sábado, maio 18, 2013

A decadência dos trios


"Em comentário na CBN, falei sobre o trio final dos antigos times de futebol. Na formação clássica, o goleiro e os dois zagueiros formavam o aludido trio final: Castilho, Píndaro e Pinheiro, o trio final do Fluminense numa das melhores fases.

Não mais existe o trio final, agora são quatro zagueiros, mais o goleiro, formando o quinteto que nem chega a ser final, dois dos zagueiros vão para o meio-campo, somente o futebol de botão conserva a tradição.

Não foi apenas o trio final dos times que acabou. Acabaram, quase ao mesmo tempo, o Trio de Ouro (Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e Nilo Chagas), o Trio de Osso (Lamartine Babo, Yara Sales e Héber de Bôscoli), Trio Madrigal, Trio Esperança, Trio Irakitan, Trio Ternura, Trio Tamba, Trio Surdina, Trio Nagô, Trio Melodia. E o meu preferido, o Trio Los Panchos, na formação inicial com Navarro, Gil e Avilés (Insultado pela invasão de seu terreiro, Ruy Castro promete mais e melhor).

Não sei se nas igrejas ainda existem tríduos aos santos, os três dias formando o trio que antecede certas festas. No Rio, o mais popular era o de São Jorge. Que só perdia para o Tríduo Momesco, os três dias do Carnaval -que agora são quatro e, na Bahia, é o ano todo. O Concílio Vaticano 2 parece que acabou com o tríduo dos santos, e o "Manual da Redação" dos jornais acabou com o clichê do tríduo momesco.

Sou ignorante no assunto (e em muitos outros), mas acho que sobrou apenas o trio elétrico, atrás do qual só não vai quem já morreu. Faço parte dos que, entre outras muitíssimas coisas, não sabem que já morreu.

Mas, eia! sus! sus! Sobrou também aquele trio que forma o triângulo que não deixa de ser um trio, Ele, Ela e o Outro, sobre o qual a Commedia Dell'Arte baseou-se para criar o Pierrô, o Arlequim e a Colombina.

Ao citá-los, desconfio que ainda estou na era das cavernas. Um tempo em que não havia trios: era Um contra Todos."

_______________________________________________________________
Fonte: Carlos Heitor Cony - Folha de S.Paulo, 04 de dezembro de 2004.

Héber de Bôscoli

Héber de Bôscoli, radialista, ator, rádio-ator, apresentador e compositor, falecido em 1956, teve papel marcante como maquinista, em "Trem da Alegria" (programa de rádio, 1942-1955). Era casado com a atriz Iara Salles (Taubaté, SP 27/7/1912 — Bananal, SP, 26/6/1986). Iniciou sua vida artística na Rádio Cruzeiro do Sul (mais tarde Rádio Tamoio) em 1937, em companhia de Ary Barroso e Paulo Roberto.

É até hoje considerado um dos maiores arrecadadores publicitários das emissoras de rádio, graças a criação de programas de forte apelo popular e por isto mesmo possuidores de enorme audiências. Dentre estes programas, podemos citar: “A Hora do Pato”, programa dominical de calouros, na Rádio Nacional; “Museu de Cera", também na Rádio Nacional e “A Felicidade bate a sua porta” , o primeiro programa de prêmios com transmissão externa.

No entanto o maior sucesso adveio com o “Trem da Alegria", criado em 1942, em parceria com sua esposa Iara e Lamartine Babo, apresentando o "Trio de Osso" (os três eram magérrimos). A audiência era tão grande que durante muito tempo teve de ser apresentado nos teatros, uma vez que o auditório das emissoras de rádio não comportava o grande público que desejava participar e assistir ao programa. O programa foi mantido no ar até 1955, um ano antes de sua morte.

Certa vez, no ano de 1945, o "Trem da Alegria" marcou época ao lançar os hinos de todos os clubes de futebol cariocas: um por semana. O “guarda-freios” da alegre composição radiofônica cumpria a promessa que fizera ao “maquinista” Héber, sob a admiração da "foguista" Iara Salles. Chegaram a espalhar o boato que, um dia, Héber trancafiara Lamartine num quarto, só o deixando sair quando as músicas ficaram prontas. Mas o esforço valera a pena. Quando os hinos eram apresentados ao público, eram imediatamente recebidos com entusiasmo fora do comum, sucesso imediato, e imediatamente viravam clássicos.

