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terça-feira, fevereiro 20, 2018

A Festa da Penha

A Festa da Penha em 1912: Em primeiro plano, de pé, da esquerda para a direita, João Pernambuco, de chapéu branco, segurando o violão, Patrício Teixeira, de terno branco, Pixinguinha, com a flauta, e Caninha, com o cavaquinho. Na foto só faltou o Sinhô...


O grande polo agregador dos sambistas era a Festa da Penha, organizada no Rio de Janeiro pela comunidade portuguesa para comemorar o dia da Natividade de Nossa Senhora, no fim do século XVIII e que acabou apropriada pelos baianos e sambistas cariocas.


Mantinha seu caráter religioso, com missas e pagamentos de promessas católicos, mas aos poucos cerimônias do candomblé foram sendo introduzidas e os sambistas faziam das barracas das “tias” baianas seus pontos de encontro. Ali, comiam bem, ouviam o canto das mulheres que cozinhavam, e os malandros jogavam capoeira, armavam suas rodas de samba em meio a generosas doses de aguardente. O que levantava a temperatura e, muitas vezes, acabava em conflito, com intervenção violenta da polícia, sempre à procura de motivo para reprimir samba e sambistas.

Com o tempo, músicos e grupos profissionais passam a freqüentar a Festa, e concursos musicais com prêmios são organizados. Os fins de semana de outubro são quase tão animados quanto o Carnaval e tornam-se uma prévia dele, pois na Penha os compositores lançavam seus novos trabalhos, numa espécie de vitrine, para o grande festejo de fevereiro.

Tia Ciata era uma das mais famosas freqüentadoras da Festa, onde armou sua barraca até morrer em 1924. O final da década de 20 marcou os últimos anos de prestígio do grande evento musical, um dos principais do início do século.

José Luiz de Moraes, o Caninha, compositor conhecido no começo do século, era um dos que frequëntava a Festa da Penha e lançava aí suas novas criações. Em 1922, disputando com Sinhô (que inscrevera Não É Assim), ganha o concurso com Me Sinto Mal, que ele chamava de “marcha ragtime” e que já na época garantia: “Quando chega o Carnaval/Ninguém lembra da carestia/Vamos todos para a Avenida/Caímos na folia”. Sinhô, o Rei do Samba, que não admitia derrotas, saiu furioso. O júri precisou de proteção policial.

“Naquele tempo não tinha rádio, a gente ia lançar música na Festa da Penha, a gente ficava tranqüilo quando a música era divulgada lá, que aí estava bem, que era o grande centro. Eu fiquei conhecido a partir da Festa da Penha.” (Heitor dos Prazeres).

Um samba que faz referencia ao evento denomina-se Festa da Penha, criado entre 1937 e 1940 e gravado pela primeira vez em 1958. Esse samba de Cartola e Asobert fala da famosa festa realizada no Rio de Janeiro, onde o devoto busca um terno para ir à festa fazer suas orações e pedidos:

“Uma camisa e um terno usado / Alguém me empresta /
Hoje é domingo / E eu preciso ir à festa / Não brincarei /
Quero fazer uma oração / Pedir à santa padroeira proteção
Levarei dinheiro para comprar / Velas de cera /
Quero levar flores / Para a santa padroeira / Só não subirei /
A escadaria ajoelhado / Pra não estragar / O terno que tenho emprestado”.


Fonte: História do Samba - Editora Globo.

A Festa da Penha - Melo Moraes Filho


"Na obscuridade mais densa os tempos coloniais aninha-se a fundação da primitiva ermida de Nossa Senhora da Penha, que, da altura de seus trezentos e sessenta e cinco degraus, talhados no granito, dominava parte da baía do Rio de Janeiro, da cidade e dos subúrbios.



Posteriormente reedificada, mas não fundada, como pretendem alguns cronistas, pelo padre Miguel de Araújo, esse templo tem passado por modificações diversas, sendo todavia respeitados os símbolos religiosos, que nos permitem corrigir a história cotejando a lenda.

Por menos indagador que seja o peregrino ou devoto que transpuser o limiar daquela igreja, há de forçosamente, erguendo o olhar ao altar-mor, impressionar-se à vista de uma grande cobra e de um lagarto esculpidos, que, acima do nicho da excelsa padroeira, destacam-se no muro alvo da capela, com um colorido de bronze e um relevo natural.

E isso nos aconteceu, o que conduziu-nos a pesquisas diretas, interrogando a antigos habitantes do lugar sobre aquela estranha reprodução da arte. O mais velho dentre eles, por antonomásia João Cangulo, homem de oitenta anos presumíveis, ali nascido e criado, referiu-nos o que de seus pais ouviu a respeito, prestando apoio às suas palavras não só um negro de barbas e cabelos brancos com quem estava, porém outras pessoas da redondeza.

