Mostrando postagens com marcador caninha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador caninha. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, agosto 01, 2013

Quando a mulher não quer

Canninha - 1928
Samba do carnaval de 1930, assinado por José Luiz de Moraes, o Caninha (1883-1961) com letra dele e de João do Morro, este último não creditado no selo original. O disco saiu pela Odeon um mês antes da folia, em janeiro - 10536-A, matriz 3152 - (Samuel Machado Filho - Youtube)

Quando a mulher não quer (samba, 1930) - Caninha - Interpretação de Francisco Alves.

Disco 78 rpm / Título da música: Quando a mulher não quer / Autoria: Morais, José Luiz de (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Caninha, 1883-1961 (Compositor) / Orquestra Pan American (Acompanhante) / Bountman, Simon, ca1900-1977 (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1930 / Nº Álbum 10536 / Gênero musical: Samba /

Quando a mulher não quer
O homem não deve teimar
Quando a mulher não quer
O homem não deve teimar.

Quando o homem se governa
Grita na rua ou em casa
Não rejeita uma baderna
E pega firme na brasa.

Se o sujeito é malandro
Namora mas não se casa
Remexe num fogareiro
E não se queima na brasa.

Formiga, pra se perder
Fica louca, cria asa
Só conhece o que é prazer
O Cabra que engole brasa.

Não adianta teimar
Mulher séria, fica em casa
Quem não se quiser queimar
Não deve pegar na brasa...

O que é nosso

Canninha - 1928
O que é nosso (samba, 1927) - Caninha - Interpretação de Francisco Alves

Disco 76 rpm / Título da música: O que é nosso / Autoria: Caninha, 1883-1961 (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Orquestra Jazz Band Pan American do Cassino de Copacabana (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, Dezembro/1925-Julho/1927 / Álbum 123270 / Gênero: Samba /

Todo mundo nesta terra
É feliz, arranja o cobre
Só aquele que aqui nasce
Toda a vida há de ser pobre

Eu sou brasileiro
Com isto eu posso
Por isso é que canto
Só o que é nosso

Cá no país do cruzeiro
Só se trata de gastar
O povo finge que é rico
E vive sempre a apitar

Quem ganha dois, gasta quatro
E pede seis emprestado
Desgraça pouca é bobagem
Assim lá diz o ditado

Nega no fogão

Canninha - 1928
Nega no fogão (samba, 1928) - Caninha - Interpretação de Francisco Alves

Disco 78 rpm / Título da música: Nega no fogão / Caninha, 1883-1961 (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Caninha, 1883-1961 (Acompanhante) / Grupo (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1928 / Álbum 10098 /

Olha essa nega
Que trabalha no fogão
Por causa dela
Empenhei meu coração

Ai, amor
Ai, amor
Ai, amor
Ai, amor

Nega danada
Não me venha aperrear
Por tua causa
Já quiseram me matar

Por tua causa
Já quiseram me matar
Eu sou capaz
De qualquer dia te rifar

Já quebrou

Canninha - 1928
A marchinha "Já quebrou", do compositor Caninha (José Luís de Morais - Rio de Janeiro 1883-1961), registra a quebradeira geral que marca a economia brasileira durante o governo Washington Luís, mas ainda alimenta esperanças de que a mudança da mil-réis pelo cruzeiro, prometida pelo presidente, poderia resolver o problema. Mas a reforma monetária não se realizou e os problemas econômicos só se agravaram.



Já quebrou (marcha, 1928) - Caninha - Interpretação de Frederico Rocha

Já quebrou
Quebrou, eh, tudo agora
Está quebrada e não se pode consertar
O Zé Povo que tudo paga
Já nem sabe como se adoentar.

Vai quebrar, oi, vai quebrar
Sai da linha que te podes machucar

Anda tudo em quebradeira
As reformas não nos deixam sossegar
Todos dizem com certeza
O cruzeiro é que nos vai salvar

Vai quebrar, oi, vai quebrar...   

___________________________________________________
Fonte: Franklin Martins - Conexão Política.

É batucada

Canninha - 1928
É batucada (samba, 1933) - Caninha e Visconde de Bicohyba - Interpretação de Murilo Caldas

Disco 78 rpm / Título da música: É batucada / Autoria: Caninha, 1883-1961 (Compositor) / Bicoiba, Visconde (Compositor) / Caldas, Murilo (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Columbia, 1932-1933 / Nº Álbum 22194 / Gênero musical: Samba /

Samba de morro, não é samba
É batucada, é batucada
Samba de morro, não é samba
É batucada, é batucada

Para quem sabe a história é diferente
Só tira samba malandro que tem patente
Para quem sabe a história é diferente
Só tira samba malandro que tem patente

Nossas morenas vão pro samba bonitinhas
Vão de sandália e saiote de preguinha
Nossas morenas vão pro samba bonitinhas
Vão de sandália e saiote de preguinha

quarta-feira, julho 31, 2013

Deixa ela

Canninha - 1928
Deixa ela (samba, 1927) - Caninha - Interpretação de Francisco Alves

Disco 78 rpm / Título: Deixa ela / Caninha, 1883-1961 (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Caninha, 1883-1961 (Acompanhante) / Grupo (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, Indefinida / Álbum 10098 / Gênero: Samba /

Deixa ela! deixa ela!
Que esta moça é donzela

Esta moça é donzela
Gosta muito de brincar
Mas não vá você pensar
Que ela queira se casar

Esta cabocla bonita
Tem uns olhos de matar
Para mim, só tem um defeito
De não querer se casar

Ela já me confessou
Por quem ela tem paixão
Por um caboclo bonito
Que nasceu lá no sertão

O kaiser em fuga

É curioso que a I Guerra Mundial não tenha inspirado nenhuma música para o carnaval durante os quatro anos que durou (1914-1918), pelo menos nada que tenha resistido ao tempo e que tenha ficado na memória do povo ou dos historiadores.

Mas no final, com a derrota da Alemanha, o carnaval de 1919 foi festejado com um maxixe do Caninha (José Luís de Morais - Rio de Janeiro 1883-1961), grande compositor injustamente esquecido, integrante da turma dos pioneiros como Pixinguinha, Donga, João da Baiana. É dele a letra e a música de "O kaiser em fuga":

O kaiser em fuga (tango, 1919) - Caninha

Ai, ai, ai!
A guerra já terminou
Com a direção de Foch
Até o fogo cessou.

Ai, ai, ai!
Que grande satisfação
Do kaiser ter disparado
E abandonado a Nação.

Monsieur, que dê ele?
O kaiser já fugiu
Já sumiu-se pra bem longe
Que o inimigo não viu.

Viva, viva
Sempre os nossos aliados
Que venceram essa guerra
E prenderam os culpados.


______________________________________________________________________
Fonte: "Política e religiões no carnaval" - Por Haroldo Costa - Irmãos Vitale Editores.

quinta-feira, março 15, 2012

O Visconde de Bicohyba

Quando José Luiz de Moraes, o Caninha Doce (ou simplesmente o Caninha), proclamava-se o “único sambista com diploma oficial”, em virtude de ter ganho um concurso patrocinado pela Prefeitura do Distrito Federal, cometia equívoco, praticava omissão. Não era ele o “único”. Seu parceiro, o Visconde de Bicohyba (Horácio Dantas) também desfrutava essa honraria, pois o É batucada, vitorioso no referido certame, era de autoria de ambos.

O então Interventor da cidade, doutor Pedro Ernesto Baptista, concedeu o dignificante documento aos que compuseram música e letra na produção vitoriosa e não apenas a ele Caninha o Visconde, principalmente carnavalesco, não convivendo assiduamente com a gente do samba, pois o seu habitat era o Clube dos Tenentes do Diabo e o Cordão da Bola Preta, embora pudesse também se proclamar “Sambista Oficial”, jamais deu importância ao diploma.