Cada hino possuía características cuidadosamente estabelecidas por Lamartine. O do Flamengo, por ser um clube de massa, deveria lembrar um hino de guerra. O do Fluminense, feito numa sorveteria granfina no centro da cidade chamada Americana, que ficava onde seria depois construída a garagem do Hotel Serrador, dava à composição um toque lírico, cumprindo as características refinadas do clube das Laranjeiras.

O do Vasco da Gama chegou a ter um trecho de música portuguesa. O do América, time pelo qual Lamartine torcia apaixonadamente, introduzia na música um “trá-lá-lá” na música, de resto calcada no ritmo one-step de uma música esportiva americana intitulada Row, row, row (Reme, reme, reme), gravado pela Banda da Marinha Americana. O do Botafogo enfrentou inicialmente um pequeno problema com a diretoria do “glorioso”, que achava que o clube só seria lembrado por ter sido campeão no ano de 1910. Mas o mal entendido foi resolvido pela voz do povo, que adotou a canção com alegria incomum. Anos depois, Lamartine acabaria de compor outros hinos de nossa cidade.

Héber de Bôscoli, para quem não sabe, tem um samba muito bem gravado por Sílvio Caldas, Orlando Silva e Ciro Monteiro intitulado “Rosinha”, em parceria com Mário Martins, uma gravação do ano de 1942.
______________________________________________________________________
Fontes: fotolog.terra.com.br/historiadoradio; elencobrasileiro.blogspot.com.br; historiasdofrazao.com.br; cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/lamartine-babo.html; Foto: historiasdofrazao.com.br; Panfleto: Revista do Rádio.

quinta-feira, maio 16, 2013

Eladir Porto

Eladir Porto - 1936
Eladir Porto (Eladir Maria da Silva Porto), cantora, nasceu em Santos, SP, em 15/10/1917. Iniciou a carreira artística depois de vencer um concurso de beleza. Em 1936, estreou na Rádio Cajuti.

Contratada pela gravadora Victor, em 1941, gravou seu primeiro disco interpretando com acompanhamento de Passos e sua orquestra, a marcha Salomé, de Haroldo Lobo e Nássara, e com acompanhamento de Luís Americano e seu regional, o samba Comprei uma baiana, de Joca do Pandeiro e Jacaré.

Em 1944, atuou na comédia musical Abacaxi azul, direção de Ruy Costa e Wallace Downey, e roteiro de Ruy Costa, e no qual atuaram ainda, entre outros, Alvarenga, Ranchinho, Dercy Gonçalves, Chocolate, Xerém, e Castro Barbosa.

Em 1945, já pela gravadora Continental, gravou com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto regional, as marchas Vamos brincar de pique? e Ora bola", ambas de Sandra Roberta. Nesse período sua presença era constante em eventos no Palácio do Catete durante o governo do presidente Getúlio Vargas. Atuou em várias outras rádios até viajar para a Argentina onde permaneceu vários anos, o que acabaria por fazê-la mudar seu repertório, inicialmente composto por sambas e marchas, para tangos. Em 1950, retornou ao Brasil e foi contratada pela Rádio Nacional.

Em 1952, lançou pela gravadora Sinter o samba-canção Brigas, de Hélio Rosa e René Bittencourt, e o bolero Recordar é viver, de Carolina Cardoso de Menezes, Armando Fernandes e Célio Monteiro.

 Em 1955, foi contratada pela gravadora pernambucana Mocambo e lançou uma série de quatro discos em 78 rpm com acompanhamento de Romeu Fossati e sua orquestra típica, interpretando os tangos Noite de Reis, de P. M. Mafra, J. Curi e Virgínia Amorim, Cantando, de Mercedes Simone e Virgínia Amorim, Deixa-me em paz (Dejame, no quiero), de F. Canaro, I. Pelai e A. Galves Morales, e Tarde chuvosa, de Mores, Contursi e Ghiaroni, o fox Jonny, de Spelman e Paul Roberts, com versão de Virgínia Amorim, e as valsas Aniversário da mãezinha, de Jairo Argileo e Heron Domingues, e Ama sempre, de Romeu Fossati e Eda Fossati.

Em 1956, lançou pela gravadora Mocambo o LP Tangos em versão registrando os tangos Silêncio, de Carlos Gardel, Alfredo Le Pera e Petorossi, com versão sua, Cantando, de Mercedes Simone, e Noite de Reis, de Pedro Maffia e Jorge Curi, com versões de Virgínia Amorim, Seus olhos se fecharam, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, e Tarde chuvosa, de Mariano Mores e Contursi, com versões de Ghiaroni, Deixa-me em paz, de Francisco Canaro, Mariano Mores e Pelay, e versão de Galvez Morales, Lencinho querido, de Juan de Dios, Filiberto e Penalo, e versão de Maugéri Neto, e Quero ver-te uma vez mais, de M. Canaro e Contursi, e versão de Jair Amorim.

