domingo, setembro 25, 2011

A impressão musical no Brasil - Parte 6

Casa Levy Pianos em uma foto de 1870  - Rua XV de Novembro - São Paulo
São Paulo - Em meados do século passado, começaram a surgir em São Paulo as primeiras músicas impressas nas oficinas de Gaspar & Guimarães (1863), Henrique Schroeder (1865), José Maria dos Santos (1869) e Jules Martin (Rua São Bento, 37), mas só mais tarde, no final do século, surgiu um serviço regular de impressão de músicas, com a firma Levy Filhos.

Henrique Luís Levy, francês de nascimento, vendedor de jóias e clarinetista, veio para o Brasil em 1848 e, em sua vida de vendedor, fizera amizade com a família de Carlos Gomes, em Campinas SP, participando de vários concertos e tendo mesmo acompanhado o compositor em sua primeira viagem à capital do Estado, em 1859. No ano seguinte abriu loja para venda de jóias, na Rua do Rosário, 2, passando logo a vender também músicas. Foi precursor nesse ramo de negócios com Jean-Jacques Oswald, que em 1857 abriu o Depósito de Pianos e Músicas da Rua da Casa Santa (hoje Rua Riachuelo), 10.

Em 1868, porém, Oswald retirou-se com a família para a Europa, onde seu filho Henrique Oswald deveria completar seus estudos de música. Henrique Luís Levy associou-se, em 1864, ao compositor Emílio Eutiquiano Correia do lago, mas quatro anos depois estava desfeita a sociedade, continuando ele com o Depósito de Pianos, Músicas e Instrumentos, até 1891, na Rua da Imperatriz (hoje Rua Quinze de Novembro). A firma passou então para seus dois filhos, Luís Levy e Alexandre Levy, ambos pianistas e compositores. Levy Filhos começaram a publicar regularmente música, com chapas numeradas (L. ... F.). Não tinham chegado ainda a uma centena, quando a firma mudou para L. Levy & Irmão, com chapas (L. I).

Em 1892, morreu prematuramente Alexandre, o mais talentoso como compositor, sendo que seu pai sobreviveu a ele ainda quatro anos. Com a morte do irmão, Luís assumiu a direção da Casa Levy, continuando a publicar principalmente obras suas e de seu irmão Alexandre, música sertaneja, de dança, hinos, marchas etc., sempre na Rua da Imperatriz, atingindo mais de 400 as peças publicadas até o final da década de 1920. A casa Levy funciona até hoje, mas só para venda de músicas e instrumentos, tendo-se mudado da Rua da Consolação, 381, onde se achava até 1974, para a Rua Azpilcueta, 547, sendo de propriedade dos Irmãos Vitale.

Antônio Di Franco, italiano, tinha, no início da década de 1910, um estabelecimento musical na Rua São Bento, 59, com representação de várias editoras européias, entre elas Schott Frères (Bruxelas, Bélgica) e A. Gaizelli (Paris, França), e imprimia músicas em oficina própria, com chapas numeradas (A.D.F. ...). Publicou um Catálogo e por volta de 1919 já contava com mais de 700 peças impressas.

Em 1921 comprou, com o sócio Francesconi (Di Franco & Francesconi), o Estabelecimento Musical Santa Cecília, na Rua Sebastião Pereira, 21, que vendia, principalmente, instrumentos, e pertencera de 1918 a 1920 a Castagnoli & França. Este imprimia também uma dezena de peças numeradas (C ... F.), sendo sucedido por José França, que continuou a imprimir (J. ... F). A sociedade Di Franco & Francesconi teve pouca duração, continuando com Di Franco & Cia. Por volta de 1922, com a morte do proprietário, encerrava suas atividades.

João Campassi, gravador italiano que viera para o Brasil a chamado de A. Di Franco, estabeleceu com o sócio Pedro Angelo Camin a firma Campassi & Camin — Casa Editora Musical Brasileira (C.E.M.B.), na Avenida Brigadeiro Luís Antônio (1914). Em 1919 adquiriu a Casa Sotero, então localizada na rua Líbero Badaró. Mudaram pouco depois para a rua Direita e mais tarde para a rua São Bento. Fundaram filiais em Santos SP, Rio de Janeiro RJ e Araraquara SP, mas a crise de 1929 obrigou a liquidação desses estabelecimentos. Posteriormente, um grande desfalque praticado por empregados de confiança provocou a concordata da firma em 1933.

Com o objetivo de ajudar a viúva de Di Franco, de quem era parente, constituiu, com parte do acervo original, a Casa A. Di Franco, na Rua São Bento, 50, para venda de instrumentos e músicas, funcionando como redação da revista ilustrada Anel (1923-1929), dirigida inicialmente por Antônio de Sá Pereira, periódico informativo e noticioso sobre o movimento, não apenas musical, mas também de “teatro, arte, literatura e atualidades sociais”.

Contemporâneo de A. Di Franco, o Estabelecimento Musical Sotero de Sousa Ed., na Rua Libero Badaró, 135, iniciou, por volta de 1915, a publicação de músicas, com acentuada preferência pela música sertaneja, canções populares, operetas etc., todas as peças com chapas numeradas (S. ... S.), quase 200. Em 1920, a casa entrou em liquidação e foi em parte comprada por Campassi & Camin — Grande Estabelecimento Musical Campassi & Camin (antigo Sotero de Sousa), mantendo-se depois o nome de Casa Sotero, na Rua Direita, 47. Quatro anos mais tarde já tinha filial em Santos.

Em outubro de 1928 publicaram o 22 Catálogo de música (peças com chapas numeradas até 3.530). Entre 1927 e 1929 tiveram uma filial no Rio de Janeiro, na antiga Rua República do Peru, da qual foi gerente Eduardo Souto. Publicaram, além de métodos e obras didáticas, vasto repertório de música para piano, violino, canto, música de dança, as conhecidas coleções Cine-orquestra e Brasil-orquestra, com repertório para pequenos conjuntos instrumentais, e a Biblioteca pianística, coleção de peças para piano revistas por Luigi Chiaffarelli, Agostino Cantú e Outros.