E assim recolhemos da tradição oral a lenda da fundação da ermida de Nossa Senhora da Penha, que se resume numa história simples e selvagem, de perfeito acordo com o cenário bárbaro que nos cercava e com os animais bizarros que figurou o artista.

Eis a lenda:Em tempos que lá vão distantes, ousado caçador que batia aquelas matas, em busca de caça, foi surpreendido por uma cobra gigantesca, que, roncando feroz e desenrolando-se no espaço, ameaçava devorá-lo; tomado de espanto, lívido de terror, arrepiam-se-lhe os cabelos, suor viscoso poreja-lhe à fronte, a arma lhe cai, e ele, dobrando o joelho na terra, erguendo as mãos súplices ao céu, exclama num brado saído d’alma:- Valha-me, Nossa Senhora da Penha!

No mesmo instante um lagarto indolente, que aquecia ao sol a cabeça chata, salta de uma pedra, e açoutando com a cauda de ferro o réptil medonho, o afugenta, deixando livre do perigo o infeliz para quem a morte seria inevitável.

Desperto como de um pesadelo, reconhecendo que fora salvo por estupendo milagre, o caçador erigiu na crista do rochedo a ermida votiva de Nossa Senhora da Penha, vindo todos os anos em contrita romaria oferecer à sagrada imagem o tributo de suas dádivas e o eco de seus louvores.

Nas romarias da Penha o elemento predominante foi sempre o português. Desde o período colonial até hoje, a tradição tem sido mantida como uma recordação das festas congêneres da antiga metrópole, notando-se porém que os foliões aqui eram na generalidade filhos do continente.

A essas peregrinações anuais concorria apenas uma certa classe de portugueses incultos, de homens e mulheres destinados a trabalhos rudes, o que não impedia de ser a festa popular da mais útil e opulenta das nossas colônias.

Os brasileiros da localidade ou de pontos mais afastados associavam-se em parte aos folguedos, contribuíam para o culto, formando-se muitas vezes grupos em separado no arraial – já de portugueses entre si, já de nacionais.

O que cumpre acentuar é que a iniciativa, o aparato, o entusiasmo, a verdadeira característica (e por isso tem durado), não nos pertenciam. A romaria da Penha era estrepitosa e alegre. Basta especificar a classe que fornecia os romeiros do primeiro plano para compreender-se que as profanações e os desvios não marcavam as intenções religiosas, que ficavam intactas.

A festa e a peregrinação tinham seus preâmbulos, seus comemorativos, dando margem a estabelecerem-se semelhanças com as nossas ou palpitantes diferenciações. Com os repiques das novenas anunciavam-se os preparativos.

Antes mesmo, viam-se pelo mato lenhadores que, por mando dos festeiros, cortavam longas varas, despiam-lhes as folhas, aparelhavam para o fabrico das tendas e barracas, paus de bandeira e galhardetes, habituais aos festejos.

De nove dias com antecedência, porém, era que tudo se dispunha, se aprontava com a urgência precisa e o capricho reclamado pela pomposa romaria, cuja fama tradicional aumentava-lhe a influência. Como por encanto o pitoresco arraial transformava-se; o garrido templo enfeitava-se com esplendor; era lavado em toda a sua extensão para realizarem-se promessas; e as casas dos romeiros, à esquerda da escadaria de pedra, começavam a receber trastes e objetos dos alugadores múltiplos, que obtinham as chaves por valiosos empenhos.

Na sacristia da formosa igreja o sacristão andava numa roda viva. Corria daqui para acolá, já atendendo aos portadores de promessas, já colocando em seus devidos lugares os milagres de cera, de ouro e de prata, as velas e painéis votivos que a gente da redondeza trazia nas vésperas do dia solene.

No arraial, de sol a sol, trabalhava-se sem tréguas, sem descanso. As barracas de comidas e bebidas como que brotavam da terra, surgiam umas após outras, debaixo das copadas mangueiras do terreiro e ao longo da estrada. Adornadas de bambinelas cobertas de aniagem, enfeitadas de folhas verdes, do teto balançavam escolhidas amostras dos gêneros em que negociavam, estendendo-se ao alto da estrada vistosos dísticos, que serviam de reclame ao povo miúdo.

De vez em quando, um molecote ou um preto velho, guiando um carro-de-bois, crescia na estrada, vindo trazer às barracas vinhos e comestíveis, magníficas frutas, ocupando o lugar de honra as saborosas melancias, abundantíssimas na localidade. Bandeiras troféus, galhardetes, escudos de papelão pintado, porta-girândolas, arandelas e copinhos de cores contornando as árvores, era o que se via com profusão pasmosa, dando ao espetáculo um aspecto magnífico e sem igual nas demais festas.

