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quarta-feira, março 28, 2012

Juvenal: a história viva do Samba

Muito bem conservado para 72 anos, a maior parte da vida consagrada ao samba, Juvenal Lopes hoje presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira, conta a dramática história das escolas de samba. Todo emoção, relembra a perseguição da Policia, os ardis usados pelos sambistas para despistá-la, o sofrimento e danos que a dedicação ao samba lhe causaram: a casa perdida, a falta de direito à aposentadoria, um coração doente. — Tudo para não deixar o samba morrer. E, depois, ver o fruto dessas lutas e canseiras virar mercadoria de comércio...

A casinha em Abolição, janelas verdes, parede rosa, Juvenal Lopes fala de sua história, que é também a história do samba carioca. Nascido em São Cristóvão, o pai «presidente do grupo dos prontos», como ele diz, para dar idéia de sua pobreza, contava uns nove anos quando foi morar na Mangueira.

— Papai morreu. Minha mãe não agüentava o aluguel e mudou-se para a Mangueira. Com ela, eu e meus dois irmãos. Passamos a maior parte da infância trancados dentro do barraco, pois mamãe, trabalhando fora (empregada doméstica), não tinha com quem nos deixar. E havia o medo de no soltar pelo morra. Não saíamos para nada. A porta da rua marcava a fim de nosso mundo.

— Lembro que ela chegava, una lata de dois quilos na cabeça, Ali vinha nossa comida, as sobras da casa de seu patrão. Ao encontrar-nos à sua espera, chorava de alivio. Não sei por que ela tinha tanto medo do lugar.

Mas para um menino levado, louco para se aventurar ai por fora, o excesso de cuidados da mãe correspondia ao cárcere. Assim, mais crescidinho, Juvenal resolveu rebelar-se. Tão logo ela, saía, pulava a janela, fugia para o Buraco Quente.

— Ia me juntar ao pessoal do samba. Foi assim que tomei gosto pelo negócio. Ficávamos numa birosca, batucando em caixas de fósforo. Ali conheci Zé da Lúcia, Homem Bom, Saturnino (pai de Neuma), Osmar e tanta gente boa, a maior parte falecida, que nem vale apena enumerar. Eles foram, praticamente, os desbravadores do samba na Guanabara.

No lugar dos poetas

— Mais tarde, rapazote, deixei o Buraco Quente. Passei a freqüentar o Baixo Meretrício, onde, nos botequins, cantando samba, havia chance de faturar uns trocados.

Nesse ambiente Juvenal começou a divulgar o samba. Um medo terrível das pessoas que ali se reuniam, principalmente das mulheres que, segundo ele, eram mesmo de briga, dados a rasteiras e navalhadas. Cedo ficou conhecido como o cantor de Mangueira, nome que na época se ligava apenas ao morro. E quando começou a ganhar um dinheirinho bom, coletado em pires depois de cada apresentação, o sambista largou sua antiga profissão: ajudante de pedreiro.

— Tinha então uns 17 anos. De manhã trabalhava em obras. À noite, se fazia calor, vendia sorvete. Se frio, vendia jornais nos bondes. Dava um duro danado e ganhava quase nada. Cantando, chegava a conseguir 12 mil réis por noitada, uma fortuna para mim. Mas acabou logo...

Dois anos passados (1920), fui levado para o Estácio, o lugar dos poetas, pelo falecido Nilton Bastos. As coisas pretas. Andava de tábua no pé (agora chamam tamanco, e é até chique usar). Minha calça, coitada! Toda remendada, eu não sabia nem qual sua cor. Assim era a vida, do pobre. Miséria era miséria de verdade.

No Estácio, Juvenal conheceu Ismael Silva, Rubens Barcelo (o príncipe do samba) Alcebíades, Brancura, Francelino e muitos outros, hoje apenas saudades. Ali também começaram Sílvio Caldas e Carmen Miranda. Mas Estácio era somente o nome do lugar. O que eles fundaram foi um bloco, o Deixa Falar, de onde mais tarde saiu a escola de samba.

— O nome foi por causa de um rancho que havia perto. Eles se diziam a elite. Espalhavam que sambista era malandro, vagabundo. Principalmente porque no carnaval, a gente se fantasiava de mulher. Cansei de sair de Maria Antonieta. O pessoal do rancho metia o malho. O Deixa Falar foi nossa resposta.

— No Estácio fiz amizades, fiquei querido. De lá guardo boas recordações. Foi quando botei meu primeiro terno, aprendi a usar gravata e colarinho. Tudo de segunda mão, é claro! Umas roupas largas, que quando a gente experimentava, o vendedor, um gringo sabido, ficava puxando atrás, para dar a impressão de que estava certinho. E ainda falava, com a cara mais limpa, que ficou melhor do que se fossem feitas sob medida.

De time a escola de samba

O sambista fala da importância de se esclarecer a história do samba, sem deixar equívocos. Comenta a necessidade das escolas fazerem um trabalho escrito de suas origens, arquivando-o como documento histórico. E prossegue sua narrativa, contando como o bloco Deixa Falar se transformou na primeira escola de samba do país: a do Estácio.

