segunda-feira, abril 03, 2006

Ai, seu Mé

Freire Jr.
No final de 1921, a campanha eleitoral para a sucessão do presidente Epitácio Pessoa empolgava o país. Eram candidatos Artur Bernardes, pela situação, e o dissidente Nilo Peçanha, pela oposição. Vítima de uma calúnia jornalística, Bernardes cairia na antipatia do povo, que passou a chamá-lo de "Carneiro", "Rolinha" e "Seu Mé". A razão dos apelidos era sua suposta passividade diante das maquinações políticas, defeito que lhe atribuíam os adversários.

Acreditando numa derrota do candidato oficial, os compositores Freire Júnior e Careca (Luís Nunes Sampaio) decidiram, então, participar da campanha ridicularizando-o na marchinha "Ai Seu Mé":

"Ai Seu Mé / ai Seu Mé / lá no Palácio das Águias, olé / não hás de pôr o pé (...) Rolinha desista / abaixe esta crista (...) a cacete / não vais ao Catete / não vais ao Catete...".

Na realidade um plágio, uma espécie de colagem de três sucessos da época - o fox "Salomé" (de R. Stolz e E. Neri, que teve uma versão em português com o título de "Abajur" ); a canção "Mimosa" (de Leopoldo Fróes); e a marcha "Ai Amor" (do próprio Freire Júnior) - o "Ai Seu Mé" caiu imediatamente nas graças do público, tornando-se o grande sucesso do carnaval de 1922, apesar da proibição da polícia, que chegou a recolher os discos gravados pelo Baiano e a Orquestra Augusto Lima.

Contrariando o prognóstico dos autores, "Seu Mé" foi eleito, empossado e passou quatro anos no Palácio das Águias, governando sob estado de sítio. E de nada valeu a precaução de assinarem a composição com o pseudônimo de "Canalha das Ruas", pois Freire Júnior acabou sendo "preso e recolhido à solitária por duas ou três vezes" (segundo o historiador Ary Vasconcelos), enquanto Careca, mais esperto, passava uma temporada escondido, fora do Rio. Se Mário de Andrade fosse comentar esta história, diria certamente: "mas isso é tão Brasil...".

Ai Seu Mé (marcha, 1922) - Freire Júnior e Careca

"Canalha das Ruas" lança disco selo Popular em 1920:

Disco selo: Popular R / Título da música: Ai Seu Mé / Freire Júnior (Compositor) / Careca (Compositor) / Canalha das Ruas (Intérprete) / Orquestra (Acomp.) / Nº do Álbum: 4054 / Nº da Matriz: #4054 / Lançamento: 1920 / Gênero musical: Marcha / Coleção: Nirez D



Cantor Bahiano lança disco selo Odeon em 1922:

Disco selo: Odeon R / Título da música: Ai Seu Mé / Freire Júnior (Compositor) / Careca (Compositor) / Bahiano (Intérprete) / Orquestra do Chico Boia (Acomp.) / Coro (Acomp.) / Nº do Álbum: 122115 / Nº da Matriz: #122115-5 / Lançamento: 1922 / Gênero musical: Marcha / Coleções: IMS, Nirez



Interpretação de Francisco Alves em disco Odeon lançado em 1927:

Disco selo: Odeonette / Título da música: Ai Seu Mé / Freire Júnior (Compositor) / Careca (Compositor) / Francisco Alves (Intérprete) / Nº do Álbum: 103-uma / Nº da Matriz: 109 / Lançamento: 1927 / Gênero musical: Marcha



O Zé Povo quer a goiabada Campista
Rolinha desista / Abaixe esta crista
Embora se faça uma "bernarda"
A cacete / Não vais ao Catete
Não vais ao Catete

Ai seu Mé / Ai Mé Mé
Lá no Palácio das Águias, olé
Não hás de pôr o pé

O queijo de Minas tá bichado
Seu Zé / Não sei porque é
Não sei porque é
Prefira bastante apimentado, Yayá
O bom vatapá / O bom vatapá



Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34

domingo, abril 02, 2006

Esta nega qué me dá

Canninha - 1928
A melodia é pobre, a letra apenas razoável: "Esta nega / Qué mi dá / Eu não fiz nada / Prá apanhá...". Mas o título de duplo sentido acabaria por fazer deste samba um dos sucessos do carnaval de 1921.

Seu autor, Caninha, aqui em parceria com o bailarino Lezute, foi um dos mais ativos compositores da primeira geração de sambistas, chegando a rivalizar com Sinhô no início dos anos vinte.

Seus sucessos, porém, ficaram restritos a esse período, embora ele tenha vivido até 1961. Frequentador da casa da Tia Ciata, Caninha (Oscar José Luís de Morais) ganhou o apelido quando, adolescente, vendia rolete de cana nas imediações da Central do Brasil, no Rio de Janeiro (Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

"O Canninha, sempre procurou seguir as pégadas do Sinhô, não logrando, porém, o mesmo successo. Por mais que se esforçasse, o Canninha jamais conseguio siquer aproximar-se do Rei do Samba, ou ter um logar de destaque na sua Côrte...