À missa do domingo que precedia a romaria, homens, mulheres e crianças, cheios de fé, subiam de joelhos a escada estreita aspérrima da Penha, cumprindo sagrados votos feitos à miraculosa Virgem nas horas aflitas da moléstia, do perigo e do infortúnio.

Era belo ver-se a piedade daqueles tempos; comovia até às lágrimas aquela procissão de escravos e senhores, de deformados e infelizes, cada um com sua oferenda, povoando por longos dias os degraus de pedra que conduziam à casa de Deus, indo render graças à Senhora da Penha, porque lhes trouxera a serenidade nos sofrimentos e o remédio a seus males.

Eram tantos os que deixavam uma lembrança palpável de seu extraordinário poder!... Quantos quadros representando curas milagrosas, navios escapos ao naufrágio e centenas de outros prodígios lá estão para atestar que a ciência humana não vale uma sombra de confiança na misericórdia divina!...A igreja conservava-se aberta dias inteiros, ao passo que outros preparativos para a romaria executavam-se na cidade e nas povoações circunvizinhas ou remotas.

Unido ao espírito altamente religioso, o elemento popular estava em cena do modo mais franco e significativo. Em Inhaúma, na Pavuna, em Irajá, em Meriti, em Campo Grande, na Ilha do Governador, etc., os fazendeiros e suas famílias, os pequenos lavradores e os escravos suspiravam pela função.

Os pescadores amarravam à praia as suas canoas e faluas; os lanchões e os barcos a vapor achavam-se designados e os lindos cavalos de sela, ferrados e tratados, aguardavam o momento da viagem à Penha.

Com uma abóbada de esteiras novas os carros-de-bois descansavam nos terreiros o varal e a canga; e os moleques e meninos brincavam ensaiando-se para a jornada. Na cidade, as vilas e cortiços andavam numa dobadoura. As Marias e os Manéis esqueciam-se das tinas de roupa e das carroças, tirando das arcas as arrecadas de ouro, que escovavam, e os uniformes brancos, que estendiam sobre cadeiras ou penduravam nas cordas para arejar.

Desde à véspera o movimento local fazia-se notar. Chegavam à Penha famílias da roça, as casas dos romeiros estavam repletas, os foguetes estouravam de instante a instante, e à noite a igrejinha embandeirada, iluminados a fachada e o gradil do mirante circular, avultava à léguas, refletindo na calva da rocha borboletas de luz, pousadas ou alígeras.

No almejado dia, logo ao amanhecer, em Maria Angu e Fazenda Grande, especialmente, desembarcavam inúmeras pessoas da cidade, turbilhões de roceiros tafulos, gente enfim para assistir à festa, trazer promessas, divertir-se. Da varanda aérea do templo o mais belo panorama desdobrava-se às vistas do espectador maravilhado, pois a variedade das cenas não tinha termo, cada qual mais original e interessante.

No mar as canoas e embarcações ligeiras desfloravam garbosas as ondas tranqüilas; os remos espelhavam ao sol rompendo d’água; os vivas e a foguetaria feriam o éter sonoro de cantigas; e os lenços brancos agitavam-se de uma para outra banda, ao alarido dos romeiros que saltavam em terra.

Nas estradas de rodagem, na rede dos caminhos, carros-de-bois rangiam, conduzindo famílias; lustrosas cavalgadas trotavam largo; caminheiros sem conta marchavam fatigados suarentos e empoeirados.No Pedregulho e nas ruas mais próximas à passagem obrigada aos sítios da Penha, só se viam espectadores atentos ao desfilar dos romeiros, especialmente da portuguesada festiva que seguia da corte em carruagens enfeitadas, em carroções e andorinhas tiradas a duas parelhas, em cavalos magros e de aluguel.

- Viva a Penha!...Viva a Penha!...Eram as vozes que enchiam desde às nove horas as ruas da cidade, ao desconcerto de uma música importuna e continuada, ou à cadência de rabecas, violas e pandeiros acompanhando trovas populares.

Nisso aparecia uma andorinha a galope, guarnecida de apanhados de fazenda de cores, verdejante de folhagens, com os animais enfeitados de rosas de pano na cabeçada, conduzindo foliões de ambos os sexos, vestidos de branco, de chapéu de palha desabado e flamejante de fitas.

Os rapazes ostentavam a tiracolo enorme e pesado chifre chapeado de prata e cheio de vinho; no braço enfeitavam as clássicas roscas da romagem, secundados pelas rechonchudas e afogueadas Marias Rosas, que, adiantando-se, pendidas para fora, arrebatadas pela velocidade e juntando as mãos à boca, gritavam: - Viva a Penha!

