sexta-feira, dezembro 20, 2013

Agripina para os fãs de 1935 ...

Agripina (Agripina Duarte da Fonseca, conforme o Dicionário da MPB, ou Agrippina de Jorge Maia, segundo a revista "Carioca", de janeiro de 1936), cantora, nasceu em Dois Córregos, SP, em 07/11/1918, e faleceu em São Paulo, SP, em 13/08/1979. Iniciou a carreira artística ainda criança, em 1930, quando apresentou-se no programa "Hora Infantil" da Rádio Record com apenas 11 anos de idade. Passou em seguida para a Rádio Cruzeiro do Sul quando foi descoberta  pelo cantor e compositor Paraguaçu. Quando criança fez sucesso nas rádios paulistas cantando sambas e marchas.

Agripina, a cantora predileta de São Paulo

“Agripina conseguiu em São Paulo o que talvez nenhuma outra cantora de rádio até hoje tenha obtido: ser considerada “hors-concours”. Se se fizesse aqui um torneio entre as artistas de rádio, para saber qual a mais simpática ou qual a voz, ou qual a mais querida, o resultado seria, invariavelmente, o mesmo: Agripina. Esta garota que não tem ainda vinte anos, é, com efeito, a cantora mais popular, mais querida e de melhor voz de São Paulo.

Atestado disto? O pobre empregado dos Correios, que diariamente tem que carregar aquele grande saco cheio de cartas para deixa-lo no estúdio da Record, pode melhor do que eu, ou qualquer outro, afirmar do prestígio da moreninha paulista, cuja tez não deixa nada a desejar comparada à cor destas pequenas que passam dias seguidos na praia de Copacabana em busca de uma coloração que só o Sol lhes pode dar...

No estúdio, Agripina é a “pequena travessa”, cujas mínimas vontades são satisfeitas e os desejos realizados. É uma autêntica rainha dentro do estúdio. Quando passa, temos todos que nos curvar, respeitosamente. Nos dias em que tem programa, o estúdio é quase que invadido por legiões de fãs que desejam conhecer a estrela cuja voz lhes é familiar. São criaturas que surgem de todos os recantos da cidade e que procuram com tal impetuosidade invadir a Record, que não raro se torna necessária uma intervenção policial...

Confesso que Agripina foi para mim uma surpresa. Imaginava-a uma criatura grande, loura, de olhos azuis. Era assim que a minha imaginação, influenciada por historiadores romanos, a tinha criado. Fui apresentado a uma criatura “mignon”, muito morena, de olhos muito pretos e claros, cheia de vivacidade e possuidora de uma simpatia que a minha imaginação não tinha previsto.

-— Tenho três anos de rádio -— começa Agripina. — Sou pois, uma das “veteranas” aqui em São Paulo. Iniciei-me na “Hora Infantil” da Record. Passei em seguida para a Cruzeiro. Creio, porém, que a Record sempre foi a estação da minha preferência, pois não tardei em voltar para cá. E daqui espero não sair tão cedo. Adoro os sambas e as marchas, que são as músicas que canto.

— Foxes?

— Só para dançar e que não sejam muito lentos...

Decididamente, Agripina, garota bem “século XX”, odeia tudo que não se relacione com “records” de velocidade.

— Sobre a sua estreia no cinema?

— De fato, tomei parte, agora, em “Fazendo fita”, do Capellaro. O meu papel é, porém, muito pequeno: canto um samba e aquela canção que já fez sucesso, há alguns anos atrás: “A canção do jornaleiro”.

— Que impressão teve?

— Gostei muito. Se agradar pretendo mesmo continuar. Não abandonarei, porém, em hipótese alguma, o rádio, pelo qual possuo verdadeira adoração.

— Não tem desejo de cantar no Rio?

— Sempre foi o meu ideal. Infelizmente, não pude ainda realizá-lo. Faltou-me uma oportunidade.

— Para que estação carioca gostaria de ir?