— A princípio, o nome comum aos grupos que se dedicavam ao samba era time. Isso porque formávamos uma espécie de torcida organizada de determinado time de futebol. No Estácio, nossa paixão era o América. Dai as cores vermelho e branco.

A denominação de escola vai aparecer mais tarde, ali mesmo no Estácio, por uma única razão: a gente se reunia perto de uma escola normal. Como o samba era proibido, perseguido pela Polícia, quando se perguntava por algum sambista, para despistar, respondíamos que estava na escola, o ponto de referência. O negócio pegou a ponto da gente só entender o lugar como escola. Quando o Estácio cresceu, o time ficou conhecido como Escola de Samba do Estácio.

Para provar o que diz, Juvenal relembra alguns sambinhas da época. Um de sua autoria, em homenagem à vermelho e branco de então:

«Sempre vencemos, nunca perdemos.
O nosso time é do Estácio.
Vamos pra balança,
Não damos confiança...
Peso é peso, braço é braço... »

Outra de Cartola, feita para a Mangueira, onde aparece pela primeira vez a designação Estação Primeira, mais tarde incorporada ao nome oficial da Escola:

«Chega de demanda, chega.
Com esse time temos que ganhar.
Somos a Estação Primeira,
Salve o Morro da Mangueira. »

A perseguição policial

Apesar dos números blocos, o samba ainda era proibido. Consideravam-nos uma atividade marginal, malandros e vadios, da mesma forma que a capoeira.

— E nós, sambistas de coração, não podíamos deixá-lo morrer. Para isso, contávamos com o apoio dos umbandistas. Eles tiravam licença para instalar um centro de culto afro-brasileiro e deixavam a gente fazer samba lá dentro.

— Assim a gente confundia a polícia. Os Arengueiros, por exemplo, bloco que deu origem à Mangueira, surgiu do centro de Zé Espingueli, famoso pai-de-santo daquele morro.

— Foi o próprio Zé Espingueli quem organizou o primeiro concurso de samba de que se tem notícia. Só que era muito diferente do que se vê hoje. Ganhava aquele que tivesse sua música mais cantada. Afinal, o concurso era samba. Concorriam os Arengueiros, o Estácio, a Favela, os Unidos da Tijuca e o Osvaldo Cruz, mais tarde Portela.

— Mas era tudo clandestino. A Polícia perseguia mesmo. E quando pegava, batia de verdade. Lembro uma vez, numa festa de Xangô. Estávamos no barraco de Brasilino, pai-de-santo do morro do Urubu. Terminada a festa, um frio danado, a gente encolhidinha, pra espantar o sono e a fome improvisei um sambinha, quase um ponto de macumba:

Cruz Credo
Credo Cruz
Aí vem o delegado
Abelardo Luz

— Foi falar no Diabo e ele chegou mesmo. O samba o chamou. E o pior, é que ele gostou da música. Sujeito mau, fez a gente descer o morro debaixo de bengaladas e ir até Madureira, onde ficava seu distrito. Fomos cantando o samba, com harmonia. Se alguém desafinasse apanhava mais ainda.

— Naquela época, esse era o tratamento comum ao sambista. Depois, aos poucos, fomos nos organizando. Choramos muito, apanhamos, fomos presos diversas vezes. Esse foi o preço de manter o samba vivo: suor, lágrimas e sacrifício.

Enfim, Mangueira

Apesar de ter começado no Estácio, Juvenal nunca se afastou da Mangueira. Ali era seu lar. No Buraco Quente mantinha suas amizades. Conheceu todos os blocos que por lá passaram; Tia Tomásia, Tia Fé, Mestre Candinho e Arengueiros. Este último, segundo afirma, constituído por cinco famílias que se fantasiavam de baianas, no carnaval, deu origem à Estação Primeira em 1928. Anos passados, em 1962, o sambista assumiu a presidência da agremiação. Uma de suas primeiras providências foi incorporar Mangueira ao nome oficial da escola. Até então era somente Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira. Também deve-se a ele a quadra onde hoje é o Palácio do Samba, e o cordão das pastoras nos ensaios, entre outras coisas.

— Quando assumi a presidência, os ensaios ainda eram na cerâmica, sem espaço para nada. Eu sabia que precisávamos de uma quadra, pois o samba é o único divertimento do favelado. Após muita luta, muita insistência, consegui com o Governo da época um local. Deram-nos o brejo onde o Estado pretendia fazer sua garagem.

Para arrumar tudo, coloquei dinheiro do meu bolso ali dentro. Perdi noites na cozinha, a preparar lanches para convidados e autoridades. Empregados era um luxo do qual não podíamos desfrutar. E não reclamo, nem me arrependo. Meu ideal era aquele. A vida nada valeria sem isso.

