terça-feira, março 06, 2012

Orestes Barbosa veio do morro

Orestes Barbosa
Orestes Barbosa veio do morro. O cronista que toda a cidade conhece passou a sua infância no Morro do Arrelia, no Andaraí.

Naquele tempo os sambas dos morros não desciam para a cidade. Não havia, ainda, as escolas, os blocos. Apenas os ranchos e os cordões mostravam por ocasião do Carnaval um pouco da música simples, bonita quase sempre, que nascia lá em cima onde os barracos de latas de banha, desengonçados, pareciam remexer-se, sambar também.

Um dia, já moço, jornalista, quis mostrar à cidade a poesia e a música pobre e espontânea que alegra a gente humilde dos morros com quem ele convivera, e trouxe para as colunas dos jornais, em reportagens vivas, bem fiéis, os flagrantes das favelas que se espalham pela cidade, trepadas nos morros, espiando as avenidas onde os automóveis correm, onde as lâmpadas fazem uma féerie deslumbrante.

Foram ele e Carlos Pimentel os primeiros cronistas dos morros. E, hoje, quando um sem número de jornalistas e grã-finos arroga a primazia de ter iniciado a popularização, na cidade e nos grills dos cassinos, dos sambas, das batucadas e das escolas que os lançam, Orestes no seu linguajar pitoresco exclama com ironia: “É! Agora o vagão desce do morro cheio de incentivadores, mas vem rodando nos trilhos que eu coloquei!”

É desse cronista, criado no morro, amigo dos morros, que vamos relembrar algo de sua meninice, do seu tempo do “tasca balão” e da bola de meia.

O Filho do Capitão Orestes

No Morro do Arrelia havia um garoto esperto, ladino. Sabia ler e escrever. Freqüentava a escola do bairro e, nas horas de folga, empinava sua pipa, participava duma pelada, colaborava na confecção dos sambas que ali eram cantados.

Ao lado de Flávio Costa, dos irmãos Cavada, de Bráulio Monteiro e outros, martelava o tamborim, batia pandeiro, fazia gemer a cuíca e um samba saía, entoado, coeso, para encher o silêncio da noite no morro da gente pobre do Andaraí.

As letras dos sambas tinham, todas, a sua revisão. E os sambistas aceitavam as emendas, os retoques que o filho do Capitão Orestes, “menino preparado”, fazia nas suas produções.

— Eu botei: “os coração amargurado chorando suas mágoa” — dizia um sambista — e ele emendou. Disse que é corações porque tem um negócio de plural que eu não sei o que é. Mas deve ter porque ele entende disso.

— Mete lá o plural que Orestes mandou porque tá certo! — respondia o outro, também sem entender, mas confiando na corrigenda que o filho do capitão fizera.

E assim o garoto, tido como sabichão entre os compositores, sentia prazer em estudar para ensinar, remendar a inspiração dos sambistas e, desse modo, ia se afeiçoando aos musicistas e poetas toscos que nada entendiam de plurais, que não sabiam porque os verbos tinham tempos e modos, mas conseguiam alinhavar, mesmo “ingramaticalmente”, um hino exaltando a fidelidade de sua cabrocha ou versejar um lamento para chorar a malvada a quem ele queria bem e se “foi prum outro alguém”.

A primeira Escola

Aquelas rodas de samba e de batucada que se formavam no terreiro, mesmo nas noites em que as nuvens vedavam o clarão da lua, lançaram a semente, prepararam os mestres das escolas que mais tarde desceriam as encostas do morro para virem à Praça Onze de Junho mostrar os seus corpos docente e discente e daí, anos após, entrarem nos salões chiques que escancaravam suas portas para recebê-las festivamente.

O Bloco Depois te Explico, cujo sucesso no tríduo de Momo foi dos maiores, apresentou-se nas pugnas carnavalescas como a primeira escola que descia o morro com a sua bateria e o seu coro “cantando numa boca só” os sambas do Arrelia.

Um outro bloco, uma outra escola — Braço é Braço — trazia depois, em outros carnavais, as melodias daquele populoso morro do Andaraí para as ruas asfaltadas da urbe maravilhante.

Esses grupos tiveram como seus iniciadores Orestes Barbosa, Flávio Costa, Euzébio, Reynaldo de Oliveira e mais alguns que participavam das rodas de samba do Arrelia. Os mestres, os “bacharéis” fundaram as primeiras escolas e os alunos acorreram pressurosos ao chamado dos tamborins.