E os foliões, de pé, agitando os braços, crescendo de todo o corpo, respondiam no mesmo diapasão: - Viva a Penha!Mais de espaço, um, dois, três, muitos outros carros, aqui e além, partiam na mesma direção, molhando o Sor Zé ou o Sor Antônio a palavra vibrante com um gole da boa pinga, e as suas companheiras igualmente.

Em meio da excursão o entusiasmo atingia a seu auge, e o fadinho ou a caninha verde faziam-se ouvir, quebrando a monotonia da romagem. E a rabeca e a viola, tangidas por mãos afeitas, davam o tom a descantes pátrios, sempre bonitos, apesar de incultos.

"Ó minha canina berde,
Ó meu santo de padrão,
Por amor de uma menina
Fui cair no alçapão.

Cana berde salteada,
Salteada é mais bonita,
Pra cantar a cana berde
Não se quer folhos de chita.

Fui-me ao Porto, fui-me ao Minho,
De caminho para Braga,
Dizei-me, minha menina,
Que quereis qu’eu de lá traga."

Dos cercados as moças davam gostosas risadas, cochichavam, comentavam as toilettes; os meninos e os moleques atiravam olhares cobiçosos para as roscas, enquanto os patuscos, levantando a perna, galhofando, declamando, emborcavam os chifres que voltavam enxutos.

Solitário em seu pangaré, escanchado, apegando-se com freqüência ao Santo Antônio do selim, de quando em quando um romeiro atravessava a cena, com o mesmo vestuário e acessórios. Pacato e despretensioso, as suas aspirações eram unicamente apercebidas pelos "vivas à Penha", que soltava raros, aos solavancos do cavalo tardo e desobediente. A romaria era esplêndida...

Pelas duas horas da tarde, a festa estava em meio; os ranchos acampados nas ondulações vastas, à sombra das mangueiras. Encostados às vendas e às barracas, foliões que apeavam das andorinhas e muitos dos que lá se achavam, preludiavam as suas toadas, suas danças nacionais, pulando logo após no caminho. E a cana-verde, a chama-rita, o fadinho, o vai-de-roda ferviam sapateados, não sendo dispensados os desafios graciosos e brejeiros.

O mulherio saracoteava, batia palmas a compasso, pinoteava com seus pares, alguns dos quais, um tanto chumbados, esfregavam as primas da viola, davam breu nas cordas da rabeca, palheteavam os cavaquinhos, recomeçando trovas e dançados, emendando a roda:

"Chama-rita de meu peito,
Quem quer bem tem outro jeito..."

Os comes e bebes em esteiras desdobrados sob os arvoredos, na relva e nas barracas, as saúdes amistosas trocadas nos círculos de famílias e peregrinos que se divertiam de modo mais calmo, difundiam-se pelo acampamento em regozijo, prolongando-se até mais tarde.

Os carros tirados por juntas de bois avançavam nas estradas trazendo festivos matutos. As crioulas baianas sambavam debaixo das mangueiras aromáticas e embandeiradas dos panos-da-costa que suspendiam aos galhos, e os veículos de toda a espécie sulcavam as trilhas com os impagáveis e entusiásticos protagonistas da jornada da Penha.

Finda a cerimônia religiosa da manhã, principiava a debandada. Os acampamentos levantavam-se progressivamente, e, pela tarde adiante, as andorinhas, os carros enfeitados e os cavaleiros caricatos faziam sua entrada na cidade, entre "vivas" e incrível alvoroço.

Cada romeiro empunhava o seu registo de Nossa Senhora da Penha, ostentando uma verônica pregada no peito de casaco branco. No Arraial da Penha, por ocasião do Te-Deum, a nossa gente cantava ao largo as suas tiranas.

Trovadores dos sertões do Norte achavam-se naquelas paragens, muitos deles mulatos e crioulos escravos. Aqui, era uma quadrinha improvisada à viola e alentada de ciúme:

"Eu tomara me encontrá,
Com Manué Passarinho!...
Que quero cortar-lhe as asas,
Tocar-lhe fogo no ninho..."

Mais longe, uma despedida, um debruçar d’alma no passado, um verso plangente e dolorido:

"Vou-me embora, vou-me embora,
Como se foi a baleia,
Levo penas de dexá
Marocas na terra aeia"

E lá para as bandas de São Cristóvão, montado num burro de carroça, estafado e manco, zabumbando-lhe com os calcanhares na barriga, sumindo-se na treva, o último Abencerrage, arrancando de dentro um – viva à Penha! – mastigava para distrair-se quadrinha simples e expressiva:

"Dizes que viva Lamego,
Viva também Lameguinho,
E viva a terra do Porto
Onde se bebe o bom vinho."

Às cusparadas de fogo da locomotiva, a clássica romaria da Penha tem perdido parte de seu caráter devoto e de sua antiga influência. Entretanto muitíssimos são ainda os romeiros que afrontam mesmo a pé, léguas e léguas de distância, no arriscado das matas, fiéis à tradição.