Em 1969 Juvenal Lopes deixa o cargo. Motivo? Doença. O coração não resistiu a tanta pressão. Da Mangueira seguiu direto para o hospital. Três meses no Instituto de Cardiologia, onde volta até hoje. Só de remédios gasta 50 cruzeiros em cada dez dias. O que ficou de toda sua dedicação ao samba, ele assim resume:

— Perdi minha casa. Fui obrigado a vendê-la para comer. Meu dinheiro ia todo para as obras na Escola. Perdi minha barraca de feira, a profissão à qual me dediquei grande parte de minha vida. Ela me deu condições de criar meus filhos. Hoje,, nem direito à aposentadoria tenho. O teto que possuo, meu filho Pedro Paulo me deu.

— E o pior de tudo, perdi minha saúde. Mas nada disso tem importância. Vejo a Mangueira de agora, grande, forte, rica, inigualável. Este é meu consolo e ela virou o que é graças, não a mim, mas ao povo que sempre soube amá-la.

Ajudado por Deus

Profundamente religioso, dizendo-se ajudado por Deus, Juvenal é um fiel devoto de Nossa Senhora da Conceição. A ela deve muito favores, inclusive a cura de sua perna, que ele conta, emocionado:

— Lá por 1940, tive uma doença na perna. Deu micróbio no osso da coxa, cheguei a ser operado. Andava de muletas, padecia de dor. Sete anos depois voltei ao hospital. O médico me desenganou. Falou que não havia cura, que eu tinha os dias contados. Saí de lá desesperado. Pedi ajuda a Nossa Senhora da Conceição. Ela me ouviu. Hoje nem das muletas preciso, apesar de uma perna mais curta.

Conformado com sua sorte, aceitando sem reclamar os desígnios de Deus, Juvenal é também compositor. Sambas a perder de conta, muitos vendidos em sua juventude, conseguiu apenas gravar quatro. Sua chance, no entanto, parece que chegou. A cantora Bete de Carvalho está interessada em alguns trabalhos seus, o que, para ele, além de ser maravilhoso, é uma grande surpresa.

— O compositor de morro não tem vez, pois a maioria dos cantores não se interessa pela boa música, mas pelo dinheiro. E eu tive que me conformar em escutar minhas músicas somente na minha voz.

Juvenal tem outra mágoa:

— As escolas se formaram para defender o samba. Os compositores do passado sofreram um bocado, porém não deixaram ele morrer. Mas as escolas subiram tanto que hoje o samba foi relegado a segundo plano. Não se fala mais dele. Apenas das escolas.

— Hoje vejo o samba como uma espécie de comércio. Há gente que vive da escola e poucos os que vivem para ela. Nós deveríamos amá-la. Mas isso não acontece. O que se verifica é cada um tentando tirar proveito da melhor maneira.

E sobre a invasão do povo nas escolas, ele diz:

— Samba é um divertimento. É música. E música não tem pátria ou nacionalidade.

O samba também é a vida de Juvenal.

— Sem ele – confessa – não posso viver. E quero morrer cantando samba, num desfile, no meio da alegria. Não quero tristezas e lágrimas. Quero muito samba, muita folia...

(Reportagem de Beatriz Santacruz)
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Fonte: A Notícia - 2. cad. - Rio de Janeiro - 18/07/1973

sábado, março 24, 2012

Funeral de Calça Larga

Joaquim Casemiro
Quando um sambista ao invés de “exalar o último suspiro” (como é das praxes no preciosismo da formulação literária) apenas, no seu linguajar pitoresco, “abotoa o palitó”, o sentir de sua gente não entristece a música. Os tamborins, os pandeiros, continuam a ser batidos na mesma cadência, apenas sem o allegro empolgante, de alvoroço. O seu funeral se faz com tristeza, pesarosamente, mas sem a lamúria em cantochão do requiem e do de profundis.

Foi exatamente assim, que no rito da tradição, o Salgueiro acompanhou o mano Calça Larga (Joaquim Casemiro), levado num bonito envelope ao cemitério da suja e poeirenta praia do Caju. Sentia-se a perda do animador da Escola, do crioulo gordo e afável que nas horas precisas sabia dizer um discurso simples, porém cativante. Não havia, no entanto, o alarde do choro alto, gritado. O samba foi com ele, em funeral ritmado em bemól, quase sussurrado, com uma cuíca gemendo baixinho. Mas não houve, de modo algum, o lamento soturno, de música dorida.

O pedreiro Casemiro

Trazendo nos seus trecos a necessária colher de apanhar e espalhar a argamassa, ferramenta de sua profissão, Joaquim Casemiro chegou ao Morro do Salgueiro no não muito longe ano de 1932. Gordo, com sua calça de boca de sino cobrindo o sapato, e à qual devia o apelido trazido de Miracema teve, no seu jeito comunicativo, falante, boa acolhida. Fez logo amigos: o Anacleto Português, o Alfredo Bolinha, o Servan de Carvalho, o Paulinho de Oliveira, o Mano Galego, o Sílvio da Ladeira, o Nestor e muitos outros. Com eles entrou nas primeiras rodas de samba, formou nos primeiros blocos, nos primeiros sujos do Carnaval.

