Mostrando postagens com marcador chico buarque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador chico buarque. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, novembro 20, 2017

Chico Buarque: Letras, Cifras e Canções


Canções de Chico na grande maioria interpretadas por ele, outras dele interpretadas por outros artistas, excepcionalmente algumas canções de outros compositores.

































































































































































































































Veja também:

sábado, agosto 26, 2017

Deus lhe pague

Deus lhe Pague (samba, 1971) - Chico Buarque - Interpretação: Chico Buarque

LP Construção / Título da música: Deus Lhe Pague / Chico Buarque (Compositor) / Chico Buarque (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1971 / Nº Álbum: 6349 017 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Samba.


Tom: C
Em                                 C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
Em                                 C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Em
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Am   C7/A   F/A B7(b9/#11) B7 Em Em/F# Em/G Em/F# Em Em/F# Em/G Em/A
Deus      lhe                pa-gue

Em                                C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Em                                   C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Em
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Am  C7/A   F/A B7(b9/#11) B7 Em Em/F# Em/G Em/F# Em Em/F# Em/G Em/A
Deus    lhe              pa-gue

Em                                    C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
Em                                    C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Em
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Am  C7/A  F/A B7(b9/#11) B7 Em  Em/F# Em/G Em/F# Em Em/F# Em/G Em/A
Deus  lhe     pa-gue

Em                                      C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Em                                      C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Em
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Am  C7/A   F/A B7(b9/#11) B7 Em   Em/F# Em/G Em/F# Em Em/F# Em/G Em/A
Deus    lhe             pa-gue

Em                                    C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Em                                    C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
Em
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Am  C7/A F/A B7(b9/#11) B7 Em  Em/F# Em/G Em/F# Em Em/F# Em/G Em/A
Deus    lhe                pa-gue

Em                                   C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
Em                                   C/B C C/B C/E C/F# C/G C/A C
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
Em
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Am      C7/A     F/A B7(b9/#11) B7 Em   
   Deus      lhe                pa-gue

Em/F# Em/G Em/F# Em Em/F# Em/G Em/F# Em Em/F# Em/G Em/F# Em Em6/9

domingo, abril 28, 2013

O massacre da "Sabiá"

Chico Buarque e Tom Jobim
Não há brasileiro, vivo ou morto, que não tenha uma vizinha gorda e, além de gorda, patusca como uma viúva machadiana. Dirão os idiotas da objetividade que vizinha é a que mora ao lado, ou defronte, ou ali na esquina ou, ainda, na mesma rua. O caso não me parece tão simples. O que eu chamo de vizinha é, antes de mais nada, um certo tipo físico, uma certa e generosa adiposidade. Dizia-me um amigo, a propósito de não sei de quem:

— "Gorda como uma vizinha".

Aí está dito tudo. E se tiver varizes, melhor. Ah, esquecia-me das brotoejas. É preciso que desponte, no seu decote, uma constelação de brotoejas. Assim é, fisicamente, a vizinha. Do ponto de vista de caráter, sentimentos e modos tem de ser patusca. Imaginem uma víbora gaiata — é a vizinha, como a imaginava o nosso Machado de Assis.

Se, por acaso, mora ao lado uma senhora esguia, de lindas maneiras e nobres sentimentos — estejamos certos de um equívoco, de uma fraude ou de uma confusão de endereço. Reside a dois passos, mas é a falsa vizinha, a antivizinha, sem nada de machadiano.

Fiz esta breve introdução para concluir: — tenho, na minha rua, uma senhora que é a vizinha perfeita, irretocável. Está sempre na janela. Eis aí um costume típico. Como se sabe, a janela foi a televisão das gerações passadas. Hoje, tudo mudou. Há pessoas que passam anos e não usam a janela nem para cuspir. Resumindo: — a janela só existe e sobrevive nas letras do Chico Buarque de Holanda.

Mas onde é que eu estava? Ah, na vizinha gorda, a quem chamam de "Moby Dick", a baleia. E a santa senhora, instalada no seu primeiro andar, toma conta de tudo e de todos. Vê quem chega, quem parte, quem namora e quem prevarica.

Ontem, ao sair de casa, quem vejo eu? A vizinha.

Quase atravessei a rua. Mas já a vizinha crispava no meu braço a sua mão pequena e voraz de gorda. Não tive outro remédio senão parar. Agrediu-me com a pergunta:

— "O que me diz do Festival?".

Não me lembro se disse "Gostei" ou "Não gostei". Agora me lembro. Minha resposta foi exatamente esta:

— "Mais ou menos".

Só. Por coincidência, também ela achara "mais ou menos". Vendo, ali, uma similitude de gosto, de sentimentos, vibrou a vizinha. Conversamos uns quinze minutos. E, por fim, quando me despedi, ela fez mistério, fez suspense. Disse, sem desfitar-me:

— "Nada como um dia depois do outro".

Aquilo ficou na minha cabeça. "Nada como um dia depois do outro." Só uma vizinha gorda diria isso. Sim, a frase era um achado de vizinha gorda, patusca e cheia de varizes. Mas como ia dizendo: — despedi-me e, em seguida, apanhei o táxi. Vim para a cidade ressoante do "Nada como um dia depois do outro". E, então, pensei no Festival.

Em São Paulo, quando se escolheu a música paulista, os fanáticos de Vandré promoviam uma apoteose para o seu ídolo e, ao mesmo tempo, massacravam a música de Caetano Veloso. E não só a massacravam, como também massacravam o autor. Se vocês assistiram ao teipe da Paulista, hão de se lembrar. Pela primeira vez viu-se uma pobre canção linchada. A canção, digo eu, e respectivo autor.

E mais: — enquanto Caetano Veloso queria cantar, a platéia — sapateando como uma espanhola — fazia um coro feroz, unânime e obsceno. Mas o artista deu-lhe o bravo troco. Chamou os jovens ululantes de "imbecis", "analfabetos", "débeis mentais" etc. etc. E disse tanto que a obscenidade emudeceu. O comportamento de tal platéia — e toda ela "festiva" — foi de uma indignidade inédita.

Vejam como cabe, aqui, o "Nada como um dia depois do outro" da minha vizinha. No Rio, novamente, apoteose para Vandré e vaia para "Sabiá". Em São Paulo, porém, o "Proibido" foi realmente proibido pela platéia, e saiu do Festival. Aqui, o vaiadíssimo "Sabiá" ganhou e vai representar o Brasil.

Mas o que ainda me assombra é o poder de promoção da "festiva". O povo acha graça e vamos e venhamos: — o simples nome de "festiva" é um apelo ao ridículo. Realmente, há o ridículo, sem prejuízo, todavia, do gênio promocional das esquerdas. O leitor não tem noção do que sejam os bastidores da glória, do sucesso, da consagração. Hoje, só se é poeta, romancista, sociólogo, crítico, cineasta, se as esquerdas o permitirem. Cabe então a pergunta: — e por quê? Vejamos.

