assim foi, e assim deve ser compreendida."
Texto: Fernando Rosa.
Fonte: Revista Superinteressante - Outubro 1987.
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Eu não presto, mas eu te amo
Eu Não Presto, Mas Eu Te Amo (jovem guarda, 1967) - Roberto Carlos - Interpretação: Demétrius
LP As 12 Brasas / Título da música: Eu Não Presto, Mas Eu Te Amo / Roberto Carlos (Compositor) / Demétrius (Intérprete) / Gravadora: Continental / Ano: 1967 / Nº Álbum: PPL 12332 / Lado B / Faixa 1 / Gênero musical: Canção / Jovem Guarda.
Introdução: E B7 E B7 E A E Se você brigar novamente eu vou me embora B7 Em Mas ouça bem o que eu digo agora: Am Em Eu não presto, mas eu te amo B7 E B7 E B7 Eu não presto, mas eu te amo E A E Minha vida foi sempre assim, mas pode mudar B7 Em Se você quiser vou modificar Am Em Eu não presto, mas eu te amo B7 E B7 E B7 Eu não presto, mas eu te amo E A E No meu carro fujo de tudo sempre correndo B7 Em Só vou parar você me querendo Am Em Eu não presto, mas eu te amo B7 E B7 E B7 Eu não presto, mas eu te amo Solo: E A E B7 Em Am Em B7 E B7 E B7 E A E Todo mundo diz que eu tenho a vida agitada B7 Em Que eu sou playboy e não valho nada Am Em Eu não presto, mas eu te amo B7 E B7 E B7 Eu não presto, mas eu te amo E A E Que eu não sou capaz de amar ninguém de verdade B7 Em E que eu só penso em minha vaidade Am Em Eu não presto, mas eu te amo B7 E B7 E B7 Eu não presto, mas eu te amo E A E Eles vão meu bem condenar-me em cada gesto B7 Em E vão falar também que eu não presto Am Em Eu não presto, mas eu te amo B7 E B7 E B7 Eu não presto, mas eu te amo E A E Acontece que já não é o que estão falando B7 Em Pois ninguém sabe que eu estou amando Am Em Eu não presto, mas eu te amo B7 E B7 Eu não presto, mas eu te amo E B7 Mas eu te amo E B7 Mas eu te amo E Mas eu te amo.
terça-feira, maio 01, 2007
Coração de papel
Magoado por haver brigado com a namorada Ruth, Sérgio Reis dedilhava o violão, enquanto aguardava o almoço, preparado por dona Clara, sua mãe. Como estava demorando, resolveu escrever uma letra, mas logo desistiu da tarefa e, ao jogar fora o papel, comentou para dona Clara: “meu coração está amassado como aquela bola de papel.” De repente, percebendo que a imagem poderia funcionar como motivo para uma canção, retomou o violão e compôs em poucos minutos “Coração de Papel”, terminando-a antes mesmo do almoço ficar pronto.
Dias depois, vindo à sua casa o produtor Tony Campello, em busca de repertório para a dupla Deny e Dino, gostou tanto da composição que acabou sugerindo uma fita demo com o próprio Sérgio, o mais indicado para cantar sua pungente melodia: “Se você pensa que meu coração é de papel / não vá pensando pois não é / ele é igualzinho ao seu / e sofre como eu / por que fazer chorar assim / a quem lhe ama...”
Aprovada por Milton Miranda, diretor da Odeon, “Coração de Papel” foi gravada por Sérgio num compacto duplo, acompanhado pela orquestra de Peruzzi, com o reforço vocal dos Fevers, Golden Boys e Trio Esperança. Apesar de bem executada nas rádios, a composição recebeu um impulso definitivo do Chacrinha, que durante oito semanas ofereceu um prêmio de mil cruzeiros novos ao calouro que melhor a interpretasse.
Com isso deslanchou o sucesso de “Coração de Papel” no Rio de Janeiro, suplantando nas paradas suas maiores rivais, “O Bom Rapaz”, com Wanderley Cardoso, e “Meu Grito”, com Agnaldo Timóteo. Em tempo: teve um happy end o romance de Sérgio e Ruth, com o casamento dos dois (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).
Coração de Papel (canção, 1967) - Sérgio Reis - Intérprete: Sérgio Reis
LP Coração de Papel / Título da música: Coração de Papel / Sérgio Reis (Compositor) / Sérgio Reis (Intérprete) / Gravadora: Odeon / Ano: 1967 / Nº Álbum: MOFB 3504 / Lado A / Faixa 5 / Gênero musical: Canção / Jovem Guarda.
Coração de Papel (canção, 1967) - Sérgio Reis - Intérprete: Sérgio Reis
LP Coração de Papel / Título da música: Coração de Papel / Sérgio Reis (Compositor) / Sérgio Reis (Intérprete) / Gravadora: Odeon / Ano: 1967 / Nº Álbum: MOFB 3504 / Lado A / Faixa 5 / Gênero musical: Canção / Jovem Guarda.
