quinta-feira, janeiro 16, 2014

Heloísa Helena voltou ...

Heloísa numa foto dedicada à CARIOCA
Heloísa Helena, a garota que conseguiu popularidade, interpretando foxes americanos ficou vários meses afastada do nosso “broadcasting” havendo mesmo declarado ter deixado definitivamente o rádio. Motivos particulares forçaram tal decisão que a apreciada artista modificou, assim que encontrou uma “chance” ...

— Minha família se opunha, — declara Heloísa. — Talvez porque eu andasse com a cabeça cheia de foxes, sambas e blues, descuidando dos meus estudos de italiano, francês, inglês e literatura. Agora estudo a semana toda. Canto aos domingos como prêmio ...

Heloísa Helena possui uma simplicidade encantadora. Graças ao seu tipo de morena bem brasileira, o cinema conseguiu obtê-la durante esse período de ausência. Heloísa filmou na Cinédia, “Alô, Alô, Carnaval” ... e vai filmar ainda, achando que a sua carreira cinematográfica não terminará tão cedo.

— Porém o rádio sempre foi a minha grande paixão, — diz Heloísa à CARIOCA. — Uma espécie de paixão incorrigível, que aumenta a proporção que encontra obstáculos pelo caminho ... Agora parece que voltei a ele. Digo “parece” com um respeito quase supersticioso.

Heloísa Helena logo que ingressou para o meio radiofônico interpretava unicamente foxes americanos. Obteve um mundo de fãs, que se entusiasmavam com a sua interpretação, enviando-lhe um mundo de cartas e vários pedidos de retratos. Depois as circunstâncias impediram-na de continuar a encantar seus inúmeros ouvintes.

Heloísa Helena, garota obediente e inteiramente devotada ao sossego do seu lar feliz, passou vários meses entretida a colecionar retratos de outros artistas. A “pequena dos foxes alucinantes”, como a apelidou César Ladeira, era até há pouco tempo grande amiga de Sylvinha Mello, a bonequinha de feltro do nosso rádio.

Voltando a fazer parte da grande família radiofônica, Heloísa teve para todos os colegas uma palavra de carinho. Ela ainda continua a admirar Carmen Miranda, Francisco Alves e todos os demais artistas admiráveis. E ainda olha com uma ternura infinita a pequenina rodela de aço que transmitirá, lá fora, a sua voz americanizada.

Contando como entrou para o rádio, que se tornou mais tarde a sua grande paixão, Heloísa declara:

— Eu jamais cogitei de microfone até o instante em que o meu professor de literatura Oswaldo Orico, lembrou-se de organizar um programa na Rádio Sociedade, convidando-me a tomar parte no mesmo. A princípio foi tudo mera experiência, porém, depois, tomei gosto. Passei logo a atuar na PRA-2, PRA-3, e PRA-9, estação onde obtive o contrato mais longo, o qual durou quase um ano.

Heloísa cantou várias vezes, também, no “Programa Casé”, e guarda saudades desse tempo.

Agora ela estuda, com grande afinco, várias matérias e compõe sambas e canções, tendo já as seguintes produções: “Tempo bom”, “O mais cotado da Favela”, “Uma palavra de amor”, além de vários foxes de parceria com Francisco Mattoso.

Atuando na Mayrink, aos domingos, “como um prêmio aos seus estudos”, Heloísa demonstra a sua irresistível tendência artística e grande pertinácia.

— O meu supremo desejo é cantar sempre, — diz Heloísa Helena.

Ela aprecia o destino das cigarras que cantam, uma vez que nasceu gente com alma de cigarra, sem poder, no entanto, cantar tanto como deseja.


Fonte: CARIOCA, de 9/5/1936 (texto atualizado).

terça-feira, janeiro 14, 2014

Dois irmãos de verdade...

"Quando Mário nasceu, João já sabia andar, falar e empinar papagaios com os outros garotos da sua rua. Olhando o pequenino loiro que a família lhe apresentou como um presente vindo de Paris, João pensou:

— Podia ter nascido um pouco maior. Mas daqui há algum tempo será o meu companheiro de folguedos.

Mário cresceu sob o olhar cheio de simpatia e esperança do irmão mais velho, porque João adivinhava qualquer coisa naquele garotinho que fazia longos berreiros, e executava verdadeiros malabarismos para conseguir percorrer, num passo vacilante, alguns centímetros de extensão na sala de jantar...

Depois Mário cresceu um pouco — começou a ajudar o irmão a tirar toda a paciência da família. Um dia, ingressou num ginásio afim de ficar ciente das matérias desconhecidas pela sua alta compreensão: ele só estudava o globo através da esfera mínima das bolinhas de gude...

João perdendo a companhia do seu comparsa, começou a dar muito trabalho ao próprio cérebro. E, um dia, descobriu a sua verdadeira vocação. Foi ser cantor de rádio. Muita gente tem essa mesma fase na vida, que não passa de simples descoberta.

