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quarta-feira, junho 06, 2018

Lamartine, o rei dos primeiros carnavais


Se há alguém no Brasil que simboliza a alegria dos primeiros carnavais, essa pessoa é Lamartine Babo. Exímio compositor de marchinhas de carnaval, Lamartine foi um dos primeiros humoristas do país. Em meados da década de 30, quando o que contava ainda era a brincadeira nas ruas e não o desfile das escolas, o carioca, nascido em 1904, reinava absoluto nas festas do Rio de Janeiro. De 1932 a 1936 emplacou os maiores sucessos da Folia de Momo na Cidade Maravilhosa.


Não é difícil compreender o sucesso de Lamartine no Carnaval. Data marcada por uma grande festa no país, o Carnaval é considerado por muitos - especialmente fora do país - como o símbolo da alegria dos brasileiros. Bem humorado, com canções que apelavam para o humor puro, o compositor logo conquistou os cariocas.

"Ele era muito engraçado, e tirava sarro das pessoas com algumas letras. Inclusive, tirava sarro dele mesmo. Até por ser Carnaval, não tinha como fazer letra séria. E ele se destacava", explica o professor de Arte e Cultura da Universidade Metodista de São Paulo, Heron Vargas.

O humor escrachado - por algumas vezes maldoso - se tornou a marca principal da produção de Lalá, como era conhecido. "Nesse ponto ele é praticamente único na música brasileira. Ele mesmo era humorista, trabalhava assim no rádio, apresentando programas. Outros faziam mais sátira, o que é diferente do humor", compara o pesquisador Suetônio Soares Valença, autor do livro Tra-la-lá : Lamartine Babo. "O Lamartine fazia humor puro. Levava tudo mais ou menos na brincadeira, fazendo humor o tempo todo."

Ainda assim, não era apenas o humor que levava Lamartine ao sucesso. Com uma formação musical diferenciada dos demais compositores da época, conseguia resultados mais expressivos com as marchinhas, chegando a emplacar seis grandes sucessos em um mesmo Carnaval.

"Lamartine não teve uma formação musical como a do Noel Rosa, por exemplo. Noel subia os morros e ia ao Estácio para conhecer o samba. O Lamartine não teve essa passagem pelos morros. E por isso que ele fazia muita marcha, que se aproxima mais das operetas e das músicas americanas dos anos 20, que era o que ele acompanhava", complementa Valença.

A fama de Lamartine nos carnavais rapidamente fez com que fosse requisitado pelo rádio e pela TV, ainda nascente nos anos 50. Lá, também alcançaria sucesso, com programas como o "Baú do Lamartine". No rádio, foi pioneiro em usar uma ferramenta que conhecia bem: novamente, o humor.

"Ele é o precursor do humor no rádio. Não era um humorista como o Chico Anysio, mas tinha uma verve, era muito engraçado. Através desse humor, ele foi mais que um compositor, foi um dos responsáveis pelo que se considerou o "Espírito Carioca". É essa coisa do bom humor, da verve, da graça", afirma Valença.

Por Renato Marques

terça-feira, dezembro 31, 2013

Prognósticos do Carnaval de 1936

Os "speakers" Afonso Scola, César Ladeira, Cristóvão de Alencar, Aurélio de Andrade, Dilo Guardia e Gastão do Rego Monteiro, avaliam as músicas carnavalescas de 1936 - Fotos: CARIOCA, 01/02/1936.

“O Carnaval está se aproximando rapidamente. O carioca já está começando a se sentir invadido pelo entusiasmo que lhe desperta a presença de Momo — soberano do Riso e da Alegria. As músicas de Carnaval já dominam a cidade. No rádio, nas batalhas de confete e nos bailes.

Era fama na velha Grécia, que o vinho e a música são os dois fatores da alegria humana. A eles dois, devem os foliões render as suas homenagens. Os compositores populares já mostraram as melodias que vão ser cantadas nos três melhores dias do ano. Umas boas, outras más. Todas com esperanças de êxito. Todas com pretensões a sucesso.

