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quarta-feira, março 29, 2006

Melo Morais Filho

Melo Morais Filho (Alexandre José de Melo Morais Filho), poeta, cronista e folclorista, nasceu em Salvador (BA), em 23/02/1843 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 01/04/1919. Formou-se em medicina em Bruxelas, Bélgica, e revalidou o diploma no Rio de Janeiro em 1876. Diretor do Arquivo Municipal, aposentou-se em 1918. Colaborador de jornais e revistas, deixou grande bibliografia etnográfica e folclórica.

Foi o primeiro tradicionalista do seu tempo. encabeçando campanha pela valoriazação de festas, autos e bailes populares, muitos dos quais encenou.

Publicou Cancioneiro dos ciganos, Rio de Janeiro, 1885; Ciganos no Brasil, Rio de Janeiro, 1886. Festas populares do Brasil, Rio de Janeiro, 1888, Festas do Natal, Rio de Janeiro, 1895; Cantares brasileiros: cancioneiro fluminense, 2 volumes, Rio de Janeiro, 1900; Festas e tradições populares no Brasil, nova edição, revista e aumentada, Rio de Janeiro, 1901 (3a. ed., revisão e notas de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, 1946); Serenatas e saraus (Coleção de autos populares, lundus, recitativos, modinhas, duetos, serenatas, barcarolas, etc.), 3 volumes, 1901-1902; Histórias e costumes, Rio de Janeiro, 1904; Fatos e memórias, Rio de Janeiro, 1904; Quadros e crônicas, Rio de Janeiro, s.d.

O pai do grande poeta e compositor Vinícius de Moraes era sobrinho de Melo Moraes Filho.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha.

terça-feira, março 28, 2006

A mulata

Mello Moraes Filho
A mulata - Xisto Bahia e Mello Moraes Filho - Interpretação: Lira D'Orfeo.



Eu sou mulata vaidosa, / Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são! / Tenho requebros mais belos,
Se a noite são meus cabelos, / O dia é meu coração.

Sob a camisa bordada, / Fina, tão alva, rendada,
Treme-me o seio moreno: / É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso / Coberto pelo sereno!

Nos bicos da chinelinha, / Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?... / Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula, / Jamais ninguém me venceu.

Ao afinar da viola, / Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio; / Peneiro num mole anseio,
Vou mansa num bamboleio, / Qual vai a garça no rio.

Aos moços todos esquiva, / Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus; / "Que tentação... que maldita...
Bravo! Mulata bonita!" / – Adeus, meu ioiô, adeus...

Minhas iaiás da janela / Me atiram cada olhadela...
Aí! Dá-se? Mortas assim! / E eu sigo mais orgulhosa,
Como se a cara raivosa / Não fosse feita pra mim.

Na fronte, ainda que baça, / Me assenta o troço de cassa
Melhor que c’roa gentil; / E eu posso dizer ufana
Que, qual mulata baiana, / Outra não há no Brasil.

Nos meus pulsos delicados / Tragos corais engrazados,
Contas d’ouro e coralinas; / Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura / Das saias de rendas finas.

Se tenho um desejo agora, / De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor. / – Ai! Mulata! Ai! Borboleta!
É tua sina inquieta, / Tu pousas de flor em flor.

Meus brincos de pedraria / Tocam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente; / Na correntinha de prata
Tem sempre e sempre a mulata / Figuinhas de boa gente.

Eu gosto bem desta vida, / Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste é vão! / Um dito bem requebrado,
Um mimo, um riso, um agrado, / Cativam meu coração.

Nos presepes da Lapinha / Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo: / De sua face ao encanto
Vai-se o fervor pelo santo, / P’ra o santo não olha o povo!

Minha existência é de flores, / De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim! / Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono, / Que é meu Senhor do Bonfim!

Na fronte, ainda que baça, / Me assenta o troço de cassa,
Melhor que c’roa gentil; / E eu posso dizer ufana
Que, qual mulata baiana, / Outra não há no Brasil.