Mas João Petra de Barros, dono de uma voz que depressa se impôs ao bom gosto dos ouvintes de rádio, tornou-se, imediatamente, uma das figuras mais queridas do meio radiofônico. Surgiu no “Programa Casé”, em 1932. Gravando “Até amanhã...”, samba que obteve enorme sucesso, João passou a “astro” e foi requisitado pelas outras emissoras, que logo viram nele um cantor de primeira linha, apto a tomar conta de todo o programa da estação.

João passou a atuar na PRA-2, PRC-6 e, finalmente, na PRA-9, estação que o conserva até hoje, renovando continuamente todos os seus contratos, assim que eles se extinguem. Quando um artista chega a “astro”, dificilmente enxerga quem anda ao seu redor. A luz do seu próprio brilho ofusca-o. João Petra de Barros é, porém, positivamente diferente: começou a observar, atentamente, todas as vezes que Mário, seu irmão estudante, cantarolava qualquer canção ou samba do seu próprio repertório. E um dia declarou:

— Vais fazer uma prova de voz.

Mário preparou a garganta, estudou direitinho uma canção bonita e apresentou-se, nervosíssimo, na PRA-9, afim de “provar” a própria voz, ao microfone. Isso passou-se durante as irradiações do antigo “Programa das Donas de Casa” , da Mayrink Veiga. Como João previra, a voz melodiosa e afinada de Mário, agradou, imediatamente. E o jovem cantor passou a fazer parte do “cast” daquela emissora, sendo logo promovido e contratado, embora sem interromper os seus estudos no Instituto Rabello.

Agora, passados quase um ano, uma nova ideia surgiu, desta vez no cérebro de ambos, provocando perfeito acordo:

— Vamos formar uma dupla.

E formaram.

Irmãos na arte, na voz e na vida real, eles formaram uma dupla que certamente será, talvez a mais interessante por ser inteiramente artística e verdadeira.

Um novo repertório

— Vamos organizar agora um repertório inteiramente novo, — disseram João e Mário Petra de Barros, quando CARIOCA foi ouvi-los no dia da estreia da nova dupla na Mayrink. Cada um terá um repertório diferente.

João e Mário não deixarão de cantar separadamente em outros programas da PRA-9 mantendo, no entanto, um repertório exclusivo para o canto a duas vozes.

— Mário continuará estudando, ele precisa se aperfeiçoar em vocalizes, etc. Eu farei o possível para agradar ao público. Nós dois juntos teremos todo o gosto em corresponder a expectativa das pessoas amigas.

João respondia enquanto Mário ensaiava dizer qualquer coisa. Eles são absolutamente parecidos e seriam gêmeos inegavelmente se não houvessem nascido em épocas diferentes...

— O nosso repertório compõe-se de músicas de Humberto Porto, Nelson Castro, Custódio Mesquita, Zé Pretinho, Gastão Bueno Lobo e outros. Já lançamos “Por que não manda essa mulher embora?”, samba de Humberto Porto; “Cansei de avisar”, etc. Temos várias músicas para serem lançadas e gravadas em discos Odeon, muito brevemente.

João Petra de Barros tem três anos de atuação nos nossos microfones. Mário, quase nove meses, porém, juntos, eles parecem dois cantores veteranos, graças ao cuidado que emprestam à interpretação das suas novas músicas. Ambos nasceram no Rio. Juntos eles realizam longos ensaios, antes de se apresentarem ao microfone. E, unidos, agora, eles se retiram da estação, quando termina o último número.
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— Na minha vida particular gosto de cinema, esporte e boas literaturas, — diz-nos João Petra de Barros — Aprecio George Brent e Jorge Raft, na tela, nos esportes todos que exigem movimento, no teatro todas as boas companhias. Aprecio todos os bons compositores e tenho minhas predileções entre os artistas de rádio, destacando Carmen Miranda, Francisco Alves, e alguns outros.

Mário pensou e disse:

— Gosto de Joan Crawford no cinema. Teatro, só gênero muito elevado. Leitura, todos os livros, excluindo os de estudo... Pretendo formar-me em odontologia, mas não penso em deixar o rádio por causa disso. Continuarei sempre que o destino fornecer bons sambas e canções. O repertório é tudo na vida dos artistas. João também acha isso.

João Petra de Barros disse que “sim” com a cabeça, enquanto Mário prosseguia:

— Admiro entre os colegas: Carmen Miranda, Francisco Alves Sílvio Caldas e João Petra de Barros...

Sim, João Petra de Barros. Mário Petra de Barros é grande fã do homem com quem formou uma dupla. Isso basta para o êxito dos dois."