Em 1920 a firma enfrentou sérias dificuldades financeiras, passando a ser propriedade de Agostino Cantú. No ano seguinte os endereços eram Rua Direita, 37, e São Bento, 42. Em 1932 o Catálogo C.E.M.B. passou para as Edições Musicais Derosa — Rua Álvaro de Carvalho, SA. Continuaram a publicação de peças, seguindo a mesma numeração, primeiro com as iniciais (E.d.R. ...) e mais tarde (D. ... R.). Em 1934 a numeração das chapas era cerca de 5.100 e em 1937 ia a té cerca de 5.280. Por volta de 1940 passou para Impressora Moderna Ltda.— IML., no mesmo endereço, continuando a impressão de músicas, com obras de Agostino Cantú, Fabiano Rodrigues Lozano, Francisco Mignone e outros, atingindo por volta de 5.500 peças. Vendida depois para a Editora Lítero-Musical Tupi 5/A — Rua Sete de Abril, 176, hoje é propriedade das Casas Editoras Musicais Brasileiras Reunidas CEMBRA Ltda., na qual os Irmãos Vitale têm participação.

Em meados da década de 1910, o compositor Francisco Russo imprimia alguma música em sua loja, Casa Ítala, na Rua do Arouche, 30. Por volta de 1919 instalou-se na Rua General Carneiro, 30, mudando o nome da loja para Casa Mignon, como sucessora do Estabelecimento Musical Pietro Mascagni, de propriedade de Attilio Izzo (imprimira cerca de 10 peças numeradas A. ... I.). Em 1920 mudou-se para a Rua Libero Badaró, onde vendia instrumentos e música. Em 1921 mudou o nome da firma para Francisco Giunta Russo e no ano seguinte montou oficina própria para impressão de músicas, mudando novamente o nome da casa para Casa Wagner (antiga Casa Mignon). As peças eram numeradas (C. ... W.). De 1951 em diante, a firma passou para Evaldo Mário Russo — Casa Wagner, e de 1954 até hoje Casa Wagner Ed. Ltda., tendo-se mudado em 1960 para a Rua Barão de Itapetininga, 207/2 andar. Imprimem principalmente material didático, peças para piano (principiantes), acordeão, violão e cantos escolares.

A Casa Manon de Facchini & Zanni, na Rua do Carmo, 20, imprimia desde 1918 alguma música de salão. Em 1920 mudaram-se para a Rua Boa Vista, 48. De 1948 em diante, têm publicado principalmente música para acordeão e métodos para instrumentos. De 1955 em diante o endereço passou a ser Rua Vinte e Quatro de Maio, 242.

Pedro Tommasi, com Estabelecimento Musical na Rua Boa Vista, 55, desde 1918, começou a publicar música em 1920, mantendo-se durante alguns anos, mas com produção reduzida.

Em setembro de 1923 Vicente Vitale iniciou atividades em São Paulo, começando no ano seguinte a publicação de música popular nacional e estrangeira. Associando-se a seu irmão Emllio, logo depois incorporaram-se os outros irmãos: João, Afonso e José, formando a Empresa Editora Musical Irmãos Vitale, na Rua Conselheiro Ramalho, 187. Em 1931, estenderam o âmbito de suas publicações com a compra da Edição Brasília de Nicollini e Pó, incluindo obras de Johann Sebastian Bach (1685—1750), Ludwig van Beethoven (1770—1827), Frédéric Chopin (1810—1849) etc. Tiveram inicialmente como orientador musical o compositor Lorenzo Fernandez, responsável pela Edição cosmos — com finalidade didática, compreendendo obras de compositores brasileiros e estrangeiros, Edição Panamérica e Edição Orfeu — uma seleção de obras corais de autores brasileiros.

Atualmente a direção artística da editora está entregue ao maestro Sousa Lima, e o Catálogo da empresa compreende obras de compositores estrangeiros, mas com acentuada preferência pelos autores brasileiros, dentre eles Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez, Barroso Neto, os irmãos Levy, Sousa Lima, Dinorá de Carvalho, Osvaldo Lacerda, Manos Nobre, Almeida Prado e outros.

Outras séries publicadas: Edição métodos, Edição álbuns, Edição orfeão, Edição violão, Edição musarmônio etc. Cada série com numeração independente: Música popular do nr. 1 até 1.000 e depois de 2.000 até aprox. 20.000. Em 1970 publicaram um Catálogo geral de música popular brasileira (125 p.), tendo incorporados os catálogos: Brasil-ritmos Vitale e Catálogo Ernesto Augusto de Matos, com obras de Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Patápio Silva etc. O repertório de música estrangeira e obras de Villa-Lobos, Mignone etc.: do nr. 1.000 até 2.000, continuando de 20.000 em diante.

Periodicamente publicam um Guia temático com as peças dos programas dos conservatórios, classificadas por ordem de dificuldade, e em 1973, comemorando 50 anos de atividade editorial, publicaram um Suplemento Vitale, além dos catálogos de material didático, instrumental etc., publicados regularmente. Desde 1942 dispõem de loja para venda das Edições Vitale na Rua Direita, 115 — Casa Bevilacqua, adquirida da firma J. Carvalho & Cia., que havia sido representante das Ed. Bevilacqua em São Paulo.

Em 1926 a Ed. Ricordi, de Milão, Itália, abriu filial em São Paulo, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio — G. Ricordi & Cia., pondo à disposição do público vários catálogos, notando-se a predominância de material didático. Em Catálogo publicado em abril de 1929, já figuravam os seguintes compositores brasileiros: Barroso Neto, Agostino Cantú, Lorenzo Fernandez, Paulo Florence, Luciano Gallet e Henrique Oswald.

Criada a Ricordi Americana, na Argentina, voltaram- se para o Brasil no intuito de desenvolver a produção do país, fundando em 1943 a Ricordi Brasileira S/A— E.C., atualmente com endereço na Rua Conselheiro Nébias, 1.136. A orientação da editora continua a mesma, como se observa do Extrato do catálogo geral de 1973 (102 p.), com predominância de compositores brasileiros contemporâneos, entre os quais Francisco Mignone, Osvaldo Lacerda, Ernst Mahle, Almeida Prado, Camargo Guarnieri, Rufo Herrera, Gilberto Mendes, Guerra-Peixe, José Siqueira, Ernst Widmer, Cláudio Santoro, Kilza Setti, Breno Blauth, Marlos Nobre e Bruno Kiefer.