CARIOCA, que interpreta o pensamento do nosso povo, quis ter uma impressão acerca das músicas que seriam mais cantadas. Para isto, procurou os “speakers” das nossas estações de rádio. O “speaker” é quem melhor conhece os gostos e preferências do público com quem está sempre em contato através o microfone. Eles podem dizer, com segurança, quais os sucessos de 1936. Várias músicas foram indicadas. Vencerão umas, falharão outras. É muito difícil descobrir a preferência do público, quando se sabe que o sucesso, às vezes, é devido a uma insignificância.

Dilo Guardia, o “speaker” da Rádio Transmissora — a estação mais nova da cidade, declara:

— “A marcha que julgo ser o mais formidável sucesso neste Carnaval é a “Marcha do grande galo”, uma criação de Almirante. Seus autores, Paulo Barbosa e Lamartine Babo foram felizes, pois possui esta música o fator principal para a vitória —  originalidade.

Outras marchas existem que também eletrizam pelas suas melodias, pelas suas letras, mas... os seus estribilhos são menos fáceis de serem cantados pela massa popular carnavalesca da cidade. Refiro-me à “Cadência”, de Nássara, e “A. M. E. I.”, de Nássara e Frazão, ambas lançadas por Francisco Alves.  O “Marido da Eva”, só pelo título é quase que uma cartada certa. Gosto bastante da marcha de Oswaldo Santiago “Você ainda não me deu”, que Gastão Formenti gravou. Também promete.

Sambas? ... Este caso é bastante complicado para se resolver. Não quero que se julgue que pretendo antever sucessos, mas, a julgar pelo que vejo, tenho a impressão que “Palpite infeliz”, de Noel, não deve perder este páreo: “Carnaval de 1936”. Aracy de Almeida lançou-o com grande precisão e depois (dizem os mais entendidos a Vila é o reduto dos sambas que nascem para vencer. Vai daí o meu prognóstico. Orlando Silva também possui criações suas que devem trazer surpresas e não sei como ficará definida tão grande prebenda”.

“Marchinha do Grande Galo”, de Lamartine Babo:

O galo de noite cantou,
Toda gente quis ver
O que aconteceu!
Nervoso, o galinho respondeu:
Có, có, có, có, có, có, có, ró
A galinha morreu...

Có, có, có, có, có, có, có, ró
Có, có, có, có, có, có, có, ró
O galo tem saudade
Da galinha carijó. (Bis)

A minha vizinha também
Certa noite gritou
Toda gente acordou!
Nervoso, o marido respondeu:
Có, có, có, có, có, có, có, ró
Hoje o galo sou eu!

Cesar Ladeira dispensa apresentações. Mais do que ninguém, pode ter autoridade para responder à nossa enquete. Cesar Ladeira é, porém, muito “diplomata” e não quer desgostar ninguém:

— “A experiência já me ensinou a não fazer profecias. Por temperamento, sou realista: amo as coisas positivas. Por isso não gosto de “palpites”. Todas as marchas e sambas que são apresentadas para o Carnaval têm, como objetivo, é claro, vencer, o páreo difícil da preferência pública. Dar “palpites” nesse caso é descontentar os meus particulares amigos — os compositores, prodígios de inspiração carnavalesca. Prefiro gostar de todas. Meu coração é grande: “deixai vir a mim as marchinhas” ... E por falar nisso, que marchinha formidável a do Noel Rosa “Pierrot apaixonado”, hein? Chi! menino, está “abafando”.

Assim falou o mais querido dos “speakers” da cidade.

“Pierrot apaixonado”, marcha de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres:

Um Pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando (bis).

A Colombina entrou no botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim....
Dizendo: Pierrot “cacete”
Vá tomar sorvete
Com o Arlequim.

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o Pierrot aconteceu assim
Levando esse grande “shoot”
Foi tomar “vermouth”
Com amendoim.

