sábado, maio 17, 2014

A atividade dupla de Henrique Batista

Henrique Batista - Carioca, 6/3/1937
Foi numa das leiterias do centro da cidade. O professor Henrique Baptista tomava calmamente grandes goles de leite gelado. Face pensativa. Barbas negras, esquisitas. Olhar distraído. O repórter, viu e abordou.

— Professor Baptista!

— Boa noite ...

Eram oito horas da noite. Muito movimento na rua. O repórter entrou. Abancou-se à mesa. Papel. Lápis.

— Desejava resposta a umas tantas perguntas ...

— Relacionadas com ...?

— "Maria Bonita", rádio ...

— Estou, infelizmente, com muita pressa. Mas posso conceder-lhe cinco minutos ...

— É muita bondade ... Olhe-me, contento-me com quatro perguntas. Pode até fiscalizá-las ...

— Estou de acordo se forem apenas quatro. Farei o possível por lhe ser agradável.

O professor Henrique Baptista é irmão da conhecida intérprete de sambas Marília Baptista. E, como esta, também ele fez parte do elenco de artistas que aparecerem na filmagem "Maria Bonita" em "location" em Barra Mansa e atua no rádio carioca, dirigindo dois programas, um na Rádio Transmissora, outro na Rádio Educadora. Aliás ele e sua irmã sempre trabalham juntos em todos os setores da atividade radiofônica, constituindo mesmo uma dupla de sucesso no concernente a desafios e improvisos. Aquele interessante programa de improviso "É de babado ..." é de criação da dupla. E agora, com o temporário afastamento de Noel Rosa do nosso "broadcasting", ficando Patrício Teixeira parado, a dupla Henrique-Marília Baptista é a única nesse gênero de irradiação.

— Como foi a filmagem de "Maria Bonita"? -- perguntou o repórter.

— Eu cheguei de Barra Mansa na semana passada para não faltar ao meu programa radiofônico da Educadora, todas as quintas-feiras. Marília veio comigo. A rodagem das nossas partes no filme terminaram no mesmo dia. E desde aí ficamos mais ou menos livres ... Você quer que eu lhe diga como foi tudo: foi esforçada e foi bem dirigida por Julien Mandel. Não tive oportunidade de ver nenhuma prova da película, porém, assisti a algumas encenações e as achei muito boas.

— Diziam qua a principal protagonista feminina seria sua irmã, mas na verdade ...

— Não, não foi minha irmã. Aliás CARIOCA não se guiou pela voz corrente. Não foi minha irmã. E não estaria direito se o fosse. Ela é uma principiante, como sabemos, e embora se esforçasse muito não estaria ainda adaptada ao meio cinematográfico para lograr o grande êxito desejado por Mandel, como heroína de seu primeiro filme. A figura principal, Eliana Angel, é boa artista. Marília, no entanto, cantou um samba que deve agradar quando aparecer "Maria Bonita". Quanto a mim faço o papel de profeta ...

— E por isso usa estas barbas?

— Sim, fui obrigado a deixar crescer a barba. Onde se viu um profeta que se preza sem ela bem comprida e esvoaçante? Quando se é profeta, pelo menos e, filme, o apuro pessoal fica de lado ... Mas é como eu lhe estava dizendo. "Maria Bonita" deve agradar. A cotação que eu dou a esse filme, à parte de quaisquer interesses, é boa. Julien Mandel fez da obra literária de Afrânio Peixoto, uma obra cinematográfica à altura da fama e dos méritos que ele, Mandel, tem nos nossos meios artísticos. A rodagem geral da película deve ter terminado quinta-feira. E é muito provável que já em meados de abril ela possa ser exibida na Cinelândia. A respeito de "Maria Bonita" é só o que tenho a dizer ...

O repórter fez a sua terceira pergunta:

— Acerca do rádio?

— Agora estou outra vez numa atividade mais ampla. Antes eu tinha dupla ocupação e dupla preocupação, aos pulos, aqui e em Barra Mansa. A filmagem de "Maria Bonita" obrigou-me a um regular esforço. Mas creio bem que me sai ... assim ... assim ... da prova -- pelo menos envidei toda a minha boa vontade no sentido de não perder o gosto pelo cinema. De retorno ao rádio tenho a declarar que prossigo, aos domingos, no "Programa Casé" da Transmissora, e às quintas-feiras no "Sambas e outras coisas ..." da Educadora. Estou contente com o caráter, embora ainda pouco definido, que as coisas de rádio estão tomando esse ano. Todo mundo fala em novidades, em originalidades, em grandes empreendimentos ...

— E você também quer falar?

— Nem por isso. Talvez eu tenha muita coisinha passável por dentro do cérebro, mas por enquanto vou deixar tudo como está para evitar aborrecimentos. Marília continua comigo em todos os programas em que atuo e dirijo. E sei que ela vai lançar, brevemente, um novo repertório de sambas ...

— Pode me informar mais alguma coisa, coisa concreta, sobre esse repertório?

— Não, porque isso não se refere diretamente a mim, e além disso já passaram os cinco minutos que eu lhe concedi. Com a agravante desta sua última pergunta já deve ser a quinta ...

— Mas não pode ...

O professor Henrique Baptista levantou-se e apertou rapidamente a mão do repórter. Tinha um olho neste e o outro no relógio.

— Você está enganado pelas minhas barbas compridas, rapaz. Eu, na verdade, não sou profeta, nem de Cascadura ...