Por volta de 1928, I. Chiarato & Cia. Ed., na Rua Santa Efigênia, 28, iniciaram a publicação de peças para piano, canto e violino (Biblioteca violinística brasileira), na maioria de compositores paulistas ou radicados em São Paulo, cerca de uma centena de peças numeradas (I.C. ...). Em 1930 L. G. Miranda comprou a firma mantendo o nome de Casa Chiarato (mesmo endereço), ano quem que já haviam publicado pelo menos três pequenos folhetos, como catálogos. Responsáveis pelo lançamento da quase totalidade das obras sobre música de Mário de Andrade, demonstravam grande interesse também pela produção musical contemporânea, tendo em estoque, para venda, obras de Darius Milhaud (1892—1974), Paul Hindemith (1895—1963), Igor Stravinsky (1882—1971), Vittorio Rieti (1898—), entre outros. Em 1931 mudaram-se para a Avenida São João, onde continuaram publicando música até cerca de 1935.

Estevam Sciangula Mangione, de nacionalidade italiana, chegou ao Rio de Janeiro em 1927, vindo da Argentina. Iniciou atividades com um balcão para venda de músicas em conjunto com André Barbosa & Cia., associando-se depois a Luís Gonzaga (filho de Chiquinha Gonzaga), no primeiro andar da Rua da Carioca, 55, com a firma Estevam S. Mangione, que iniciou a publicação de músicas, mas ainda sem oficina própria. Em 1930 tentaram, sem sucesso, a instalação de uma gráfica, e desde 1927 possuíam a loja A Melodia, na Rua Gonçalves Dias, 40. O endereço passou a ser depois Rua do Ouvidor, 160/1o. andar.

Nessa ocasião vieram para São Paulo, onde se instalaram na Rua da Liberdade, 96, com escritório, residência e oficina. Francisco Mignone foi o primeiro orientador e conselheiro musical da firma, além de se incumbir da revisão das peças. A firma, então E. S. Mangione, assim se manteve até 1944, quando passou a Editorial Mangione Ltda. Música popular brasileira foi o que predominou inicialmente na produção da editora, além de material didático, algumas obras de Francisco Mignone, João Baptista Julião, Radamés Mosca etc. Em São Paulo alugaram loja de música com J. Paulo Cristóval — Casa Beethoven — Rua Direita, 25 (de 1935 a 1942), para venda do material publicado.

Desde 1934 são os editores autorizados, mediante contrato, para impressão das obras do Catálogo E. Bevilacqua, mantendo idêntica situação com o Catálogo da Casa Viúva Guerreiro. De 1952 a 1968 passaram a Sociedade Anônima Mangione e depois Mangione e Filho Sociedade Coletiva. A produção da casa até hoje atinge cerca de 2.600 peças (numeração iniciada em 10.000, portanto 12.600), mais o acervo de música popular — cerca de 6.400 peças.

Bandeirante Editora Musical Ltda., Rua do Seminário, 165 / 2o. andar, iniciou atividades por volta de 1945, publicando música popular brasileira, repertório de acordeão e material didático, orientação que manteve até 1972, quando passou à propriedade da Fermata do Brasil. A produção ultrapassa 6.000 peças.

Enrique Lebendiguer, de nacionalidade polonesa, chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Buenos Aires, Argentina, onde era sócio de Brenner nas Ediciones Internacionales Fermata — FBA. Colaborou inicialmente com as Edições Musicais Rio, Praça Marechal Floriano, 55, entrando mais tarde de sócio e acabando proprietário da editora. Em 1950 veio para São Paulo, iniciando publicação de música popular brasileira e estrangeira. Em 1966 comprou a Editora Santos Dumont, de Mário Zan, e em 1968 tornou-se proprietário do Catálogo Ed. Artur Napoleão, publicando, nesse mesmo ano, um extrato do referido catálogo, com as obras de autores brasileiros. 

Em 1972 comprou a Bandeirante Editora Musical Ltda., formando, com várias outras editoras menores de música popular, o Grupo Editorial Fermata. A aquisição do Catálogo Ed. Artur Napoleão constituiu para a editora um apreciável enriquecimento de acervo, pois até então dedicavam-se quase exclusivamente à publicação de música popular. 

 Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha - São Paulo - 2a. Edição - 1998.

João Ricardo

João Ricardo (João Ricardo Carneiro Teixeira Pinto), cantor, compositor, violonista e gaitista, nasceu em Ponte do Lima, Portugal, em 21/11/1949. Filho do poeta e jornalista português João Apolinário e da esteticista Maria Fernanda Gonçalves Talline Carneiro Teixeira Pinto. Na infância foi fortemente influenciado pelo rock desde cedo, em especial o francês através do grupo Les Chats Sauvages e Johnny Halliday, além do maior de todos, Elvis Presley.

Conheceu a música brasileira através de Miltinho e Dóris Monteiro, discos que seu pai tinha em casa. Em 1963 toma contato com o que viria a determinar a sua opção pela música: The Beatles. Tinha quatorze anos á época e se viu envolvido com a música brasileira de imediato. Cedo começou escrevendo letras para músicas de um vizinho que o levou a aprender violão para fazer as suas próprias. A partir dos dezessete, dezoito anos, compôs algumas das que viriam a se tornar clássicos da banda seminal que fundou, Secos e Molhados.

Em 1970, convidou dois amigos - Fredie (percussionista) e Pitoco (Viola de dez cordas) - para integrarem o conjunto Secos e Molhados. Logo depois, convidou Ney Matogrosso para ser o cantor principal. Alguns dos maiores sucessos do grupo foram composições suas, como O vira, parceria com Luli, Sangue latino, com Paulo Mendonça, e Flores astrais, com João Apolinário.

No dia 23 de maio de 1973, o grupo entra no estúdio Prova para gravar - em sessões de seis horas ao dia, por quinze dias, em quatro canais – seu primeiro disco, que vendeu mais de 300 mil cópias em apenas dois meses, atingindo um milhão de cópias em pouco tempo.