Aurélio de Andrade tem sobre os outros “speakers” da cidade a vantagem de haver vencido em torneio deste gênero, derrotando inúmeros adversários, quando da inauguração da Rádio Tupy. Eis o que nos disse:

— Fazer prognósticos sobre sucessos é quase impossível, por enquanto. O concurso das “ruas” só se decide em definitivo, na quarta-feira de cinzas. Aí é que se conhece o vencedor. Mas... creio que “O marido da Eva” e “Querido Adão” são concorrentes bastante sérios. Ambas as marchas possuem grandes credenciais para o triunfo, tem características de vitória, em sua composição. Assis Valente, que todos nós conhecemos de um sem número de sucessos anteriores, tem “A infelicidade me persegue”, que é um samba ótimo. Não está ainda, é verdade, bastante conhecido. Em pouco tempo porém, sê-lo-á, e então...

“Querido Adão” — Marcha de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago:

Meu querido Adão
Todo mundo sabe
Que perdeste o juízo
Por causa da serpente tentadora
O nosso mestre te expulsou, do Paraíso.

Mas em compensação
O teu pobre coração
Que era pobre, pobre,
Muito pobre de amor
Cresceu e eternizou, meu Adão
O teu pecado encantador.

Gastão do Rego Monteiro é um dos novos na sua arte. Tem pouco tempo de “speaker”, porém, está agradando e dentro em breve será, por certo, um dos primeiros da cidade. Novo como “speaker”, não o é, porém, no rádio. Ao contrário, conhece-o a fundo e sabe o que agrada ao público.

— “Marchinha do Grande Galo” é a que tem mais chance de vencer. Tem mais “carnaval” que qualquer outra e possui uma alta dose de originalidade. Sei que ela está fazendo sucesso, não só pelos pedidos que me vêm às mãos, como também, pelo que tenho observado nas festas. Há outras que devem também agradar, como: “Pierrot apaixonado”, “Vem meu amor” e “Oh! Oh! Não” que, por sinal, é ótima! Em sambas, destaco “Samba”, de Hervé Cordovil, música que tem no nome, o reflexo exato de seu valor. “As lágrimas rolavam”, que é muito carnavalesco e “Palpite infeliz”, são, também concorrentes muito autorizados.

“As lágrimas rolavam” — Samba de Kid Pepe, Germano Augusto e Guará:

As lágrimas rolavam
Na face da mulher
Que eu mais amava e deixei
A meus pés ajoelhada
Ela me implorava... implorava
Perdoa... perdoa.

E eu rude, embrutecido
Fui me embora convencido
E não tive explicação
Desde daí tenho amargado
Por ela ter chorado
A nossa separação.

Eu agora vou voltar
A teus pés para implorar
Com uma dor no coração
Nesta vida me maldigo
Do que aconteceu comigo
Tenho que pedir perdão...

Pouca gente conhece Armando Reis. Muita gente conhece Cristóvão de Alencar. O primeiro é conhecido pelo “pessoal” do rádio. O segundo é conhecido pelo público. A diferença existente entre ambos é que o Armando é compositor e o Cristóvão é o “speaker” da PRC-8, Duas personalidades distintas, numa só criatura — aquele que aos sábados “canta” ao microfone da Guanabara as músicas de sucesso. Como o Armando Reis, não está este ano inscrito no “Grande Prêmio Carnaval de 1936”, o Cristóvão sente-se à vontade para falar:

— Três marchas há, que são dignas de grande sucesso: “O marido da Eva”, “A. M. E. I.” e “Pierrot apaixonado”.  Cada uma dela apresenta uma característica distinta: “O marido da Eva” é toda alegria e vivacidade, “A. M. E. I.” é a marcha sentimental, tipo “Formosa” e, por isso mesmo, capaz de grande sucesso. O “Pierrot” está entre as duas: tem uma parte sentimental que é o estribilho e logo nos versos sente-se a alegria e o bom-humor do autor.