— Não conheço bem o ambiente radiofônico do Rio. Creio, porém, que a Tupy, seria a minha eleita, se pudesse escolher. Gosto também das outras e na Mayrink, por exemplo, sentir-me-ia muito feliz. É preciso dizer que o Rio seria apenas um passeio. Não pretendo abandonar definitivamente São Paulo. Seria quase uma ingratidão...

— Que pensa do samba?

— Ao samba só cabe um adjetivo: adorável! Ele é um pedacinho de minha vida. Creio que, aliás, é dos pedaços mais importantes, pois, sem ele, não poderia viver...

— Sobre o rádio paulista?

— Está bastante desenvolvido. Infelizmente, o pessoal é um pouco desunido...

— Ainda se recorda, qual foi a sua maior emoção desde que está no rádio?

Agripina balançou negativamente a cabeça e, retrucou:

— Não. Foram muitas, tantas que não me recordo de nenhuma."


Fonte: CARIOCA, de 04/01/1936.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Alzirinha, a professora do rádio

"De Alzirinha Camargo, presente de Natal que São Paulo enviou ao “broadcasting” carioca, só se pode dizer que é uma vitoriosa. A sua atuação ao microfone da Rádio Tupi, desde aquela noite em que lançou o “Querido Adão”, tem sido uma série sucessiva de triunfos.

Cantora de grande sensibilidade artística é Alzirinha, intérprete de diversos gêneros. Dela se pode afirmar que conhece o segredo da canção regional e das lendas amazônicas, ao mesmo tempo que anima e movimenta um samba muito carioca.

Não estávamos, positivamente, com sorte, na noite que resolvemos entrevistar Alzirinha. A simpática lourinha, havia acabado de interpretar uma marcha que, a seu ver, tinha sido um fracasso. É muito difícil dizer a uma cantora de rádio que ela cantou mal. Mais difícil, porém, é convencê-la de que o seu insucesso foi apenas imaginário...

— Como entrou para o rádio?

Alzirinha estava alegre e nos respondeu:

— Estudava na Escola Normal de Itapetininga, minha cidade natal e era solista do Orpheon. Pessoas de minha família me aconselharam o rádio. Quando recebi o diploma de professora.

— Não sabíamos que tinha esse título.

— Pois fique sabendo. Fui para São Paulo logo depois. Por intermédio de Sivan, consegui ingressar na Rádio Educadora de São Paulo. Daí passei à Record. Em seguida estive na Cruzeiro, de onde saí para inaugurar a Difusora. Da Difusora fui ao Rio Grande do Sul, inaugurar a Farroupilha e agora estou aqui.

- Qual a primeira música que interpretou ao microfone?

- “Moreninha brasileira”, de Joubert de Carvalho. Lembro-me ainda muito bem. Esta marchinha durante muito tempo, foi a minha predileta. Talvez por gratidão...

- Quais as músicas que lhe agradam?

— São aquelas caracteristicamente brasileiras. São as músicas de Hekel Tavares, Waldemar Henrique e Humberto Porto, um dos valores novos da nossa música, mas possuidor de inegável talento. Creio, porém, que “Banzo”, de Hekel, dentre todas é ainda a que mais se destaca.

— Como encara o “broadcasting” em São Paulo e no Rio?

— Ambos os meios são bons. Existe, porém, no Rio, um campo mais vasto de expansão para o artista. O público aqui é mais caloroso e nos aplaude com mais entusiasmo, enquanto em São Paulo sentimos sempre a frieza dos ouvintes que não se manifestam através de cartas e telefonemas como aqui. Note-se: lá há gente tão boa como aqui. Pena é que o público não esteja nesta situação de igualdade.

— Das músicas que tem lançado para o Carnaval? Quais as suas esperanças?

— Sou suspeita para falar, pois gosto de todas. Baseando-me porém, no aplausos que recebo quando canto, creio que “Querido Adão” é a que mais se destaca. Parece-me que esta marcha tem agrado. Creio porém, que as músicas que vão abafar, ainda não apareceram. Ainda se encontram nas casas dos compositores, bastante escondidas, para que se evite o plágio...”.


Fonte: CARIOCA, de 28/12/1935