Antes, com Raul Malagutti, Aristides Prazeres, Jessé Menezes e outros, já havia feito marchinhas e sambas, que se não lograram triunfar em competições oficiais ou oficiosas tiveram grande divulgação nos fandangos das agremiações citadas bem como nos de suas coirmãs.

Vamos conhecer o Visconde

Nascido (né, diria o confrade Ibrahim Sued) Horácio Dantas, com esse nome foi aluno do Colégio Pedro II onde teve como colega, entre outros, o saudoso Virgílio de Mello Franco. Mais tarde, convidado por Humberto de Campos (o Conselheiro XX) para colaborar na revista A Maçã criou então o pseudônimo Visconde de Bicohyba com o qual veio a se popularizar nos redutos dos soldados de Momo. No grêmio dos Tenentes e dos Bolas ninguém o conhecia a não ser pela alcunha que criara para sua atividade literária. Era, apenas e intimamente, o Bicohyba.

Boêmio, dotado de esplêndido senso humorístico, ao qual aliava boa cultura geral, escolheram-no, na caverna (nome que tem a sede do Clube dos Tenentes do Diabo), para, juntamente com Marquezinho (Marques da Silva), ser o redator de O Baêta, jornal que se denominava “vibrante pasquim carnavalesco”. No Cordão da Bola Preta fizeram-no, igualmente, um dos principais colaboradores de O Rabo, órgão oficial desse famoso grêmio. Seus escritos, sempre maliciosos, ferinos, tornavam as duas publicações em leitura agradabilíssima e divertida como se constata até hoje nos raros exemplares guardados nos arquivos das entidades que as editavam.

Carnavalesco de “quatro costados”

Horácio, que se fez o “nobre” Visconde de Bicohyba (numa adaptação do nome científico da myristica officinalis: bicuíba) foi no seu tempo, de mil-novecentos-vinte-e-poucos a quarenta, um verdadeiro carnavalesco de “quatro costados”. Topava qualquer farra e dentre os participantes, todos da mesma fibra, era o mais animado. Quase sempre tinha a iniciativa das brincadeiras, como aquela de servir de defunto num enterro realizado em pleno Carnaval com caixão, coroa e todo o ritual fúnebre para ser levado em charola até o Bar Nacional, na Galeria Cruzeiro.

De outra feita, ainda no tríduo momesco, fantasiou-se de Gandhi, envolvido num lençol e conduzindo uma cabritinha. Depois de ingerir em demasia “umas e outras” acabou perdendo o animal que prometera trazer de volta para um lauto almoço na caverninha (casa onde morava com outros carnavalescos na Rua Carlos Sampaio, 22). Pernambucana, a cozinheira e administradora da alegre república bem como Polaca, Lascada, Gigante, Mazorato e outros que ali residiam viram frustrado o opíparo “bródio”, mas tudo correu à conta dos riscos possíveis embora não previstos.

Um Visconde que fazia sambas

Amigo da gente do samba (Pixinguinha, Donga, Patrício Teixeira, Benedicto Lacerda, etc.), já tendo composto com Raul Malagutti o Vi Baio-Baio, com Aristides Prazeres e Lascada o Eu sou baêta, com Jessé Menezes o Eu não quero mais, afora outros, Caninha o convidou para parceiro. Fizeram os dois o É Batucada, que alcançou o primeiro lugar no concurso realizado no Teatro João Caetano em 26 de janeiro de 1933 e teve o patrocínio da Prefeitura do então Distrito Federal. Além de abiscoitar o polpudo (naquele tempo era) prêmio de um conto de réis, a parceria Caninha e Bicohyba recebeu o diploma de que tanto se envaidecia o De Moraes.

Interpretada por Moreira da Silva, que vinha de obter grande sucesso como criador de Arrasta a sandália, a composição mereceu calorosos aplausos. Toda a assistência, empolgada cantou o coro: “Samba de morro? não é samba, é batucada./ É batucada! É batucada!”. E o júri, integrado, entre outros, por Herbert Moses, pelo cronista carnavalesco Picarêta (Romeu Arêde) e pelos maestros J . Octaviano e Rossini de Freitas, deu o seu justo veredictum classificando-a em primeiro lugar.

Um humorista busca a morte

Boêmio, carnavalesco de “quatro costados”, sambista com diploma oficial, Horácio Dantas que se fez o nobre Visconde de Bicohyba para escrever numa revista galhofeira e maliciosa, embora sua alegria comunicativa buscou ele mesmo a morte. Certo dia, em casa da irmã que residia em Botafogo, sem que ela e seu cunhado Fábio vissem, ingeriu forte dose de veneno morrendo quase que instantaneamente. Realizou o gesto trágico sem deixar informe algum e surpreendendo a todos que o supunham feliz, na plena satisfação de viver.

Desertando da vida aos quarenta e poucos anos, deixou uma lacuna sensível no Carnaval carioca que o tinha como seu grande animador no clube rubro-negro (Tenentes do Diabo), no Cordão da Bola Preta e em todas as manifestações de nossa principal festa. Mas como também no reinado de Momo a folia “não pode parar”, apesar de sentirem sua falta, as morenas a que ele e Caninha aludiram na sua composição vitoriosa, continuam indo “pro samba bonitinhas, de sandálias e de saiote de preguinhas”.

(O Jornal, 28/4/1963)
______________________________________________________________________
Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

segunda-feira, março 12, 2012

Caninha, o “Imperador do Samba”

José Luís de Moraes
Já que naquele tempo o negócio era na base da autopromoção, sem plebiscito, sem referendum, cada um classificando-se por iniciativa própria, Caninha proclamou-se "Imperador do Samba". Sinhô, vaidoso, sem constrangimento, intitulava-se "Rei". Logo, sem destronar o seu rival, deixando-o no trono que criara o José Luís de Moraes, popularizado sob o apelido de Caninha, evitando qualquer disputa, satisfazia-se em imperar. Com isso, os dois competidores estabeleciam então (1927) a primeira “coexistência pacífica”.

E o matutino A Pátria, a propósito de um piquenique que O grupo musical do Zé Luís ia realizar nas Furnas da Tijuca, estampava O seu retrato com a seguinte legenda: “Caninha, o Imperador do Samba”. Daí em diante esse título passou a ser por ele usado com muita assiduidadee igual orgulho. Só mais tarde (1933) ao vencer no Teatro João Caetano (em parceria com o Visconde de Bicohyba) um concurso de músicas carnavalescas com a sua composição É Batucada, relegou tal império. Passou a jactar-se de ser o único que tinha um “diploma oficial de sambista”.

Genealogia do apelido

Esse Imperador e depois “Sambista Oficial”, morreu pobre, bem pobre mesmo, no subúrbio de Olaria, em junho do ano findo, tendo a seu lado a velha companheira e os amigos certos, Pixinguinha, Donga, Bide e pouquíssimos outros. Deixou, no entanto, com o apelido que lhe adveio de seu emprego de vendedor de roletes (rodelas) de cana, uma bagagem importante em nosso cancioneiro popular. Músicas todas elas de melodia e letra simples, despretensiosas, que o povo cantava nas ruas e principalmente no tríduo carnavalesco.

Embora a sua infância difícil, de órfão, nascido em Jacarepaguá e criado na Rua Senador Pompeu, o obrigasse a ser aprendiz de mecânico e jornaleiro na gare da Central do Brasil, foi a venda de pedaços de cana que lhe deu a alcunha. Cantava o seu pregão: “Olha o rolete de cana, de caninha doce!”, e o seu nome José desapareceu para que vingasse absoluto o apelido Caninha Doce, depois simplificado e consagrado em suas marchas e sambas apenas como Caninha. Uma genealogia fácil, intuitiva, do apelido de um “Imperador” e “Sambista Oficial”.