Os Secos e Molhados se tornaram um dos maiores fenômenos da música popular brasileira, batendo todos os recordes de vendagens de discos e público. Em fevereiro de 1974, fazem um concerto no Maracanãzinho que bateu todos os índices de público jamais visto no Brasil. Em agosto do mesmo ano, é lançado o segundo disco e João Ricardo decide reciclar os integrantes da banda.

Com a dissolução do grupo, em 1974, lançou-se em carreira solo. Foi contratado pela Philips e, no ano seguinte, lançou o seu primeiro LP solo com as composições Vira safado, Janelas verdes e Salve-se quem puder, entre outras.

Em 1976. lançou mais um disco. Ao final dos anos 1970 e início dos 1980, tentou trazer de volta ao cenário artístico o grupo Secos e Molhados, sem repetir o sucesso da formação original.

Fonte: Wikipedia,

Raul: profeta, messias ou bruxo?

Há dez anos, o Brasil perdia Raul Seixas, o maluco-beleza, o mentor da Sociedade Alternativa e guru de milhões. Hoje, poeira assentada sobre o túmulo, já é possível enxergar a verdade por trás da fachada mística de Raulzito. Profeta? Messias? Bruxo? Ou simplesmente um personagem criado pela imaginação dos fãs? A história de Raul é mais bizarra que qualquer livro de magia.

A chave para decifrar o enigma Raul Seixas mantém-se à margem do mercado, escondido numa pequena chácara na zona rural da cidade de Miguel Pereira, no Rio de Janeiro. Cláudio Roberto Azeredo conheceu Raul aos 11 anos, através de uma namorada, a escritora Heloísa Seixas. Compuseram a primeira música juntos em 1964, "I Don't Really Need You Anymore", só gravada 25 anos depois. Juntos, compuseram cerca de 30 canções e muitos sucessos, como "Aluga-se", "Cowboy Fora-da-Lei", "Quando Acabar o Maluco Sou Eu", "Coisas do Coração" e "Rock das Aranha", além de todo o LP O Dia em que a Terra Parou. "Raul era uma pessoa muito difícil", admite Cláudio, com a sinceridade a que só os amigos próximos têm direito.

Cláudio e Raul mantiveram contato distante até que, em 1968, Raul resolveu tentar a sorte de sua banda, Os Panteras, no Rio de Janeiro. A iniciativa foi frustrada. Raul voltou para Salvador, casou-se, abandonou a música por alguns meses e só fixou residência no Rio de Janeiro dois anos depois, quando arrumou emprego de produtor na CBS, onde trabalhou com artistas como Trio Ternura, Renato & Seus Blue Caps, Leno e Jerry Adriani. Foi expulso da gravadora em julho de 1971, depois de haver produzido, por baixo do pano, um disco absolutamente experimental, Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez, influenciado por Frank Zappa.

No ano seguinte, ressurgiu como intérprete, defendendo uma mistura de baião com rockabilly chamada "Let Me Sing, Let Me Sing" no Festival Internacional da Canção. Rita Lee, que estava lá com os Mutantes, conta uma história sensacional: "Foi minha primeira visão de Raul, um rapaz vestido de couro preto, cantando em inglês e rebolando feito Elvis. Pensei tratar-se de um cantor cômico, imitando a caricatura de um jovem americano alheio à época que o Brasil e o mundo estavam vivendo. Mas, nos camarins, eis que percebo que aquele 'cômico' não estava brincando, não. Para acabar com a dúvida, cheguei no cara. Ele conversou comigo em inglês, num sotaque quase texano. Raul não estava tentando ser polêmico, ele realmente acreditava que havia nascido no Brasil por um infortúnio do destino. Eu lhe disse que comigo acontecia o contrário pois, sendo filha de gringos, minha grande aventura era me abrasileirar o máximo possível, ao que ele me respondeu com um sorriso maroto: 'então você pode ficar com o meu Seixas que eu fico com o seu Lee Jones!' ... Inesquecível!"

Raul encontra o Alquimista

Certo dia, Raul leu uma matéria sobre discos voadores na revista 2001, editada no Rio de Janeiro pelo mochileiro bicho-grilo Paulo Coelho. Raul convidou Paulo para um jantar em seu apartamento e mostrou algumas músicas que havia feito – bem diferentes das que costumava compor para os contratados da CBS - e propôs a Paulo que fizesse a letra para algumas delas. A partir de então, passaram a preparar alguns temas para o primeiro disco solo de Raul, Krig-Há-Bandolo, que seria lançado em julho de 1973.

No mesmo ano, Raul foi levado por Paulo a conhecer uma sociedade secreta de que o escritor fazia parte, conhecida como Argentum Astrum, AA. Era uma organização filosófica anti-religiosa e cheia de rituais, baseada nos ensinamentos do bruxo inglês Aleister Crowley (1875 - 1947).

Em sua época, Crowley foi marginalizado pela moral vitoriana, chegando a ser chamado de "o homem mais perverso do mundo". Autodenominado a "Besta 666", seu trabalho consistia basicamente em revelar segredos de livros mágicos e propor, a partir desses segredos, uma nova ordem social (não é à toa que Crowley entrou na moda durante os revolucionários anos 60/70). Sua obra central chamava-se O Livro da Lei. Dizia basicamente que cada homem é seu próprio deus e, por isso, os fortes se sobrepunham aos fracos.O material que emergia da parceria de Paulo e Raul foi muito influenciado por Crowley. Algumas músicas chegam a copiar os textos do bruxo, como "Sociedade Alternativa" e "Liber Oz" (gravada 14 anos depois, com o nome de "A Lei"). Na verdade, todo o repertório do segundo disco de Raul seria colocado "a serviço daquela sociedade secreta", conforme revelou Paulo Coelho no livro Confissões de um Peregrino (editora Objetiva).