Orestes não desceu com as escolas. Ele desceu primeiro, muito antes delas, para a cidade onde iniciou uma nova vida. As escolas vieram depois trazidas pelo reclame que ele, dedicado aluno e mestre, a um só tempo, fazia pelos jornais, pelo rádio, de todos os modos.

Propagando o samba

Já no jornalismo, com várias obras nas mostras das livrarias, Orestes não esqueceu o samba, a gente simples de sua meninice.

Subiu aos morros. Não só o do Arrelia, onde de calças curtas entoava as batucadas. Galgou outros, com tiras de papel na mão fazendo anotações para depois vir desenvolvê-las em letra de forma nas colunas da imprensa. Favela, Mangueira, Salgueiro, todos tiveram um pouco da história de suas escolas transmitido a muitas centenas de leitores pela pena do “filho do Capitão Orestes”.

Seus livros: Na Prisão, Bam-bam-bam, Samba, escritos em linguagem simples, sem artifícios, mostraram facetas, revelaram ainda o garoto que foi criado no morro e que fazia de mestre-escola entre os poetas rudes, enfeitando as produções desses vates rústicos com vírgulas e pontos que a eles parecia bobagem mas que o menino dizia ser tão necessários quanto os plurais e as concordâncias, também pelos sambistas dos morros julgados pernosticismo dos “seus dotôres da cidade”.

O amigo dos morros

Muitos anos são passados. Mais de duas dezenas de dúzias de meses empurraram para muito longe esse tempo em que no morro havia um garoto esperto, traquinas — “o filho do Capitão Orestes”.

As fábricas de tecidos do bairro do Andarai, que então apitavam como locomotivas anunciando o princípio e o fim do trabalho diário, têm agora sirenes que levam mais longe, bem lá em cima do Morro do Arrelia onde moram os seus operários, esse mesmo aviso.

Outros sujos, outros blocos, outras escolas, descem agora o morro.

O menino Orestes hoje está na redação de um jornal. Palestra no Nice com os sambistas e cançonetistas da cidade, mas não esqueceu o morro. Dele fala com orgulho. Com saudade recorda a sua gente.

Quando já moço voltou ao Arrelia para fazer uma reportagem ainda encontrou, envelhecido embora, o Seu Candinho, o Flávio Costa e poucos outros guris do tempo em que ele fazia parte da bateria que dava ritmo e “enfezava” o samba.

O “filho do Capitão Orestes” guarda da sua infância vivida entre aquela gente pobre, humilde, a mais grata recordação. Os barracos de latas velhas que o vento facilmente põe em perigo no seu equilíbrio, falam-lhe mais ao espírito que os sólidos arranha-céus da cidade.

E, por isso, Orestes jamais esqueceu o Morro do Arrelia. Fez-se amigo também dos outros morros porque eles devem ter uma história igual à daquele onde foi garoto, onde tascou balões, onde soltou papagaios, onde foi sambista...

(Revista da Semana, 12/10/1940)
______________________________________________________________________
Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

domingo, março 04, 2012

O rei do Blues


B. B. King (Riley Ben King), guitarrista, pianista e cantor (vocalista) de Blues, nasceu em uma plantação de algodão, em Itta Bena, Mississipi, EUA, em 16 de setembro de 1925. O "B. B." em seu nome significa Blues Boy, seu pseudônimo como moderador na rádio WDIA.

Teve uma infância difícil – aos 9 anos, o bluesman vivia sozinho e colhia algodão, trabalho que lhe rendia 35 centavos de dólar por dia. Começou por tocar, a troco de algumas moedas, na esquina da Igreja com a Second Street.

No ano de 1947, partia para Memphis, no Tennessee, apenas com sua guitarra e $2,50 dólares. Como pretendia seguir a carreira musical, a cidade de Memphis, cidade onde se cruzavam todos os músicos importantes do Sul, sustentava uma vasta competitiva comunidade musical em que todos os estilos musicais negros eram ouvidos.

Nomes como Django Reinhardt, Blind Lemon Jefferson, Lonnie Johnson, Charlie Christian e T-Bone Walker tornaram-se ídolos de B. B. King.