Porque a "festiva" infiltrou-se nas redações, nas rádios, nas TVs. Há um escritor que não escreve, não lê, não pensa? Outro que é cineasta inédito? E outro ainda um romancista que não fez, nem fará jamais um romance? Como desfilam em passeatas e xingam os Estados Unidos — são grandes sociólogos, cineastas, romancistas e poetas. E há o caso de Gilberto Freyre.

As esquerdas o abominam. Por que, não se sabe, ou, por outra, sabe-se perfeitamente. Gilberto Freyre é um homem livre. Pensa, vejam vocês e pasmem: — pensa. Pois bem. Até outro dia era, na vida intelectual do Brasil, uma presença enorme, obrigatória, obsessiva. Lembro-me de que, certa vez, as grandes figuras literárias do Brasil propunham que ele fosse o nosso candidato ao prêmio Nobel. E, súbito, desaba sobre o seu nome e sua obra um vil silêncio. É solidamente ignorado pelos nossos jornais. Não há mais notícia, nem reportagem, nem crônica, nem artigo sobre Gilberto Freyre. Acabou? Morreu? Deixou de pensar, ler, escrever? Não, mil vezes não.

Simplesmente, não aceitou a pressão das esquerdas. E estas, que têm a posse de todos os meios de promoção, não falam em Gilberto Freyre, negam-lhe uma notícia de duas linhas ou uma vaga referência. Bem. Volto ao Festival.

Vejam vocês: — a "festiva", com o seu horror ao risco, não deu um tiro em 31 de março, não matou um passarinho em 1º de abril. E nem vai mover uma palha ou tirar uma cadeira do lugar. Mas só se tem talento com a sua licença. E, domingo, no Maracanãzinho, as esquerdas caíram do cavalo. Esperavam o primeiro prêmio para Vandré e quem ganhou foi "Sabiá". Entre parênteses, não nego o talento de Vandré. Sua "Marselhesa" nada tem de "Marselhesa" e, pelo contrário, soa como berceuse e o próprio autor a canta como tal.

Mas, berceuse ou "Marselhesa", há talento. E o resultado doeu na "festiva". Logo, com aquela sua coragem sem risco, saiu pelas redações, rádios e TVs. O nosso Vandré teve uma imprensa que nem Rui, nem o barão do Rio Branco, nem Santos Dumont mereceram. Mas era pouco. A glória impressa era pouco. E que fizeram elas, as esquerdas? Vejam que golpe bem imaginado. Na terça-feira, em jornais, rádios e TVs, largaram a bomba:

— Tom e Chico iam renunciar.

Nada descreve o meu espanto. O prêmio, se não me engano, é de 25 milhões. Vinte e cinco milhões — o brasileiro não é assim. Mesmo o nosso milionário não é assim. Um dia, o Walther Moreira Salles ganhou um prêmio menor no "Seu Talão". Pois meteu-se na fila e foi buscar o dinheiro. Por que, e a troco de que, Tom e Chico iam enfiar no bolso de Vandré os 25 milhões? O Chico não está presente. E, se o Tom aceitasse a coação sentimental e realmente idiota, estaria merecendo um urgente tratamento psiquiátrico.

Sim, e nós o amarraríamos num pé de mesa e lhe daríamos água numa cuia de queijo Palmira.

[3/10/1968]
_____________________________________________________________________
A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo:  Companhia das Letras, 1995.

domingo, novembro 12, 2006

Deus lhe pague

Paralamas do Sucesso
Deus lhe pague - Chico Buarque
[Intro:] Bm G Bm
           G Bm
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
G Bm
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
G
Por me deixar respirar, por me deixar existir
F  F#7(4)    Bm
Deus lhe... pague
Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

segunda-feira, abril 17, 2006

Olhos nos olhos

Nenhum letrista brasileiro supera Chico Buarque na arte de escrever canções para personagens femininas. Numa entrevista à Rádio JB, em 16.5.90, ele afirmou: “fiz muitas músicas de encomenda para teatro. Nesses casos, mais do que os personagens, eu procuro saber quem é o ator ou a atriz que vai interpretá-las.

Então, em minha cabeça, eu misturo a figura da atriz com a da cantora que gostaria que cantasse aquela música. Daí saíram canções como ‘Folhetim’, que tem a cara da Gal. Mas às vezes a canção nem é para teatro, como ‘Olhos nos Olhos’, que fiz para Bethânia. Quando terminei ‘Olhos nos Olhos’ eu disse: olha, esta música está a cara da Maria Bethânia.”

Realmente uma composição melodramática como “Olhos nos Olhos” (“Quando você me deixou, meu bem / me disse pra ser feliz e passar bem / quis morrer de ciúme, quase enlouqueci...”) teria mesmo que ser cantada por Maria Bethânia, tal como outras (“Sem Açúcar”, “O Meu Amor”, “Gota d’Água”) que Chico deve ter feito pensando nela, pois até versos banais—como “olhos nos olhos, quero ver o que você faz / ao sentir que sem você eu passo bem demais” — ganham especial dramaticidade em sua voz rouca.

Uma curiosidade: a canção não termina na tônica. Na tonalidade de lá maior, por exemplo, como está no livro Chico Buarque — letra e música, a melodia acaba na nota sol, sétimo grau da escala, o que dá uma sensação de que não termina (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Olhos no olhos (1976) - Chico Buarque


F  Gm7  G#º  F/A  G7/13  G7/5+  Gm7  C7/9-

F        Gm7        G#º       F/A
Quando você me deixou, meu bem
F/Eb           F    Bb7+          C#º 
Me disse pra ser feliz e passar bem
Em7              A7/5+ Dm7
Quis morre de ciúme, quase enlouqueci
G7/13                         Gm7       C7
Mas depois, como era de costume, obedeci
F          Gm7      G#º    F/A
Quando você me quiser rever
F/Eb             F       Bb7+       C#º
Já vai me encontrar refeita pode crer
Dm7           C#5+       F/C            F/Eb
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Em7/5-                            Bb7+     A7
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
Dm7           C#5+    D/C
E que venho até remoçando
   G/B     Bb7+       A7           G#º 
Me pego cantando sem mais, nem porque
Dm7        C#5+    D/C        
E tantas águas rolaram
G/B               C/Bb
Tantos homens me amaram
              Em7/5-    C7
bem mais e melhor que você
F          Gm7      G#º    F/A
Quando talvez precisar de mim
F/Eb              F            Bb7+       C#º
Você sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Dm7           C#5+       F/C            F/Eb
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Em7/5-                         Bb7    A7
Quero ver como suporta me ver tão feliz

Feijoada completa


Feijoada Completa (1978) - Chico Buarque - Intérprete: Chico Buarque

LP Chico Buarque / Título da música: Feijoada Completa / Chico Buarque (Compositor) / Chico Buarque (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1978 / Nº Álbum: 6349 398 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Samba / MPB.


