quinta-feira, dezembro 19, 2013

Alzirinha, a professora do rádio

"De Alzirinha Camargo, presente de Natal que São Paulo enviou ao “broadcasting” carioca, só se pode dizer que é uma vitoriosa. A sua atuação ao microfone da Rádio Tupi, desde aquela noite em que lançou o “Querido Adão”, tem sido uma série sucessiva de triunfos.

Cantora de grande sensibilidade artística é Alzirinha, intérprete de diversos gêneros. Dela se pode afirmar que conhece o segredo da canção regional e das lendas amazônicas, ao mesmo tempo que anima e movimenta um samba muito carioca.

Não estávamos, positivamente, com sorte, na noite que resolvemos entrevistar Alzirinha. A simpática lourinha, havia acabado de interpretar uma marcha que, a seu ver, tinha sido um fracasso. É muito difícil dizer a uma cantora de rádio que ela cantou mal. Mais difícil, porém, é convencê-la de que o seu insucesso foi apenas imaginário...

— Como entrou para o rádio?

Alzirinha estava alegre e nos respondeu:

— Estudava na Escola Normal de Itapetininga, minha cidade natal e era solista do Orpheon. Pessoas de minha família me aconselharam o rádio. Quando recebi o diploma de professora.

— Não sabíamos que tinha esse título.

— Pois fique sabendo. Fui para São Paulo logo depois. Por intermédio de Sivan, consegui ingressar na Rádio Educadora de São Paulo. Daí passei à Record. Em seguida estive na Cruzeiro, de onde saí para inaugurar a Difusora. Da Difusora fui ao Rio Grande do Sul, inaugurar a Farroupilha e agora estou aqui.

- Qual a primeira música que interpretou ao microfone?

- “Moreninha brasileira”, de Joubert de Carvalho. Lembro-me ainda muito bem. Esta marchinha durante muito tempo, foi a minha predileta. Talvez por gratidão...

- Quais as músicas que lhe agradam?

— São aquelas caracteristicamente brasileiras. São as músicas de Hekel Tavares, Waldemar Henrique e Humberto Porto, um dos valores novos da nossa música, mas possuidor de inegável talento. Creio, porém, que “Banzo”, de Hekel, dentre todas é ainda a que mais se destaca.

— Como encara o “broadcasting” em São Paulo e no Rio?

— Ambos os meios são bons. Existe, porém, no Rio, um campo mais vasto de expansão para o artista. O público aqui é mais caloroso e nos aplaude com mais entusiasmo, enquanto em São Paulo sentimos sempre a frieza dos ouvintes que não se manifestam através de cartas e telefonemas como aqui. Note-se: lá há gente tão boa como aqui. Pena é que o público não esteja nesta situação de igualdade.

— Das músicas que tem lançado para o Carnaval? Quais as suas esperanças?

— Sou suspeita para falar, pois gosto de todas. Baseando-me porém, no aplausos que recebo quando canto, creio que “Querido Adão” é a que mais se destaca. Parece-me que esta marcha tem agrado. Creio porém, que as músicas que vão abafar, ainda não apareceram. Ainda se encontram nas casas dos compositores, bastante escondidas, para que se evite o plágio...”.


Fonte: CARIOCA, de 28/12/1935