F Am se você pensa que meu coração é de papel D7 Gm não vá pensando pois não é A# êle é igualzinho ao seu A#m F Dm e sofre como eu porque fazer A# C sofrer assim a quem lhe ama F Am se você pensa em fazer chorar a quem lhe quer D7 Gm a quem só pensa em você A# um dia sentirá A#m F Dm que amar é bom demais não jogue amor ao léu A# C7 F meu coração que não é de papel F7 G# A A# C7 porque fazer chorar A# C7 porque fazer sofrer A# C7 F um coração que só lhe quer F7 G# A A# o amor é lindo eu sei BIS A#m e todo eu lhe dei F Dm você não quis A# jogou ao léu C7 F meu coração que não é de papel Am A# não é ah ah C7 F meu coração que não é de papel
quarta-feira, abril 12, 2006
A Jovem Guarda
Num sentido estrito, a expressão "Jovem Guarda" designou um programa da TV Record, de São Paulo SP, estreado em setembro de 1965 e findo em 1969, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia; mas tem sido comumente empregada para definir gênero musical também conhecido como iê-iê-iê, seja, a versão brasileira do rock internacional.
A Jovem Guarda foi, entretanto, cristalização de uma tendência bem anterior: a informação do rock’n’roll norte-americano da década de 1950 já criara no Brasil um mercado de consumidores e aficionados, permitindo que, desde 1957, os primeiros cantores e compositores brasileiros do gênero tentassem reproduzir o ritmo com letras em português ou cantando no original.
Entre os maiores expoentes desse período estavam os irmãos Tony e Celly Campello, Sérgio Murilo, Ed Wilson e, em fase pouco posterior, Ronnie Cord e os grupos The Jordans, The Jet Blacks e The Clevers. O trio central — Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderleia entrou em cena justamente quando começava a se acentuar a queda de popularidade dos primeiros artistas brasileiros do rock’n’roll.
Em 1961, Celly Campelo decidiu afastar-se da vida artística, enquanto as atenções se voltavam para a bossa nova e, nos meios de comunicação, sobreviviam poucos espaços: o programa Hoje é Dia de Rock, de Jair de Taumaturgo, na Rádio Mayrink Veiga carioca; o Clube do Rock, de Carlos Imperial, na TV-Rio, e Crush em Hi-Fi, na TV Record, de São Paulo.
Em discos, os sucessos rareavam: Marcianita, com Sérgio Murilo, Diana, com Carlos Gonzaga. Roberto Carlos optou, então, por algum tempo, pela bossa nova, mas Erasmo Carlos e Wanderléia decidiram insistir, tentando divulgar um tipo de música que, nessa época, já tinha muito de bolero e samba-canção, misturado ao ritmo do rock’n’roll. No Rio de Janeiro RJ, Ed Wilson, Cleide Alves, Renato e seus Blue Caps também esperavam sua oportunidade.
Foi o repentino sucesso de um compositor e intérprete radicado em São Paulo que abriu a brecha para o que seria a Jovem Guarda: em 1963, Ronnie Cord conseguiu bons índices de venda e popularidade com o rock Rua Augusta (de Hervé Cordovil), chamando a atenção do público e dos homens de media para as figuras de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, principalmente, autores de Parei na contramão. Em seguida, É proibido fumar e Festa de arromba (da mesma dupla) confirmaram a existência do mercado.
Foi dessa música — onde os dois celebram textualmente seus companheiros de vida artística e preferência musical — que surgiu a idéia de um programa de televisão, concretizado pela TV Record paulista, na época grande investidora em música popular. Inicialmente o programa deveria chamar-se Festa de Arromba e ocuparia uma hora ociosa, a tarde de domingo, vaga desde a proibição de transmissão dos jogos de futebol. Com o nome definitivo de Jovem Guarda, o programa foi ao ar pela primeira vez em setembro de 1965, reunindo Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia, os cantores Eduardo Araújo, Sérgio Murilo, Agnaldo Rayol, Reynaldo Rayol, Martinha, Cleide Alves, Meyre Pavão, Rosemary e os grupos The Jordans, The Jet Blacks, Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis e Golden Boys.
Rapidamente, a Jovem Guarda tornou-se uma das grandes atrações da emissora, reunindo grandes plateias de adolescentes no Teatro Record, mas foi a partir de 1966, com o grande sucesso de Roberto Carlos e Erasmo Carlos Quero que vá tudo para o inferno, que o programa tomou proporções nacionais e passou a ser sinônimo de movimento ou tendência musical.
Outros artistas se juntaram ao grupo inicial: Ronnie Von, Vanusa, De Kalafe, Deny e Dino, Leno e Lílian, Antônio Marcos, Os Vips, Os Brasões, The Pops, entre outros. Seguindo o exemplo da Apple, promotora dos Beatles, a agência de publicidade Magaldi, Maia & Prosperi passou a coordenar industrialmente a imagem do trio central da Jovem Guarda, criando as marcas Calhambeque, Tremendão e Ternurinha para uma série de produtos que ia de bonecas a calças e blusas.
