terça-feira, novembro 04, 2008

Engole ele paletó

Samba de J. Audi e David Nasser de grande sucesso no carnaval de 1958, lançado em janeiro desse ano nas gravações do Trio de Ouro (RCA Victor) e João Dias (Copacabana), esta última aqui ouvida, em disco de 78 rpm 5854-A, matriz M-2073, que gerou polêmica e briga na justiça entre alguns grandes compositores de nossa MPB (ao lado o Vasco vai enfrentar um time da cidade de Bicas - Jornal Última Hora, 1958).

O compositor Antônio Almeida, com o apoio da UBC, ingressou na justiça contra o que considerou este samba um "plágio deslavado" de O que é que dou?, de sua autoria e do baiano Dorival Caymmi, gravado por Jorge Veiga em 1947. No final de janeiro de 1958, Caymmi, ausente do Rio, cumprindo sua agenda profissional na Bahia, recebeu um telegrama pedindo uma procuração sua, para dar início à busca e apreensão do disco. No entanto, Edigar de Alencar, em seu livro O carnaval carioca através da música, quando menciona Engole ele, paletó e seu autor assinala o samba como sendo de autoria discutida.

Na coluna de Stanislaw Ponte Preta e Lan, (charge ao lado) do Jornal Última Hora de 14/02/1958, relata o caso com bastante humor: "Em virtude do fundamentado despacho do Juiz Alcino Pinto Falcão, procedeu-se ontem à tarde, a busca e apreensão da música de carnaval "Engole ele, paletó", havida como cópia servil de outra, isto é, do samba de Dorival Caymmi e Antônio Almeida - "O que é que eu dou". 

E quem é o autor do plágio? Pois é Herivelto Martins (um dos dez mais apitos de 57), que já deu entrevista dizendo que "Engole ele" é plágio de um plágio, pois a música plagiada era plágio, não do plágio que se quer, mas de uma outra música plagiada pelos que lhe acusam de plagiador. 

É, companheiros... nem só de teleco-teco vive o samba!."

Se os autores do suposto plágio são J. Audi e David Nasser, o que tem a haver Herivelto Martins, que apenas interpretava no Trio de Ouro, citado na coluna acima? As primeiras gravações, os discos, esgotaram-se rapidamente, tamanho o sucesso. Engole eu, confusão!

Engole ele paletó (samba/carnaval, 1958) - J. Audi e David Nasser - Interpretação de João Dias




Engole ele / Engole ele, paletó
Engole ele, paletó / Que o dono dele era maior.

Paletó de gente pobre / Não tem tamanho nem cor
No verão é guarda-chuva / No inverno é cobertor.

Gente rica quando morre / Papai do céu quem levou
Gente pobre quando morre / Foi bebida quem matou.

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Fontes: Jornal Última Hora, de 14/02/1958; Dorival Caymmi – O Mar e o Tempo – Editora 34, de Stella Caymmi; Samuel Machado Filho (Youtube).