segunda-feira, março 19, 2012

Bide também fez marchas-ranchos

Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal no bairro Engenho de Dentro.

Sambista famoso, nascido e ainda morando no decantado Estácio de Sá, reduto sempre posto em evidência quando se historia a nossa música popular, Bide (Alcebíades Barcellos) não é, no entanto, apenas isto. Glorificado, e com muita justiça, como autor de Meu primeiro amor (com Marçal), Fui um louco, a Malandragem e, principalmente, o universalizado Agora é cinza, no qual teve novamente como parceiro, Armando Marçal, ele é tido apenas como sambista. Pouca gente sabe que Bide também foi autor de bonitas marchas-de-rancho.

A popularidade de seu nome e de seu apelido, trazido de casa desde garoto, e não ganho, como podem supor, no meio musical, se fez, de fato, como sambista. Ainda mais tendo-se em conta que foi ele um dos fundadores da também famosa Escola de Samba (ou bloco carnavalesco) Deixa Falar. Mas quando o conjunto se transformou em rancho (1932) Bide, juntamente com Capellani e Henrique Camargo, foram os principais compositores das marchas entoadas pelo coral nos desfiles dos chamados dias gordos. E o sambista Barcellos, mudando o ritmo, mas sempre rico de inspiração melódica, contribuiu para o êxito de sua agremiação com bonitas e expressivas músicas.

Chico Viola encontra Bide na “gafieira”

A verdadeira projeção de Alcebíades Barcellos na música popular da Sebastianópolis deu-se em 1928 quando, devido ao sucesso de seu samba A malandragem, Francisco Alves (Chico Viola) foi ao seu encontro. Não o procurou em casa ou nas rodas do Estácio de Sá, surpreendeu-o na Estrela D’alva, uma agremiação recreativa (gafieira), então existente no Largo do Rio Comprido. E enquanto os pares dançavam, no bar, esvaziando alguns copos de bia (cerveja), o cantor acertava com o novel compositor a gravação de seu samba que, afirmava entusiasmando-o, ia abafar.

Dias depois, Bide, simples operário da Fábrica de Calçados Bordallo, na Rua do Núncio (agora República do Líbano), vivia um grande momento de sua vida. Encontrava-se na Casa Vieira Machado com aquele que ia ser o intérprete de seu primeiro samba gravado em disco e divulgado por uma editora de músicas para piano. Tímido, mas ao mesmo tempo empolgado, Alcebíades Barcellos, depois de apresentado a Rogério Guimarães, que ali estava, a escrever a melodia, começou a cantar: “A malandragem,/ Eu vou deixar,/ Não quero saber da orgia,/ Mulher do meu bem querer/ Esta vida não tem mais valia.” As notas iam sendo lançadas nas linhas e nos espaços da pauta fixando no papel a composição de estréia de um autor que, rápido, se tornaria um dos grandes nomes de nossa música popular.

Bide, um dos maiorais do “Deixa Falar”

Vivendo num bairro onde o samba tinha o seu culto em diversas modalidades ele pôde escolher. Não quis o pesado (batucada), do alto do Morro de São Carlos. Preferiu o de simples diversão, e que era entoado no próprio Largo do Estácio em frente à Escola Normal que ali estava situada. Tinha pois, forçosamente, que integrar o Deixa Falar. A princípio simples sujo (bloco carnavalesco), era um grupo de sambistas que se reunia no Bar Apoio ou no Café do Compadre, onde cada um dava a pala (amostra) de suas músicas, de suas composições. Depois, nas proximidades dos festejos momísticos, com sua bateria, seus cantores, fazia ensaios no referido largo para sua ida à Praça Onze de Junho nos dias de Carnaval.

Integrado por catretas (catedráticos) tais como Ismael Silva, Nilton Bastos, Armando Marçal, Rubens, Baiaco, Brancura e outros, o Bloco Deixa Falar, depois Escola de Samba, tinha também como um de seus maiorais o Bide. Quando, em 1930, na programação do Carnaval, patrocinou-se uma competição entre as várias escolas então já existentes, no Morro da Mangueira, na estrada do Portela, etc., a rapaziada do Deixa Falar entrou nesse certame. Alcançou o primeiro lugar. Alcebíades Barcellos lá estava martelando o tamborim, cantando os sambas de sua autoria e os de seus companheiros.

A Escola transforma-se em Rancho

Em 1932, por iniciativa de alguns de seus componentes, entre eles Osvaldo dos Santos Lisboa (Oswaldo Papoula), Eurípedes Capellani e Julião Santos, a Deixa Falar transformou-se em rancho, Bide foi escolhido para ser o diretor de harmonia. Aceitou o cargo, e embora sambista, surpreendeu a turma fazendo duas marchas. Ambas bem ao ritmo da nova modalidade com que a vitoriosa Escola ia se apresentar concorrendo com o Flor do Abacate, o Arrepiados, o Miséria e Fome e mais alguns ranchos tradicionais da época. As composições agradaram inteiramente formando, com as de Capellani, Camargo e Julião, o repertório a ser cantado pelo corpo coral.

Intitulada, uma, Meu segredo, tinha o seguinte coro: “As mariposas, tão lindas,/ Nas noites de primavera/ Ao romper da madrugada,/ Vejo cantar a passarada.” Seguia-se o solo onde, em contra-canto, Aurélio, com sua voz bonita, que lhe proporcionou o apelido de Garganta de Ouro, destacava-se em agudos. A outra, Rir para não chorar, igualmente pomposa, além da melodia bonita e a cadência que permitia ao mestre-sala Benedicto Trindade (Rei da Elegância) exibir-se em floreios coreográficos, dizia em sua parte coral: “Rir para não chorar/ Quando passar/ O Deixa Falar./ Velam a nossa beleza,/ Quanta riqueza/ Para quem pode enfrentar,/ Enfrentar!”.

Mas o samba não perdeu um grande compositor

O fato de Bide desviar-se do samba para outro ritmo, o das marchas-de-rancho, que tivera grandes compositores como Sebastião Cyrino, Antenor de Oliveira, Napoleão de Oliveira, Pedro Paulo e muitos mais, foi apenas momentâneo. Não o fez deixar de ser aquilo que de fato era, e é: sambista. Retornou logo ao que era de sua preferência musical e, em 1934, via toda a cidade cantando com ele: “Fui um louco/ Resolvi tomar juízo...“. No ano seguinte, na onda do sucesso, em parceria com Marçal, registrava o máximo de sua carreira com o clássico de nossa música popular, o Agora é cinza.

Não são apenas estes os melhores sambas dentre os muitos que Bide, sozinho ou em parceria, conta na sua grande produção musical. Muitos outros, encontrados facilmente numa relação precisa feita por cuidadosos musicólogos (Almirante, Ary Vasconcellos, José Ramos Tinhorão, Lourival Marques, Lúcio Rangel) atestarão o excelente e genuíno sambista que ele é.

Sambista que, na revelação acima mostrado como autor de marchas-de-rancho, deve ter causado surpresa, inclusive a de que a tão citada Escola de Samba Deixa Falar foi também rancho carnavalesco.

(O Jornal, 21/7/1963)


Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.