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segunda-feira, março 26, 2012

Os Geraldos e os cafés-cantantes

Os Geraldos
Como quase todos os cançonetista da época, o mulato gaúcho Geraldo Magalhães começou nos chopps e cafés-cantantes que, no fim do século passado (1898-99) e princípio deste contavam-se às dezenas aqui no Rio. Exibiu-se, assim, num que havia na Rua da Carioca, noutro existente na Rua da Assembléia e, ainda, no denominado Ao Chopp Grande, na Rua do Lavradio n.° 55. De permeio com essas exibições, fazia também suas serenatas abrindo a voz volumosa que possuía (razão de o classificarem como barítono) ao clarão da lua e acompanhado pelos indispensáveis violões.

Tornando-se figura conhecida da cidade, assinalava então sua verdadeira estréia teatral no Salon Paris da Rua do Ouvidor, onde com variado repertório de cançonetas e lundus conquistava demorados aplausos. Dali transferia-se (em 1900) para o Alcazar Parque, da Rua Teotônio Regadas, n.° 17, no Largo da Lapa, e formando par com a “castelhana” Margarita (ou Margherite) faziam grande sucesso com o Dueto do Buraco, malicioso, picante. No ano seguinte ia para o Moulin Rouge, sendo logo chamado a apresentar-se no Passeio Público, Maison Moderne, etc. Depois, já famoso e com Nina Teixeira, sua nova partenaire, também mulata e gaúcha, antes do término de 1908 estava em Paris.

“Vem cá, mulata”, “Vassourinha”, “Caraboo”, etc.

Cantando musiquinhas brejeiras, de ritmo gostoso e com versos algumas vezes de duplo sentido, outras exaltando o amor, glorificando paixões, Geraldo Magalhães conquistou logo a simpatia do público: continuou a merecê-la, e mesma vê-la aumentada quando já se denominando Os Geraldos, formou duo com Margherite, substituída por Nina e, mais tarde, pela portuguesa Alda Soares. De atraente presença cênica, aparecendo sempre de casaca, cartola e monóculo, ao lado da companheira igualmente elegante em vestidos cheios de lantejoulas e de cores bem vivas, dispunham a platéia a recebê-los com palmas.

Cessada a recepção festiva do público, a orquestra atacava os primeiros acordes e Geraldo cantava insinuante: “Vem cá, mulata!” Prontamente, no andamento da música, a companheira respondia esquiva: “Não vou lá, não! Sou democrata, De coração!”. Prosseguia o dueto nesse tom gracioso e ao término toda a assistência deixava claro seu pleno agrado aplaudindo com entusiasmo. Mostrando versatilidade, interpretando gênero diverso na continuação do programa, Geraldo cantava sozinho: “Ò minha Carabu. / Dou-te o meu coração...“. Voltavam os dois e, ele com a vassourinha, ela com o abanador, entoavam em diálogo a marchinha alegre: “Varre, varre minha vassourinha. / Abana, abana meu abanador”.

Nas “Orópicas” mostrando o maxixe do Brasil

Quando um transatlântico levou os dois cançonetistas ao Velho Mundo, a par de seu repertório alegre, saltitante, Geraldo e Nina tinham também como propósito lançar em Paris e Lisboa o maxixe brasileiro. Que lograram seu intento deu testemunho a Gazeta de Notícias, dizendo em 31 de janeiro de 1909: “No Rio ‘de Janeiro todo o mundo que se diverte conhece O Geraldo, o duo dos Geraldos, dois mulatinhos sacudidos que sabem dançar o maxixe com uma habilidade cheia de efeitos, que sacodem os nervos e alegram a alma...“. E concluía: “... Agora Os Geraldos estão em Portugal, fazendo um verdadeiro furor...“.

Vitoriosos na sua excursão ao estrangeiro regressavam e antes do desembarque recebiam convites de diversos empresários patrícios. Vinham elegantérrimos e por isso não escaparam à glosa da revista Rio Chic em seu número de 3 de abril de 1909: “... acham-se de novo entre nós o apreciado ator Leonardo e os cançonetistas Nina e Geraldo, este último, ao que parece, aproveitou bem a sua estada lá pelas Orópicas, quando nada, aprendeu a vestir-se e a usar luvas”. Ajuntava, ainda, com a mesma mordacidade: “Volta-nos com pose, rempli de soi même, como diria um parisiense”. Gracejo, piada improcedente, pois Geraldo, como assinalou Paulo Barreto em A alma encantadora das ruas, sempre “deitou elegância e botinas de polimento”.

Revivescência do Velho Rio

No momento, quando a atual Guanabara, herdeira das tradições do velho Rio, está se preparando para festejar seus quatrocentos anos, Almirante (Henrique Foreis) sugere que se traga ao Brasil o nosso Geraldo Magalhães. Informado de que o jamais esquecido cançonetista, nos seus gloriosos oitenta anos ainda vive em Portugal (Rua Anthero do Quental, nº 30, em Lisboa) lembra o quanto de ternura haveria em sua presença, aqui. Recordar-se-ia a Caraboo, o Vem cá, mulata, a Vassourinha e tantas outras cançonetas que Os Geraldos interpretavam provocando palmas de numerosas platéias em delírio, insatisfeitas, exigindo em alvoroço: bis!, bis!.

O velho Rio, do Alcazar, do teatrinho do Passeio Público, da Guarda Velha, da Maison Moderne, do Moulin Rouge, do Palace-Theatre e, principalmente, dos cafés-cantantes e chopps, seria revivido na figura do querido Geraldo. Ter-se-ia no programa de comemorações o evocativo da época bela e afrancesada com suas chanteuses a voix, chanteuses gommeuses e seus cançonetistas dos quais Os Geraldos foram, sem contestação, os mais autênticos representantes.

(O Jornal, 25/10/1964)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

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