Pouco depois, abandonava o ofício, deixava de ser um Waldemar do samba (fazia casas e não tinha onde morar) e tornava-se soldado do Exército. Habilidoso, encaixando-se bem na dureza da disciplina do quartel, conseguiu rapidamente pregar na túnica as duas lagartixas da graduação de cabo. Ganhava também, ao mesmo tempo, a proteção do coronel Barros, do Serviço de Intendência, de quem passou a ser peixinho. Com isso, conseguia algumas dispensas e noites livres para com seus amigos do morro ir aos bailes do Lyrio do Aragão, do Sul América, do Elite.

Das “pastorinhas” para o samba

Antes de ser o sambista que morreu consagrado, com voto de pesar no Parlamento, deputados carregando seu esquife e discurso de governador à beira da sepultura, Calça Larga organizou e animou ranchos de pastorinhas. Com Alfredo Bolinha e Anacleto Português (seu compadre e grande amigo), na época do Natal arregimentava as crianças do morro e descia para as visitas aos presépios. Em marcha lenta entoavam os cantares ingênuos: “ ... viemos de Belém saudar Nosso Senhor, o Nosso Salvador...“ E, à frente do grupo, recomendando ao velho que tremesse apoiado no seu bastão, pedindo à borboleta que cantasse mais alto, comandava o Calça Larga.

No começo de janeiro, quando as batalhas de confete iam criando o ambiente para a Rua Dona Luíza e Dona Zulmira, o Calça Larga participava deles. Vinham do morro os blocos (depois classificados de escolas) sem denominação e apenas designados por suas bandeiras: o Verde e Amarelo, o Azul e Branco e tantos outros. Resolveu, porém, a polícia embargar o que tinha as “cores brasileiras” e eles as mudou passando a ser o Verde e Branco. Com sua bateria, suas baianas, desfilou diante do coreto da comissão. Dirigindo a moçada lá estavam o Calça Larga, o Anacleto, o Paulinho, o Servan.

Um morro cheio de “escolas”

Passando os grupos e rodas de samba dos morros, dos bairros e dos subúrbios a ter a denominação de Escola (termo que foi lançado no Carnaval, em 1908, pelo renomado rancho Ameno Resedá) os do Salgueiro prontamente a usaram. Assim, em 1935, ali existiam as Unidos do Salgueiro, Depois eu Digo, Azul-e-Branco, que participavam de um concurso promovido pelo jornal A Nação e disputado na Praça Onze de Junho. Dispersava-se, como rivais, um punhado de sambistas, que embora defendendo a expressão musical do morro tijucano, não poderia mostrar sua força total.
Joaquim Casemiro, o popular Calça Larga


Acertadamente, pondo de lado as diferenças que separavam os componentes das diversas escolas, houve a unificação de todas elas e surgiu como única representativa do morro a Acadêmicos do Salgueiro hoje existente. Essa fusão, acertada e que resultou em maior brilho para o atraente desfile do domingo de Carnaval, foi, é claro, obra meritória de alguns sambistas. Em meio deles, porém, estavam o Calça Larga, o Paulinho e o Anacleto, este sempre ligado ao seu compadre Casemiro. O morro de muitas escolas passou a ter uma só, verdadeiramente representativa e com foros de academia.

“Quero morrer no samba”

Sambista, de pouco ou nenhum tutu armazenado nos bancos, Calça Larga jamais pensou em ordenar disposições testamentárias para acautelar a patroa, e a sua prole de quase uma dezena de meninos. Muito menos pediu, ou insinuou o desejo de ter funeral solene com réquiem e de profundis lamentosos. Apenas, e isto ele dizia cantando os versos de Walfrido Silva em 1935: “Quero morrer cantando um samba, no meio de uma roda bamba”. Ou na versão de Ataulpho Alves, anos após: “Quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”.

Conseguiu como era de seu anelo proclamado em música e ao ritmo de bateria certa, afinada, a morte que o consagraria: no terreiro do samba, apito na boca, o boné vermelho e branco, nas cores de sua querida escola. Deixou triste, inconsolável, a moçada a quem ele, gordo, gingando o quanto permitia sua volumosa barriga, comandava: “no peito!... numa boca só!...“.

E, tal como disse o governador, o chaveiro S. Pedro deve tê-lo acolhido assim, com intimidade: “Entre, Calça, você é um dos nossos”.

(O Jornal, 20/9/1964) 
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

segunda-feira, março 19, 2012

Tancredo da Silva Pinto

Tancredo da Silva Pinto, compositor e sambista, nasceu em 10 de agosto de 1905 em Cantagalo, Estado do Rio de Janeiro, indo morar no Estácio ainda na adolescência. Teve uma atuação marcante também como compositor, sendo parceiro de Moreira da Silva, Zé Keti, Zé Pitanga e Blecaute, que gravou General da banda, cuja letra faz uma alusão ao Orixá Ogum.