Fonte: CARIOCA, de 9/5/1936 (texto atualizado).

domingo, janeiro 12, 2014

Nássara, o marido de Eva

No Carnaval de 1935, houve uma marcha, lançada nas vésperas, que conseguiu obter um sucesso até então nunca visto. Denominava-se: “Eva querida” e foi cantada e dançada por todos os “cordões” e “ranchos” que existem no Rio de Janeiro. O seu estribilho ainda está presente no ouvido de todos e nem vale a pena rememorá-lo aqui.

O que é preciso saber é que, na marchinha de Benedito Lacerda, a Eva andava sozinha pelo mundo... Faltava-lhe um companheiro.

Nássara, este ano, candidatou-se ao título. Fez o “Marido da Eva”, que é uma feliz resposta à marcha absoluta de 1935.

O curioso, porém, é que o marido da primeira mulher que existiu no mundo não é o tal Sr. Adão...

Há quatro anos atrás, surgiu o Nássara-compositor. Até então, havia o Nássara-caricaturista, autor de ótimas “charges” e capaz de ombrear com os melhores caricaturistas que o Rio tem possuído: Crispim do Amaral, Calixto, Bambino, Amaro...

“Formosa” denominava-se a música que lançou Nássara no meio dos compositores. Tem uma longa história esta música que foi das mais populares do Brasil. Nássara tinha-a pronta, desde maio de 1932. Não se animava porém, a publicá-la. Conhecedor do meio radiofônico, onde sempre tinha vivido, ele a achava fraca. Nas “rodas do samba” de Vila Isabel, era, porém, a marchinha sempre a que obtinha mais sucesso. Uma noite, Francisco Alves ouviu-a e resolveu lança-la no Carnaval de 33. O resultado foi o que se viu...

Animado com o seu sucesso, em 1934, apresentou ao Carnaval: “Tipo 7” e “Maria Rosa”. A primeira venceu o Concurso da Prefeitura e a outra o “Concurso das Ruas” ...

No ano passado, não teve desfalecimento sua boa estrela. Lançou três músicas e obteve, novamente, o prêmio no Concurso da Prefeitura. “Coração ingrato” foi a marcha triunfante e “Uma lourinha” e “Garota colossal” que foi, injustamente, perseguida eram as outras duas.

E este ano?

— A minha atividade em 1936, sobrepassa tudo o que tenho feito até agora. Apresento, para este Carnaval, sete marchas: “O marido da Eva”, “A. M. E. I.”, “Cadência”, “Vou de caravela”, “Quisera amá-la”, “Você é quem brilha” e “Uma portas e uma janela”. Creio que com tantas produções, uma delas deve cair na preferência do público...

— De todas, qual é a que lhe inspira mais confiança?

— “A. M. E. I.” que fiz de parceria com E. Frazão, meu companheiro de “Coração Ingrato”. “A. M. E. I.”, que dediquei à CARIOCA, tem uma letra sentimental, como é do gosto do povo:

A. M. E. I., quer dizer amei, amei
S. O. F. R. I., quer dizer sofri, sofri
Que pena o alfabeto não ter
Letras pra gente escrever
Tudo aquilo que eu senti por ti, por ti

Eu nunca tive professor
Para me ensinar o verbo amar
Aprendi o A B C do meu amor
Na cartilha azul do teu olhar.

Quando eu te dei meu coração
Não podia nunca imaginar
Que existisse a palavra — Ingratidão
Na cartilha azul do teu olhar.

— É necessário dizer, — prosseguiu Nássara, que eu sou francamente da “fonética”.

— E as outras?

— O “Marido da Eva”, creio que pode fazer sucesso. Tem um estribilho curto e presta-se muito para “cordão”. “Cadência”, que fiz com Lamartine, e é uma paródia à “Valência”, também pode agradar. Nestas três, tenho as minhas maiores esperanças...

— Acha que pode vencer ainda este ano o Concurso da Prefeitura?

Nássara sorriu e retrucou:

— Creio que não disputarei este ano o título, pois, embora vencedor, tenho estado sempre em contradição com o resultado. Venci com “Tipo 7” e abafei com “Maria Rosa”. No ano passado, “Coração ingrato” venceu e “Eva querida” foi a mais cantada. Não quero, porém, dizer que não disputarei o concurso. Depende do momento...

— É verdade que vai abandonar a música popular?

Nássara já estava de chapéu na cabeça, pronto para sair, quando se voltou:

— Em princípio, tive esta ideia. Estou cansado... É verdade porém que, até o Carnaval de 37, há um ano de intervalo. Em 365 dias, temos muito tempo para mudar de opinião. Suponho que eu mude de ideia, uma vez por semana, como o ano tem 52 semanas, eu posso ter 52 ideias diferentes. Ora, supondo...

Nássara, não pode concluir: de todas as mesas da redação já estavam voando tinteiros, livros, jornais, que procuravam atingir o popular autor de “Formosa” ...


Fonte: CARIOCA, de 8/2/1936 (foto do compositor-caricaturista Nássara e texto atualizado).