quarta-feira, janeiro 29, 2014

Um craque do saxofone

Luiz Americano - CARIOCA 12/9/1936
Quando um homem nasce fadado a ser artista de valor, começa em pequenino a fabricar instrumentos dos galhos de mamoeiro, fazendo flautas, cometas, etc. Luiz Americano foi um caso assim.

Nascido em Sergipe, demonstrou desde garoto invulgar predileção pela música. Estudando saxofone, progrediu assombrosamente, em pouco tempo. Hoje, que além de saxofone Luiz Americano toca também eximiamente clarinete e bandoneon, já tem alcançado na vida êxitos capazes de consagrá-lo.

Exibindo-se em cassinos, dirigindo orquestras, no Brasil e na Argentina, além de atuar em várias estações de rádio, Luiz tornou-se em pouco tempo um nome admirado e conhecido.

Rádio Nacional contratou-o, recentemente.

Uma carreira feliz

— Divido a minha carreira em duas etapas — diz Luiz Americano. — Uma no Brasil, outra na Argentina. Tive em Buenos Aires uma vida artisticamente atribulada. Sucesso também dá trabalho. . . As emoções experimentadas aqui não foram renovadas lá. Simplesmente foram vividas de outra maneira. O povo argentino não é tão fácil ao aplauso como o brasileiro. Mas quase sempre é acolhedor para a música brasileira.

Na Argentina, Luiz Americano exibiu-se em muitos teatros, cassinos, estações de rádio, obtendo grande êxito.

— Também gravei vários discos. Composições minhas. Tenho, aliás, mais de trinta, todas elas felizmente bem sucedidas.

Entrando para o Rádio

— Se o cinema falado e sincronizado veio até certo ponto prejudicar a atuação de muitos artistas que viviam das orquestras dos cinemas, o rádio, progredindo, chegou para compensar esse fato. Observo que existem hoje, colocados nas orquestras dos estúdios muitos artistas que exploraram aquele outro ramo de vida.

Pela sua parte Luiz Americano, que sempre se exibiu em vários lugares ao mesmo tempo, também tocou durante longo tempo na orquestra de um dos nossos principais cinemas. Há quatro anos passados ingressou para o rádio, estreando-se num programa de Renato Murce e Gramury, na Rádio Sociedade.

Um fã dos outros artistas

No nosso “broadcasting” Luiz Americano já atuou em várias estações, sendo um admirador do progresso apresentado pelos programas.

Distingo entre os bons dirigentes Renato Murce. Capacidade e talento além de espírito batalhador. Na parte musical, devo declarar que observo muito apreciando os verdadeiros valores. Entre os intérpretes de saxofone, por exemplo, admiro Dedé e Sandoval, artistas de valor. Violinista, Pereira Filho, o mais movimentado, inspirado e admirável. Na flauta, reconheço um artista absoluto: Pixinguinha. Entre os cantores e cantoras, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Carmen Miranda e Aracy de Almeida.

Música sinfônica

— Estou, no entanto, muito longe de apreciar unicamente o gênero popular. Prefiro mesmo a música sinfônica a qualquer outra, admirando Cesar Franco, Wagner, Beethoven e Rimisk Kovsakowisk — aliás um dos mais apreciáveis compositores da música árabe.

Luiz Americano gosta do ritmo árabe. Nas suas composições executa toda espécie de música. Atualmente tem composto muitas valsas e choros, sendo uma das suas últimas produções uma linda música intitulada “Yolanda Pereira”, que é aliás a sua predileta.

— Dedicada a Miss Universo 1930?

— Não ... — respondeu-nos Luiz Americano. — Dediquei-a à senhorita Yolanda Pereira, graciosa irmã de Pereira Filho.

Luiz Americano, que será um dos bons elementos da Rádio Nacional, dirige também um dos principais dancings do Rio e é um homem perfeitamente amável e simpático.

— Sinto-me perfeitamente bem no meio radiofônico, apreciando todos os colegas.

Ele referiu-se também entusiasticamente ao talento de Radamés Gnatalli, o surpreendente pianista da PRE-3.
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Fonte: CARIOCA, de 12/9/1936.