Intro.: A7+ / A6 / A7+ / C#7

      F#7  F#7/5+
Mulher,
    B7/9
Você     vai gostar
Dm6/F               E7            A6
Tô levando uns amigos pra conversar
A/G                 A7/5+        D7
Eles vão com uma fome  que nem  me contem
F#7                 F#7/5+     B7/9     E7
Eles vão com uma sede   de anteontem
  A6            A7/5+           D7               D#º
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
  A6    F#7/13-   D6   Dm6    A6   C#7
E vamos botar     água no  feijão

      F#7  F#7/5+
Mulher
      B7/9
Não vá     se afobar
Dm6/F                 E7            A6
Não tem que pôr a  mesa, nem dá  lugar
A/G                   A7/5+     D7
Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
F#7                F#7/5+     B7/9      E7
E prepare as linguiças pro tira-gosto
 A6     A7/5+                 D7          D#º
Uca, açú ... car, cumbuca de gelo, limão
  A6    F#7/13-   D6   Dm6    A6   C#7
E vamos botar     água no  feijão

      F#7  F#7/5+
Mulher
    B7/9
Você     vai fritar
Dm6/F                E7            A6
Um montão de torresmo pra acompanhar
A/G                A7/5+       D7
Arroz branco, farofa  e a malagueta
F#7            F#7/5+      B7/9        E7
A laranja-bahia    ou da     seleta
  A6       A7/5+                D7                 D#º
Joga o paio,     carne seca, toucinho no caldeirão
  A6    F#7/13-   D6   Dm6    A6   C#7
E vamos botar     água no  feijão

      F#7  F#7/5+
Mulher
      B7/9
Depois     de salgar
Dm6/F                E7                A6
Faça um bom refogado, que é pra engrossar
A/G               A7/5+       D7
Aproveite a gordura  da frigideira
F#7               F#7/5+        B7/9         E7
Pra melhor temperar   a couve     mineira
   A6             A7/5+         D7                D#º
Diz  que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
  A6    F#7/13-   D6   Dm6    A6
E vamos botar     água no  feijão

Carolina

A timidez de Chico Buarque foi indiretamente responsável pela existência de “Carolina”. Contratado pela TV Globo para comandar “Shell em Show Maior”, ao lado de Norma Bengell, ele chegou a gravar o primeiro programa, mas não houve argumento capaz de convencê-lo a gravar o segundo. Nem mesmo o de que teria de pagar uma multa por descumprimento de contrato.

Foi então que entrou em cena o diretor da emissora, Walter Clark, com a solução conciliatória: a multa seria cancelada em troca da inscrição de uma composição de sua autoria no II Festival Internacional da Canção, promovido pela Globo. Esta composição foi “Carolina”, terceira classificada no festival e pela qual Chico jamais se entusiasmou, apesar do grande sucesso que obteve.

Ainda pertencente ao período lírico-nostálgico que marcou o início de sua carreira, “Carolina” também não entusiasmaria a ala, digamos, mais avançada da crítica. Mas é certamente um belo samba romântico, um tanto amargo, sobre o desencanto de uma mulher que se esqueceu de viver, enquanto “o tempo passou na janela”.

Concluída às pressas, em meio a uma viagem de avião, a composição foi gravada e defendida no festival pelas irmãs Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy, recebendo em seguida gravações de Elizeth Cardoso, Isaura Garcia e Nara Leão (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Carolina (samba, 1967) - Chico Buarque


B7/5+       E7+/9
Caroli .... na
                  D#m7/5-
Nos seus olhos fun ...... dos
G#7                C#m7
Guarda tanta dor
     G#m7     C#7/9-         F#m7  B7/9
A dor    de to ..... do esse mundo
     F#m7                  B7/9
Eu já    lhe expliquei que não  vai dar
    E7+/9
Seu pranto não vai nada ajudar
   C#m7/9            F#7
Eu já     convidei para dançar
  F#m7              B7/9-
É hora, já sei, de aproveitar

     E7+/9                       D#m7/5-  G#7/13-
Lá fo .... ra, amor, uma rosa nasceu
              C#m7               Bm7  C#7/9-
Todo mundo sambou  Uma estrela caiu
F#m7      Am6               E7+/9
Eu bem   que mostrei sor .... rindo
C#m7                   F#7/13    F#7/13-
Pela janela, ói que lin ..... do
F#7                 F#m7  B7/5+
Mas Carolina não viu

      E7+/9
Caroli .... na
                   D#m7/5-
Nos seus olhos tris ...... tes
G#7                 C#m7
Guarda tanto amor
      G#m7      C#7/9-      F#m7  B7/9
O amor    que já       não existe
      F#m7               B7/9
Eu bem    que avisei vai acabar
   E7+/9
De tudo  lhe dei para aceitar
    C#m7/9            F#7
Mil versos cantei pra lhe agradar
 F#m7           B7/9-
Agora não sei como    explicar

     E7+/9                     D#m7/5-  G#7/13-
Lá fo .... ra, amor Uma rosa morreu
             C#m7               G#m7/5-   C#7/9-
Uma festa acabou  Nosso barco partiu
F#m7      Am6               E7+/9
Eu bem   que mostrei a e .... la
  C#m7                 F#m7
O tempo passou na jane .... la
         B7/9-           G#7/13  G#7 C#7/9-
Só Caroli .... na não viu
F#m7      Am6               E7+/9
Eu bem   que mostrei a e .... la
  C#m7                 F#m7
O tempo passou na jane .... la
         B7/9-           Em6
Só Caroli .... na não viu

Bye bye Brasil

Cena do filme Bye bye, Brasil de 1979
Os casais Cacá Diegues/Nara e Roberto Menescal/Iara foram vizinhos durante anos em um prédio de apartamentos em Ipanema, tendo Cacá, num encontro cotidiano, proposto a Menescal que compusesse a trilha musical de seu filme “Bye Bye, Brasil”, sugerindo Chico Buarque como letrista. Juntos pela primeira vez numa parceria e indecisos sobre quem faria antes a sua parte, Chico e Menescal acabariam concordando que qualquer um poderia começar, a partir do momento em que tivesse uma boa idéia.

Um dia, voltando de São Paulo pela ponte aérea, o violonista teve de repente “a boa idéia”, uma melodia inspirada pelo próprio título do filme. O curioso é que a inspiração surgiu quando ele aguardava, sentado numa poltrona do avião, espremido entre dois sujeitos enormes, que fosse resolvido um problema para a decolagem. Anotada a frase inicial numa pauta improvisada e concluída a melodia um dia depois, Menescal entregou-a a Chico e ficou esperando a letra. Só que o poeta demorou tanto, que chegou o dia da gravação sem que ele a tivesse aprontado. Finalmente, na hora da mixagem, com o tema principal gravado no seu tom, Chico entrou no estúdio trazendo uma imensa tira de papel, com uma letra maior do que se poderia desejar... Mas Cacá logo resolveu a parada da maneira mais prática. Leu os versos até certo ponto e decretou: “tá bom até aqui”, cortando o resto com uma tesoura.