Como romaria popular é a única que ainda se conserva no Rio de Janeiro. Representa no ideal o tipo de certos costumes coloniais, modificados nas províncias, outrora, quando o nativismo era uma virtude e este país o Brasil."

(A Festa da Penha, por Melo Moraes Filho)


Fonte: MORAES FILHO, Melo - Festas e tradições populares do Brasil.

quinta-feira, março 22, 2012

O pandeiro de João da Baiana

João da Baiana
O pandeiro que Pinheiro Machado me deu tem trânsito livre”. Isso mesmo. Depois que o João da Baiana ganhou um pandeiro bacana (de cedro e couro de lei), presente do senador General Pinheiro Machado, nunca mais a polícia lhe tomou o instrumento. A inscrição nele gravada: “Com a minha admiração, ao João da Baiana, Pinheiro Machado”, outorgou-lhe imunidades, deu-lhe trânsito livre. Voltou anos seguidos à festa da Penha integrando o conjunto do Malaquias e de outros musicistas sem que qualquer autoridade o embargasse.

Por isso mesmo, até hoje, decorrido mais de meio século, pois o pandeiro lhe foi dado em 1908, João da Baiana guarda-o como verdadeira e preciosa relíquia da qual proclama com muito orgulho o seu valor. Outros pandeiros existem no humilde quarto onde, na estação de Parada de Lucas, subúrbio da Leopoldina Railway, mora o autor de Mulher cruel. Mas o que o famoso parlamentar gaúcho mandou confeccionar para lhe oferecer tem foros de troféu digno de carinhosa veneração.

João, o da baiana

Nascido na Rua Senador Pompeu, n.° 288, no mês de maio, aos 17 dias de 1887, João Machado Guedes, filho de Presciliana Guedes, desde garoto tornou-se conhecido como João, o filho da baiana. Mais tarde, na adaptação da desinência que servia para identificá-lo entre a meninada, popularizou-se como João da Baiana e é assim conhecido e benquisto em toda esta Cidade de São Sebastião. Criou também o seu tipo elegante sempre de gravata à pintor (ou poeta) e cravo na lapela.

Das recordações gratas de sua “infância querida que os anos não trazem mais”, como cantaria o poeta Casemiro de Abreu, João tem, bem vivas, as de suas diabruras. Delas participaram como companheiros os meninos Donga (Ernesto dos Santos), Amor (Getúlio Marinho), Caninha Doce (José Luiz de Moraes), Heitor dos Prazeres, Sinhô (José Barbosa da Silva) e alguns outros. Com eles, já rapazola, batendo seu pandeiro, sambando no meio de uma roda, tirando versos, veio a tornar-se uma das figuras representativas de nossa música popular. Daí ter justo e merecido lugar na velha guarda entre os já citados e aos quais se juntou o celebrado Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna) um pouco mais moço do que eles.

Sambista e de circo

Embora seu nome avulte como sambista e exímio tocador de pandeiro, e não é só isso. Têm no rol de suas composições várias de marcante êxito quais sejam: Mulher Cruel (1924), Pedindo Vingança (1925), Desacordo no Lar (1926), Deixa Amanhecer (1928), Carnaval Sedutor (1930) e mais algumas. Soma ainda outras qualidades. Proclama-se Babalaô de Orixá, da linha nagô e filho de cabeça dos afamados pais-de-santo João Alabá e Abedé. Acumula também pendores de pintor paisagista. Assim já participou de algumas exposições e dentre elas as levadas a efeito por artistas de rádio na ABI e Câmara dos Vereadores com o concurso de Caymmi, Gastão Formenti e Heitor dos Prazeres.

Como se não bastasse, e para solidificar sua personalidade, João da Baiana foi de circo. Meninote, na idade em que se está disposto a topar qualquer aventura, conseguiu um lugar de pataqueiro no Circo Spinelli situado na Ponte dos Marinheiros (atual Rua Figueira de Mello). Ali tinha como serviço enrolar e desenrolar tapetes, carregar petrechos dos artistas. Conheceu então Benjamin de Oliveira, o palhaço Pompílio, a família Pery e muitos outros ases do picadeiro, peritos nos truques de fazer rir e capazes de assombrar o respeitável público com suas provas arrojadas.

João no Morro da Graça

Quem apresentou João da Baiana ao homem que, segundo Costa Porto em seu livro Pinheiro Machado em seu Tempo era o árbitro dos rumos nacionais, foi Darino, da Saúde e José da Rocha Soutello. Ambos eram chefes políticos no bairro da Saúde (agora Rua Sacadura Cabral) e dispunham de numeroso eleitorado que sufragava os recomendados do senador gaúcho. Depois disso, fazendo parte do conjunto do Malaquias que sempre era chamado para animar as festas na casa do Morro da Graça em que residia o fogoso parlamentar, João lá voltou muitas vezes. E tanto ele como seus companheiros eram sempre cordialmente recepcionados pelo anfitrião.

