segunda-feira, dezembro 30, 2013

Como se fazia samba em 1930

"Se quiséssemos reunir tudo o que já se tem dito e escrito acerca dos sambas e marchas carnavalescas, obteríamos material capaz de encher grossas colunas. Há, porém, algo que o público que ouve o samba no rádio ou no disco desconhece. É a resposta que se pode dar à pergunta: como se faz um samba? ...

O cenário é, em geral, o mesmo: uma mesa de café e alguns “sambistas” — três ou quatro. Mais do que isto, “não dá certo”. A localização do café varia: às vezes é na Avenida Rio Branco, às vezes no Estácio. Geralmente, aliás, daí é que tem saído os melhores sambas. O sambista que se preza não abandona o Estácio.

A hora de reunião é sempre depois de meia-noite. Antes, não haveria tempo do “malandro” sentir a “bossa”. Três, quatro horas da madrugada é ideal. Mais cedo, só quando os sambas são feitos na Avenida...

A inspiração chega sempre.  O motivo para o samba é encontrado nas coisas mais insignificantes: um homem que entra pra vender bilhetes, um sujeito que bate na porta, um garçom que demora a trazer a “média”, uma notícia de sensação nos jornais, às vezes um simples anúncio pregado numa parede e temos a melodia lá encaminhada, pelo tamborilar dos dedos na mesa do café ou numa caixa de fósforos. Às vezes entra em cena o chapéu de palha. Quando acaba a noite, o sambista se retira para casa, leva no ouvido a música e não raro as palavras.

Nas mesas dos cafés, o samba começa a nascer...


Nem todos os sambas, porém, se fazem assim. Muitos surgem após uma briga com a “pequena”: são os sentimentais. Ao invés de serem imaginados num café, o sambista procura um lugar quieto, longe do ruído e dos companheiros. E assim se fazem os mais belos sambas, dos quais “Pra esquecer” é o padrão.

Com o ouvido cheio da melodia da véspera e a memória ainda transbordante do ritmo da música improvisada, vai no dia seguinte o sambista procurar quem lhe escreva a música, pois ele é, na maior parte das vezes, completamente leigo no assumto e desconhece inteiramente o valor de uma nota musical. Sabe apenas murmurar os compassos, que é incapaz de traduzir no papel.

Aldo Taranto ao piano
Aldo Taranto é o nome da criatura que vai resolver as dificuldades em que se encontra o autor da música. Foi ele quem rascunhou “O teu cabelo não nega”, “Linda morena”, “Trem blindado”, “Garota da rua”, “Agora é cinza”, “A tua vida é um segredo” e alguns outros legítimos sucessos da carnavais passados. Diante dele o sambista põe-se a cantar a melodia e Aldo Taranto, com uma surpreendente facilidade e, graças ao seu extraordinário valor como pianista, em breves instantes transporta ao piano o que ouve cantarolar. Do piano, para a pauta musical, a distância é pequena, mormente para ele que não acredita que a música tenha segredos...

Há cinco anos que Aldo Taranto se vem dedicando a isto. Pela sua mão já passaram milhares de másicas. Centenas de sucessos foram por ele escritos e adaptados e, no emtanto, quando o “speaker” anuncia um samba de sucesso ninguém se lembra, sequer, de sua existência...

Já com o samba escrito e pronto para ser interpretado ao piano, o sambista deixa Aldo Taranto e vai procurar o que lhe falta, para que a música possa ser gravada: a orquestração. Não raro, uma orquestração bem feita é o maior fator de êxito de uma música e dela depende sempre mais de cinquenta por cento de seu sucesso.

Rua do Chichorro, 25, sobrado. Sobe-se uma escada e logo uma voz amável nos atende:

— Queiram se sentar.

Estamos diante de Alfredo Vianna. Este nome, aliás, ninguém conhece. Pixinguinha, o orquestrador, entra em ação...

É possível, porém, que o Pixinguinha tenha alguma popularidade. Eis o homem. É ele que faz a orquestração. Como ninguém, possui em alta dose o senso de efeito que podem causar ao público os vários tipos de orquestração. Conhece e sabe perfeitamente quais as modulações que deve colocar e o resultado: “Ride, palhaço”, “Foi ela”, “Formosa”, “Teu cabelo não nega” e muitas outras, sucessos absolutos de orquestra.

O magnífico Pixinguinha
— Este ano tive poucas músicas: umas oitenta mais ou menos. Não é nada, em relação ao ano findo, em que tive quatrocentas.