Quanto a sambas, destaco “Palpite infeliz”. Sou aliás, suspeito para falar porque se trata de um samba dedicado à Vila Isabel, bairro que é “do coração”. Reconheço, porém, que “As lágrimas rolavam”, tem muito ritmo carnavalesco e pode mesmo, “abafar”, no Carnaval de rua, no Carnaval popular. Poucas vezes, tenho visto um samba com caráter tão carnavalesco e tão bom para “ranchos” e “cordões”.

“Marido da Eva” Marcha de Nássara:

Você ganhou mas não leva
Eu sou o marido da Eva.

Certidão de casamento
Não resolve de momento
A questão
Se ainda tenho no pescoço
“Entelado” este caroço
Eu sou mesmo, “Seu” Adão.

Descobri no fim da festa
Que a maçã era indigesta
Fiz asneira,
Se a serpente não me engana
Eu comia, era banana
Sobremesa brasileira.

Afonso Scola é o dono daquela voz simpática, a que já se habituaram os ouvintes da PRD-2. Um dos organizadores dos programas de discos, da Cruzeiro do Sul, conhece perfeitamente quais as preferências do público, com quem está sempre em contato pela numerosa correspondência que diariamente lhe chega às mãos, com pedidos de músicas. A sua resposta foi breve, porém expressiva:

— Creio que “Carnaval é rei” é sério concorrente. Possui o nosso ritmo e tem um acento nitidamente carnavalesco. “Pierrot apaixonado”, também é perigoso — mexe com os nervos do carioca. Há ainda uma marcha que está pouco falada porque ainda não está bastante conhecida. É “Fra Diavolo no Carnaval”, da autoria de Carlos Dix. Creio que ela está no páreo. Sambas? ... Acho que para o Carnaval, a marcha é que se impõe. Em todo o caso, dos sambas apresentados “Palpite infeliz” e “As lágrimas rolavam”, são os mais cotados.”

“O Carnaval é rei” — Marcha — Letra de Ernani Campos; música de Antenógenes Silva:

O Carnaval é rei
O rei da animação
Quando ele vem chegando 
Todos nós vamos perdendo
Do juízo a noção (bis).

O seu amor garota
Firmeza nenhuma tem
É como o nosso Carnaval
De duração tão curta
e deixa a gente mal.

Quando você vier
Buscar o meu coração
Você o encontrará pisado
Junto aos confetes
a rolar no chão.


Fonte: CARIOCA, de 01/02/1936

sexta-feira, dezembro 12, 2008

O Rio revive nas marchinhas

Havia uma garota, em 1942, cujo beijo era uma bomba de Stuka. Havia uma outra, em 1937, a Sebastiana, que, debaixo de um abraço, só se sentia carne, não se sentia osso. Só não havia pelo menos em 1955, uma Miss Brasil crioula do Morro da Favela - porque, se houvesse seu Joaquim apoiava ela.

Marchinha é a maneira mais bem-humorada de se conhecer a história do Rio de Janeiro na primeira metade do século passado e a gravadora Revivendo, com o lançamento de mais três CDs, chega ao número 22, mais de 450 músicas, da série Carnaval, sua história, sua glória. Um flagrante sonoro irretocável da famosa - ''é ou não é, piada de salão?'' - alma carioca das ruas.

Stuka, do beijo, era um avião militar alemão de mergulho na marchinha Dona Santa não é santa, de Humberto Teixeira. Mostrava que, pelo menos no início de 42, a guerra vista do Rio ainda despertava o riso. Sebastiana, dos irmãos Valença, curtia nonsense puro mas revelava que magricelas já não tinham vez.

Miss Criôla, de Arnô Provenzano e O. Lopes, pegava carona num dos grandes assuntos do final de 1954, o segundo lugar de Marta Rocha no Miss Universo. Mostra que o vocabulário politicamente correto, ao contrário das polegadas a mais, não estava na moda.