"Num sábado à noite ouvi o som uma guitarra elétrica que tocava espirituais negros. Era T-Bone interpretando "Stormy Monday" e foi o som mais belo que alguma vez ouvi na minha vida." recorda B. B. King, "Foi o que realmente me levou a querer tocar Blues".

A primeira grande oportunidade da sua carreira surgiu em 1948, quando atuou no programa de rádio de Sonny Boy Williamson, na estação KWEM, de Memphis. Sucederam-se atuações fixas no "Grill" da Sixteenth Avenue e mais tarde um spot publicitário de 10 minutos na estação radiofônica WDIA, com uma equipe e direção exclusivamente negra. "King’s Sport", patrocinado por um tônico, tornou-se então tão popular que aumentou o tempo do transmissão e se transformou no "Sepia Swing Club".

King precisou de um nome artístico para a rádio. Ele foi apelidado de "Beale Blues Boy", como referência à música "Beale Street Blues", foi abreviado para "Blues Boy King" e eventualmente para B. B. King. Por mera coincidência, o nome de KING já incluia a simples inicial "B", que não correspondia a qualquer abreviatura.

Pouco depois do seu êxito "Three O'Clock Blues", em 1951, B. B. King começou a fazer turnês nacionais sem parar, atingindo uma média de 275 concertos/ano. Só em 1956 B. B. King e a sua banda fizeram 342 concertos! Dos pequenos cafés, teatros de "gueto", salões de dança, clubes de jazz e de rock, grandes hotéis e recintos para concertos sinfónicos aos mais prestigiados recintos nacionais e internacionais, B. B. King depressa se tornou o mais conceituado músico de Blues dos últimos 40 anos, desenvolvendo um dos mais prontamente identificáveis estilos musicais de guitarra, a nível mundial.

O seu estilo foi inspirador para muitos guitarristas de rock. Mike Bloomfield, Albert Collins, Buddy Guy, Freddie King, Jimi Hendrix, Otis Rush, Johnny Winter, Albert King, Eric Clapton, George Harrison e Jeff Beck foram apenas alguns dos que seguiram a sua técnica como modelo.

Em 1969, B. B. King foi escolhido para a abertura de 18 concertos dos Rolling Stones. Em 1970 fez uma turnê por Uganda, Lagos e Libéria, com o patrocínio governamental dos EUA.

Começou a participar da maioria dos festivais de Jazz por todo o mundo, incluindo o Newport Jazz Festival e o Kool Jazz Festival New York, e sua presença tornou-se regular no circuito por universidades e colégios.

Em 1989 fez uma tournê de três meses pela Austrália, Nova Zelândia, Japão, França, Alemanha Ocidental, Países Baixos e Irlanda, como convidado especial dos U2, participando igualmente no álbum "Rattle and Hum", deste grupo, com o tema "When Love Comes to Town".

Em 26 de Julho de 1996, B. B. King, aproveitando o fato de ter um concerto agendado para Stuttgart, deslocou-se propositalmente de avião até à base aérea de Tuzla, para atuar perante tropas da Suécia, Rússia, Bélgica e EUA., estacionadas na Bósnia num esforço conjunto de manutenção da paz. No dia seguinte, voou para a base aérea de Kapsjak, para nova atuação junto de tropas norte-americanas. B. B. King confessa: "Foi emocionante atuar para estes homens e mulheres. Apreciamo-los e queremos que eles saibam que têm o nosso total apoio na sua árdua tarefa de manutenção da paz."

B. B. King terminou 1996 com uma turne pela América Latina, com concertos no México, Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e, pela primeira vez, no Peru e Paraguai. O "Rei dos Blues" totaliza mais de 90 países onde atuou até hoje.

Ao longo dos anos tem sido agraciado com diversos Grammy Awards: melhor desempenho vocal masculino de Rhythm & Blues, em 1970, com "The Thrill is Gone", melhor gravação étnica ou tradicional, em 1981, com "There Must Be a Better World Somewhere", melhor gravação de Blues tradicionais, em 1983, com "Blues'N Jazz" e em 1985 com "My Guitar Sings the Blues". Em 1970, Indianopola Missisipi Seeds concede-lhe o "Grammy" de melhor capa de álbum. A Gibson Guitar Co. nomeou-o "Embaixador das guitarras Gibson no Mundo".