Assim foi gravada por Chico Buarque a excelente canção “Bye Bye, Brasil”, bem vinculada ao enredo do filme, com um personagem narrando num telefone público suas aventuras ambulantes para a namorada: “Oi, coração / não vai dar pra falar muito não / espera passar o avião / assim que o inverno passar / eu vou te buscar / aqui tá fazendo calor / deu pane no ventilador / já tem fliperama em Macau...”

Foi desta gravação que se originou o compacto duplo do filme de grande sucesso. Depois, Chico fez nova gravação com outro arranjo de Menescal para o elepê, enquanto o músico a gravava em versão instrumental para o seu disco Ditos e feitos. Existem ainda outras versões de destaque como a do Grupo Pau Brasil e a de Zé Roberto Bertrami, com Hélio Delmiro, premiada pela revista Playboy.

Meses mais tarde, Menescal viveria uma experiência pitoresca em Cabo Frio. Tocando numa reunião de amigos, foi interpelado por uma garota: “Você sabe aquela música do Chico Buarque, ‘Bye Bye, Brasil’? Ah, toca pra gente cantar...” Então, com sua calma habitual, o autor ignorado tocou sua música, por sinal uma das mais difíceis de sua obra. Que o digam os que se atrevem a gravá-la, pois enquanto a melodia tem diferenças sutis, às vezes apenas uma notinha entre-frases aparentemente iguais, a harmonia é uma sugestiva sucessão de acordes ao improviso (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Bye bye, Brasil (1979) - Chico Buarque e Roberto Menescal


Em 
Oi, coração
             A4/7      A7 
Não dá pra falar muito não
         D7+ 
Espera passar o avião
              F#m7 
Assim que o inverno passar
B7/9-             Em 
Eu acho que vou te buscar
          A4/7 
Aqui tá fazendo calor
A7            Am 
Deu pane no ventilador
            C/D 
Já tem fliperama em Macau
           G7+               F#7 
Tomei a costeira em Belém do Pará
  B7+                G#m7 
Puseram uma usina no mar
   Am                    C/D 
Talvez fique ruim pra pescar
    F#m7 B7/9- 
Meu amor

Em 
No Tocantins
            A4/7        A7 
o chefe dos Parintintins
            D7+ 
vidrou na minha calça Lee
            F#m7 
Eu vi uns patins prá você
B7/9-            Em 
Eu vi um Brasil na tevê
           A4/7 
Capaz de cair um toró
A7            Am 
Estou me sentindo tão só
C/D             G#7+ 
Oh! tenha dó de mim
   G7+              C7/9 
Pintou uma chance legal
   F#m7            Bm7 
Um lance lá na capital
    G#m7            C#7 
Nem tem que ter ginasial
     F#7+  B7/9- 
Meu amor

Em 
No Tabaris
            A4/7           A7 
o som é que nem os Bee Gees
               D7+ 
Dancei com uma dona infeliz
            F#m7 
Que tem um tufão nos quadris
B7/9-            Em 
Tem um japonês atrás de mim
              A4/7 
Eu vou dar um pulo em Manaus
A7            Am 
Aqui tá quarenta e dois graus
            C/D 
O sol nunca mais vai se pôr
            G7+               F#7 
Eu tenho saudades da nossa canção
   B7+                G#m7 
Saudades de roça e sertão
    Am                 C/D 
Bom mesmo é ter um caminhão
     F#m7 B7/9- 
Meu amor

Em 
Baby bye, bye
           A4/7       A7 
Abraços na mãe e no pai
            D7+ 
Eu acho que vou desligar
             F#m7 
As fichas já vão terminar
B7/9-             Em 
Eu vou me mandar de trenó
           A4/7         A7 
Pra Rua do Sol, Maceió
             Am 
Peguei uma doença em Ilhéus
C/D                G#7+ 
Mas já estou quase bom
 G7+               C7/9 
Em março vou pro Ceará
    F#m7              Bm7 
Com a bênção do meu Orixá
 G#m7               C#7 
Eu acho bauxita por lá
     F#7+  B7/9- 
Meu amor
Em 
Bye,bye Brasil
        A4/7     A7 
A última ficha caiu
              D7+ 
Eu penso em vocês night and day
            F#m7 
Explica que tá tudo ok
B7/9-           Em 
Eu só ando dentro da Lei
            A4/7          A7 
Eu quero voltar podes crer
            D7+ 
Eu vi um Brasil na TV
             F#m7 
Peguei uma doença em Belém
B7/9-         Em 
Agora já tá tudo bem
          A4/7           A7
Mas a ligação está no fim
           D7+ 
Tem um japonês atrás de mim
           F#m7 
Aquela aquarela mudou
B7/9-             Em 
Na estrada peguei uma cor
           A4/7      A7
Capaz de cair um toró
            D7+
Estou me sentindo um jiló
           F#m7 
Eu tenho tesão é no mar
B7/9-              Em 
Assim que o inverno passar
             A4/7        A7 
Bateu uma saudade de ti
                   D7+ 
Estou a fim de encarar um siri
                F#m7 
Com a bênção do Nosso Senhor
B7/9-            Em 
O sol nunca mais vai se pôr

Apesar de você

Chico e Marieta
Na Europa havia mais de um ano, Chico Buarque voltou ao Rio em março de 70, influenciado por André Midani, diretor de sua gravadora, que lhe assegurava “estar melhorando a situação no Brasil”. Mas descobrindo ao chegar que, ao contrário, a situação piorara, externou seu desapontamento no samba “Apesar de Você” que, entre outras coisas, afirmava: “Você vai pagar / cada lágrima rolada / nesse meu penar / apesar de você / amanhã utro dia / você vai se dar mal / etc. e tal...”

Por incrível que pareça, este desabusado recado à ditadura, propositalmente muito mal disfarçado numa fictícia briga de namorados, passou pela censura e foi lançado por Chico num compacto simples. Resultado: o samba estourou nas rádios e já se aproximava da citra de cem mil discos vendidos, quando o governo entendeu a mensagem e, imediatamente, proibiu a música, recolheu e destruiu os discos e, para completar, puniu o censor incompetente. Apenas se esqueceu de destruir a matriz , o que possibilitou a reedição do original, depois que a tempestade passou.