“Rei” versus “Imperador”

Oficiais do mesmo ofício, procurando cada qual dominar o ambiente musical com as suas produções, José Luís de Moraes (Caninha) e José Barbosa da Silva (Sinhô) faziam sua guerra fria, diplomática, simplesmente musical. Ficou até atestando tal contenda a conhecida quadrinha: São dois cabras perigosos,/ São dois cabras infernais,/ José Barbosa da Silva,/ José Luís de Moraes. Versos cuja autoria se atribui, segundo Brício de Abreu, ao revistógrafo Carlos Bittencourt e, nos informes de Almirante e Sérgio Cabral, ao próprio Caninha.

Procuravam competir um com o outro sempre que se oferecia oportunidade e isto aconteceu algumas vezes como, para exemplo, em 1922, quando o fabricante de Lugolina promoveu um concurso de músicas carnavalescas. Venceu esse certame Caninha impondo a marcha: “Ai! ai!,/ Me sinto mal/ Depois do Carnaval”, enquanto Sinhô descia para o segundo lugar com: “Não é assim,/ Assim não é/ Não é assim/ Que se maltrata uma mulher”. Rivalidade, como se viu, decidida em clave de sol e nas cinco linhas da pauta musical, na dignidade de um “Rei” e um “Imperador”.

Contribuição ao Carnaval

Compositor nitidamente popular, procurando apenas atender ao gosto do povo, quase toda a bagagem musical deixada por Zé Luís de Moraes está ligada ao Carnaval que o tinha como um dos adeptos mais ardorosos de um outro “Rei”, o Momo. Feniano, sempre presente aos bailes dos Gatos (apelido dado aos sócios) dedicou ao veterano clube carnavalesco um maxixe bem buliçoso, porém pouco difundido. Faça-se, então, conhecido o seu estribilho: “No salão dos Fenianos/ Existe muita alegria./ Ai! ai! ai!/ Quer de noite, quer de dia./ Sapateia todo o ano/ Fazendo roda no meio./ Este samba feniano/ Quem não dança só faz feio.

Antes, menino ainda, já tomava contato com os maiorais do Carnaval na casa da famosa Tia Sadata (que muitos confundem com Tia Assiata) integrando o Rei de Ouro, ali fundado e que Donga afirma ter sido o primeiro rancho oficial carioca. Mais tarde, sempre carnavalesco, a par de seus sambas e marchinhas (Esta nêga qué me dá, Me leva seu Rafael, etc.) integrou outro renomado rancho, o Recreio das Flores, onde, disseram alguns de seus biógrafos, foi mestre de canto. Tratava-se, no entanto, de notório equívoco, pois sendo a sua voz fraca, reduzida, não poderia ter essa atribuição que, parece, era confiada ao vibrante João Moleque.

Sambista morre com música

Morrendo aos oitenta anos, ou beirando isso, pois o seu nascimento é dado em 1881 ou 1883, José Luís de Moraes, o simplesmente Caninha nada legou à sua “velha”, como ele chamava amistosamente a companheira de uma longa e difícil vida. Um antigo “Imperador” e “Sambista Oficial”, cuja derradeira produção foi uma marcha, espécie de hino, dedicada aos futebolistas brasileiros campeões do mundo em 1958, exaltando o memorável feito, baixou à uma cova rasa, sem honrarias. Deixou, talvez atestando sua oficialização de sambista, o diploma que lhe dava essa condição.

Ravel fez para uma “infanta defunta” uma pavana onde seu talento de musicista se patenteia forte, exuberante. Sinval Silva ao compor Imperador do Samba, interpretado esplendidamente por Carmen Miranda, talvez não tenha pensado no veterano Caninha que foi justamente isso: “Imperador” do nosso ritmo. Motivo e título de sua música. Justíssimo, portanto, que se atribua ao saudoso Caninha tão glorificantes versos:

Silêncio!/ Façam ala / Ordem e respeito/ E nem um grito de bamba./ Quero tamborins em grande gala/ Que vai pasar/ O Imperador do Samba.

(O Jornal, 9/12/1962) 
______________________________________________________________________
Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

quinta-feira, março 01, 2012

Nosso Sinhô do Samba - Parte 4

Sinhô não se considerava mulato. Numa terra de mulatos geniais, o sambista não topava a classificação. Dizia-se com certa ufania “caboclo autêntico”. Tinha o pernosticismo característico dos homens de cor, sujeitos no seu tempo ainda a restrições vexatórias, de que se vingariam demonstrando inteligência e ousadia e conseguindo destacar-se notadamente em atividades artísticas, o que no tempo não era muito fácil.

Natural que se sentisse vaidoso diante do bom êxito das suas composições e da popularidade que dia a dia mais lhe exaltava o nome. Não se lhe podia negar o sucesso alcançado pelas composições que a cidade cantava e assobiava e que saltavam das ruas para o teatro musicado, em fase de grande animação.

Quando da sua visita ao Rio, os reis belgas demonstraram nítida simpatia pelas produções de Sinhô ao ouvirem música nacional no encouraçado São Paulo, que os trouxe ao Brasil. Dentre as melodias executadas pelo quinteto de bordo, a rainha apreciava especialmente o samba Fala meu louro, grande sucesso de Sinhô. Vasseur, que integrava o conjunto, foi solicitado várias vezes a executar as composições de Sinhô para a rainha. E o jornal A Noite, de 25 de setembro de 1920, publicava pequena nota: “Em uma das últimas refeições no Palácio, S. M. a rainha Elisabeth manifestou desejos de ouvir uma das nossas músicas populares. Por acaso o maestro Pinto de Oliveira, diretor da Orquestra do Palácio, tinha ensaiado o Papagaio louro (Fala meu louro) e executou-o. A rainha aplaudiu a música e seus executantes”.

O compositor carioca quis provar seu reconhecimento aos ilustres visitantes organizando um álbum de suas produções que lhes foi ofertado.

A propósito, conta Augusto Vasseur que o álbum a princípio era feio e mal arranjado, numa capa de papelão ordinário, com a dedicatória grafada no próprio cursivo de Sinhô: “Aos Reis da Bélgica, Srs. Alberto e Elisabeth - oferece Sinhô”. Dedicatória simples e sincera, mas que feria os preceitos majestáticos. Vasseur mandou fazer urna encadernação decente, bonita, com ofertório adequado e impresso.

De qualquer forma, o fato teria de despertar a inveja dos concorrentes. Sinhô conquistava terreno em todas as camadas sociais. Continuava cada vez mais a destacar-se. E não era somente à custa dos trouxas do Rio de Janeiro, como haviam cantado Pixinguinha e China.

Mas não se diga que o sambista vitorioso tenha fugido às camadas de onde viera. Nada disso. Tanto freqüentava a Kananga. como as casas mais ilustres que o acolheram. Era amigo de políticos e figurões que o prestigiavam. Nos morros, ou na zona sul, nos subúrbios ou na Tijuca, Sinhô tinha trânsito livre. Nunca abandonou as chamadas rodas da malandragem. Foi amigo do famigerado Sete Coroas, salteador que se fez famoso, a quem o compositor dedicava um samba que parece não foi gravado, e é raríssimo hoje.

Na fase ascensional de Sinhô tinha ele em Caninha (José Luís de Moraes) não um inimigo, mas um rival de categoria. Eram dois bambas da música popular carioca e não seria exagero o que diria a quadrinha popularizada:

São dois cabras perigosos,
Dois diabos infernais:
José Barbosa da Silva,
José Luís de Moraes.


Essa rivalidade era inteligentemente explorada pelos dois compositores, na época dos mais destacados no Rio. Em 1921 , Caninha já se fizera detentor de alguns sucessos carnavalescos, entre os quais Me leva, me leva seu Rafael (Quem vem atrás fecha a porta) e Esta nega qué me dá.