Curiosidades

Uma das imagens de marca de King é chamar às sua guitarras o nome de "Lucille" - uma tradição que vem desde a década de 1950. No inverno de 1949, King se apresentou num salão de dança em Twist, no Arkansas. Com o intuito de aquecer o salão, acendeu-se um barril meio cheio de querosene no centro do salão, prática muito comum na época. Durante a apresentação, dois homens começaram a brigar e entornaram o barril que imediatamente espalhou chamas por todo o lado. Durante a evacuação, já fora do estabelecimento, King apercebeu-se de que tinha deixado a sua guitarra de 30 dólares no edifício em chamas. Voltou a entrar no incêndio para reaver a sua Gibson acústica, escapando por um triz. Duas pessoas morreram no fogo. No dia seguinte, soube que os dois homens tinham começado a briga devido a uma mulher chamada Lucille. A partir dessa altura, passou a designar as suas guitarras por esse nome, para "se lembrar de nunca mais fazer uma coisa daquelas."

Quando foi perguntado a John Lennon sobre sua maior ambição, ele disse que era tocar guitarra como B.B. King. BB King era considerado o melhor guitarrista do mundo por Jimi Hendrix.

Sobre suas guitarras utilizadas, iniciou utilizando uma Fender Telecaster. Depois passou a utilizar uma Gibson ES-335, modelo que foi substituído pela B. B. King Lucille, um modelo baseado na ES-345.

Uma das características de King é chamar às sua guitarras o nome de "Lucille" - uma tradição que vem desde a década de 1950.

No dia 19 de dezembro de 1997, apresentou Lucille ao Papa João Paulo II em um concerto no Vaticano.

No dia 5 de novembro de 2000, doou uma cópia autografada de Lucille para o Museu de Música Nacional, Estados Unidos da América.

Discografia de Compactos simples


1949 - "Miss Martha King"; "Got the Blues".
1950 - "Mistreated Woman"; "The Other Night Blues"; "I Am"; "My Baby's Gone".
1951 - "B. B. Blues"; "She's a Mean Woman"; "Three O'Clock Blues"
1952 - "Fine-Looking Woman"; 'Shake It Up and Go"; "Someday, Somewhere"; "You Didn't Want Me"; "Story from My Heart and Soul".
1953 - "Woke Up this Morning with a Bellyache"; "Please Love Me"; "Neighborhood Affair"; "Why Did You Leave Me"; "Praying to the Lord".
1954 - "Love Me Baby"; "Everything I Do Is Wrong"; "When My Heart Beats Like a Hammer"; "You Upset Me Baby".
1955 - "Sneaking Around"; "Every Day I Have the Blues"; "Lonely and Blue"; "Shut Your Mouth"; "Talkin' the Blues"; "What Can I Do (Just Sing the Blues)"; "Ten Long Years".
1956 - "I'm Cracking Up Over You"; "Crying Won't Help You"; "Did You Ever Love a Woman?"; "Dark Is the Night, Pts. I & II"; "Sweet Little Angel"; "Bad Luck"; "On My Word of Honor".
1957 - "Early in the Morning"; "How Do I Love You"; "I Want to Get Married"; "Troubles, Troubles, Troubles"; "(I'm Gonna) Quit My Baby"; "Be Careful with a Fool"; "The Keyblade to My Kingdom".
1958 - "Why Do Everything Happen to Me"; "Don't Look Now, But You Got the Blues"; "Please Accept My Love"; "You've Been an Angel"; "The Fool".
1959 - "A Lonely Lover's Plea"; "Time to Say Goodbye"; "Sugar Mama".
1960 - "Sweet Sixteen, Pt. I"; "You Done Lost Your Good Thing"; "Things Are Not the Same"; "Bad Luck Soul"; "Hold That Train."
1961 - "Someday Baby"; "Peace of Mind"; "Bad Case of Love".
1962 - "Lonely"; "I'm Gonna Sit Till You Give In"; "Down Now".
1963 - "The Road I Travel"; "The Letter"; "Precious Lord".
1964 - "How Blue Can You Get"; "You're Gonna Miss Me"; "Beautician Blues"; "Help the Poor"; "The Worst Thing in My Life";  "Rock Me Baby"; "The Hurt"; "Never Trust a Woman"; "Please Send Me Someone to Love"; "Night Owl".
1965 - "I Need You"; "All Over Again"; "I'd Rather Drink Muddy Water"; "Blue Shadows"; "Just a Dream"; "You're Still a Parallelogram"; "Broken Promise".
1966 - "Eyesight to the Blind"; "Five Long Years"; "Ain't Nobody's Business"; "Don't Answer the Door, Pt. I"; "I Say in the Mood"; "Waitin' for You".
1967 - "Blues Stay Away"; "The Jungle"; "Growing Old".
1968 - "Blues for Me"; "I Don't Want You Cuttin' Off Your Hair"; "Shoutin' the Blues"; "Paying the Cost to Be the Boss"; "I'm Gonna Do What They Do to Me"; "The B. B. Jones"; "You Put It on Me"; "The Woman I Love";
1969 - "Get Myself Somebody"; "I Want You So Bad"; "Get Off My Back Woman"; "Why I Sing the Blues"; "Just a Little Love"; "I Want You So Bad".
1970 - "The Thrill Is Gone"; "So Excited"; "Hummingbird"; "Worried Life"; "Ask Me No Questions"; "Chains and Things".
1971 - "Nobody Loves Me But My Mother"; "Help the Poor" (regravação); "Ghetto Woman"; "The Evil Child".
1972 - "Sweet Sixteen" (regravação); "I Got Some Help I Don't Need"; "Ain't Nobody Home"; "Guess Who".
1973 - "To Know You Is to Love You".
1974 - "I Like to Live the Love"; "Who Are You"; "Philadelphia".
1975 - "My Song"; "Friends".
1976 - "Let the Good Times Roll".
1977 - "Slow and Easy".
1978 - "Never Make a Move Too Soon"; "I Just Can't Leave Your Love Alone".
1979 - "Better Not Look Down".
1981 - "There Must Be a Better World Somewhere".
1985 - "Into the Night"; "Big Boss Man".
1988 - "When Love Comes to Town" (com U2).
1992 - "The Blues Come Over Me"; "Since I Met You Baby".
2000 - "Riding with the King" (com Eric Clapton).