O compacto com a faixa "Gita" (cuja letra foi inspirada no Bhagavad-Gita , a mais popular das escrituras sagradas da Índia antiga) foi lançado em julho de 1974 e vendeu 600 mil cópias, dando a Raul seu primeiro disco de ouro. O LP foi lançado logo em seguida, também com grande sucesso. Conforme ia crescendo a popularidade da dupla, Raul e Paulo passaram a realmente acreditar na viabilidade da Sociedade Alternativa. Chegaram a divulgar a construção da Cidade das Estrelas, em Minas Gerais, que funcionaria como o quartel-general da seita. "Vivíamos no mais profundo negrume da ditadura", lembra Pena Schmidt. "Mas Raul propunha o oposto daquilo, numa saída individual, que era um tipo de discurso poderoso mas tolerado pelos manipuladores de informação da Censura". A partir de "Gita", Raul passou a ser visto pelos fãs como uma espécie de conselheiro, de guru. Mães começaram a trazer seus filhos doentes para que ele os curasse.

Rita Lee acredita que a imagem mística que Raul assumiu nesta época pouco tinha a ver com temor religioso. "Me parece que depois que Paulo Coelho entrou na vida de Raul como parceiro de trabalho e de aventuras no mundo da magia, Raul praticamente neutralizou sei jeito Presley de ser e mudou, feliz, para o papel de Profeta Apocalíptico. O fã radical de Elvis ingeriu uma overdose de misticismo e se transformou num guru". Cláudio Roberto acha que o que falou mais alto foi o business: "Era algo do tipo 'oba, isso dá fama e dinheiro, é nessa que eu vou', era show". Ele confessa que viu com desconfiança a aproximação de Raul e Paulo Coelho. "Raul abraçou toda a megalomania, todo o sonho de poder de Paulo, e isso fez muito mal a ele", acredita. "Esse dedo em riste na capa do Gita foi definitivo numa ferida já aberta, porque mostrava Raul assumindo uma coisa que ele sabia não ser ele, algo falso".

Em maio de 1974, a polícia apreendeu e incinerou a maioria dos 20 mil exemplares do gibi-manifesto A Fundação de Krig-Há (patrocinado pela Philips), considerado material subversivo. Raul e Paulo Coelho foram presos e torturados. Raul exilou-se nos Estados Unidos, apoiado pela família americana de sua esposa. Voltou logo depois, mas dali em diante as coisas já seriam diferentes.

Demônios e outros bichos

Paulo Coelho abandonou a AA depois de ser surpreendido por uma personificação do demônio. Raul continuou por mais alguns meses. O relacionamento entre os dois já havia esfriado, assim como a fase de sucesso de Raul. Tentaram restabelecer a parceria três anos depois, alugando quatro suítes em um hotel em Campos do Jordão. Mas não se falavam, apenas trocavam anotações por baixo da porta. Depois de cinco dias trancado no quarto, Raul foi encontrado desmaiado, vítima de inanição.

Passados 25 anos, ainda pouco se sabe sobre a sociedade de que participaram - Paulo nem sequer pronuncia o nome dela. Raul nunca mais tocou no assunto, mas sabe-se que tanto ele quanto sua esposa na época, Gloria Vaquer, abandonaram os rituais após visões desesperadoras que misturavam demonismo e alucinação psicodélica.

O disco Novo Aeon, lançado em outubro de 1975, marcava nitidamente a transição pessoal do cantor. Nas entrevistas de divulgação do disco, Raul tentava dissociar-se da imagem de pregador, dizendo que a verdade estava em cada um e que tentar doutrinar seu público havia sido um erro. "Não sei se ele estava preparado para gerenciar seu próprio carisma", pondera Marcelo Nova. "Essa idolatria, essa coisa de 'Raul sabe-tudo', era perigoso. Nas entrelinhas das canções, ele tentava dizer que não sabia de nada: 'faça você', procure seu caminha', 'eu sou é raulseixista', mas nem todo mundo entendia". Cláudio Roberto, que estreara como parceiro em vinil justamente no disco Novo Aeon, tenta analisar a dubiedade do sucesso que, acredita, acabou por seduzir o amigo: "o sucesso é apenas o fenômeno de preencher uma lacuna do mercado na hora certa", sentencia. "O real talento de um artista só pode ser medido pela sua capacidade em não se deixar manipular pelo momento do sucesso. E Raul não teve essa capacidade".

Apesar de todos os esforços de Raul, a imagem patrocinada pela indústria do disco falou mais alto e, até hoje, muitos fãs buscam orientação espiritual na obra do cantor. Segundo Cláudio Roberto, quem mais precisava de conselhos era o próprio Raul. "Ele era extremamente ambíguo e indefeso, uma pessoa muito sensível", afirma. "Tinha um senso de humor agudo, mas ao mesmo tempo era muito sério e formal, e isso tornava tudo muito sensível", afirma. "Tinha um senso de humor agudo, mas ao mesmo tempo era muito sério e formal, e isso tornava tudo muito mais difícil para ele. Raul era uma criança, morreu dizendo que havia entrevistado John Lennon, até mesmo para mim, quando isso era mentira - ele era absolutamente autêntico dentro dessa falta de autenticidade, o que me faz amá-lo muito mais e absolvê-lo por isso".

Em 1977, Cláudio sobrevivia dando aulas de inglês e vendendo mocassins nas feiras hippies da cidade, quando Raul o convidou para, juntos, comporem seu primeiro disco na gravadora WEA. "Nos discos que lançou pela WEA ele buscou a absolvição pelos erros do passado", avalia Cláudio. "O sucesso fez muito mal a ele, ele bebeu o sucesso todo. Eu, que o conhecia desde antes da bebida, convivi com uma pessoa cerimoniosa, que nunca perdia a linha. Virávamos noites compondo em hotéis, eu de cueca, detonando, e ele de terno e gravata, absolutamente formal".

Cláudio e Raul passaram três meses trabalhando no novo repertório. O Dia em que a Terra Parou foi lançado com todas as regalias que um artista poderia querer. Curiosamente, diz Cláudio, foi a partir deste disco que teve início a decadência pessoal e artística de Raul. "Ele descobriu que poderia usufruir de uma maneira 'light' de compor, mesmo sendo verídica. Mas era preciso fazer uma reavaliação muito grande de valores - imagine, uma pessoa tão solapada por tantos vícios, não só químicos como mentais e posturas..."