Foi um dos fundadores da 1ª Escola de Samba do bairro Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

Em 1950, por ocasião das grandes perseguições aos umbandistas de vários estados, fundou a Confederação Espírita Umbandista do Brasil. Viajou por diversos estados, fundando outras associações com o escopo de organizar e dar personalidade ao culto umbandista. Consta que fundou-as em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, entre outros. A partir de 1967, afastou-se, vindo a fundar, no ano seguinte, a Congregação Espírita Umbandista do Brasil.

Foi ainda criador de festas que marcaram época e solidificaram a imagem da Umbanda como a Festa para Iemanjá no Rio de Janeiro, Festa de Yaloxá na Pampulha, em Belo Horizonte, Cruzambê, em Betim, Festa do Preto-Velho, em Inhoaíba, homenageando a grande Iyalorixá Mãe Senhora, Festa de Xangô, em Pernambuco, o evento "Você sabe o que é Umbanda?" no Maracanã e finalmente a festa da fusão do estado da Guanabara com o Rio de Janeiro realizado ao centro da Ponte Rio-Niterói.

Teve publicadas mais de 30 obras literárias, divulgando a Umbanda e o Omolocô e foi fundador e colaborador de diversos jornais e revistas destinados aos adeptos da religião afro-brasileira. Em vida ainda recebeu diversas comendas e homenagens pelos serviços prestados às religiões afro-brasileiras. Foi um fiel defensor da prática africanista ao culto umbandista e ao Omolokô.

Apesar de analfabeto, o humilde estafeta dos correios "escreveu" diversas obras de cunho umbandista e manteve colunas diárias em jornais cariocas, como O Dia. Faleceu em 1 de setembro de 1979.

Fontes: Wikipédia; Turma do Estácio - Samba de Raíz.

Deixa Falar não desfilava como escola

Marçal, Paulo Barcellos e Bide, fundadores da Deixa Falar, posam no meio das pastoras
A primeira escola de samba da história, a Deixa Falar, na verdade nunca desfilou como escola de samba. Há duas versões para o fato de terem começado a chamá-la com esse “título”. A primeira: lá havia os chamados “professores do samba”, como Ismael Silva, Bide, Marçal, etc. A segunda: em frente a sua sede, havia uma escola normal, onde se ensinava português e matemática; na Deixa Falar, se ensinava samba!

A Deixa Falar foi fundada como bloco, em 12 de agosto de 1928. Lá foram inventados instrumentos como o surdo (criação de Alcebíades Barcelos, o Bide) e a cuíca (invenção de João Mina). Nos carnavais de 29 e 30, a Deixa Falar desfilou como bloco. Em 1931, já se organizava de outra forma, se preparando para, no carnaval de 1932, desfilar como rancho (os grupos de maior prestígio da época).

Neste ano, quando aconteceu o primeiro desfile de escolas de samba, a Deixa Falar não quis participar do concurso – preferiu participar do desfile dos ranchos, concurso muito mais “importante”. E, em vez de sair às ruas com o samba característico, inventado por seus próprios componentes, desfilou com uma marcha-rancho.

O problema é que o desfile foi um desastre, e nem classificada a Deixa Falar foi. Passado o carnaval, a agremiação entrou numa crise complicadíssima. Integrantes da diretoria se acusavam de desvio de dinheiro! Já no dia 15 de fevereiro foi marcada uma reunião para que fosse feita uma prestação de contas do carnaval de 1932 – enquanto isso, os diretores iam se acusando mutuamente pelos jornais.

A reunião do dia 15 não aconteceu, porque muitos dos envolvidos não compareceram. Mas a ferida deixou marcas, e a Deixa Falar foi minguando, minguando, até que acabou, naquele mesmo ano! Em 1933, seus integrantes se juntaram aos da União das Cores e formaram a União do Estácio de Sá, cuja sede era no mesmo lugar da Deixa Falar.

E aí acabava a história da primeira escola de samba do Brasil, aquela que foi sem nunca ter sido e que acabou no ano em que houve o primeiro concurso das escolas. Apesar disso, a Deixa Falar tem importância fundamental nessa história, já que deixou como herança instrumentos que são usados até hoje na Avenida e criou uma forma diferente de se fazer samba. Viva a Deixa Falar!

Fonte:http://extra.globo.com/noticias/carnaval

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Antenor Gargalhada

Antenor Gargalhada
Antenor Gargalhada (Antenor Santíssimo de Araújo), compositor e sambista, nasceu em 1909 no Rio de Janeiro, RJ, e faleceu na mesma cidade em 1941. Considerado um dos maiores sambistas da época de ouro da MPB, os anos 1930. Também era estimado batuqueiro e partideiro.

Foi fundador da Escola de samba Azul e Branco, do morro do Salgueiro, da qual foi diretor de harmonia. Morando no morro do Salgueiro destacou-se também ao defender os moradores locais contra uma ação de despejo impetrada por um italiano que comprou o morro e queria expulsar todo mundo.