Também foi Almirante quem relatou no rádio, e depois em palestra, um dos encontros dos dois bambas da música, no ano de 1921, numa festa da Penha, naquele tempo o campo experimental das músicas de Carnaval, na própria expressão da maior patente do rádio. 

Vários grupos se apresentavam visando ao lançamento das suas composições. Para aumentar o interesse competitório, o industrial Eduardo França, o homem da Lugolina e do Vermutin, que foi sempre grande animador da música popular e do Carnaval carioca, instituíra uma taça. Lá estavam Os Africanos (Vila Isabel), o Grupo do Louro e o afiadíssimo Grupo dos Hanseáticos, chefiado pelo Caninha. Uma mu1tidão cercava os concorrentes no festivo arraial. E eram centenas os que já sabiam de cor os versos da bonita marcha lançada pelo Caninha, Me sinto mal:

Ai, ai
Me sinto mal
Depois do Carnaval.
Quando chega o Carnaval
Ninguém lembra a carestia
Vamos todos pra Avenida
E caímos na folia.


Tem gente que cai na farra
Na véspera do Carnaval
Na quarta-feira de cinzas
Sempre diz: me sinto mal.


O Grupo dos Hanseáticos parecia vitorioso. O samba de Caninha despertara o maior entusiasmo. Todos ali o cantavam. Mas eis que se aproxima Sinhô, logo recebido com alegria pelos circunstantes. Chegava sobraçando belíssimo violão cravado de madrepérolas. Cercavam-no alguns companheiros, todos sem instrumentos. Sinhô começou sozinho a cantar sua marcha Fala baixo, especialmente composta para aquele lançamento. Os versos eram fracos. Apenas o estribilho tinha grande força (1). Mas a melodia agradava e daí a pouco eram dezenas os que cantavam o poemazinho; onde havia a palavra rolinha, que bem podia ser referência ao apelido dado a Artur Bernardes:

Quero te ouvir cantar
Vem cá, rolinha, vem cá
Vem pra nos salvar
Vem cá, rolinha, vem cá.

Não é assim
Assim não é
Não é assim
Que se maltrata uma mulher.


Não satisfeito do sucesso da marchinha que se estenderia ao Carnaval de 1922, tornando popularíssimo o refrão, Sinhô ainda lançou outro número de êxito certo, o samba Sai da raia, talvez sua composição mais feliz do referido Carnaval e que seria cantada e executada por grupos e orquestras durante vários carnavais subseqüentes.

Na época, a festa da Penha era de fato uma festa. Depois do Carnaval seria o maior acontecimento popular do Rio. Verdadeiras multidões acorriam ao subúrbio que todo se transformava num arraial de verdade. A imprensa abria colunas largas para noticiário dos domingos festivos durante todo o mês de outubro. E de 1920 em diante até alguns anos depois a Penha seria de fato o início do Carnaval pelo menos no que se refere à música. Compositores e músicos comandando conjuntos amestrados lançavam as composições, muitas delas focalizando a festa religiosa, mas já de olho na festa profana do ano seguinte. Sinhô, Caninha e outros a essa época já eram veteranos da Penha.

O Jornal do Brasil, que graças a seu cronista Vagalume, sempre dispensou atenção especial aos festejos do subúrbio leopoldinense, na sua edição de 23 de outubro de 1911, já estampava algumas fotos, numa das quais aparece Sinhô, ainda não batizado como compositor. Verdadeiras multidões acorriam ao subúrbio e daí a razão dos lançamentos ali das músicas de Carnaval. Composição consagrada na Penha era êxito indiscutível em fevereiro.

Os encontros de Caninha e Sinhô se apresentavam sempre sensacionais. E naquele 1921,  o compositor de Fala baixo e Sai da raia fora o grande vitorioso da Penha, triunfo que se consolidaria no Carnaval vindouro. Mas ali mesmo Sinhô também sentiu o amargo da derrota que lhe infligira o seu temível rival.

Curioso que a vaidade de Sinhô nem sempre o levasse a festivais e espetáculos para os quais era insistentemente solicitado. Tomou parte, contudo, na Noite brasileira, realizada no Teatro Fênix em março de 1927 e na Noite luso-brasileira, em homenagem ao aviador Sarmento de Beires, realizada no Teatro República na noite de 4 de junho do mesmo ano. Nessa festa, José do Patrocínio Filho proferiu uma palestra e Sinhô foi coroado Rei do Samba, depois de vitorioso no concurso ali efetuado.

Quase dois anos mais tarde, em maio de 1929, iria a São Paulo chefiando um grupo que deu uma récita no Teatro Municipal, com a presença do senhor Júlio Prestes, então candidato à presidência da República. O pretexto era o lançamento da marchinha de Freire Júnior, Seu Julinho vem. A propósito do espetáculo, evidentemente uma promoção política.

O Estado de São Paulo, de 21 de maio de 1929, fez o seguinte comentário: “Com a presença e a cumplicidade de altas autoridades do Estado e do Município, o Teatro Municipal, anteontem à noite, esteve em pleno domínio da fuzarca. Certo é que a noitada paulista se não foi uma apoteose ao candidato Júlio Prestes o foi a Sinhô, talvez o maior vitorioso da noite, pois também compusera o samba Eu ouço falar:

Eu ouço falar
Que para o nosso bem
Jesus já designou
Que seu Julinho é quem vem.

Deve vir esse caboclo
Pra matar nossa saudade
Para o riso ser leal
No coração da humanidade.


Essa história que anda aí
De “vem pra ganhar vintém”
Ele no precisa disto
Nem de “aproveitar também”.
(2)

Eu no quero que este samba
Vá contrariar alguém
O caboclo é da fuzarca
E só trabalha para o bem!
Olé!


O sabujismo naturalmente bem pago e de certo modo compreensível levava o popular compositor a tais exageros. O candidato oficial se transformava em ‘caboclo da fuzarca’ e o compositor além de mau profeta chegava a ser blasfemo.

____________________________________________________________________
(1) Característica maior de Sinhô. Era um fabuloso estribilhista. (2) Expressões de outra marchinha do ano sobre o mesmo tema.

Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Nosso Sinhô do Samba - Parte 1

Retrato de Sinhô, 1926.
Na era dos três oitos, ainda no Brasil monárquico, em pleno mês da primavera carioca, no dia 8 (1), numa casa modesta da rua do Riachuelo de n° 90, nasceu um menino que tomou o nome de José. Gente modesta os pais: Ernesto Barbosa da Silva, conhecido por Tené, pintor e decorador de paredes, e Graciliana Silva. Depois o menino ganhou um irmão, de nome Ernesto, apelidado Caboclo.

Pouco se sabe da infância do garoto José, que talvez a tenha vivido pelo menos até o fim do século naquela mesma rua. Em 1897, José Luís de Moraes, o Caninha (1883-1961), meninote, mais velho, com 14 anos, conheceu o menino ainda ali.

E Maria Barbosa da Silva, portuguesa, que casou com Francisco Barbosa da Silva, filho de criação do pintor Ernesto, também viu o rapazito pela primeira vez na Rua do Riachuelo. Almirante, nas suas incansáveis pesquisas pioneiras, apurou que a família de José em 1900 já residia na Rua Senador Pompeu, casa n° 114, quase esquina da Rua São Lourenço.