Daí em diante, e até o final da ditadura, Chico Buarque seria implacavelmente marcado pelos censores, sofrendo suas letras os mais absurdos vetos e rejeições. A situação chegou ao ponto de ele ter que se disfarçar, sob os pseudônimos de Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, para aprovar três composições que incluiria no elepê Sinal fechado, em 1974. Descoberta a farsa, porém, a censura criou novas exigências: toda letra apresentada teria que ser acompanhada de cópias da carteira de identidade e do CPF do compositor (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Apesar de você (samba, 1970), Chico Buarque


Am     Am7+       Em7/5-
Hoje você é quem manda
 D7/9            G7/13
falou, tá falado
            C7+/9     E/G#
Não tem discussão, não
Am       Am7+       Em7/5-
A minha gente hoje anda
          A7                G/A    A7/5+
falando de lado e olhando pro chão, viu
  D7/9        G7/13      C7+
Você que inventou esse estado
       Fm9         C7+       Fm9     Em    C7/9 F7+
e inventou de inventar toda a escuridão
             E/G#       Am
Você que inventou o pecado,
     C7/9          F7+ G7/13 C   G7/13  C 
esqueceu-se de inventar o perdão
  G7/13     C               A7/5+     Dm7    G7
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
              Dm7
Eu pergunto a você
               G7
onde vai se esconder
           Dm7  E/G#   
da enorme euforia
Em7/5-           A7
Como vai proibir
                  G/A A7/5+ Dm7   Fm9
quando o galo insistir em cantar
    Bb7        Em7   A7/5+  
Água nova brotando e a gente
   D7/9   G7/13  C     E/G#
se amando sem parar
Am         Am7+     Em7/5-
Quando chegar o momento,
    A7/5+    D7/9    G7/13
esse meu sofrimento
             C7+/9    E/G#
vou cobrar com juros, juro
Am          Am7+      Em7/5-
Todo esse amor reprimido
              A7
esse grito contido,
               G/A  A7/5+
este samba no escuro
    D7/9               C7+/9
Você que inventou a tristeza,
     Fm9        C7+   Fm9     Em7  C7/9  F7+
ora, tenha a fineza de desinventar
           E/G#      Am
Você vai pagar e é dobrado,
    C7/9       F7+
cada lágrima rolada,
G7/13     C      G7/13  C
nesse meu penar
  G7/13     C               A7/5+     Dm7    G7
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
              Dm7
Eu pergunto a você
               G7
onde vai se esconder
           Dm7  E/G#   
da enorme euforia
Em7/5-           A7
Como vai proibir
                  G/A A7/5+ Dm7   Fm9
quando o galo insistir em cantar
    Bb7        Em7   A7/5+  
Água nova brotando e a gente
   D7/9   G7/13  C    
se amando sem parar

A volta do malandro


A Volta do Malandro (1985) - Chico Buarque - Intérprete: Chico Buarque

LP Malandro / Título da música: A Volta do Malandro / Chico Buarque (Compositor) / Chico Buarque (Intérprete) / Gravadora: Barclay / Ariola / Ano: 1985 / Nº Álbum: 826 549-1 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Samba / MPB.


Bb6 Bb7 Bb6 Bb7 Bb6
Eis                 
     Bb7    Bb6   Bb7   Bb6 Bb7 Bb6 Bb7
o malandro na praça outra vez
Bb6     Bb7     
Caminhando na ponta   
     Bb6  Bb7 Ebm6/Gb Ebm7/Gb Ebm6/Gb Ebm7/Gb
  dos pés
Ebm6/Gb     Ebm7/Gb     Ebm6/Gb Ebm7/Gb   Em7/5-  Gm/F
Como quem   pisa nos     corações
Em7/5-       Gm/F  Em7/5-   Gm/F  Bb6 Bb7 Bb6 Bb7
Que rolaram dos    cabarés
Bb6      Bb7    Bb6  Bb7    Ab6 Ab4/6 Ab6 Ab4/6
Entre deusas e  bofetões
Ab6      Ab4/6  Ab6   Ab4/6  G7 Fm6/Ab G7 Fm6/Ab
Entre dados  e   coronéis
G7      Fm6/Ab   G7    Fm6/Ab  C7/E C7/F C7/F# C7/G
Entre parango..lés e patrões
Am6    Am7           Am6    Am7  Bb6 Bb7 Bb6 Bb7
O malandro anda assim de viés
Bb6      Bb7  Bb6   Bb7  Ebm6/Gb Ebm7/Gb Ebm6/Gb Ebm7/Gb
Deixa balançar a maré
Ebm6/Gb   Ebm7/Gb   Ebm6/Gb  Ebm7/Gb G7 Fm6/Ab G7 Fm6/Ab
E a poeira     assentar   no     chão
G7        Fm6/Ab  G7     Fm6/Ab  C7/E C7/F C7/F# C7/G
Deixa a praça virar um salão
Am6        Am7          Am6    Am7  Bb6 Bb7 Bb6 Bb7 
Que o malandro é o barão da ralé


Abm6/Cb / / / / / / / Bb6 Bb7 Bb6 Bb7 Bb6
Bb7 Bb6 Bb7 Bb6 Bb7 Bb6 Bb7 Bb6 Bb7 Bb6 Bb7

A Rosa


A Rosa - Chico Buarque - Interpretação: Chico Buarque

LP/CD Uma Palavra / Título da música: A Rosa / Chico Buarque (Compositor) / Chico Buarque (Intérprete) / Gravadora: BMG Brasil / Ano: 1995 / Nº Álbum: 7432126594-1 / Faixa 5 / Gênero musical: Samba / MPB.



 D      A7             D     C#m7/5-  F#7
Arrasa, o meu projeto de vida
   Bm      F#7            D7
Querida, estrela do meu caminho
  Bb        A7               D         C#7
Espinho, cravado em minha garganta, garganta
  Am/C      B7              E7      A7
A santa, às vezes troca meu nome, e some

  D        A7            D     C#m7/5-  F#7
E some nas altas da madrugada
   Bm       F#7            D7
Coitada, trabalha de plantonista
  Bb                     D        C#7
Artista, é doida pela Portela, oi ela
   Am/C    B7              E7      A7
Oi ela, vestida de verde e rosa, a rosa

  D       A7                 D7
A Rosa, garante que é sempre minha
    G        B7               E7     A7
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
    Bb                           D          C#7
Que sarro, trouxe umas coisas do norte, que sorte
    Am/C      B7            E7     A7
Que sorte, voltou toda sorridente

  D        A7           D      C#m7/5-  F#7
Demente, inventa cada carícia
 Bm           F#7                D7
Egípcia, me encontra e me vira a cara
 Bb                       D          C#7
Odara, gravou meu nome na blusa, me acusa
    Am/C    B7                 E7      A7
Me acusa, revista os bolsos da calça

  D         A7             D      C#m7/5-  F#7
A falsa, limpou a minha carteira
  Bm       F#7            D7
Maneira, pagou a nossa despesa
  Bb                      D          C#7
Beleza, na hora do bom se queixa, me deixa
  Am/C        B7            E7      A7
A gueixa, que coisa mais amorosa, a rosa