Discografia de Álbuns

King of the Blues (1960); My Kind of Blues (1960); Live at the Regal (Live, 1965); Lucille (B.B. King álbum)|Lucille (1968);  Live and Well (1969); Completely Well (1969); Indianola Mississippi Seeds (1970); B.B. King in London (1971); Live in Cook County Jail (1971); Live in Africa (1974); Lucille Talks Back (1975); Midnight Believer (1978); Live "Now Appearing" at Ole Miss (1980); There Must Be a Better World Somewhere (1981); Love Me Tender (B.B. King álbum)|Love Me Tender (1982); Why I Sing the Blues (1983); B.B. King and Sons Live (B.B. King Album)|B.B. King and Sons Live (Live, 1990); Live at San Quentin (1991); Live at the Apollo (B.B. King álbum)|Live at the Apollo (Live, 1991); There is Always One More Time (1991); Deuces Wild (álbum)|Deuces Wild (1997); Riding with the King (B.B. King and Eric Clapton álbum)|Riding with the King (2000); Reflections (B.B. King álbum)|Reflections (2003); The Ultimate Collection (B.B. King álbum)|The Ultimate Collection (2005);   80 (album)|B.B. King & Friends: 80 (2005); One Kind Favor (2008).

Fonte: Wikipédia.

quinta-feira, março 01, 2012

Nosso Sinhô do Samba - Parte 4

Sinhô não se considerava mulato. Numa terra de mulatos geniais, o sambista não topava a classificação. Dizia-se com certa ufania “caboclo autêntico”. Tinha o pernosticismo característico dos homens de cor, sujeitos no seu tempo ainda a restrições vexatórias, de que se vingariam demonstrando inteligência e ousadia e conseguindo destacar-se notadamente em atividades artísticas, o que no tempo não era muito fácil.

Natural que se sentisse vaidoso diante do bom êxito das suas composições e da popularidade que dia a dia mais lhe exaltava o nome. Não se lhe podia negar o sucesso alcançado pelas composições que a cidade cantava e assobiava e que saltavam das ruas para o teatro musicado, em fase de grande animação.