A essa época, Ernesto Silva queria que o filho, carinhosamente chamado Sinhô, aprendesse a tocar flauta, instrumento de prestígio que dera justa fama, entre outros, a Joaquim Antônio da Silva Calado, a Viriato Figueira da Silva e a Pattápio Silva, sem dúvida admirações do pintor. Mas o garoto não se entusiasmava e não afinava com a flauta, preferindo mil vezes empinar papagaios, brinquedo de grande animação nas ruas da Saúde. Quanto à música, a que não era infenso, apreciava bem mais o piano dos avós, no qual já exercitava. Ao tempo, o piano era presença obrigatória nas residências da classe média para cima e até mesmo em algumas de gente menos remediada. Fazia parte da mobília, tal como hoje o aparelho de televisão e era ainda sinal de distinção e prosperidade:

— É gente rica! Tem piano!

Medíocre soprador de flauta, por imposição do pai, não largara de todo o instrumento detestado quando Pixinguinha, ainda broto, o conheceu pelos fins da primeira década do novo século. Nessa altura, aos poucos, o rapaz contrariando a vontade paterna já buscava outros instrumentos. Primeiro o cavaquinho, que também trocou pelo violão, para dedicar-se com mais afinco ao piano, no qual já era notado.

Houve um tempo em que morou na casa do seu irmão de criação Francisco, que usava o mesmo sobrenome — Barbosa da Silva. Era este cabo do Corpo de Bombeiros, casado com a portuguesa Maria. Foi de Francisco que Sinhô recebeu lições de violão, pondo de lado a flauta e o flautim. Mas foi no piano, principalmente, que começou a se espalhar. Dos treinos de casa passou a aparecer em outras salas e daí em sociedades diversivas, onde foi ganhando fama, talvez um tanto pelo seu espírito boêmio e folgazão. Certo é que no fim da década inicial deste século, Sinhô já era disputado como pianista pelos modestos clubes dançantes do Centro e de alguns bairros do Rio.

Nos fins do século passado, o bairro da Saúde era reduto de costumes e usanças africanas transportadas da Bahia. Pequenas mas inúmeras famílias baianas ali se acumulavam, trazendo para o Rio hábitos da velha metrópole, com marcadas reminiscências do continente negro. Entre as quais cantigas e danças próprias, festas, comidas, ritos e crendices.

Havia nas cercanias babalaôs de fama que realizavam sambas (festas de dança) e candomblés. Eram todos conhecidos como ‘tios’ e ‘tias’. Donga relembra vários deles, entre os quais a tia Isabel, das mais respeitadas e mãe de um dos grandes raiadores do samba do partido alto — Oscar do 24 —, assim chamado por ter servido na campanha de Canudos, como integrante do 24° batalhão. Outros companheiros de Oscar eram Hilário Jovino Ferreira, o maioral, Dudu e João Câncio, todos conhecidos como reis do ‘partido alto’, raiadores afamados, isto é, cantadores da chula.

Os candomblés da casa de João Alabá, babalaô morador na Rua Barão de São Félix, eram dos mais freqüentados. Mas havia ainda os dos tios Obedê e Sami, o primeiro na Rua João Caetano, 69.

Essas reuniões, embora freqüentes, não contavam com as simpatias das autoridades, dada a confusão que, de quando em quando, geravam. Por vezes se realizavam na moita, clandestinamente, o que lhes dava talvez maior sabor e sedução.

Mais tarde, algumas dessas famílias se foram espalhando pelo Centro e pela zona chamada Cidade Nova. Na segunda década do século atual, até 1926, a Praça Onze era, no dizer de Heitor dos Prazeres, uma África em miniatura. Nas suas proximidades, na Rua Visconde de Itaúna, n° 117, morava a Tia Ciata (Hilária de Almeida), macumbeira, acatada, vinda da Rua da Alfândega para ali assentar sua tenda festiva e movimentada. (2)

Naquela rua e na Senador Eusébio, que lhe ficava paralela, e noutras adjacentes, funcionavam sociedades dançantes que mais tomavam rumoroso e festivo o local. Os sambas (danças) transbordavam dos casinholos para os quintais e ruas. Daí provavelmente surgir a Praça Onze como autêntico berço do samba (música e canto). E a casa da Tia Ciata viria a ser precisamente o local do nascimento do samba feito música. Composição melódica e não dança de grupo. Nascimento ruidoso, discutido, como sua importância exigia, pois marcaria o advento de nova e expressiva fase da música popular brasileira.

No começo da segunda década deste século, Sinhô já se tornara conhecido como músico profissional. Tocando de ouvido, figurava como pianista de modestas agremiações dançantes e carnavalescas, entre as quais o Dragão Clube Universal, do Largo do Catumbi, 6 (1910); o Grupo Dançante Carnavalesco Tome Abença a Vovó (1914), instalado na Rua Senador Eusébio, 146; o Grupo Dançante Carnavalesco Netinhos do Vovô (1915), com sede na Praça da República, 25 e depois na Praça Onze (Rua de Santana, 55) e a Sociedade D. Carnavalesca Kananga do Japão, sediada na Rua Senador Eusébio, 44. A esta última Sinhô estaria ligado afetivamente, pois o pai pertencera ao seu quadro associativo e fora o confeccionador de um dos seus estandartes.

Prova do prestígio e da popularidade do pianista são os anúncios e convites então estampados na imprensa. Havia sempre a menção do nome — Sinhô — como atração da festa. As vezes até de forma curiosa como na pub1icação do Jornal do Brasil, de 3 de julho de 1915, em que ao fim do convite-anúncio para o baile da noite na sociedade Fidalgos da Cidade Nova, com sede também na Rua Santana, 55, aparecia a informação chamariz: “Abrilhantará este o choro de cordas regido pelo exímio flautista Pexinguim e o valente cronista Sinhô Pianista.

Em 1916 e 1917, Sinhô não era só o pianista, o ‘inspirado maestro’ e o dirigente do choro que carregava seu apelido já popularizado, mas também o carnavalesco disputado e diretor geral do grupo As Sabinas da Kananga (ou Grupo das Sabinas), ala importante da Kananga do Japão.

Durante o dia, fazia ponto na Casa Beethoven, Rua do Ouvidor, n° 175. Ali acabaria igualmente ‘oficializado’ como pianista. Relacionando-se rapidamente, também de quando em vez conseguia vender um piano, defendendo a comissão. (3) No ponto estratégico, bem dentro do coração da cidade, recebia amigos e ‘clientes’ e contratava tocatas de festas e bailaricos.

Da Rua Senador Eusébio, sede da Kananga, se escapava para a casa da Tia Ciata, ou lá fazia hora para o batente noturno. Na acolhedora e movimentada casa da Rua Visconde de Itaúna havia sempre música e nas proximidades do Carnaval o reduto fervia. A dona da casa, doceira e quituteira de classe, era devotada carnavalesca, tanto quanto o marido, Henrique de Almeida, que trabalhava no Jornal do comércio.

Por ali passavam e paravam obrigatoriamente ranchos e grupos que buscavam na popularidade e no julgamento de Tia Ciata estímulos e aplausos. Tudo muito particular e muito sincero, sem programação prévia nem qualquer coisa de oficioso, pois o Carnaval até então era festa exclusivamente feita pelo povo.

Componentes diversos das festas da Saúde freqüentavam assiduamente a casa de Visconde de Itaúna, onde, na noite de 6 de agosto de 1916, foi ouvido, em meio a outras cantigas e ruídos, o refrão versejado de um improviso musical que aludia à enérgica perseguição ao jogo que então se anunciava na gestão de Aurelino Leal na chefatura de polícia. O estribilho era de João da Mata e fora composto no morro de Santo Antônio.