Beatles - As marchinhas eram pequenas reportagens, sempre divertidas, quase sempre esculhambativas, críticas, dos acontecimentos do ano anterior. Cabeleira do Zezé (Roberto Faissal e João Roberto Kelly) comentava no carnaval de 1964, o estouro cabeludo dos Beatles em 1963 com I wanna hold your hand. Gegê, de Eduardo Souto, quando falava que ''o seu pedido já foi, meu bem, despachado'', fazia caricatura da distribuição de empregos por Getúlio Vargas.

As músicas são apresentadas em suas gravações originais, com ótima qualidade de som, e revelam uma enorme quantidade de clássicos da MPB produzidos especialmente para o carnaval. Fala Mangueira, de 1956, samba de Mirabeau e Milton de Oliveira, com Ângela Maria, está entre as melhores que cantam o morro carioca. Confete, de 1952, de J. Júnior é uma das mais clássicas, e a última, para o carnaval, de Francisco Alves.

As faixas dos novos CDs obedecem ao mesmo critério de seleção dos outros discos da coleção. Sucessos fundamentais da festa, como Odete, de 1944, com o Trio de Ouro (atenção para o apito de Herivelto Martins e o solo de Dalva de Oliveira), e Implorar, de 1935 (atenção para o arranjo de Pixinguinha e a voz sem breque de Moreira da Silva) cruzam com marchas, sambas e frevos que não tiveram qualquer destaque nas ruas e salões - mas são saborosíssimos.

Em Bairros de Pequim, de 1948, aprende-se, por exemplo, que ''Existem em Pequim/ dois bairros, Fu e Lu/ que nem aqui no nosso/ São Cristóvão e Grajaú''. A polícia recolheu o compacto (do outro lado havia a catita Comprei um Buda) por temer que os foliões incluíssem palavras que não constassem da letra original. Deliciosa também era a O soro e os velhinhos, marcha de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, de 1950. O laboratório Pfizer, que hoje produz o Viagra, podia muito bem adotá-la como jingle: ''O soro vai ser um maná/ Os velhos velhinhos/ Vão ser outra vez brotinhos''.

Carnaval, sua história, sua glória é ainda uma boa oportunidade para se reencontrar grandes intérpretes esquecidos da MPB. No volume 20, Jorge Veiga, o caricaturista do samba, dá o tradicional show de malícia e divisão rítmica em Eu quero rosetar (''Por um carinho seu minha cabrocha/ Eu vou até a Irajá'').

No volume 21, com A hora é boa, o Bando da Lua revela o pique e alto astral que fariam Carmen Miranda convidá-los para longa temporada nos Estados Unidos. Na letra, Aloysio de Oliveira dá uma de Guimarães Rosa e inventa palavra sem qualquer sentido hoje e, segundo os estudiosos, na época também: ''A hora é boa/ pra virar pangaio/ no meio desse povaréu''.

Protesto - No volume 22, Blecaute, com voz personalíssima, faz o protesto social de Pedreiro Waldemar, de 1949, o mesmo ano em que apresentou a divertida General da banda: ''O Waldemar que é mestre no ofício/ constrói um edifício e depois não pode entrar''.

As marchinhas desapareceram com a popularização dos sambas de enredo no final dos anos 60 e hoje, com a decadência deste gênero também, o Monobloco precisou sair pelas ruas do Jardim Botânico no domingo animado pelo repertório pop de Raul Seixas. A cidade, sem chororô nostálgico, mudou e descobriu outros prazeres. Veja as fotos de carnaval na Rio Branco de Marcel Gautherot, em exposição no Instituto Moreira Salles, e ouça os divertidos documentos históricos, essência da carioquice, que são os CDs de Carnaval, sua história, sua glória.