Estará fraco este carnaval? Não, apenas um pequeno atraso. No ano passado, por esta época, os estúdios de gravação já tinham encerrado os seus trabalhos. Este ano, agora é que está começando a atividade.

Saímos, deixando Pixinguinha, homem que mais músicas tem orquestrado, o ponto final da confecção do samba.

Não falta mais nada para o samba ser lançado. Falta apenas um nome de cartaz que queira cantá-lo. Começa agora para o sambista o mais difícil, mormente se ele é pouco conhecido. Um cantor de nomeada não lança uma marcha ou um samba de um desconhecido. Uma cantora de nome prefere sempre uma composição de gente já popularizada.

Começam as desilusões, os padecimentos: “contras”, estações de rádio que para ele se fecham, diretores “que não estão em casa”, etc. E o pobre sambista vê que o ambiente é contra si e que as suas ilusões, uma após outra, estão desfeitas. E o malandro sofredor volta e na mesa do café compõe uma melodia talvez mais linda que a outra, narrando a amarga história de um samba que foi recusado e ninguém quis cantar..."


Fonte: Artigo, desenho e fotos da revista CARIOCA, de 18/01/1936.

sábado, dezembro 28, 2013

Lupe, a moreninha da praia

—— “Acabaram de ouvir Lupe em “Paris”, marcha de sua autoria”, —— anunciou o “speaker”.  Ficamos atônitos, à porta do estúdio. Como Lupe Velez estava de novo no Brasil? A nossa curiosidade durou pouco, pois a porta não tardou em se abrir para dar passagem a uma morena muito brasileira, de grandes olhos negros e cabelos grudados com “gomina”, formando uma espécie de capacete, onde, fazendo prodígios de equilíbrio e desafiando a lei da gravidade, se encontrava uma minúscula boina verde.

Lupe Ferreira representa o último tipo da garota “made in Rio for 1935”. Se fosse necessário eleger o tipo ideal da carioca de hoje, caberia a Lupe, sem dúvida, o título.

Esta “pequena” inteligente, que passa os dias enfrentando o sol em Copacabana e nas horas vagas, compõe sambas, num torneio como esse, não poderia deixar de sair triunfante. Não é por ventura a carioquinha ideal, uma morena queimada, que saiba conversar e nas horas vagas compor sambas? ...

Para uma criatura como Lupe, a apresentação é franco passadismo. Foi por isso que não procuramos intermediário para a nossa conversa. Lupe é muito amável e em se tratando de uma “carioca”, os deveres que o coleguismo impõe, fizeram com que esta amabilidade aumentasse cinquenta por cento.

—— Muita animação para o Carnaval?

Lupe preferiu responder cantando a sua marcha, que é, efetivamente, um sucesso. Basta dizer que, quando ela acabou estávamos rodeados de todo o “cast” da Tupy que fazia o coro.

—— Como fez a marcha?

—— Comecei a pensar no Carnaval. Sonhei que estava em plena folia, “puxando” um “cordão”. Veio a inspiração nesta hora e aí está o resultado.

Recordamos a Lupe, aqueles tempos em que ela cantava na Mayrink Veiga, canções francesas e ela nos respondeu:

—— Isto foi há quatro meses. Eu agora sou francamente do samba. Não quero saber de outras coisas. Nele há vários gêneros. Na canção francesa temos que nos limitar à imitação de Luciam Boyer. Além disso, creio que o samba me é mais sensível. É natural: sou brasileira.

—— A que tipo de samba pretende se dedicar?

—— Ao samba bem carioca. Aquelas batucadas de morro, onde o malandro chora eternamente as suas mágoas, num ritmo capaz de comover o mais ríspido bretão...

Lupe continua:

—— Tenho outra marcha para o Carnaval: “Uê, Uê, Macacada”. Creio, porém, que “Parei” agradará mais. Pretendo mesmo, me consagrar com ela. Tem uma letra interessante e cheia de “veneno” que o povo tanto gosta. Tenho receio porém dos outros concorrentes: “Querido Adão” é, dos conhecidos, o mais perigoso. Ainda assim creio que terei a emoção de ouvir a minha marchinha, cantada por algum “cordão”, durante os três dias...

—— Pretende continuar compondo?

—— Tenho pela música, verdadeira paixão. À ela dedico todos os momentos de lazer. Pretendo mesmo, continuar compondo. Aliás, “Parei” não é a minha primeira música. Já tenho feito muitas outras, que eu guardei para mim: inúmeras “fantasias” sobre músicas variadas e até uma vez cantei na Mayrink, uma canção de minha autoria. Agora porém, eu sou do samba e para as outras músicas só tenho uma resposta: “parei” ...