Cofiou a barbaça e ... desapareceu.


Fonte: Revista Semanal CARIOCA, de 6/3/1937, no artigo "Cinco Minutos com o Propheta" (texto atualizado).

quinta-feira, maio 15, 2014

A volta de Ivete Canejo

Yvette Canejo - Carioca de 27/2/1937
"Ivete Canejo, uma das estrelinhas mais simpáticas do rádio carioca, dona de uma voz agradável e uma maneira de cantar original, rapidamente tem vencido no cenário radiofônico do Rio.

A sua ausência dos microfones cariocas que tanto vinha inquietando os seus fãs, parece que terá fim: Ivete chegou há dias do Sul, onde estava cantando na PRF-9 e voltará dentro de breves dias para uma das nossas emissoras.

Ivete gostou de Porto Alegre. Divertiu-se e cantou muito. Levou aos gaúchos o samba carioca que ela, como poucas, conhece.

Com Moreno da Silva, um dos cantores mais populares do Rio, apresentou alguns sucessos cariocas que se transformaram em autênticos êxitos locais. "Cadê o toucinho", foi a música que mais agradou ao público gaúcho:

— Diariamente — diz-nos Ivete, Moreira da Silva e eu, éramos obrigados a cantá-lo, pois os pedidos telefônicos e pessoais não paravam. A música de Nássara, conseguiu, pois, um autêntico e completo triunfo.

— Que impressão trouxe do Sul?

— Gostei imensamente. Porto Alegre é uma cidade moderna e encantadora. Em cada habitante encontramos um amigo. As gentilezas para conosco foram tantas, que se torna difícil enumerá-las.

— Sobre o ambiente radiofônico?

— Os colegas locais, bons camaradas. Sobre os valores, não há nomes a destacar. Direi apenas que há gente boa e capaz de fazer sucesso no Rio.

— Quem lhe agradou mais? — insistimos.

— Há uma menina que na minha opinião é a mais interessante das artistas de Porto Alegre. Chama-se Zilda Bueno e canta com muito jeito, os sambas e as marchinhas tão de gosto dos cariocas. Em palco ela é um autêntico sucesso e, nos festivais que realizamos, Zilda foi um dos elementos destacados: tem muita vida e muita cadência. Chamam-na de Shirley Temple brasileira.

— E, agora, quais são os seus projetos?

— Voltarei para uma das nossas emissoras, para o que já tenho propostas em estudo e talvez, em junho, realize outro passeio ao Sul — concluiu Ivete, sorridente."


Fonte: Revista Semanal CARIOCA, de 27/2/1937 (texto atualizado mais a foto).

domingo, maio 11, 2014

Moreira da Silva gostou do Sul ...

Foto: CARIOCA, 20/2/1937
"Arrasta a sandália, aí, morena!
Arrasta a sandália, aí, morena!

Quem não se recorda deste samba de grande sucesso de 1933? E mais tarde:

Implorar
Só a Deus
Mesmo assim
Às vezes não sou atendido ...

Dois autênticos sucessos do passado e as duas maiores criações de Moreira da Silva, um cantor conhecido do público carioca e que felizmente não figura nos calendários radiofônicos ao lado dos "medalhões" ...

Moreira da Silva é o mais carioca dos cantores da cidade. Como nenhum outro, através do ritmo de um samba, ele sabe contar a simplicidade da vida dos nossos morros e de seus habitantes.

Artista original, como poucos do nosso broadcasting, Moreira vai lançar uma série de sambas novos, tipo "Jogo proibido", todos ainda desconhecidos do público carioca.

Há muito, porém, ele não se apresenta frente aos microfones cariocas. Porto Alegre com seus encantos e o seu público sempre acolhedor, prendeu-o por mais de um mês. Lá, segundo o testemunho dos jornais locais, o seu sucesso foi grande. "Cadê o toucinho?", "Vara criminal", "Trabalho me deu o bolo" e outras músicas genuinamente cariocas e 100 por cento Moreira da Silva, foram verdadeiros sucessos na PRF-9, Rádio Difusora de Porto Alegre.

Moreira é amigo de CARIOCA. Chegando ao Rio, tivemos logo a primazia de sua visita. Mostra-se encantado com o que viu e com a recepção que teve:

— Porto Alegre é uma cidade linda. Tem passeios encantadores e uma população amabilíssima com os artistas cariocas. Tivemos, Joel e Gaúcho, Ivette Canejo e eu, uma recepção, sob todos os aspectos, magnífica. Tantas foram as gentilezas que, nem sei como agradecer. Apenas em Porto Alegre há uma coisa que não me agradou: os mosquitos ... No dia que a Prefeitura resolver acabar com eles, creio que a capital rio-grandense será uma verdadeira sucursal do Paraíso ...

— E o ambiente radiofônico?

— O "pessoal" é igual. Há um sambista interessantíssimo: Lupiscínio Gonçalves (1). Algumas composições dele já são conhecidas do Rio. Trago, porém, comigo, outras inéditas, que serão lançadas brevemente.

Fazia-se tarde. Moreira já de pé se retirava, quando lançamos a última pergunta:

— E agora, que vamos fazer?

— Voltar para o Sul dentro de breves dias ...”

(1) Equívoco da reportagem ou de Moreira? Ele provavelmente falava de Lupicínio Rodrigues ou de Alcides Gonçalves, a dupla de compositores gaúchos.


Fonte: Revista Semanal CARIOCA, de 20/02/1937.