Na mais antiga faixa dos três discos, Dondoca, de 1927, exalta-se como padrão de beleza a mulher de carnes moles. ''Não treme tanto a gelatina/ que o caldo entorna na terrina'', canta Gomes Júnior. Setenta e cinco anos antes das gatas musculosas do Monobloco cantava-se - e é preciso reverenciá-la para sempre na memória - o rebolar maravilha da mulher gelatina.

por: Joaquim Ferreira dos Santos

Fontes: Jornal do Brasil de 29.01.2002; Carnaval, sua história, sua glória, volumes 20, 21 e 22 - Revivendo (www.revivendomusicas.com.br);
http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0201/1116.html.

domingo, janeiro 13, 2008

Lamartine Babo: o rei dos primeiros carnavais


Se há alguém no Brasil que simboliza a alegria dos primeiros carnavais, essa pessoa é Lamartine Babo. Exímio compositor de marchinhas de carnaval, Lamartine foi um dos primeiros humoristas do país. Em meados da década de 30, quando o que contava ainda era a brincadeira nas ruas e não o desfile das escolas, o carioca, nascido em 1904, reinava absoluto nas festas do Rio de Janeiro. De 1932 a 1936 emplacou os maiores sucessos da Folia de Momo na Cidade Maravilhosa.


Não é difícil compreender o sucesso de Lamartine no Carnaval. Data marcada por uma grande festa no país, o Carnaval é considerado por muitos - especialmente fora do país - como o símbolo da alegria dos brasileiros. Bem humorado, com canções que apelavam para o humor puro, o compositor logo conquistou os cariocas.

"Ele era muito engraçado, e tirava sarro das pessoas com algumas letras. Inclusive, tirava sarro dele mesmo. Até por ser Carnaval, não tinha como fazer letra séria. E ele se destacava", explica o professor de Arte e Cultura da Universidade Metodista de São Paulo, Heron Vargas.

O humor escrachado - por algumas vezes maldoso - se tornou a marca principal da produção de Lalá, como era conhecido. "Nesse ponto ele é praticamente único na música brasileira. Ele mesmo era humorista, trabalhava assim no rádio, apresentando programas. Outros faziam mais sátira, o que é diferente do humor", compara o pesquisador Suetônio Soares Valença, autor do livro Tra-la-lá : Lamartine Babo. "O Lamartine fazia humor puro. Levava tudo mais ou menos na brincadeira, fazendo humor o tempo todo."

Ainda assim, não era apenas o humor que levava Lamartine ao sucesso. Com uma formação musical diferenciada dos demais compositores da época, conseguia resultados mais expressivos com as marchinhas, chegando a emplacar seis grandes sucessos em um mesmo Carnaval.

"Lamartine não teve uma formação musical como a do Noel Rosa, por exemplo. Noel subia os morros e ia ao Estácio para conhecer o samba. O Lamartine não teve essa passagem pelos morros. E por isso que ele fazia muita marcha, que se aproxima mais das operetas e das músicas americanas dos anos 20, que era o que ele acompanhava", complementa Valença.

A fama de Lamartine nos carnavais rapidamente fez com que fosse requisitado pelo rádio e pela TV, ainda nascente nos anos 50. Lá, também alcançaria sucesso, com programas como o "Baú do Lamartine". No rádio, foi pioneiro em usar uma ferramenta que conhecia bem: novamente, o humor.

"Ele é o precursor do humor no rádio. Não era um humorista como o Chico Anysio, mas tinha uma verve, era muito engraçado. Através desse humor, ele foi mais que um compositor, foi um dos responsáveis pelo que se considerou o "Espírito Carioca". É essa coisa do bom humor, da verve, da graça", afirma Valença.

Por Renato Marques

quarta-feira, abril 12, 2006

Marchinhas de Carnaval


O samba, gênero musical que data bem antes de 1916, ano da gravação de Pelo telefone, de Donga, passou a ser sinônimo de Brasil. Mas na disputa entre os dois gêneros, o samba e a marchinha, durante bom tempo, ao menos na época do carnaval, o segundo reinou soberano nos salões de baile.

Por isso, contar a história das marchinhas é, de certa forma, narrar a história do Carnaval. Por baixo do pó-de-arroz, as marchinhas faziam sucesso desde os primeiros anos do século. Espécie de embrião das escolas de samba, os cordões de foliões agitavam as ruas do Rio de Janeiro. E nas festas, eles cantavam e tocavam marchinhas.