No samba do partido alto foram acrescentadas outras partes inclusive cantigas folclóricas como Olha a rolinha, que havia sido apresentada com sucesso no começo do ano na burleta O Marroeiro, de Catulo e Paulino Sacramento, estreada no São José a 30 de março. Essa cantiga tinha sido levada das ruas para o Clube dos Democráticos pelo Mirandela, figura destacada nas rodas do samba, e ali foi entoada e decorada pela maioria dos presentes. Na casa da Tia Ciata os versos e a melodia do Olha a rolinha juntaram-se ao improviso cantado a muitas vozes e logo batizado como Ronceiro, ou Roceiro. Os versos eram de Mauro de Almeida, repórter de A Rua e cronista carnavalesco mais conhecido pelo nome de guerra Peru dos Pés Frios.

A composição voltou a ser cantada em noites sucessivas, e, entusiasmado com o seu sucesso entre paredes, Donga, que também nela colaborara mais tarde, a registrou com o título Pelo telefone (4) e a designação de samba, feita, ao que parece, pela primeira vez. (5)

Bastante discutida a música editada e gravada pelo Baiano em disco da Casa Edison, Rio de Janeiro, obteve retumbante sucesso no Carnaval de 1917, correndo todo o Brasil:

O chefe da folia, / Pelo telefone,
Manda me avisar, / Que com alegria,
No se questione / Para se brincar.

Ai, ai, ai  / E deixa mágoas pra trás
ò rapaz,  / Ai, ai, ai
Fica triste se és capaz / E verás.
Tomara que tu apanhes
Pra não tornar a fazer isso;
Tirar amores dos outros
Depois fazer teu feitiço...

Ai, se a rolinha / sinhô, sinhô,
Se embaraçou, / sinhô, sinhô,
É que a avezinha, / sinhô, sinhô,
Nunca sambou, / sinhô, sinhô,
Porque este samba / sinhô, sinhô,
De arrepiar, / sinhô, sinhô,
Põe perna bamba, / sinhô, sinhô,
Mas faz gozar, / sinhô, sinhô.


Na época ainda nâo se falava em direito autoral e é possível que Donga se apressasse em registrar o Pelo telefone receoso de que acabasse perdido como talvez tenha ocorrido com outras improvisações do grupo. Mas não o fez sem provocar barulho. E o Jornal do Brasil, de 4 de fevereiro de 1917, estampava essa nota, depois fartamente divulgada por Almirante:

“Do Grêmio Fala Gente recebemos a seguinte nota:

Será cantado domingo, na Av. Rio Branco, o verdadeiro tango Pelo telefone, dos inspirados carnavalescos, o imortal João da Mata, o mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata e o inesquecível bom Hilário; arranjo exclusivamente pelo bom e querido pianista J. Silva (Sinhô), dedicado ao bom e lembrado amigo Mauro, repórter de A Rua, em 6 de agosto de 1916, dando ele o nome de Roceiro:

Pelo telefone / A minha boa gente
Mandou me avisar / Que o meu bom arranjo
Era oferecido / Para se cantar.

Ai, ai, ai
Leve a mão à consciência / Meu bem.
Ai, ai, ai
Mas por que tanta presença / Meu bem?

Ò que caradura / De dizer nas rodas
Que este arranjo é teu! / É do bom Hilário
E da velha Ciata / Que o Sinhô escreveu.
Tomara que tu apanhes / Pra não tornar a fazer isso
Escrever o que é dos outros / Sem olhar o compromisso.


Como se vê não houve nenhum propósito do lançamento da composição como ‘samba’ na acepção nova de canto e música ou de coreografia diferente da que antes significava. E enquanto nos versos que acompanhavam a nota do Grêmio Fala Gente, feita bem ao jeitão de Sinhô, há referências a ‘arranjo’, no próprio texto da declaração aparece a palavra ‘tango’. E na letra registrada pelo Donga, a expressão ‘samba’ se refere nitidamente ao samba de roda que “põe perna bamba”.

Mas a sorte é quem decide. E o Pelo telefone ficou como marco de uma nova modalidade de composição musical e coreográfica que viria a ser a mais típica das músicas urbanas do país. Antes do surgimento de Pelo telefone, o rapazola Sinhô já compusera uma que outra polca que executava nas agremiações onde tocava. Uma delas se intitulou Kananga do Japão. (6) Não editadas nem gravadas, essas produções ficaram limitadas aos salões festivos onde surgiram.

Pelo telefone seria assim a primeira composição musical em que Sinhô colaborava fora das ruidosas fronteiras da Kananga, em cujo seio foi sempre figura importante, seguindo a tradição paterna.

O lançamento e o sucesso do primeiro samba carioca provocaram encrenca feia, gerando um dos casos mais discutidos no cenário da música no Brasil. Sinhô entrava na música brigando. E nunca mais deixaria de brigar. Embora, ressalte-se, tais brigas carecessem de maior importância como elemento negativo da personalidade do compositor.

______________________________________________________________________
(1) Embora se tenha divulgado a data de 18 de setembro como do nascimento do sambista, seus parentes ainda vivos sustentam que o dia exato é 8 de setembro de 1888. (2) Falecida em 1925. (3) Informação verbal de Heitor dos Prazeres. (4) Registro n° 3.295, de 16 de dezembro de 1916. (5) Ary Vasconcelos e Mozart de Araújo afirmam que antes dc 1917 foram editadas músicas com a designação de ‘samba’. Samba roxo, p. ex. de Eduardo das Neves, traz a designação e é de 1915. (6) Muito mais tarde gravada por Altamiro Carrilho e sua Bandinha.

Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.

terça-feira, outubro 18, 2011

Frederico Rocha

Frederico Rocha (circa 1900), cantor e barítono, desenvolveu a carreira artística na década de 1920 na cidade do Rio de Janeiro, RJ, e, como era comum na época, apresentou-se em teatros de revistas.

Gravou os primeiros discos em 1926, com acompanhamento da Orquestra Odeon, interpretando o samba-carnavalesco Voronoff, o cateretê Genipapo, a marcha-rancho Moreninha, e o samba Olhai, todas de Eduardo Souto.

No mesmo ano, gravou a marcha-carnavalesca Mamãe, eu vou com ele!, e os maxixes A gente se defende e Carnaval à noite, de Américo Jacomino, o Canhoto, a canção Dia de espiga, de Alves Coelho, o maxixe-carnavalesco Adeus Joana, de José Luiz de Nazareth, e a marcha-carnavalesca Já quebrou, de José Luiz de Morais, o afamado Caninha, considerado um dos pioneiros do samba nos saraus das tias baianas da antiga Praça Onze.

Ainda em 1926, fez grande sucesso, tanto na festa da Penha quanto no carnaval carioca com o samba Braço de cera, composição de Nestor Brandão. Também no mesmo ano, fez sucesso sua gravação da toada Paulista de Macaé, de Pedro de Sá Pereira, música que fez parte da revista Paulista de Macaé, de Marques Porto e Luiz Peixoto apresentada no Teatro Recreio.

Em 1927, gravou com sucesso a primeira composição de Lamartine Babo, a marcha Os calças largas, incluída na revista de mesmo nome, de Lamartine Babo e Freire Júnior, e que também obteve grande êxito no carnaval daquele ano.

Em sua curta carreira fonográfica, gravou vinte músicas pela Odeon, com destaque para Os calças largas, Braço de cera, e Paulista de Macaé.

Frederico Rocha, o anjo barítono

Na segunda metade dos anos 1920, o carnaval seguia ao som de Frederico Rocha, ídolo da Mocidade Alegre junto com Pedro Celestino. Nessa mesma época surgem novos tipos. O de maior sucesso foi a menina melindrosa, a ousada de cabelos e vestidos curtos. Frederico Rocha as descreve como sendo as mulheres que amedrontavam os homens com seus vestidos e comportamento livre.

Frederico Rocha ficou famoso no teatro de revista com sua voz de cantor de ópera; ele era um barítono bifronte. Para Luís Antonio Giron: “Frederico Rocha canta ao sabor das mudanças, como que impelido à praia do futuro por uma onda gigantesca de mudança, cantando virado para o alto-mar do passado”.