Em 1931, o samba Eu agora fiquei mal, sua única parceria com Noel Rosa, foi gravado na Parlophon pelo cantor Canuto.

Em 1938, a escola de samba Azul e Branco desfilou no carnaval com seu samba Asas do Brasil homenageando Santos Dumont, composição apontada por muitos como um dos primeiros sambas-enredo. Nesse ano, como representante da Escola de Samba Azul e Branco foi escolhido como "Cidadão samba".

Em 1945, seu samba Cheque à granel, parceria com Ernâni Alvarenga e Paquito foi gravado por Violeta Cavalcanti na Continental.

Morreu prematuramente vitimado pela tuberculose. Devido a seu falecimento a escola de samba Azul e Branco em sinal de luto não desfilou no carnaval de 1941.

Em 1974, foi homenageado pelo compositor Geraldo Babão do Salgueiro com o samba Homenagem a Antenor Gargalhada cuja letra dizia: "Morava lá no alto do Salgueiro/Antenor Gargalhada, o primeiro/Emérito compositor/Na Azul e Branco ele foi o bamba/Foi um rei no reduto de samba/Hoje exaltamos o seu valor/Suas músicas ninguém esquece/Vamos cantá-las em forma de prece/Deixa eu afinar meu violão/Nega, o que queres de mim/Quem é a Vila para nos acordar/Com ele era sempre assim".

Em 1978, no volume 4 da série História das escolas de samba, da Rio Gráfica e Editora, foi homenageado em todo o lado A do disco que acompanhava o fascículo no qual foram interpretados pelo Coral Samba Livre os sambas Nega, o que queres de mim, Amanhecer, O morro é completo, e Arrependimento. Desses sambas, Nega, o que queres de mim havia sido gravado por Djalma Sabiá e os outros três estavam inéditos até então, sendo que Arrependimento, só tinha a primeira parte, tendo recebido uma segunda parte do compositor João Melo.

Obra

Amanhecer, Arrependimento (c/ João Melo), Asas do Brasil, Cheque à granel (c/ Ernani Alvarenga e Paquito), Deixa eu afinar meu violão, Eu agora fiquei mal (c/ Noel Rosa), Nega, o que queres de mim, O morro é completo.

Fontes: Receita de Samba: Antenor Gargalhada; Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira; Bibliografia Crítica: J. MUNIZ JR. Sambistas imortais. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1976.

Zé Espinguela

José Gomes da Costa
Zé Espinguela (José Gomes da Costa - circa 1890 - 1945, Rio de Janeiro, RJ), compositor, cantor e animador cultural, nasceu no Rio de Janeiro, na última década do século XIX e morreu na mesma cidade, no fim da Segunda Guerra.

Segundo relatou Carlos Cachaça, Espinguela dizia-se descendente de italianos da Calábria, da família Espineli, o que explicaria o apelido, um aportuguesamento popular do sobrenome estrangeiro. Era mulato, com marcas de bexiga no rosto, jongueiro, pai-de-santo e "irmão de cabeça" de dona Lucíola, velha matriarca da Mangueira. Morava no Engenho de Dentro, mas não saía do morro, onde tinha uma amante preferida.

Em 1925, teve idéia de fundar um bloco, a que deu o sugestivo nome de Bloco dos Arengueiros, constituído, entre outros, por Cartola, Maçu (Marcelino José Claudino), Saturnino Gonçalves e seu irmão Arthur (respectivamente pai e tio de D. Neuma da Mangueira), Carlos Cachaça, Chico Porrão, Fiúca e Homem Branco. Cartola dizia que "um arengueiro de verdade saía do morro pra brigar, pra ser preso, pra apanhar, pra bater".

O Bloco dos Arengueiros veio a transformar-se no que seria, segundo o nome imposto em 1935, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. A escola, na verdade, foi fundada em 28 de abril de 1928, no Buraco Quente (Travessa Saião Lobato nº 21), na casa de seu Euclides da Joana Velha, pai do João Cocada.

Os fundadores foram sete: Seu Euclides (Euclides Alberto dos Santos, o dono da casa), Saturnino, Marcelino, Cartola, Pedro Caim, Abelardo da Bolinha e Zé Espinguela, que acrescentava ao título de criador do Bloco dos Arengueiros o de fundador da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira.

Não contente com essas credenciais, Zé Espinguela, em 20 de janeiro de 1929 (um domingo, dia de Oxóssi para os negros e de São Sebastião para os brancos), realizou o primeiro concurso entre escolas de samba dessa gloriosa cidade. O evento ocorreu em sua casa, na rua Engenho de Dentro, atual Adolfo Bergamini.