  D         A7             D7
A Rosa, e o meu projeto de vida?
   G       B7               E7    A7
Bandida, cadê minha estrela-guia?
  Bb                         D         C#7
Vadia, me esquece na noite escura, mas jura
   Am/C         B7            E7    A7
Me jura, que um dia volta pra casa

  D7+    A7             D7+   D7
Arrasa o meu projeto de vida
   G       Bm7            Em7
Querida, estrela do meu caminho
  G        Gm7              D7+       C#7
Espinho cravado em minha garganta, garganta
  F#m7     Bm7              Em7      A7
A santa às vezes me chama Alberto, Alberto

  D7+     A7                D7+   D7
Decerto sonhou com alguma novela
  G         Bm7             Em7
Penélope, espera por mim bordando
  G       Gm7             D7+        C#7
Suando, ficou de cama com febre, que febre
  F#m7        Bm7               Em7     A7
A lebre, como é que ela é tão fogosa, a Rosa

  D7+    A7            D7+   D7
A Rosa jurou seu amor eterno
    G       Bm7           Em7
Meu terno ficou na tinturaria
   G      Gm7              D7+       C#7
Um dia me trouxe uma roupa justa, me gusta
   F#m7      Bm7              Em7   A7
Me gusta, cismou de dançar um tango

    D7+     A7            D7+   D7
Meu rango sumiu lá da geladeira
  G          Bm7             Em7
Caseira, seu molho é uma maravilha
    G        Gm7               D7+       C#7
Que filha, visita a família em Sampa, às pampa
   F#m7      Bm7            Em7   A7
Às pampa, voltou toda descascada

  D7+    A7               D7+   D7
A fada, acaba com a minha lira
  G       Bm7            Em7
A gira, esgota a minha laringe
  G        Gm7             D7+    C#7
Esfinge, devora a minha pessoa, à toa
  F#m7     Bm7            Em7     A7
A boa, que coisa mais saborosa, a Rosa

    D7+       A7             D7+   D7
Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
   G       Bm7              Em7
Bandida, cadê minha estrela guia?
  G         Gm7              D7+       C#7
Vadia, me esquece na noite escura, mas jura
   F#m7        Bm7           Em7   A7  D7+
Me jura que um dia volta pra casa

A banda

A passagem de uma banda desperta alegria e prazer em um grupo de pessoas, mergulhadas na monotonia de suas vidas insignificantes (“A minha gente sofrida / despediu-se da dor / pra ver a banda passar / cantando coisas de amor”).

Mas o encantamento tem apenas o tamanho de uma canção, voltando tudo à rotina anterior no momento em que a música deixa de ser ouvida (“Mas para o meu desencanto / o que era doce acabou / tudo tomou seu lugar / depois que a banda passou”).

Espantando a dor, a desesperança, a imobilidade, a banda simboliza a importância da música para a vida. Na visão do poeta, a música é amor, emoção, movimento; o silêncio: tristeza, sofrimento, solidão. Uma composição típica da fase inicial de Chico Buarque, com seu estilo lírico-narrativo, “A Banda” dividiu com “Disparada” o primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.

Seu sucesso foi fulminante, tendo o compacto de lançamento, gravado por Nara Leão, vendido 55 mil cópias em quatro dias. Porém, sua maior façanha foi entrar para os repertórios de bandas do mundo inteiro, mesmo sem ser música militar (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

A banda (marcha, 1966) - Chico Buarque - Intérprete: Nara Leão

Compacto simples / Título da música: A banda / Chico Buarque de Hollanda (Compositor) / Nara Leão (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1966 / Álbum: 365.200 / Lado A / Gênero musical: Marcha.


D6/9                  A7
    Estava à toa na vi__da O meu amor me chamou
F#m7          B7          E7(9)         A7
    Pra ver a banda passar     Cantando coisas de amor
D6/9                   A7
    A minha gente sofri__da Despediu-se da dor
F#m7          B7          E7(9)         A7            D6/9
    Pra ver a banda passar     Cantando coisas de amor

        D7M                     A7
O homem sério que contava dinhei__ro parou
      Am6/C        B7        Em7         Em/D
O faroleiro que contava vanta___gem parou
      C#m7        F#7(9)        F#m7      B7
A namorada que contava  as estre____las parou
        E7(9)                 Em7(9)    A7
Para ver,    ouvir e dar passa______gem
       D7M                  A7
A moça triste que vivia cala__da sorriu
       Am6/C        B7       Em7           Em/D
A rosa triste que vivia fecha___da se abriu
        C#m7      F#7(9)
E a meninada toda se    asanhou
F#m7          B7          E7(9)         A7
    Pra ver a banda passar     Cantando coisas de amor

D6/9                  A7
    Estava à toa na vi__da O meu amor me chamou
F#m7          B7          E7(9)         A7
    Pra ver a banda passar     Cantando coisas de amor
D6/9                   A7
    A minha gente sofri__da Despediu-se da dor
F#m7          B7          E7(9)         A7            D6/9
    Pra ver a banda passar     Cantando coisas de amor

        D7M                       A7
O velho fraco se esqueceu do cansa__ço e pensou
              Am6/C    B7           Em7           Em/D
Que ainda era moço pra sair no terra___ço e dançou
       C#m7      F#7(9)       F#m7
A moça feia debruçou   na jane____la
   B7             E7(9)               Em7(9)   A7
Pensando que a ban_____da tocava pra e______la
          D7M                       A7
A marcha alegre se espalhou na aveni__da e insistiu
      Am6/C       B7         Em7         Em/D
A lua cheia que vivia escondi___da surgiu
        C#m7      F#7(9)
Minha cidade toda se    enfeitou
F#m7          B7          E7(9)         A7
    Pra ver a banda passar     Cantando coisas de amor

D6/9                     A7
    Mas para meu desencan__to O que era doce acabou
F#m7       B7           E7(9)             A7
    Tudo tomou seu lugar     Depois que a banda passou
D6/9                      A7
    E cada qual no seu can__to Em cada canto uma dor
F#m7          B7          E7(9)         A7
    Depois da banda passar     Cantando coisas de amor
D6/9          B7          E7(9)         A7
    Depois da banda passar     Cantando coisas de amor
D6/9          B7          E7(9)         A7            D6/9
    Depois da banda passar     Cantando coisas de amor

terça-feira, abril 11, 2006

Chico Buarque

Chico Buarque - 27/10/1967 - ARQUIVO/AE.

Os bêbados zonzos, dançando trôpegos no meio da rua; os malandros, pobres acabrunhados; os meninos lépidos e tristes, são paisagens da música de Chico, mas são, antes, momentos dos olhos de Chico. Cenas que começaram, desde cedo, a ser impressas em sua alma. Afinal, alguns artistas têm alma branca como papel e nela se pode imprimir quase tudo.