A Voz Popular com Frederico Rocha traz as canções O mundo é uma roleta, Moreninha e Mamãe, eu vou com ele.

Discografia

(1926) Voronoff • Odeon • 78
(1926) Genipapo • Odeon • 78
(1926) Moreninha • Odeon • 78
(1926) Olhai • Odeon • 78
(1926) Braço de cera • Odeon • 78
(1927) Os calças largas • Odeon • 78

Playlist




A gente se defende, Adeus Joana, Braço de cera, Carnaval à noite, Dia da espiga, És a minha assombração, Já quebrou, Mamãe eu vou com ele, Moreninha, Mulher de cueca, O mundo é uma roleta, Olhai, Paulista de Macaé, Saruê (todos de 1926).

Bibliografia Crítica

AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.

Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; Cultura Brasil.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Está na hora

Caninha 1928
Está na hora (marcha/carnaval, 1925) - Caninha (José Luiz de Moraes) - Intérprete: Jazz Band Sul Americano Romeu Silva

Disco selo: Odeon R / Título da música: Está na hora / José Luiz de Moraes "Caninha" (Compositor) / Jazz Band Sul Americano Romeu Silva (Intérprete) / Nº do Álbum: 122855 / Lançamento: 1925 / Gênero musical: Samba / Coleção: IMS



Está na hora
Está na hora
Mulher danada
Bota este moço pra fora

Mulher danada
Vai procurar o que fazer
Que este moço já tem dono
Você não pode querer

Mulher danada
Tu pensas que sou arara
Quem amar sem ser amado
Não tem vergonha na cara

Mulher danada
Toma vergonha na cara
Se você não toma jeito
Dou-te uma surra de vara

Fala baixo

A rivalidade entre Sinhô e Caninha, durante as festas da Penha, ganhou popularidade em 1921, quando o dono de laboratório farmacêutico, Dr. Eduardo França, fabricante do produto "Lugolina", instituiu um concurso de músicas para carnaval de 1922.

Já essa época, tanto Caninha quanto Sinhô haviam adotado expediente de "trabalhar" suas músicas (como hoje se diz) através de grupos de músicos, que só tocavam as suas produções. Nesse ano de 1921, José Barbosa da Silva apareceu na Penha liderando um conjunto intitulado "Fala Baixo", nome da marcha em que satirizava o meio terrorismo do governo Artur Bernardes, transcorrido quase todo em regime de estado de sítio. Caninha, que só dispunha de cavaquinhos e violões para acompanhá-lo, com evidente desvantagem face ao conjunto de trombone, pistom, contrabaixo, flauta, violões cavaquinhos patrocinado por Sinhô, rasgou algumas folhas de jornais, fez um chapéu de papel para cada um de seus músicos, apresentou-se com sua marcha ragtime "Me sinto mal", que começava:

"Ai, ai
Me sinto mal
Depois do carnaval.

Quando chega o carnaval
Ninguém lembra da carestia
Vamos todos para Avenida
caímos na Folia.

"Tem gente que cai na farra
Na véspera do carnaval
Na quarta-feira de cinza
Sempre diz: me sinto mal"


O júri do concurso, movido talvez pela sugestão da letra da marcha de Caninha — posto que o patrocinador do concurso era fabricante de remédios — daria vitória a José Luiz de Moraes, para profundo despeito do outro José, o José Barbosa da Silva. Segundo o testemunho de contemporâneos, Caninha ganhou como prêmio uma taça de prata, enquanto Sinhô recebeu uma cesta de flores, a título evidente de consolação. Na hora da entrega dos prêmios Sinhô não se deu por achado, mas quando chegou à estação para tomar o trem de volta à cidade, amassou furiosamente a cesta de flores com os pés, chutando-a para longe. E o mais curioso foi que, quando chegou o carnaval de 1922 o derrotado Sinhô acabaria abafando Caninha não apenas com o sucesso da marcha "Fala Baixo", também conhecida por "Não é Assim", mas com a vitória de mais três outras músicas: "Sete Coroas", "Pé de Pilão" e a famosa marcha "Sai da Raia".

Da polêmica com Caninha, na festa da Penha de outubro de 1921, restaria para Sinhô a ameaça de represália policial pela ironia do "Fala Baixo" (o compositor teve que refugiar-se uns tempos na casa de sua mãe, no Engenho de Dentro), e o crescimento da sua popularidade desde logo expressa na quadrinha do cronista Carlos Bittencourt, o "Assombro", publicaria em 1922 no jornal O Paiz, ligando definitivamente seu nome ao de seu grande rival:

"São dois cabras perigosos,
Dois diabos internais,
José Barbosa da Silva
José Luís de Moraes


Fala baixo (marcha/carnaval, 1922) - Sinhô - Intérprete: Banda da Fábrica Popular

Disco selo: Popular R / Título da música: Fala baixo / José Barbosa da Silva "Sinhô" / Embaixada Fala Baixo (Intérprete) / Banda da Fábrica Popular (Acomp.) / Nº do Álbum: 1022 / Nº da Matriz: #1022 / Lançamento 1920 / Gênero musical: Marcha carnavalesca / Coleção: Nirez D


Quero te ouvir cantar
Vem cá, rolinha, vem cá
Vem para nos salvar
Vem cá, rolinha, vem cá (x2)

Não é assim
Não é assim
Não é assim
Que se maltrata uma mulher (x2)

És a minha paixão
Vem cá, rolinha, vem cá
És o meu coração
Vem cá, rolinha, vem cá (x2)



Fonte: Compositores/cantores — Correio da Manhã, de 23/10/1966.

Quem vem atrás fecha a porta

Caninha
Quem vem atrás fecha a porta (Me leve, me leve, seu Rafael) (samba/carnaval, 1920) - Caninha - Intérpretes: Bahiano e Isaltina

Disco selo: Odeon R / Título da música: Quem Vem Atrás Fecha a Porta (Me Leva Seu Rafael) / José Luiz de Moraes "Caninha" (Compositor) / Francisco Marques (Compositor) / Bahiano (Intérprete) / Isaltina (Intérprete) / Conjunto (Acomp.) / Nº do Álbum: 121729 / Lançamento: 1920 / Gênero musical: Samba / Coleção de fontes: IMS, Nirez



Me leve, me leve / Seu Rafael
Me leve, me leve / Lá pro Pará


Quero que Iaiá me leve / Lá na beira do caminho
Tem paciência Iaiá / Me leve devagarinho


Eu chegando na Bahia / Fiquei perdido de amor
Por ver tanta baianinha / Da terra de São Salvador

Na Bahia diz que tem / Bicho que mata rapaz
Bicho de barriga lisa / Laço de fita pra trás


Na Bahia tem mulata / De rico balangandã
A mulata da Bahia / É mesmo de bam-bam-bam

Oh! Meu Senhor do Bonfim / Nossa Senhora da Guia
Não há mulata que chegue / À mulata da Bahia

domingo, janeiro 13, 2008

Alfredo

Alfredo (Alfredo José de Alcântara), instrumentista e compositor. Fl. Rio de Janeiro RJ 1910-1927. Nascido no bairro de São José, em Recife PE, aprendeu a tocar pandeiro, freqüentando forrós locais. Transferindo-se para o Rio de Janeiro, foi morar no bairro do Estácio, logo integrando-se nas rodas de sambistas.

Pelo fim da década de 1910, Caninha, ouvindo-o tocar, convidou-o a integrar o grupo Sou Brasileiro, que se apresentava nas festas da Penha e durante o Carnaval. Logo se destacou entre os grandes pandeiristas do Rio de Janeiro, criando maneira pessoal de tocar o instrumento, na qual, além de marcar o ritmo, realizava floreios de percussão e fazia malabarismos, equilibrando o pandeiro na ponta do indicador, atirando-o para o alto etc.