Fonte: CARIOCA, de 11/01/1936.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Lalá, Lelé, Lili...

Lili (Lycia Carvalho Costa Reis), cantora, nasceu em Niterói, RJ, mas ainda recém-nascida, seus pais se mudaram para São Paulo, Capital. Desde cedo, muito jovem ainda, ouvia rádio, cantava e tocava piano e violão.

O cantor Paraguaçu a levou ao maestro Gaó, que atuava na rádio Cruzeiro do Sul, que também irradiava para o Rio de Janeiro. Especializou-se em interpretar canções folclóricas brasileiras.

Para saber mais detalhes sobre a vida dessa artista, tão esquecida pelos "dicionários da MPB", acessem o site Museu da Pessoa, quando foi entrevistada recentemente, em 03/12/2013. À seguir uma reportagem da CARIOCA, de dezembro de 1935:

“Lili... —— Duas sílabas, idênticas e pequeninas, que evocam um mundo imenso de coisas e fantasias. Lili, lembra Carnaval. Sugere logo um “cordão” na Avenida, dançando e cantando:

“Lili, Ó meu bem
Teu amor eu tenho...”

Lili sempre foi motivo de inspiração para os sambistas cariocas, que infelizmente não conhecem a Lili paulista, cantora destacada e de mais futuro da Rádio Cosmos. Lili não tem sobrenome. Quer ser simplesmente Lili. É assim que o “speaker” a anuncia e foi assim que a chamamos para conversar um pouco conosco.

—— Tenho quase um ano de rádio, ora na Cosmos, ora na Cruzeiro, começou ela.

—— Como resolveu e conseguiu entrar para o rádio?

—— Todas as moças que gostam de rádio, tem no íntimo, pode estar certo, um grande desejo de cantar para o microfone para ouvir... Eu como as outras também tinha este desejo. Vontade não me faltava e vivia, assistindo nos estúdios, as transmissões. Uma criatura havia, que me despertava grande entusiasmo e a quem eu considerava um semideus — Gaó. Creio que o dia em que conseguisse falar com ele, seria o maior de minha vida. A oportunidade chegou: um dia ele estava no estúdio e eu gaguejando perguntei-lhe se era difícil cantar no rádio. Respondeu-me que dependia da voz. Fiz a experiência e dias depois, cantava num programa, quatro músicas: uma valsa, um samba, um fox e uma canção. Agradei...

—— Qual destes gêneros prefere?

—— A canção regional. Acho-a encantadora. Tem para mim encantos que dificilmente se podem exprimir. Mais do que qualquer outra música, pode a canção provocar a nostalgia numa criatura. Tem a canção toda a beleza e a grandiosidade do nosso país.

—— Qual, dentre as canções, é a sua predileta?

—— Das compostas exclusivamente para mim, “Pipoca, amendoim torrado”, de Príncipe Bugre. Tem dentro de sua melodia, toda a tristeza e a dolência de nossa alma. A minha predileta é, porém, “Leilão”, de Heckel Tavares, que às vezes chega a me provocar lágrimas...

—— Qual o compositor predileto?

—— Gosto de vários: Heckel, Joubert, Waldemar Henrique, Tupinambá. Creio porém que o primeiro ainda é o predileto, pois conheço e interpreto todas as suas composições.

—— Que pensa do fox americano?

—— Gosto. Acho-o lindo. Parece-me, porém, que não é muito de acordo com o nosso temperamento.

—— E por que não canta foxes?

—— Ao público parece sempre ridículo que uma brasileira cante, em inglês, coisas inglesas. Acham que devemos cantar sempre em português.

—— É então, muito exigente, o público paulista? ...

—— Terrível! Mais que o carioca. No Rio vê-se cantoras, meses e meses, com o mesmo repertório. Em São Paulo, se cantamos a mesma música três dias seguidos, começam logo os telefonemas de protesto.

—— Não tinha desejo de ir para o Rio?

—— Gostaria. O ideal, seria passar seis meses no Rio e seis aqui. Infelizmente, porém, é quase impossível realizá-lo, pois não tenho nenhuma proposta...

Ary Barroso apareceu. Vinha buscar Lili para dar começo à "Hora H", onde ela é figura de relevo e, dentro em pouco, víamos, através dos vidros da PRE-7, Lili tomando parte de um "sketch", e apresentando, assim, mais uma modalidade de sua arte, ainda nova para nós."

Jorge Maia, enviado especial de CARIOCA


Fontes: CARIOCA, de 28/12/1935; Museu da Pessoa, de 03/12/2013.