Em 1935, quando o jornal A Nação patrocinou o Concurso de Escolas de Samba que começou naquele ano a fazer parte do Programa Oficial do Carnaval da então Prefeitura do Distrito Federal, quis ouvir o Zé Espinguela, o criador da iniciativa inaugural. A Nação de 1 de março de 1935 transcreveu o que sobre isso disse Espinguela: "Eu fui o primeiro organizador de concursos entre as nossas escolas. Foi em 1929. Realizei no Engenho de Dentro. Sagrou-se vencedora a Portela, sabiamente dirigida pelo Paulo. Mangueira também apresentou-se pujante, tendo os seus sambistas Cartola e Arthurzinho apresentado dois sambas monumentais: Foram beijos e Eu quero nota".

Espinguela foi grande amigo de Heitor Villa-Lobos, que conheceu provavelmente na Mangueira e de quem se tornou uma espécie de assessor para assuntos de folclore e de música popular.

Em 1940, Leopoldo Stokowski solicitou a Villa-Lobos que selecionasse e reunisse os mais representativos artistas de música popular brasileira, para gravação de músicas destinadas ao Congresso Pan-Americano de Folclore. Villa-Lobos incluiu no grupo escolhido a nata dos verdadeiros criadores nacionais de música: Pixinguinha, Cartola, Donga, João da Baiana e, como não poderia deixar de ser, Zé Espinguela.

As gravações realizaram-se na noite de 7 para 8 de agosto de 1940, a bordo do navio Uruguai, atracado no Armazém 4. Foram registradas quarenta músicas, entre as quais, segundo relato do jornal O Globo, seis de Zé Espinguela: Orimé, Hoje é dia, Afoché, Curimachô, Camandaué e Acorvagô. Dessas quarenta músicas, apenas dezesseis chegaram ao disco, reproduzidas nos Estados Unidos em dois álbuns de quatro fonogramas cada um, sob o título Columbia presents - Native Brazilian Music - Leopold Stokowski.

Ainda em 1940, Villa-Lobos, tentando reviver os carnavais do passado, fundou um grupo carnavalesco a que chamou Sodade do Cordão, com as mesmas características dos antigos cordões de velhos. O grande colaborador do maestro na seleção dos componentes, na concepção e confecção das fantasias e na variada coreografia a executar foi Espinguela. O Sodade do Cordão saiu no carnaval e fez apresentações em clubes como o Fluminense, com a colaboração de componentes da Mangueira de Espinguela, entre os quais sobressaiam Cartola, Carlos Cachaça e Aluisio Dias.

Pouco depois, nos anos finais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Zé Espinguela, que devia estar se aproximando dos sessenta anos, sentiu aproximar-se o fim da existência. Segundo Arthur de Oliveira, ele "reuniu os adeptos do centro religioso e dirigiu-se ao morro da Mangueira para despedir-se do seu reduto preferido. Lá chegaram no princípio da noite. A favela, de luzes apagadas, descansava da trabalheira do dia. Eis que surge o grupo, em cortejo pelos becos e ruelas, cantando um samba que Espinguela compôs especialmente para o momento.

Era como um samba-enredo. Desfilavam, dançavam e cantavam, com o ritmo alegre, a melodia triste, e as vozes alvissareiras das pastoras. Os barracos aos poucos se acenderam. Os negros foram abrindo as janelas e o morro transformou-se num céu no chão, iluminado, silencioso e reverente. A voz de Espinguela dominava o coro: a favela compartilhava da cerimônia do passamento do seu sambista com aquela vivência afro-brasileira da morte, presente nos gurufins e tão diversa do sentimento judaico-cristão das classes dominantes".

Obra

Cantiga de festa (c/ Donga), Macumba de Iansã (c/ Donga), Macumba de Oxossi (c/ Donga).

Fontes: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira; Receita de Samba: Zé Espinguela.

domingo, outubro 01, 2006

Deixa Falar, a primeira Escola de Samba

Oswaldo Boi de Papoula, 1o. presidente da Deixa Falar, ao lado de Ismael Silva.

“A gente precisava de um samba para movimentar os braços para a frente e para trás durante o desfile. A gente precisava de um samba para sambar.” A descrição é de Ismael Silva para justificar a novidade na criação dos compositores do bairro do Estácio de Sá, modificando a forma de sambas de sucesso na época, desde Pelo telefone, passando por Jura e Gosto que me enrosco, todos eles guardando ainda estreito parentesco com o maxixe.

Buci Moreira, sambista do primeiro time, ritmista famoso e morador do Estácio, citado pelo pesquisador Nei Lopes, dá outro testemunho valioso: “Minha mãe me mandou comprar manteiga na padaria e no caminho vi quatro camaradas reunidos cantando samba: o Zeca Taboca, um outro rapaz que o pessoal chamava de Brinco, o Edgar com sua camisa de malandro, e o Rubem, muito alto e com cara de grego. Estranhei a novidade e perguntei: ‘O que é isso?’ E disseram: ‘Isso é um samba moderno que o Rubem fez’.

E cada um dizia um verso de improviso.” Mano Rubens era irmão de Bide (Alcebíades Barcelos), autor de A Malandragem, o primeiro samba gravado de tal maneira. Isso acontecia em razão do aparecimento da Deixa Falar, a primeira escola de samba, assim chamada, do Brasil.