Quando da sua visita ao Rio, os reis belgas demonstraram nítida simpatia pelas produções de Sinhô ao ouvirem música nacional no encouraçado São Paulo, que os trouxe ao Brasil. Dentre as melodias executadas pelo quinteto de bordo, a rainha apreciava especialmente o samba Fala meu louro, grande sucesso de Sinhô. Vasseur, que integrava o conjunto, foi solicitado várias vezes a executar as composições de Sinhô para a rainha. E o jornal A Noite, de 25 de setembro de 1920, publicava pequena nota: “Em uma das últimas refeições no Palácio, S. M. a rainha Elisabeth manifestou desejos de ouvir uma das nossas músicas populares. Por acaso o maestro Pinto de Oliveira, diretor da Orquestra do Palácio, tinha ensaiado o Papagaio louro (Fala meu louro) e executou-o. A rainha aplaudiu a música e seus executantes”.

O compositor carioca quis provar seu reconhecimento aos ilustres visitantes organizando um álbum de suas produções que lhes foi ofertado.

A propósito, conta Augusto Vasseur que o álbum a princípio era feio e mal arranjado, numa capa de papelão ordinário, com a dedicatória grafada no próprio cursivo de Sinhô: “Aos Reis da Bélgica, Srs. Alberto e Elisabeth - oferece Sinhô”. Dedicatória simples e sincera, mas que feria os preceitos majestáticos. Vasseur mandou fazer urna encadernação decente, bonita, com ofertório adequado e impresso.

De qualquer forma, o fato teria de despertar a inveja dos concorrentes. Sinhô conquistava terreno em todas as camadas sociais. Continuava cada vez mais a destacar-se. E não era somente à custa dos trouxas do Rio de Janeiro, como haviam cantado Pixinguinha e China.

Mas não se diga que o sambista vitorioso tenha fugido às camadas de onde viera. Nada disso. Tanto freqüentava a Kananga. como as casas mais ilustres que o acolheram. Era amigo de políticos e figurões que o prestigiavam. Nos morros, ou na zona sul, nos subúrbios ou na Tijuca, Sinhô tinha trânsito livre. Nunca abandonou as chamadas rodas da malandragem. Foi amigo do famigerado Sete Coroas, salteador que se fez famoso, a quem o compositor dedicava um samba que parece não foi gravado, e é raríssimo hoje.

Na fase ascensional de Sinhô tinha ele em Caninha (José Luís de Moraes) não um inimigo, mas um rival de categoria. Eram dois bambas da música popular carioca e não seria exagero o que diria a quadrinha popularizada:

São dois cabras perigosos,
Dois diabos infernais:
José Barbosa da Silva,
José Luís de Moraes.


Essa rivalidade era inteligentemente explorada pelos dois compositores, na época dos mais destacados no Rio. Em 1921 , Caninha já se fizera detentor de alguns sucessos carnavalescos, entre os quais Me leva, me leva seu Rafael (Quem vem atrás fecha a porta) e Esta nega qué me dá.

Também foi Almirante quem relatou no rádio, e depois em palestra, um dos encontros dos dois bambas da música, no ano de 1921, numa festa da Penha, naquele tempo o campo experimental das músicas de Carnaval, na própria expressão da maior patente do rádio. 

Vários grupos se apresentavam visando ao lançamento das suas composições. Para aumentar o interesse competitório, o industrial Eduardo França, o homem da Lugolina e do Vermutin, que foi sempre grande animador da música popular e do Carnaval carioca, instituíra uma taça. Lá estavam Os Africanos (Vila Isabel), o Grupo do Louro e o afiadíssimo Grupo dos Hanseáticos, chefiado pelo Caninha. Uma mu1tidão cercava os concorrentes no festivo arraial. E eram centenas os que já sabiam de cor os versos da bonita marcha lançada pelo Caninha, Me sinto mal:

Ai, ai
Me sinto mal
Depois do Carnaval.
Quando chega o Carnaval
Ninguém lembra a carestia
Vamos todos pra Avenida
E caímos na folia.


Tem gente que cai na farra
Na véspera do Carnaval
Na quarta-feira de cinzas
Sempre diz: me sinto mal.


O Grupo dos Hanseáticos parecia vitorioso. O samba de Caninha despertara o maior entusiasmo. Todos ali o cantavam. Mas eis que se aproxima Sinhô, logo recebido com alegria pelos circunstantes. Chegava sobraçando belíssimo violão cravado de madrepérolas. Cercavam-no alguns companheiros, todos sem instrumentos. Sinhô começou sozinho a cantar sua marcha Fala baixo, especialmente composta para aquele lançamento. Os versos eram fracos. Apenas o estribilho tinha grande força (1). Mas a melodia agradava e daí a pouco eram dezenas os que cantavam o poemazinho; onde havia a palavra rolinha, que bem podia ser referência ao apelido dado a Artur Bernardes:

Quero te ouvir cantar
Vem cá, rolinha, vem cá
Vem pra nos salvar
Vem cá, rolinha, vem cá.