Aconteceu, porém, que por não ter pandeiro, pois a polícia tomara-o na festa da Penha, João da Baiana não pôde comparecer a uma dessas tocatas na casa do general. Estranhando a ausência do pandeirista que já o tinha como fã admirando a destreza rítmica de sua batida no instrumento, e informado do motivo disse: “Mande ele me procurar lá no Senado.” No dia seguinte, pressuroso, João se apresentou no casarão da Rua Areal (agora Moncorvo Filho). Foi quando recebeu das mãos de Pinheiro Machado, em papel timbrado, a ordem para que O Cavaquinho de Ouro, na Rua da Carioca, fizesse um pandeiro e nele gravasse: “Com a minha admiração, ao João da Baiana — Pinheiro Machado.”

Presente que se tornou relíquia

Alvo de tão significativa distinção, a de ser presenteado com um pandeiro de excelente qualidade pelo grande vulto da República “a cujo aceno se movimentava a maioria parlamentar no votar ou recusar leis”, tem cabimento a vaidade de João da Baiana em classificar tal instrumento de relíquia. Com ela, orgulhoso, voltou à Pedra do Sal, lugar que até hoje freqüenta e encontra velhos e novos amigos, para a fixação de uma expressiva foto provocadora de muitas recordações.

Desse tradicional logradouro, antigo quartel general do samba, saiu o Concha de Ouro, primeiro rancho que abrilhantou os folguedos do Carnaval carioca e onde João da Baiana, Donga, Pendengo, Getúlio Marinho e mais alguns garotos figuraram como porta-machado. Nele também fixa-se o alicerce de nossa música popular. Ali viveram de par com sambistas fiéis ao ritmo trazido pelos baianos pioneiros, dentre os quais Hilário Jovino Ferreira, os mais hábeis capoeiras que ensinaram ao rapazola Machado Guedes as artimanhas de esquiva e ataque num jogo em que, antes de tudo, prevalece a destreza.

Só não aprendeu ali a tocar pandeiro porque isto João teve mestra em casa, sua genitora, a baiana Presciliana.

(O Jornal, 26/4/1964)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

segunda-feira, março 12, 2012

A Penha está aí

Mulher, a Penha está ai. Eu lá não posso ir e um favor vou lhe pedir: Me leva um braço de cera à Santa padroeira, foi o que lhe prometi...”.

Assim, ao ritmo buliçoso de um sambinha, o musicista popular, tão correto “pagador de promessas” quanto o bizarro herói do filme que bem alto elevou nossa cinematografia, resgatava um compromisso assumido.

Simples homem do povo a quem dedicava suas produções, mandava levar àquela que lhe proporcionara uma graça, modesto “braço de cera”. Objeto contra o qual, sem dúvida, não surgiriam os mesmos embargos causados à enorme cruz que o ingênuo Zé do Burro tentou colocar diante do altar de uma das muitas igrejas da Bahia.

Seu sambinha, de letra e melodia fáceis, correndo de boca em boca, proclamaria, juntando-se a muitos outros de igual objetivo, os favores, as benesses que a Santa concedia a seus devotos, a quem lhe dirigia orações de súplica. Era, além do singelo cumprimento de uma promessa, a maneira pela qual despretenso compositor popular tornava público seu sentimento de gratidão.

O braço modelado em cera representava a parte de seu corpo atingida por enfermidade ou acidente que o privara de dedilhar o violão ou o cavaquinho ou, talvez, bater no pandeiro.

Restabelecido e já podendo manejar seu instrumento divulgava com música a graça alcançada.

Portugueses iniciaram, sambistas continuaram

Iniciados por portugueses, os festejos em louvor de Nossa Senhora da Penha da freguesia de Irajá tiveram as mesmas características das romarias que realizavam em sua terra. Para o então longínquo subúrbio, aonde se chegava conduzido pelos vagarosos trens da Leopoldina Railway, cuja estação de partida situava-se nas proximidades do antigo Jockey Club, ou em pequenas embarcações que atracavam no Porto de Maria Angu, afluíam nos domingos do mês de outubro muitas centenas de romeiros. Alguns levavam suas guitarras, seus bandolins, e todos com seus familiares, sobraçavam farnéis fartos de comedorias para o repasto ao ar livre regado por um bom “verdasco” ou “alvarelhão”. Tudo no exato costume luso que aqui continuavam.

Mais tarde, brasileiros comungando com os irmãos de além-mar, deles descendendo ou não, participavam também dessas festividades em que o cunho religioso se diluía e era profanado com manifestações pagãs.