No mesmo ano, também pela gravadora Mocambo, participou do LP Oito sucessos interpretando o fox Johnny (Johnny is the boy for me), de L. Paul, e versão de Virgínia Amorim.

Em 1957, já transferida para a RGE, lançou o LP Alma do tango cantando os tangos Canção desesperada, de Enrique Santos Discépolo, e versão de Ghiaroni, Caminito, de Juan de Dios Filiberto e Gabino Coria  Peñaloza, e Piedade, de C. Percuoco e L. de Blase, ambos com versões de Mauro Pires, Parece mentira, de Rodio e Sciammarella, e Alcova azul (Cuartito azul), de M. Battistella e Mariano Mores, os dois com versões de Vidal Ramos, Todavia te quero (Y todavia te quiero), de L. Leocata e A. Asvar, com versão de Adelino Moreira, Cristal, de Mariano Mores e José Maria Contursi, em versão de Haroldo Barbosa, e Orgia, de Fernando César e Nazareno de Brito.

No mesmo ano, gravou os tangos Seus olhos se fecharam, de Gardel, Le Pera e Ghiaroni, Quero ver-te uma vez mais, de Canaro, Contursi e Jair Amorim, e Lencinho querido, de J. D. Filiberto e Penaloza e versão de Maugéri Neto.

Em 1958, gravou o samba-canção Que saudade, de Alésio Milton, e os tangos Cristal, de M. Mores e J. M. Contursi, Piano de bar, de Dora Lopes e Ari Monteiro, e Chora bandoneon, de J. Piedade, O. Gazaneo e J. Campos.

Em 1960, a gravadora Mocambo lançou o LP Tangos, sempre tangos com as interpretações dos tangos Silêncio, Uma lágrima tuya, Cantado, Sentimento gaúcho, Noite de Reis, Dora, Lencinho querido, Graciel, Tarde chuvosa, Caminito, Quiero verte uma vez más e El amanecer, já lançados anteriormente.

Em 1961, participou pela RGE do LP "Eu adoro tangos"  com os tangos "Canção desesperada", "Caminito", "Cristal", "Alcova azul", "Todavia te quero", "Piedade", e "Parece mentira". Este disco ainda contou com interpretações de Antônio Borba, Leny Eversong e Ventura Ramirez. No mesmo ano, candidatou-se a vereadora no Rio de Janeiro.

Em 1962, gravou pela Mocambo os tangos Faz-me rir, de F. Yoni e E. Arias, em versão de Teixeira Filho, Meu Buenos Aires querido, de Carlos Gardel e Le Pera em versão de Juracy Rago, Não te culpo, de Romeu Fossati e Murilo Latine, que contou com declamação de Valdeck Magalhães, e Contra sens", de Vera Falcão e Murilo Latine.

Ao longo da carreira, além de apresentações em diferentes emissoras de rádio, fez gravações na Victor, Continental, Mocambo, Sinter, Todamérica e RGE, quase sempre cantando tangos.

Discografia

(1962) Faz-me rir/Meu Buenos Aires querido • Mocambo • 78 (1962) Não te culpo/Contra senso • Mocambo • 78 (1961) Eu adoro tangos • RGE • LP (1960) Tangos, sempre tangos • Mocambo • LP (1958) Que saudade/Cristal • RGE • 78 (1958) Piano de bar/Chora bandoneon • Mocambo • 78 (1957) Cancion desesperada/Orgia • RGE • 78 (1957) Alma do tango • RGE • LP (1957) Seus olhos se fecharam/Foi em Buenos Aires • Mocambo • 78 (1957) Quero ver-te uma vez mais/Lencinho querido • Mocambo • 78 (1956) Tangos em versão • Mocambo • LP (1955) Noite de Reis/Jonny • Mocambo • 78 (1955) Cantando/Aniversário da mãezinha • Mocambo • 78 (1955) Deixa-me em paz (Dejame, no quiéro) • Mocambo • 78 (1955) Tarde chuvosa/Ama sempre • Todamérica • 78 (1952) Brigas/Recordar é viver • Sinter • 78 (1945) Vamos brincar de pique?/Ora bolas! • Continental • 78 (1941) Salomé/Comprei uma baiana • Victor • 78

______________________________________________________________
Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; Revista "O Malho", de 11/06/1936.