Vários compositores de outras áreas começaram então a se interessar pelos ritmos da Jovem Guarda, como Jorge Ben, que passou a freqüentar o programa, e os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso, que, aconselhados pela cantora Maria Bethânia, incorporaram ao seu trabalho elementos do iê-iê-iê, como as guitarras que acompanhavam Domingo no parque e Alegria, alegria, no III FMPB, da TV Record, em 1967.
Segundo Erasmo Carlos, foi justamente a Tropicália — movimento que Gil e Caetano fundaram nesse período — uma das principais causas do esvaziamento da Jovem Guarda. “A Tropicália — diz ele — era uma Jovem Guarda com consciência das coisas, e nos deixou num branco total”.
Mas, antes de se extinguir totalmente no início de 1969, diluída pela superexposição ao consumo, pelo cansaço e esgotamento criativo de seus participantes e pelos prejuízos que levaram Magaldi, Maia & Prosperi a desistir dos esquemas comerciais, a Jovem Guarda deixou sua contribuição, alimentando vários programas semelhantes na televisão, como a Festa do Bolinha, de Jair de Taumaturgo, na TV-Rio carioca, e publicações especializadas, como a revista Reis do iê-iê-iê, sucessora do que a Revista do rock tinha sido para o rock’n’roll brasileiro na década de 1950.
Além de projetar nacionalmente alguns de seus ídolos, o movimento foi em grande parte responsável pela posterior assimilação de instrumentos eletrônicos na música brasileira de todas as tendências e pela fusão de informações estrangeiras e dados nacionais que caracterizou a produção musical na década de 1970.
No início da década seguinte, Leo Jaime, os Titãs, a Blitz e outros intérpretes e grupos roqueiros retomaram a musicalidade simples e direta da Jovem Guarda, constituindo a Nova Jovem Guarda.
Em 1995, remanescentes da Jovem Guarda se reuniram para comemorar os 30 anos do movimento, gravando uma caixa de cinco CDs para a Polygram, onde recriam os antigos sucessos, e fazendo uma serie de shows com com êxito nacional: Wanderléia, Erasmo Carlos, Ronnie Von, Bobby de Carlo, Os Vips, Os Incriveis, Martinha, Leno e Lílian, Golden Boys e outros.
Ainda em 1995, a Paradoxx lançou dois CDs com vários artistas da Jovem Guarda, mas gravados ao vivo, nos shows comemorativos; e, no ano seguinte, a revista Caras colocou no mercado uma coleção de seis CDs e fascículos, contando a historia da Jovem Guarda e com remasterizações das gravações originais.
Protagonistas
Algumas letras, ciras e gravações
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.
The Jordans
The Jordans. Um dos maiores grupos de rock instrumental do início da década de 1960, na linha dos ingleses Shadows e dos norte-americanos Ventures. 0 que distinguia os Jordans de outros grupos brasileiros na mesma linha, como Os Incríveis e The Jet Black's, era o uso de instrumentos pouco comuns no pop-rock instrumental, como vibrafone, bandolim e três guitarras elétricas.
O grupo se formou em São Paulo SP, no bairro da Mooca, em janeiro de 1956, com Aladdin (Romeu Mantovani Sobrinho, São Paulo 1941-), guitarra-solo; Sinval (Olímpio Sinval Drago, Jaú SP 1942-), guitarra-base; Tony (José de Andrade, São Paulo 1944.-), contrabaixo; Foguinho (Valdemar Botelho Júnior), bateria; e Irupê (Irupê Teixeira Rodrigues), saxofone e trompete.
Tiraram seu nome do grupo vocal The Jordanaires, que participava das gravações de Elvis Presley. Apareceram na televisão pela primeira vez em 1958, num programa comandado por Tony e Celly Campello, na Record. A primeira gravação do grupo foi um 78 rpm pela Espaciall Mocambo, o instrumental Boudah (G. Dovan e B. Drean), no início de 1961. O grupo lançou Manito (tocando bateria enquanto Foguinho servia o exército) e Mingo, que depois formaram o conjunto The Clevers. Mais tarde, o trompetista Neno, também do The Clevers, passou a fazer parte do grupo.
Contratado pela Copacabana em 1961, o conjunto gravou vários 78 rpm, LPs e compactos. Seus sucessos incluem: Blue star (Victor Young), em 1964, e Tema de Lara (Maurìce Jarre), em 1966. Aladdin saiu em fins de 1968 e o grupo se dissolveu pouco tempo depois. Irupê transferiu-se para o grupo de samba Raça Negra, como saxofonista e arranjador.
Em 1995, com Aladdin, Sinval, Tony, Foguinho e, eventualmente, Manito, o conjunto gravou um disco de reunião, Bons tempos. Ainda ativo na segunda metade da década de 1990, foi citado em revistas francesas e inglesas como um dos remanescentes latino-americanos do pop instrumental dos anos de 1960.
Veja também
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.
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