Chico sempre foi da classe média carioca, paulista e, depois, carioca de novo. Suas paisagens são as mesmas de todos nós. Sua música brotou do meio da rua e do meio do povo. As imagens sempre estiveram aí, estampadas na cara do Brasil e alguém, como Francisco, como Chico, saiu a recolhê-las. Trôpego, como todos nós, emocionado, como todos nós, um pouco triste, muito poeta, brasileiro, com todos nós.

No final dos anos 50, havia um ouvido popular que fechava os anos dourados ao som de Frank Sinatra, Bing Crosby e Nat King Cole. Havia também aqueles mais moderninhos que curtiam Elvis Presley e The Platters. Chico estava entre eles, sem abandonar antigos sucessos de velhos sambistas como Noel Rosa, Ataulfo Alves e Ismael Silva. Mas, para o ouvido de Chico, o rock que nascia pareceu velho quando ele ouviu a voz e a bossa nova de João Gilberto na composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Chico Buarque não sabia, mas aquela música influenciaria os rumos de sua futura vida artística. Aquela música misturava o molejo do morro e uma certa sofisticação do jazz. Era a contribuição brasileira para a modernidade da música. Era a criatividade do Brasil mostrando novos caminhos. Era Chico ouvindo até vinte vezes por dia Chega de saudade na casa da rua Buri. Era o Brasil de Juscelino Kubistchek, de Brasília, de Oscar Niemeyer, da delicadeza do homem cordial.

E foi essa mistura que lhe aguçou a vista e lhe abriu a alma. Foi essa mistura que o foi transformando no Chico brasileiro, capaz de reunir a poesia ao futebol, a feijoada à música, a solidariedade ao bom humor. Assim, 1965 viu nascerem os sessenta versos de Pedro pedreiro.

O estudante de arquitetura da FAU já tinha algum prestígio no mundo da música de São Paulo. Ele gravara seu primeiro compacto com Pedro Pedreiro. Os sambas tocados no Juão Sebastião Bar, no Quitanda e no Sambafo já haviam Ihe garantido participação na efervescência musical daquela geração. Assim, também em 1965, Chico era convidado por Roberto Freire, diretor do TUCA, a musicar Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto. Era a segunda encomenda que Chico recebia e, como em todas as outras que viriam depois, deixou tudo para a última hora. Na Véspera do dia da entrega das músicas de Morte e Vida Severina, ele se trancou numa sala da casa da rua Buri para realizar, nervoso, o trabalho.

Apesar de o Brasil já estar sob as botas da ditadura, a televisão era ainda incipiente e a juventude da época respirava música brasileira, teatro brasileiro, literatura brasileira e cinema brasileiro. Morte e Vida foi um sucesso. Foi excursionar na Europa, onde ganhou o festival de teatro universitário de Nancy, na França. O cenário intelectual e artístico brasileiro - especialmente na música - rumava para uma fase de grande criatividade e qualidade, uma fase que acabou tendo como símbolo os festivais de música. Carlos Drummond de Andrade disse, em 1966, que o Brasil andava precisando de amor e que era isso que a marchinha, "tão antiga em sua tradição lírica", nos havia dado. O poeta falava de A banda, que acabava de ser uma das ganhadoras do II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. No mesmo ano de 66, Chico gravava seu primeiro LP e se tornava uma celebridade em várias partes do país e no exterior.

Mas o regime endurecia e esse endurecimento forçava aqueles que participavam do mundo da produção cultural a tomar posições. Em 67, as ruas brasileiras começavam a sentir melhor o estremecimento provocado pelos tanques e pelas botinas dos militares no poder. Por outro lado, a oposição amordaçada se dividia. A esquerda começava a se fragmentar em posições radicais e em posições que ainda acreditavam numa negociação. Assim acontecia também com a música. Caetano Veloso e Gilberto Gil encabeçavam o Tropicalismo que, segundo o próprio Caetano, queria fazer uma exploração estética também do que é feio, enquanto o Chico preferiu ficar com o que é bonito. Num país que ainda não havia entrado de vez na era da televisão, a música mostrava-se o catalisador do pensamento nacional.

Em 1968 a peça Roda Viva começou a ser encenada. Teve vida curta. O recrudescimento do regime e as organizações de direita se encarregariam de tirá-la dos palcos. Em São Paulo, a Universidade Mackenzie, na rua Maria Antônia, em frente à USP era um dos centros do temido CCC - Comando de Caça aos Comunistas. Uma organização que recrutava seus membros entre os jovens menos politizados (e geralmente mais ricos) e organizava ações violentas contra quem eles chamavam de comunistas ou inimigos do regime. Um desses alvos foi a peça de Chico.

No dia 17 de julho, um dos grupos do CCC invadiu o Teatro Galpão, em São Paulo. Os cenários foram destruídos e os atores espancados. A medida que o regime dos generais endurecia, seus seguidores iam mostrando as unhas. Do outro lado, a oposição cavava subterrâneos, nos quais muitos se perderiam na clandestinidade imposta pelo AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Era o início de um longo processo que culminaria, muitos anos depois, num ouvido popular diferente.

A música de Chico, de Tom Jobim, de Vinicius e Toquinho, de Edu Lobo, de Carlos Lyra, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil começava, lentamente, a escapar do popular. A música de Chico continuaria a ter como paisagem o bêbado, o malandro, o pivete, a prostituta, o que se alimenta de luz, mas os ouvidos desses mesmos personagens começavam, lentamente, a deixar de ouvir. A essas alturas, o Brasil delicado, do final dos anos 50 e do começo dos anos 60, começava a deixar de existir.

Antes mesmo do AI-5, a música de Chico não conseguia escapar do rótulo de alienada. Em julho de 68, Bom Tempo ficou em segundo lugar na Bienal do Samba, que foi vencida por Baden Powell, com Lapinha. Bom Tempo foi vaiada e criticada, pois falava de dias claros quando o horizonte brasileiro se escurecia. Em setembro foi pior. Na final do Festival Internacional da Canção, se enfrentaram Sabiá, de Chico e Tom, e Prá não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. A música de Chico e Tom recebeu a maior vaia da história dos festivais, mas ainda assim foi escolhida vencedora. Naquele momento, a música de Vandré já se tornara hino da oposição e Sabiá parecia uma música mais de nostalgia, saudosista.

O tempo, no entanto, mostrou que Tom e Chico haviam sido premonitórios. Poucos anos mais tarde, a saudade e as imagens de casa de Sabiá eram o hino do exílio a que foram obrigados inúmeros brasileiros, Chico inclusive.

Quando o AI-5 ganhou as ruas, o povo perdeu a praça. Para Chico foram cinco dias de angústia. Até que no dia 18 de dezembro ele acordou com os militares já forçando a porta de seu apartamento. No dia 3 de janeiro de 1969, ele e Marieta embarcavam para Cannes, na França, onde aconteceria o Midem, a grande feira da indústria fonográfica. De lá, os dois seguiram para a Itália, onde Chico era aguardado com grande ansiedade.