Conhecido como “pandeirista infernal”, foi solicitado por vários conjuntos, chegando a apresentar-se no elegante cabaré Assírio, do Rio de Janeiro, com Oito Batutas, grupo liderado por Pixinguinha e Donga, recém-chegado de apresentações em Paris, frança.

Em 1927 participava do bloco O Que É Nosso, chefiado pelo sambista Caninha, vencendo naquele ano um concurso carnavalesco. Ainda em 1927 integrou o grupo Cutubas de Macaé, formado pelo violonista Josué de Barros.

Célebre também no teatro, depois de participar de várias revistas da época, viajou a Buenos Aires, Argentina, onde se exibiu em teatros e casas noturnas como “el negro panderista brasileño”, acrescentando ao seu número evoluções de passista e bailarino.

Formando uma pequena companhia de variedades, excursionou pela Europa e em seguida por New York, E.U.A. Sempre alcançando êxitos, voltou à Argentina para nova temporada, antes de regressar ao Brasil.

Seu estilo teve vários seguidores, entre os quais Russo do Pandeiro, incorporando-se definitivamente à forma de execução adotada em grande parte pelos instrumentistas das escolas de samba.

Obras: Lavadeira, s.d.; Minha promessa, samba, 1928; Vem, meu bem, s.d.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.

domingo, abril 02, 2006

Esta nega qué me dá

Canninha - 1928
A melodia é pobre, a letra apenas razoável: "Esta nega / Qué mi dá / Eu não fiz nada / Prá apanhá...". Mas o título de duplo sentido acabaria por fazer deste samba um dos sucessos do carnaval de 1921.

Seu autor, Caninha, aqui em parceria com o bailarino Lezute, foi um dos mais ativos compositores da primeira geração de sambistas, chegando a rivalizar com Sinhô no início dos anos vinte.

Seus sucessos, porém, ficaram restritos a esse período, embora ele tenha vivido até 1961. Frequentador da casa da Tia Ciata, Caninha (Oscar José Luís de Morais) ganhou o apelido quando, adolescente, vendia rolete de cana nas imediações da Central do Brasil, no Rio de Janeiro (Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

"O Canninha, sempre procurou seguir as pégadas do Sinhô, não logrando, porém, o mesmo successo. Por mais que se esforçasse, o Canninha jamais conseguio siquer aproximar-se do Rei do Samba, ou ter um logar de destaque na sua Côrte...

E' que as produções do conhecido muzicista, quasi sempre peccavam pelo imprevisto... asnatico, tão proprio do popularissimo compositor que teve o topete de dizer que o Maestro Francisco Braga, ouvindo no cinema Odeon este samba manteve com elle o seguinte dialogo :

MAESTRO F. BRAGA: – «Seu Canninha», o senhor sabe muzica ?
CANNINHA: – (risonho e amavel) Maestro eu engulo um bocadinho de cabeça de nota!...
MAESTRO F. BRAGA: – (Enthusiasmado) Pois olhe, seu Canninha, este seu samba, até parece muzica classica !
CANNINHA: - Se isto é verdade, o maestro Francisco Braga está na obrigação de uma grande penitencia perante Santa Cecilia!

Já vae longo este capitulo e o assumpto dá margem a outros. Prometto continuar, porque «piano, piano...»" - Na Roda do Samba - Francisco Guimarães (Vagalume) - Rio de Janeiro, 1933.

Esta nega qué me dá (samba-maxixe, 1921) - Caninha e Lezute

Interpretação do cantor Bahiano em disco Odeon lançado em 1922:

Disco selo: Odeon R / Título da música: Esta nêga qué me dá / José Luis de Moraes "Caninha" / Bahiano (Intérprete) / Nº do Álbum: 121968 / Data de Lançamento: 1922 / Gênero musical: Samba / Coleção de fontes: Nirez



Interpretação de Almirante com A Velha Guarda em 1955:

LP 10' A Velha Guarda / Título da música: Esta Nega Qué Me Dá / "Caninha" (Compositor) / A Velha Guarda (Donga, João da Bahiana e Pixinguinha) (Intérprete) / Almirante (Intérprete) / Gravadora: Sinter / Nº do Álbum: SLP 1038 / Ano: 1955 / Faixa: B1 / Gênero musical: Samba



Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá

Nega, tu não faz feitiço / Que eu tenho o corpo fechado
Tapa de amor não dói / Por isso apanhou casado

Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá

Eu tenho os osso quebrado / Quebrado só de apanhá
Oh Nega, toma cuidado! / Que eu também vô te ripá!

Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá


Fontes: Na Roda do Samba - Francisco Guimarães (Vagalume) - Rio de Janeiro, 1933; A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

quinta-feira, março 30, 2006

Caninha

O compositor José Luís de Morais, apelidado de "Caninha", nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 06 de julho de 1883, e faleceu na mesma cidade, em 16 de junho de 1961. O apelido lhe foi dado em criança, quando vendia roletes de cana na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil. Nessa época aprendia cavaquinho com Adolfo Freire.

Por 1900, começou a frequentar as reuniões de sambistas nas casas da Tia Dadá e da Tia Ciata, baianas da Cidade Nova. Um dos fundadores do Dois de Ouro, rancho pioneiro no Rio de Janeiro, participou ainda do Balão de Rosa, do Rosa Branca, do Recanto das Fadas, do União dos Amores, chegando a ser diretor de canto do Recreio das Flores.

Já havia feito várias músicas, mas o seu primeiro sucesso foi o maxixe Gripe espanhola, lançado na festa da Penha em 1918. Depois, tornou-se freqüentador constante da festa e passou a integrar vários grupos carnavalescos, como o Grupo de Caxangá, do qual participava com o nome de Mané do Riachão, o Grupo Cidade Nova, integrado também por Pixinguinha, e o Grupo Sou Brasileiro.

Em 1919 compôs o tango O kaiser em fuga e o samba Até parece coisa feita, e, em 1920, fez os sambas Quem vem atrás fecha a porta, outro sucesso, e Ninguém escapa ao feitiço. No ano seguinte obteve êxito com sua primeira composição gravada, Esta nega qué mi dá (com Lezute). Ainda em 1921, compôs um samba e um tango, ambos com o mesmo título, Que vizinha danada.

Em 1922, com a marcha-rag-time Me sinto mal, derrotou Sinhô no concurso da festa da Penha. Para o Carnaval de 1923, compôs o maxixe Não é conversa, a marcha Meu amor qué me batê e o samba Não se ganha pra comer.

Em 1927 obteve o primeiro prêmio no concurso do jornal Correio da Manhã, com Rosinha.

Em 1933 venceu concurso oficial de músicas carnavalescas, com É batucada, feita em parceria com o jornalista Horácio Dantas (que usava o pseudônimo de Visconde de Bicoíba), que lhe valeu um Diploma de Sambista, dado pelo prefeito da cidade. Essa música foi gravada por Moreira da Silva, na Columbia, com acompanhamento do grupo instrumental Gente do Morro, de Benedito Lacerda.

Em 1954 foi um dos participantes do Festival da Velha Guarda, organizado por Almirante. Morreu em 1961, embora em 1950 a prefeitura do Rio de Janeiro já o tivesse incluído numa homenagem prestada a sambistas famosos falecidos, ao lado de Noel Rosa, Sinhô e outros.

Obra

Deixa ela, samba, 1927; É batucada (com Visconde de Bicoíba), samba, 1933; Essa nega qué me dá (com Lezute), samba, 1921; Está na hora, marcha-carnaval, 1925; O kaiser em fuga, tango, 1919; Me sinto mal, marcha-rag-time, 1922; Quem vem atrás fecha a porta, samba, 1920.

Músicas no blog



Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.