Na opinião de Cláudio, o sucesso da faixa "Maluco Beleza" ("Enquanto você se esforça pra ser / um sujeito normal / e fazer tudo igual / eu do meu lado, aprendendo a ser louco / maluco total / na loucura real") teria muito a ver com esse preocesso. "Esta faixa foi, provavelmente, o primeiro hit dele que não era um chiste, uma provocação. Ao contrário, é uma música autêntica, melancólica - é a história de um cara assumindo que não tem controle sobre sua loucura, é foda isso. Mas quando você constrói uma vida em cima de determinados vícios de postura, aí, malandro, é muito difícil. Mas Raul teve a chance de mudar isso, e não quis. Talvez por haver passado tanto tempo sendo um mistificador, ele tenha subestimado a força da autenticidade e superestimado a sua capacidade de manipulação. Mas o tempo julga pela verdade, pela causa e efeito do que você faz, não pelo sentimento do fã, que age apenas pela emoção". Depois desse disco, acredita Cláudio, Raul ficou "artisticamente em cima do muro".

"Raul já não era ele mesmo"

Os dois amigos, no entanto, continuaram compondo até a morte do cantor. Chegaram a planejar um novo LP em 1978, mas brigaram depois que Cláudio o acusou de haver registrado uma música da dupla em nome de Oscar Rasmussem - a faixa seria "Por Quem os Sinos Dobram".

Cláudio só voltou a ver Raul no início dos anos 80, mas encontrou outra pessoa. "Ele já havia se entregado, o corpo estava cansado de tanta luta inglória - 'é preciso sobreviver, é com isso que eu vou', sabe? O problema dele era lutar até alcançar, depois a motivação desaparece - 'eu me pergunto e daí, foi tão fácil conseguir' (da letra 'Ouro de Tolo'), isso é o resumo de sua vida", acredita. "Vi um show, em 1980, em que Raul enfrentou uma platéia absolutamente gelada, que estava lá para colocar a última pá de cal sobre seu cadáver insepulto. Até o meio da segunda música, ele tocou completamente ensandecido, numa performance que eu nunca havia visto. A audiência não resistiu e foi ao delírio - foi o que bastou para Raul começar a esquecer a letra, tropeçar e fazer uma merda de show. A impressão era a de que ele não suportava conseguir, conquistar".

Mas já era tarde, Raul Seixas já havia conseguido e conquistado. Isso consumiu sua vida, é verdade, mas seu trabalho atravessa as décadas como a voz oficial de uma raça que nunca se extingue: a dos malucos. Mesmo que fosse uma "criança" curiosa, como define "Cláudio Roberto, e não o filósofo onipotente, como o próprio Raul acreditou ser nos tempos de "Gita". A perenidade de seu trabalho foi posta à prova e será mais uma vez nestes dez anos de sua morte: a WEA planeja relançar seu disco Por Quem os Sinos Dobram em CD, incluindo letras, notas biográficas e o encarte original. Depois de tudo, só nos resta a música de Raul para ouvir. E já esta de bom tamanho.

O Meio

Os anos 80 foram cruéis para Raul. "Naquela época, ele não atendia telefones nem respondia a qualquer tentativa de aproximação", lembra Rita Lee. "Ele se cercou de vampiros que lhe sugaram até a última gota de sangue." Ao mesmo tempo, Raul era considerado persona non grata por produtores de shows, de eventos e por gente de gravadora. "Havia muitas ramificações ao redor dele, gente que tentava armar show com banda que Raul desconhecia, gente que vendia shows no interior em nome dele sem que ele soubesse, gente que tomava adiantamento de apresentações que ele nunca marcou", diz Marcelo. "Lembro que, certa vez, a secretária de Raul me ligou em casa, dizendo que havia um cara na casa dele, ameaçando-o de morte porque ele não queria fazer uma temporada de banquinho e violão no Amazonas e em Belém do Pará."

Caratecas,drogas e tiros

Na verdade, o inferno astral de Raul começou ainda no final dos anos 70, quando lançou um disco sem repercussão chamado Por Quem os Sinos Dobram, escrito ao lado de um novo parceiro, Oscar Rasmussen, com quem dividia o apartamento na época. Raul costumava agregar a seu redor os tipos mais estranhos e sombrios, numa versão tropical da "máfia de Memphis" que acompanhava Elvis Presley. Em 1979, ele teve a inacreditável idéia de contratar uma equipe de caratecas argentinos como seguranças. Tanto ele e Oscar quanto os seguranças varavam as noites em festas regadas a álcool e drogas das mais variadas. Numa transação obscura entre os caratecas e traficantes, o faixa preta Hugo Amorrotu foi assassinado a tiros, dentro do apartamento de Raul, num evento que demonstra o grau de descontrole que sua vida havia tomado. O corpo de Raul sentiu as pancadas do destino: o cantor foi internado, retirou metade do pâncreas no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e passou alguns meses hospedado na casa dos pais na Bahia. No ano seguinte, voltou à gravadora CBS (atual Sony Music), onde trabalhara como produtor nos anos 60. O disco que gravava, Abre-te Sésamo, foi, verdadeiramente, o último espasmo do cantor implacável e rebelde dos anos 70. O repertório, inspirado, era sua grande aposta.

Princesa Diana, não!

No entanto, Abre-te Sésamo foi, do início ao fim, um disco marcado por problemas e coincidências infelizes. Primeiramente por conta da Censura, que implicou com a balada "Baby" e o verso "por que esconder o vermelho/ do sangue tingido o lençol?", que virou "a mancha do batom vermelho/ por que esconder no lençol?". Depois, novamente censurado por conta da faixa "Rock das Aranha" (composta como piada e gravada como molecagem). Logo depois da gravação, a diretoria da CBS mudou e o disco foi mal divulgado e pessimamente distribuído. Aparentemente, a gravadora de Roberto Carlos e Amelinha não estava gostando muito da idéia de ter um encrenqueiro do calibre de Raul Seixas em seu cast. Aproveitando a relação desgastada, a gravadora propôs ao cantor que compusesse algo tendo o casamento da princesa Diana e príncipe Charles como tema. Raul respondeu com o pedido de rescisão de contrato.