A gravadora tinha uma estratégia para colocá-lo no circuito internacional. Uma estratégia que acabou naufragando. Chico gravou um disco, misturando faixas de seus dois LP's brasileiros, que não deu em nada. Mas, ainda assim, não faltavam convites para aparições na TV e Chico chegou a ter um programa de rádio. Porém, sua popularidade caiu rapidamente. A novidade de um cantor brasileiro já não chamava a atenção e o trabalho foi se tornando escasso. Por outro lado, a mão de ferro da ditadura impedia sua volta ao Brasil. Antes mesmo de sua viagem, no dia 27 de dezembro de 68, Caetano e Gil haviam sido presos. E até aquele momento, já no final de janeiro, continuavam detidos, com as cabeças raspadas. O jeito foi ficar. A primeira filha do casal, Sílvia, acabou nascendo em solo italiano, em 28 de março de 69.

Havia a impossibilidade de voltar ao Brasil. Mas havia, também, a vontade de voltar ao Brasil. E ele acabou retornando, no início de 1970. Não sem antes ouvir o conselho de Vinicius: volte fazendo barulho. O aeroporto do Galeão presenciou a chegada de Marieta, Sílvia e Chico, que regressava ao país a bordo de um grande esquema de divulgação, com especial na TV Globo e apresentação na boate Sucata, além do lançamento de um novo LP o Chico Buarque n° 4.

Mas, o Brasil que recebeu Chico já não era o mesmo que o vira sair. No poder, a ditadura impunha seu general mais duro, Emílio Garrastazu Médici. Nos quartéis, a tortura aumentava em ritmo e requintes. Nas ruas, uma mistura de pão e circo levava os brasileiros a andarem em fusquinhas com adesivos "Ame-o ou deixe-o", festejando o milagre brasileiro. Na produção cultural, estava instituída a censura prévia. E a música de Chico Apesar de você passou pela censura.

Em 1971, foi lançada Construção. Chico dava tons concretos à realidade dura dos brasileiros das classes mais populares. Construção deveria incomodar a censura, mas passou. A história do brasileiro trabalhador, flagrado em sua pequenez, flagrado em seu sufoco diante das grandes estruturas de poder que se formavam no começo dos anos 70, flagrado em sua impossibilidade de ação. Chico mostrava os tons cinza e negro do pão e circo.

Sem querer, Chico se transformava no símbolo de luta contra a ditadura, título que lhe dificultou muito a vida em relação aos censores. Suas músicas passaram a ser sistematicamente proibidas. Foi assim com Minha história, com Tanto mar, com Atrás da porta e com Cálice. Foi assim com Calabar, uma peça de teatro, um projeto seu e de Ruy Guerra, que a ditadura proibiu sem maiores explicações, deixando um prejuízo de 30 mil dólares investidos na época.

Chico percebeu que nada que levasse seu nome passaria incólume pelos censores. Foi aí que nasceu Julinho da Adelaide, um personagem que Chico criou para tentar fugir à marcação dos censores. Julinho compôs três músicas: Acorda amor, Jorge Maravilha e Milagre Brasileiro. Julinho morreu em 75, depois que uma matéria do Jornal do Brasil desmascarou a verdadeira identidade do sambista. Por esse tempo, a figura de Chico estava muito politizada. Ele diz que, nessa época, era mais aplaudido quando entrava no palco para cantar do que quando saía. Em 75, Chico decidiu se afastar das apresentações. Ficou nove anos longe e sua volta foi, como ele mesmo diz, num "meio-show" com Toquinho, em Buenos Aires, em 84.

No final da década de 70, João Batista Figueiredo era o general da vez e a crise do petróleo fazia caírem por terra as ilusões do milagre brasileiro. A ditadura perdia a única justificativa possível: o crescimento econômico. Os generais preparavam sua saída e anunciavam a anistia aos exilados. Chico constatava a existência de um Brasil diferente. Muitas casas não tinham sequer fogão, mas tinham um aparelho de TV. Era um país cujo ensino foi ficando de lado e cuja classe média começava a se mediocrizar em frente à televisão. Foi no final dos anos 70 que surgiu Bye bye Brasil, mais um trabalho de encomenda, para o fìlme de Carlos Diegues.

Os anos 80 começavam e Chico comprou um terreno no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, e inaugurou o famoso campinho de futebol onde, até hoje, realiza torneios e mostra as habilidades de centroavante no time do Politheama. A década de 80 marcou, também, a volta de Chico a programas da Rede Globo. Ele e a emissora tiveram vários problemas durante a década de 70.

Ainda nos anos 60, Chico deveria apresentar um programa com Norma Bengell, o Shell em Show Maior, mas, confirmando a fama de não levar muito jeito para o vídeo, só apareceu no primeiro dia de gravação. A Globo decidiu processá-lo por quebra de contrato. A situação só se resolveu com a interferência de Walter Clark, então superintendente da emissora. Ele propôs uma troca: Chico faria uma música para o II Festival Internacional da Canção, de 67, e a emissora retiraria o processo. Chico, de má vontade, criou Carolina. Finalmente, depois desse longo desentendimento, em 86, Chico fez seu programa na Globo, em parceria com Caetano: era o Chico e Caetano, levado ao ar uma vez por mês.

O país vivia ainda a ressaca da campanha das diretas de 84 e estava mergulhado numa profunda crise econômica, a pobreza das cidades aumentava e a música se tornava, cada vez mais, um fenômeno ligado quase exclusivamente à mídia de televisão. Foi de 83 um dos últimos grandes sucessos de Chico: Vai passar. O país já alcançava a marca de 120 milhões de habitantes, mas o crescimento não se refletia nas vendagens de boa parte da MPB. Já no final da década de 80, Chico ratifica sua postura ideológica e dá seu apoio à candidatura de Luiz Ignácio Lula da Silva, nas primeiras eleições diretas para presidente, depois de quase trinta anos de presidentes escolhidos indiretamente.

Os anos 90 começaram e o popular, de alguma maneira, já havia perdido a dimensão de Chico e de boa parte daqueles que fizeram a MPB dos anos 60 e 70: eles viraram música apenas para uma parte da classe média. Em meados dos anos 90, o Brasil ainda é um país indeciso entre o asséptico e o plástico de Miami e a sujeira e a lama das favelas e dos conflitos de terra. O mesmo tema de 65, em Morte e Vida Severina, continua vivo no final do século.

A posse da terra leva fazendeiros a contratar mortes e leva os sem-terra a organizar um movimento que propõe invasões. Os conflitos se acirram e o ano de 96 vem encontrar Chico mais uma vez envolvido com o popular. Ele prepara um álbum com músicas que falam desse movimento e cede os direitos autorais aos sem-terra. O ouvido popular mudou sua sintonia, mas o compositor continuou lá, popular, brasileiro.

Veja também:

Chico Buarque - Letras, cifras e gravações


Fontes: MPB Compositores - Editora Globo.