A fórmula de sucesso era razoavelmente fácil: compasso binário, como a marcha militar, andamentos acelerados, melodias simples e de forte apelo popular, e lógico, letras irônicas, sensuais e engraçadas. As letras, aliás, agradavam demais os foliões.

Muitas delas continuam atuais. Crônicas urbanas, elas tratam normalmente de temas cotidianos. Histórias do dia-a-dia dos subúrbios cariocas. Por muitas vezes, tinham conotação política. O ambíguo, o duplo-sentido, era muito explorado. Uma forma de dar leveza a temas que não eram assim tão "leves". "Elas têm uma vertente jornalística. Por exemplo, foram feitas marchinhas para Hitler, para as duas fases do Getúlio Vargas, a do Estado Novo e a de sua volta nos braços do povo.", explica Omar Jubran, vencedor do Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte.

As marchinhas de carnaval tiveram seu auge nos anos 30, 40 e 50. Depois delas, muito foi produzido, pouco aproveitado. Algo que perdura até os nosso tempos: muita quantidade, pouca qualidade. Jubran arrisca uma explicação: "O apogeu do gênero está relacionado à popularização do disco e do rádio." Nomes como Almirante, Mário Reis, Dalva de Oliveira, Sílvio Caldas e Carmen Miranda, os grandes cantores da época, gravaram marchinhas e com elas venceram muitos carnavais.

Os principais compositores, que escreveram aclamadas músicas de festa, foram Noel Rosa, João de Barro (pseudônimo de Braguinha), Lamartine Babo e Ary Barroso.

Entre as muitas músicas, que até hoje estão no imaginário popular brasileiro, vale destacar Touradas em Madri, de João de Barro e Alberto Ribeiro, composta para a Guerra Civil Espanhola, que teve início em 1936; Chiquita Bacana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, lançada em 1949, era uma interpretação muito particular do existencialismo, mas que não se referia propriamente às idéias de Jean-Paul Sartre.

Também seria impossível não lembrar de O teu cabelo não nega, dos Irmãos Valença e de Lamartine Babo, de 1932; Mamãe eu quero, de Jararaca e Vicente Paiva, de 1937, que levada por Carmem Miranda aos Estados Unidos chegou a ser gravada por Bing Crosby; Allah-la-ô, de Haroldo Lobo e Antônio Nássara, sucesso de 1941; e Yes, nós temos bananas, de João de Barro e Alberto Ribeiro, destaque de 1938 que trazia uma crítica bem-humorada à empáfia dos norte-americanos.

Dos anos 60 em diante as marchinhas começaram a perder espaço para os sambas-enredo. As escolas de samba, agremiações de grandes sambistas, começavam a ditar quais eram os sucessos. Alguns compositores, como Chico Buarque, se arriscaram a escrever as suas marchinhas. Caetano Veloso também se arriscou, mas flertou com outro gênero, o frevo, que anima em Pernambuco, tal qual as marchinhas no Rio de Janeiro, a festa de carnaval. Mas ficou nisso.

Nos anos 80 algumas regravações chegaram a fazer sucesso, como Balancê, de João de Barro e Alberto Ribeiro – talvez a maior dupla de compositores de marchinhas -, lançada por Gal Costa em 1980 e Sassaricando, de Luís Antônio, Jota Júnior e Oldemar Magalhães, gravada por Rita Lee para a trilha sonora da novela Ti, Ti, Ti.... Mas era muito pouco para um País que somente em 1952 produziu cerca de 400 músicas de carnaval, a maioria delas marchinhas alegres e divertidas.

As marchinhas lindas:


Mais marchinhas (e sambas carnavalescos) nas músicas de João de Barro, o nosso Braguinha:


O inesquecível Lalá, Lamartine Babo tem um monte de marchinhas em algumas das canções abaixo:


































































Fontes: História do Samba; História do Samba em Fascículos - Editora Globo.