“Faduchos” e bebedeiras enchiam de algazarra o imenso arraial que dava acesso à longa escadaria de trezentos e sessenta e cinco degraus através da qual se atingia a penha onde, na igreja ali erigida, oficiavam-se missas gratulatórias em louvor da Santa. Já então, viajando nos mesmos comboios morosos da companhia inglesa, conduzidos em carroças engalanadas com bandeirinhas de papel de cor e ramagens, ou montando “pangarés”, encontrava-se entre os romeiros grande número de patrícios nossos.

Conseqüentemente a música brasileira de cunho popular e a cerveja preta (“barbante”) substituíam ou mesclavam-se aos fados e ao vinho. O samba, ainda meio confundido com o lundu, o tanguinho e o maxixe, ia repontando na romaria luso-brasileira da festa da Penha.

O samba toma conta do arraial

Espúrio, perseguido pela polícia, realizado às escondidas, o samba nas suas manifestações precárias, em “rodas” (círculos de participantes, de acompanhantes ou assistentes) encontrou na festa da Penha local próprio para se realizar. Trajando roupas novas, ritual que criaram e observavam, os sambistas marcavam encontro no arraial para, em confraternização quase sempre de pouca duração, pois vários conflitos ocorriam entre eles com tiros e navalhadas — entoar os seus refrãos: “ô maiadô seu maia...”, “a lei mandô derrubá ê ê...”, etc. E a aguardente nos seus muitos apelidos (“branquinha”, “brasa”) animava os sambistas, Fortalecia suas pernas para as rasteiras, as “bandas”, a derrubada violenta que substituía a umbigada amena de que falam os folcloristas.

De burguesa romaria lusa, típica festa popular trazida por imigrantes ainda bem presos aos recreios de suas aldeias, a Penha nos seus folguedos do mês de outubro dedicados à Santa padroeira da localidade passou a ser romaria temida. As barracas espalhadas pelo arraial reuniam em suas mesas os sambistas destemerosos, de calça “boca de sino”, que com suas companheiras, também valentes, afeitas às brigas generalizadas, aos “rififis”, bebiam à farta e erguiam vivas a propósito de tudo. O mesmo acontecendo nos piqueniques onde, estendendo toalhas na relva, eram muito raras as famílias de portugueses que se arriscavam a prosseguir a tradição de um bródio campestre à moda da terra onde nasceram. O samba rude, grosseiro, simples toada tosca conduzindo uma frase, enchia o ambiente onde outrora se ouvia lângidos fados.

Começo do Carnaval

Quando o Carnaval começou a ter um cancioneiro próprio ou a ele destinado, atraindo os mais famosos compositores populares, os festejos da Penha, numa época em que a divulgação tinha apenas como único meio eficiente a imprensa, propiciaram aos sambistas, já então bem aceitos e integrados no convívio social, ótimo campo para lançar suas produções. Sinhô com o seu Grupo Fala Baixo, Caninha e sua turma, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres e outros apareceram no arraial entoando sob os aplausos da multidão que ali se reunia as suas músicas para o tríduo de Momo. Os do grupo cantavam e depois, aprendendo rapidamente, todos faziam coro consagrando, logo nesta primeira audição, a letra e melodia que iam animar a folia em fevereiro próximo.

Servindo de prelúdio ao Carnaval, espécie de festa das músicas a ele destinadas, a festa da Penha profanava o sentido religioso das comemorações em louvor da Santa que se venerava pelos seus milagres, pela bondade com que atendia a quem lhe dirigia orações. Os sambistas, entretanto, a seu modo, sem obediência ao que determina a certa e boa prática do catolicismo, demonstravam respeito e gratidão. Iam bem cedo às missas que se rezavam, levavam flores, e aqueles que faziam promessas as cumpriam, corretos e contritos. Houve mesmo um deles, o popularíssimo Cartola que tendo pedido “à Santa padroeira proteção, só não subiu a escadaria ajoelhado para não estragar o terno que lhe foi emprestado”.

Hoje simples quermesse

Hoje, sem a sua característica que lhe deu tradição, os festejos da Penha, ainda realizados nos domingos do mês de outubro, têm apenas o cunho de simples quermesse, dessas que no interior são realizadas ao ensejo de datas religiosas ou em louvor aos padroeiros de cidades ou vilas. Ainda se encontram no arraial as barraquinhas, os piqueniques familiares e os vendedores de cordões com balas e roscas que os poucos romeiros penduram no pescoço como em outros tempos. Falta, porém, a afluência numerosa e álacre que se recordou acima.