E' que as produções do conhecido muzicista, quasi sempre peccavam pelo imprevisto... asnatico, tão proprio do popularissimo compositor que teve o topete de dizer que o Maestro Francisco Braga, ouvindo no cinema Odeon este samba manteve com elle o seguinte dialogo :

MAESTRO F. BRAGA: – «Seu Canninha», o senhor sabe muzica ?
CANNINHA: – (risonho e amavel) Maestro eu engulo um bocadinho de cabeça de nota!...
MAESTRO F. BRAGA: – (Enthusiasmado) Pois olhe, seu Canninha, este seu samba, até parece muzica classica !
CANNINHA: - Se isto é verdade, o maestro Francisco Braga está na obrigação de uma grande penitencia perante Santa Cecilia!

Já vae longo este capitulo e o assumpto dá margem a outros. Prometto continuar, porque «piano, piano...»" - Na Roda do Samba - Francisco Guimarães (Vagalume) - Rio de Janeiro, 1933.

Esta nega qué me dá (samba-maxixe, 1921) - Caninha e Lezute

Interpretação do cantor Bahiano em disco Odeon lançado em 1922:

Disco selo: Odeon R / Título da música: Esta nêga qué me dá / José Luis de Moraes "Caninha" / Bahiano (Intérprete) / Nº do Álbum: 121968 / Data de Lançamento: 1922 / Gênero musical: Samba / Coleção de fontes: Nirez



Interpretação de Almirante com A Velha Guarda em 1955:

LP 10' A Velha Guarda / Título da música: Esta Nega Qué Me Dá / "Caninha" (Compositor) / A Velha Guarda (Donga, João da Bahiana e Pixinguinha) (Intérprete) / Almirante (Intérprete) / Gravadora: Sinter / Nº do Álbum: SLP 1038 / Ano: 1955 / Faixa: B1 / Gênero musical: Samba



Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá

Nega, tu não faz feitiço / Que eu tenho o corpo fechado
Tapa de amor não dói / Por isso apanhou casado

Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá

Eu tenho os osso quebrado / Quebrado só de apanhá
Oh Nega, toma cuidado! / Que eu também vô te ripá!

Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá


Fontes: Na Roda do Samba - Francisco Guimarães (Vagalume) - Rio de Janeiro, 1933; A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Na casa branca da serra

Segundo Almirante "se há uma modinha que se possa considerar tradicional no Brasil, esta é chamada “Na Casa Branca da Serra”, da autoria de Miguel Emílio Pestana, com versos de Guimarães Passos. Há dezenas de anos que “Na Casa Branca da Serra” tem sido ao mesmo tempo do repertório dos seresteiros de rua como das mais graciosas senhoritas nos elegantes saraus, já em desuso" (O Pessoal da Velha Guarda, 14-12-1950).

Na Casa Branca da Serra (modinha, 1880) - Guimarães Passos e Miguel E. Pestana

Interpretação de Mário Pinheiro em disco Odeon lançado em 1904:

Disco selo: Odeon Record / Título da música: A Casa Branca / Guimarães Passos (Compositor) / Miguel Emídio Pestana (Compositor) / Mário Pinheiro (Intérprete) / Violão (Acomp.) / Nº do Álbum: 40139 / Nº da Matriz: Rx-2 / Lançamento: 1904 / Gênero musical: Modinha / Coleção de Origem: IMS, Nirez



Interpretação de Vicente Celestino em disco RCA Victor lançado em 1961:

Disco 78 rpm / Título da música: Casa Branca da Serra / Guimarães Passos (Compositor) / Miguel Emídio Pestana (Compositor) / Vicente Celestino (Intérprete) / Orquestra (Acomp.) / Nº do Álbum: 80-2295-a / Nº da Matriz: M2CAB-1170 / Gravação: 10/Janeiro/1961 / Lançamento: Fevereiro 1961 / Gênero musical: Valsa canção



---C --------G7--------- C -
Na casa branca da serra
Dm--------------------- C-- C#º
Onde eu ficava horas intei-ras
Bbº----------------- F7M-- F#º
Entre as esbeltas palmei- ras
G7--------------C ---C7
Ficaste calma e feliz
--F7M------------F#º------ C-- C#º
Tudo em meu peito me des- te
---Dm -----------------C-- C#º
Quando eu pisei na tua ter- ra
------F7M---- F#º-------- C--- C#º
Depois de mim te esqueces- te
------G7--------- G/B ----C-- C#º- Dm- G7
Quando eu deixei teu país.

---C---------- G7-------- C--
Nunca te visse oh! formo-sa
----Dm ---------C --C#º
Nunca contigo falas- se
------Bbº---- -------- F7M-- F#º
Antes nunca te encontras- se
----G7------------- C---- C7
Na minha vida enganosa
----F7M------------ F#º-- C-- C#º
Por que não se abriu a ter- ra
---Dm--------- ---------- C-- C#º
Por que os céus não me puni- ram
------F7M ------------F#º-- C-- C#º
Quando os meus olhos te vi- ram
---G7-------- G/B------ C ----C#º Dm G7
Na casa branca da serra.

(Instrumental)

-----C------ G7--- C--
Embora tudo bendi-go
----Dm---------- C-- C#º
Desta ditosa lembran- ça
Bbº------------------ F7M- F#º
Que sem me dar esperan- ça
---G7----------------- C---- C7
De unir-me ainda contigo
------F7M ----F#º--- C-- C#º
Bendigo a casa da ser- ra
------Dm----- ------- C--- C#º
Bendigo as horas faguei- ras
----F7M -------F#º----- C-- C#º
Bendigo as belas palmei- ras
------G7 -----G/B--- C----- C#º Dm G7 C
Queridas da tua terra.


Fontes: Instituto Moreira Salles; Discografia Brasileira.