Não é assim
Assim não é
Não é assim
Que se maltrata uma mulher.


Não satisfeito do sucesso da marchinha que se estenderia ao Carnaval de 1922, tornando popularíssimo o refrão, Sinhô ainda lançou outro número de êxito certo, o samba Sai da raia, talvez sua composição mais feliz do referido Carnaval e que seria cantada e executada por grupos e orquestras durante vários carnavais subseqüentes.

Na época, a festa da Penha era de fato uma festa. Depois do Carnaval seria o maior acontecimento popular do Rio. Verdadeiras multidões acorriam ao subúrbio que todo se transformava num arraial de verdade. A imprensa abria colunas largas para noticiário dos domingos festivos durante todo o mês de outubro. E de 1920 em diante até alguns anos depois a Penha seria de fato o início do Carnaval pelo menos no que se refere à música. Compositores e músicos comandando conjuntos amestrados lançavam as composições, muitas delas focalizando a festa religiosa, mas já de olho na festa profana do ano seguinte. Sinhô, Caninha e outros a essa época já eram veteranos da Penha.

O Jornal do Brasil, que graças a seu cronista Vagalume, sempre dispensou atenção especial aos festejos do subúrbio leopoldinense, na sua edição de 23 de outubro de 1911, já estampava algumas fotos, numa das quais aparece Sinhô, ainda não batizado como compositor. Verdadeiras multidões acorriam ao subúrbio e daí a razão dos lançamentos ali das músicas de Carnaval. Composição consagrada na Penha era êxito indiscutível em fevereiro.

Os encontros de Caninha e Sinhô se apresentavam sempre sensacionais. E naquele 1921,  o compositor de Fala baixo e Sai da raia fora o grande vitorioso da Penha, triunfo que se consolidaria no Carnaval vindouro. Mas ali mesmo Sinhô também sentiu o amargo da derrota que lhe infligira o seu temível rival.

Curioso que a vaidade de Sinhô nem sempre o levasse a festivais e espetáculos para os quais era insistentemente solicitado. Tomou parte, contudo, na Noite brasileira, realizada no Teatro Fênix em março de 1927 e na Noite luso-brasileira, em homenagem ao aviador Sarmento de Beires, realizada no Teatro República na noite de 4 de junho do mesmo ano. Nessa festa, José do Patrocínio Filho proferiu uma palestra e Sinhô foi coroado Rei do Samba, depois de vitorioso no concurso ali efetuado.

Quase dois anos mais tarde, em maio de 1929, iria a São Paulo chefiando um grupo que deu uma récita no Teatro Municipal, com a presença do senhor Júlio Prestes, então candidato à presidência da República. O pretexto era o lançamento da marchinha de Freire Júnior, Seu Julinho vem. A propósito do espetáculo, evidentemente uma promoção política.

O Estado de São Paulo, de 21 de maio de 1929, fez o seguinte comentário: “Com a presença e a cumplicidade de altas autoridades do Estado e do Município, o Teatro Municipal, anteontem à noite, esteve em pleno domínio da fuzarca. Certo é que a noitada paulista se não foi uma apoteose ao candidato Júlio Prestes o foi a Sinhô, talvez o maior vitorioso da noite, pois também compusera o samba Eu ouço falar:

Eu ouço falar
Que para o nosso bem
Jesus já designou
Que seu Julinho é quem vem.

Deve vir esse caboclo
Pra matar nossa saudade
Para o riso ser leal
No coração da humanidade.


Essa história que anda aí
De “vem pra ganhar vintém”
Ele no precisa disto
Nem de “aproveitar também”.
(2)

Eu no quero que este samba
Vá contrariar alguém
O caboclo é da fuzarca
E só trabalha para o bem!
Olé!


O sabujismo naturalmente bem pago e de certo modo compreensível levava o popular compositor a tais exageros. O candidato oficial se transformava em ‘caboclo da fuzarca’ e o compositor além de mau profeta chegava a ser blasfemo.

____________________________________________________________________
(1) Característica maior de Sinhô. Era um fabuloso estribilhista. (2) Expressões de outra marchinha do ano sobre o mesmo tema.

Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.