Sem trabalho, Raul passou a divulgar planos mirabolantes, como filmar em Hollywood, candidatar-se a deputado federal e lançar um livro infantil. Pretendia prensar um disco pirata, chamado The Pirate Record (sic), com gravações raras de sua antiga banda Os Panteras, feitas nos anos 60. O assassinato de John Lennon tornou o cantor, normalmente avesso aos shows, ainda mais recluso. Um show na cidade de Caieiras, em São Paulo, foi desastroso: Raul foi confundido com um impostor e por pouco não foi linchado pelo público. Acabou levado à delegacia, onde foi esbofeteado e encarcerado.

Eventos assim só desgastavam sua imagem e o empurravam ainda mais para o alcoolismo. Seu vício foi progredindo de maneira proporcional à sua falta de atividade profissional. Sua esposa na época, Kika Seixas, passou a utilizar de seus contatos como assessora de imprensa para tentar reerguer a carreira do cantor. Depois de dois anos de tentativas, finalmente uma boa notícia: Raul foi chamado por Augusto César Vanucci para estrelar um especial infantil da TV Globo chamado Plunct Plact Zum, interpretando o personagem Carimbador Maluco. Animado, ele compôs um tema infantil, inspirado pela filha Vivian, de 2 anos. O sucesso da inocente canção rendeu seu segundo disco de ouro. Os fãs buscaram nos versos da canção alusões ao anarquismo, mas a música tratava mesmo de um personagem infantil - tanto que, em dezembro, Raul, vestido de Carimbador Maluco, cantou no estádio do Maracanã, na festa de chegada do Papai Noel, ao lado da Turma do Balão Mágico, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

O cansaço físico e profissional falou mais alto que a boa fase "família" do cantor. Raul voltou a beber, e muito. Kika deixou-o em 1984. "Minha filha já estava crescendo e o pai dela bebendo o tempo todo", lembra. "Nos últimos anos Raul não tomava mais banho, estava sempre deprimido, não comia mais alimentos sólidos, se urinava sempre. Mas nunca perdeu a força de vontade, sempre de bom humor, fazendo planos para o futuro". Wanderléa, que conheceu Raul nos anos 60 e chegou a dividir com ele os vocais da faixa "Eu Quero Mais" (do LP Raul Seixas, de 1983), lembra que Raul passava os dias sozinho, trancado em seu apartamento: "De meias, chinelos, às vezes de luvas, assistindo a horas e horas de vídeos de seus heróis de adolescência, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Elvis Presley". O mesmo cantor que bradava contra a nostalgia em 1975 transformava-se em um personagem saudoso e reacionário. "A partir de determinado momento, aqueles vídeos passaram a ser a única relação dele com o ambiente que amava, que um dia o motivara a cantar", lembra.

Do início ao fim, a década de 80 viu Raul entregando-se a seus excessos, deixando-se devorar pelo monstro que se formava ao redor de seu nome. Desistindo de viver. "Ele perdeu o interesse pela carreira", analisa Marcelo Nova. "O que o desmotivou, eu não sei. Ele era muito popular, e isso implica muita solidão, porque todo mundo te conhece, mas você não conhece ninguém", cogita. "Ele era muito simples e as pessoas abusavam um pouco disso. Mas o que o teria desanimado dessa forma ainda é uma incógnita".

O Fim

Raul dos Santos Seixas morreu aos 49 anos, de parada cardíaca. Já vivia havia nove anos sem dois terços do pâncreas. Diabético, driblava como podia as injeções de insulina ("Odeio injeção, por isso nunca fui junkie", dizia), mas não dispensava chocolate. Alcoólatra, seu café da manhã consistia de um copo de vodca com suco de laranja no bar mais próximo de casa, seguido de doses paulatinas de éter ao longo do dia. Separado de sua quinta esposa, Lena Coutinho, desde 1988 morava sozinho num pequeno flat alugado no Centro de São Paulo. Num destes cavalos-de-pau que o destino dá, um homem que odiava apresentar-se ao vivo e digladiava-se com gravadoras morreu descansando de uma maratona de 50 shows realizados ao lado do fã e último parceiro, Marcelo Nova. Naquela mesma semana, chegaria às lojas A Panela do Diabo, disco da dupla lançado pela multinacional WEA. E mais shows estavam programados até dezembro, quando a turnê seria encerrada com uma festa no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.

"Muita gente dizia que esta turnê não daria em nada: 'ah, o porralouca do Marcelo e o cachaceiro do Raul', mas Raul excursionou, fez 50 shows e não faltou em nenhum, mesmo quando estava com crise de diabetes", lembra Marcelo. "Por que, eu não sei. Raul só fazia o que queria e não havia ninguém no mundo para convencê-lo do contrário."

Toca, Raul!

Amigos desde 1984, a relação entre Raul e Marcelo Nova (ex-membro do grupo de rock baiano Camisa de Vênus) cresceu inicialmente movida pela paixão comum pelo blues e o rock dos anos 50. A parceria musical surgiu quatro anos depois, quando Marcelo decidiu visitar o amigo e deu-se conta do estágio terminal de sua vida e sua carreira. "Na verdade, não havia mais carreira. Ele estava parado há quatro anos, longe de seu público. Um dia cheguei em sua casa e ele estava sem um dente, abatido, bêbado, pesando 55 quilos. Alguma coisa precisava ser feita, não dava para assistir aquilo de braços cruzados. Levei Raul ao médico da minha família, que o examinou do cabelo à unha do pé e me disse que a única coisa a receitar era trabalho, já que ele se recusava a parar de beber", lembra.

"O esforço do indivíduo Raul Seixas em estar presente naquela turnê sempre foi subestimado", acredita Marcelo. "Já li muito sobre o 'andar trôpego e cambaleante' de Raul, mas, independentemente disso, ele pegava o microfone e, bem ou mal, com energia ou sem, subia no palco e cantava. Quem sabia dos problemas pessoais e físicos que ele enfrentava, sabe que se tratava de um esforço quase heróico".