Era na verdade um bloco carnavalesco criado no dia 12 de agosto de 1928 no bairro carioca do Estácio de Sá. A sede improvisada ficava no porão da casa n° 27 da rua do Estácio, onde morava o fundador do bloco, Ismael Silva, líder dos sambistas do bairro.

Como nas imediações, mais exatamente no largo do Estácio, funcionava uma Escola Normal, que formava professores para a rede escolar, Ismael resolveu batizar seu grupo de Escola de Samba, já que formaria professores de samba. E a nova Escola já nascia com “corpo docente” da melhor qualidade, pois, além do próprio Ismael, participavam: Mano Aurélio, Nílton Bastos, Armando Marçal, Mano Rubens, Baiaco, Brancura, Heitor dos Prazeres, Mano Edgar e Bide.

A curiosidade em torno do nome sempre existiu e levou Ismael Silva, que o escolheu, a contar como foi em depoimento no Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro: “quanto ao nome, posso dar a explicação: havia uma grande rivalidade entre os agrupamentos de samba, Piedade, Estácio, Mangueira e outros. Cada um queria, naturalmente, ser o melhor e criticavam os outros. Saímos com esse nome, sabe como é, vamos para a frente, ou seja... ‘deixa falar!’ ".

Além de reunir jovens e revolucionários compositores do bairro, a escola pretendia melhorar as relações com a polícia, visto que, sem autorização, os sambistas não tinham direito de promover rodas de samba no largo do Estácio e nem desfilar no Carnaval. Por isso o grupo tratou logo de legalizar a situação, assumindo sua importância para a grande festa e na música popular brasileira.

O surdo e a cuíca, lançados pela Deixa Falar, tornaram-se indispensáveis na percussão do samba, e a influência de seus compositores se nota, de imediato, nas obras de autores como Ary Barroso e Noel Rosa, os primeiros ditos “urbanos” a abandonarem o estilo de Sinhô, para aderirem aos sambistas do Estácio.

Noel Rosa, que aliás tinha muito cuidado ao escolher seus parceiros, fez com Ismael Silva algumas composições. Ambos se completavam, mesmo com estilos de boêmia completamente diferentes, o mais intelectualizado de Noel, criado na burguesia da Vila Isabel, e o voluntarioso e rebelde de Ismael, cultivado na malandragem do Estácio de Sá.

Ismael se auto-retrata musicalmente em samba magistral, O Que Será De Mim?, criticado pelos moralistas e aclamado pela malandragem: “Se eu precisar algum dia / de ir ao batente / não sei o que será. / Pois vivo na boêmia / e vida melhor não há. / Não há vida melhor / e vida melhor não há / Deixa falar quem quiser / Deixa quem quiser falar. / O trabalho não é bom. / Ninguém deve duvidar. / Trabalhar, só obrigado; / por gosto ninguém vai lá”.

Um ou dois empregos de curta duração foram o suficiente para a vida inteira do sambista Ismael Silva. Sempre viveu do samba, que era o que ele sabia fazer de forma excepcional. O historiador Sérgio Cabral diz textualmente, por ocasião da morte de Ismael, em 1978: “Eu tenho uma opinião: o samba carioca só pegou sua forma definitiva por causa daquela geração de sambistas do Estácio, na qual Ismael Silva era um líder. Antes chamava-se de samba um tipo de música que tinha muito de maxixe. Quando o pessoal do Estácio de Sá começou a divulgar seus sambas, os compositores da época protestaram muito dizendo que aquilo era uma deturpação”.

O pesquisador José Ramos Tinhorão caminha na mesma estrada: “o samba vacilante de Donga, Sinhô e Caninha, da década de 20, ganhou no Estácio o ritmo batucado com a geração de compositores da camada mais baixa (Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide, Armando Marçal, Heitor dos Prazeres)”.

Ao final de sua vida, Ismael tinha uma discografia que acumulava com raras regravações 85 títulos, a maioria deles hoje citados como básicos para a história da música popular brasileira. Navegou em parcerias clássicas como Não tem tradução (ou O Cinema Falado), com Noel Rosa, e Se você jurar, com Nilton Bastos e Francisco Alves, ou sozinho em grandes sambas como Antonico ou Tristezas Não Pagam Dívidas.

E, ao assistir a um desfile de escolas de samba, a pista iluminada, milhares de sambistas no asfalto, outro tanto aplaudindo nas arquibancadas, Ismael sorriu satisfeito: “Quando é que a gente podia imaginar que aquelas brincadeiras iam dar nisso? Uma coisa de esquina encher avenida? Hoje isso não é mais escola. É universidade, é academia, é faculdade, sei lá! E amanhã é a formatura do pessoal que estudou o ano inteiro. Colação de grau, desfile em passarela, festa maior do mundo. Que coisa!...”

Fonte: História do Samba - Editora Globo