Durante as gravações de A Panela do Diabo, o esforço de Raul atingiu seu ponto mais alto de emoção e simbolismo, como bem lembra o produtor Pena Schimidt: "O ritmo das gravações obedecia ao ritmo de Raul. Gravávamos uma estrofe de manhã, parávamos à tarde, retornávamos no dia seguinte e assim foi durante o tempo todo". Este ritmo seria seguido até o momento de gravar o número solo de Raul no LP, uma faixa chamada "Nuit", que ele havia composto em 1981 e, inexplicavelmente, mantinha inédita. Pena lembra que, neste dia, ele se viu diante do velho Raul Seixas hipnótico e poderoso que conhecera no Festival de Saquarema, em 1975. "Ele pediu para que todas as luzes fossem desligadas e exigiu gravar os vocais numa tacada só, sem retoques", lembra. "E assim foi, apesar de Raul Ter perdido a voz nos últimos versos. Quando as luzes se acenderam, todos no estúdio estavam com os olhos rasos d'água, porque entendiam que aquela letra era um bilhete de despedida". Versos como "quão longa é a noite/ a noite eterna do tempo/ se comparada ao curto sonho da vida" não deixam dúvidas - e os motivos que levaram a canção a permanecer reservada por tanto tempo foram finalmente esclarecidos.

On The Road

E mesmo na estrada, nos quase 12 meses de duração da turnê, a dupla manteve-se constantemente nos limites do imaginário rock'n'roll. Marcelo, num misto de sensibilidade histórica, ingenuidade adolescente e filantropia rocker; Raul, agarrando-se no fio de possibilidade que ainda lhe restava para provar, para si próprio, que a velha metamorfose ambulante poderia gingar feito Elvis. "Acredito que a turnê tenha dado motivação para o homem, não para o artista, que este não precisava", conta Marcelo. "Havia uma parte do meu coração querendo devolver um pouco de inspiração que ele havia me dado quando eu queria montar um grupo de rock na Bahia, aos 16 anos. Todos estavam muito motivados: no camarim, a banda era capaz de parar de beber para que Raul não visse que havia uísque, e ir lá conversar com ele, animá-lo, distraí-lo. Muitas vezes tivemos que tirar neguinho do quarto do Raul na porrada, porque os caras entravam lá no hotel com sacos enormes de cocaína, como presente para ele". No final, eram 18 pessoas trabalhando para que Raul Seixas "fosse aplaudido, como foi", depois de anos e anos à margem da cultura pop brasileira.

A morte

O escritor Paulo Coelho fazia sua segunda peregrinação depois da conversão ao cristianismo, o Caminho de Roma, também conhecido como Caminho Feminino. Era manhã de segunda-feira, 21 de agosto de 1989, quando Paulo interrompeu sua caminhada em um pequeno vilarejo perdido na cadeia montanhosa dos Pirineus, na França, e ligou para a esposa, Cristina Oiticica, no Rio de Janeiro. Com apenas três moedas no bolso, precisava falar rápido. "Olha, Paulo, não sei se devo te estragar o dia com notícias ruins", dizia a mulher do outro lado da linha, depois das necessárias saudações e troca de carinhos. "Pode falar, mas fala logo que a ligação vai cair", ele pediu com urgência. Cristina disse: "O Raul morreu". E a ligação caiu.

Paulo já havia escrito dois de seus grandes sucessos, Diário de um Mago e O Alquimista, mas muito de sua fama ainda se devia aos primeiros anos da década de 70, quando, ao lado de Raul Seixas, escreveu 65 canções, entre elas alguns dos maiores clássicos da música pop brasileira, como "Sociedade Alternativa", "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás" e "Medo da Chuva". "Quando a linha caiu, fiquei sem saber por que meu parceiro havia morrido, sem saber em que circunstâncias - só poderia ligar de volta à noitinha - mas senti uma profunda alegria, uma sensação muito positiva, como se Raul estivesse bastante feliz por haver morrido."

Durante o sono, às 5 horas da manhã daquela segunda-feira, Raul encerrava a luta que travava consigo mesmo havia mais de dez anos. Preso no emaranhado de mitos e lendas que ele próprio havia criado, o cantor passou toda a década de 80 deixando-se consumir pelo cansaço da batalha. Ao morrer, terminava uma história secreta, muito mais melancólica do que a que fora registrada em suas canções. Magia e rock'n'roll e carisma e insegurança e fanatismo e fraquezas alimentaram a trajetória mais estranha que o Brasil já presenciou - e que jamais procurou entender.

O dia em que Terra parou

O descontrole emocional da multidão, que Raul tanto temia em vida, viu-se multiplicado em muito no dia de sua morte. Como forma de homenagear o cantor, a gravadora WEA reservou o salão nobre do Palácio das Convenções do Anhembi para a despedida do público. Às dez horas daquele 21 de agosro, milhares de fãs tomaram os espaços do local gritando em uníssono: "Raul não morreu!" enquanto outros, de violão em punho, lembravam sucessos do cantor. Um fã mais ousado tentou beijar o rosto do músico, perdeu o equilíbrio e acabou quebrando o vidro do caixão.

As celebridades não apareceram, com exceção de Kiko Zambianchi, Marcelo Nova, do Maestro Miguel Cidras e Kid Vinil. Neste dia, Raul era do povo. Quando os bombeiros chegaram para levar o caixão para o aeroporto, a confusão começou. Alguns garotos se penduraram nas alças, outros jogavam bilhetes sobre o ataúde. Todos gritavam "Raul! Raul!". Na tentativa de chegar mais perto do ídolo, fãs quebraram os vidros do aeroporto de Congonhas.

Já na Bahia, além da família, apenas dois fãs aguardavam o avião - e um deles declarou que esperava ver o cantor levantar-se do esquife e pregar mais uma peça no "sistema". Multidão mesmo estava reunida no Cemitério Jardim da Saudade, esperando pela visitação pública ao caixão, que ficou na capela. Três horas depois, a missa de copo presente exigia que a capela fosse fechada, o que deu início a um tumulto e a nova tentativa de invasão.

Um ano depois do enterro, um fã de 21 anos, com o rosto de Raul tatuado no braço, roubou a lápide do cantor para transformá-la em item maior do "santuário" que montava em casa, ao lado de discos, cartazes, recortes e fotos. Uma nova tentativa de furto ocorreria dois anos depois. A direção do cemitério, cansada dos furtos, finalmente decidiu pregar a lápide com concreto. Hoje Raul descança em paz. (R.A.)

Matéria publicada pela revista Trip, nº 71, (agosto 1998)