Aquilo que em diversas fases popularizou a festa da Penha, desde sua origem nitidamente lusitana até chegar a marcá-la como pródromo do Carnaval com o lançamento de sambas e marchinhas dos mais famosos cultores de nossa música popular, não mais se vê no arraial, nem em sua longa escadaria. Para consolar os saudosistas, não dei- xando morrer a tradição, há apenas agora, lá no alto, imponente, inteiramente iluminada à noite de todos os domingos de outubro, a igreja da venerada e milagrosa padroeira dos sambistas.

(O Jornal, 21/10/1962)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

sábado, março 10, 2012

Penha, prelúdio do Carnaval

Festa da Penha de 1911: Romeiros do grupo "Horror à tristeza" e que com devoção sabem cumprir a obrigação de fazer anualmente essa romaria à santa milagrosa (Revista "O Malho", do mesmo ano).

"As festas que são realizadas nos quatro ou cinco domingos do mês de outubro, em louvor à Nossa Senhora da Penha, não só na sua igreja, lá no alto onde a edificaram, mas, principalmente, no arraial que dá acesso à longa escadaria, embora de cunho religioso, transformavam- se, também, há alguns anos, em prelúdio do Carnaval carioca.

Mais do que os fiéis, do que aqueles que acorriam aos festejos da Penha em romaria para agradecer ou pagar promessas devidas à miraculosa santa, a maior freqüência, aquela que quase na sua totalidade não subia as três ou quatro centenas de degraus para assistir aos atos religiosos, para fazer suas orações, era constituída de gente alheia ao verdadeiro caráter das comemorações.

E no imenso arraial da Penha, levados pelos pequenos e morosos trens da Leopoldina Railway ou em caminhões ornamentados, chegavam famílias de portugueses sobraçando embrulhos com a vitualha para os seus piqueniques. Piqueniques que eram realizados na relva e regados com um bom “verdasco”, bebido em chifres de boi numa revivescência dos velhos costumes pagãos. Chegavam, igualmente, e em grande número, de permeio com os portugueses, os sambistas, os grupos musicais, os malandros dos morros.

Tínhamos então ali no arraial, animado pelos conjuntos musicais, o prelúdio do Carnaval que ia acontecer poucos meses depois.

Nas barracas, em redor das mesas onde se comia e bebia à farta, lançavam-se as primeiras composições para o tríduo de Momo, soltava-se o repertório que ia ser cantado nos três dia de folia.

Outros grupos musicais passeavam pelo arraial acompanhados por uma multidão que logo se formava e transformava-se em participante cantando o estribilho dos sambas e modinhas.

Apareciam sempre na festa da Penha o Grupo Fala Baixo, de Sinhô, que vinha à frente com o seu violão; o grupo do Caninha, o grupo de Pixinguinha com alguns dos elementos que formaram o famosíssimo Oito Batutas, a Tuna Mambembe, de Raul Malagutti, da qual fazia parte também o Benjamin, exímio trombonista, e muitos outros.

O repertório musical carnavalesco tinha, assim, a sua pré-estréia no ambiente de uma festa religiosa e iniciava ali no longínquo subúrbio, a sua popularização para chegar aos dias “gordos” inteiramente conhecido em toda a cidade.

Havia também, de par com as canções de sentido carnavalesco, as que eram dedicadas à santa milagrosa numa exaltação simplória mas muito carinhosa de homenagem e veneração.

Uma delas, de autoria de Ary Barroso, anunciava que o sambista iria à Penha implorar à santa padroeira ajuda para melhorar as qualidades da mulher amada e dizia:

Eu vou à Penha, se Deus quiser,
pedir à santa carinhosa
para fazer de ti, mulher,
de um coração, a rainha
mais poderosa e orgulhosa.

Eu fiz uma promessa à santa milagrosa:
me livre dos maus olhados, oh! mãe carinhosa.
Eu devo a tal promessa e tenho que pagar,
vem ia festa da Penha, vou aproveitar.

Hoje a festa da Penha, vivendo da tradição, ainda realizada no mês de outubro, já não tem essa característica. È quase que apenas uma romaria. Há, ainda, os piqueniques, as barracas vendendo pequenas lembranças — imagens e os clássicos colares de balas e roscas, mas está desfeita a sua caracteristica de prelúdio do Carnaval. Ficou a tradicional festa restrita apenas a um misto de quermesse e de romaria.

Alguns grupos musicais e as atuais Escolas de Samba, entretanto, ainda lhe emprestam um pálido e precário ambiente de festa pré-carnavalesca. Isto, porém, sem o lançamento dos sambas e marchinhas do repertório momístico, como acontecia no tempo de Sinhô, de Malagutti, e com a presença de Pixinguinha, Caninha e muitos outros..."

(Revista da Música Popular, nº 9 — Set. — 1955)

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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Braço de cera

Frederico Rocha
Antes de 1926, na Penha se faziam músicas com influências portuguesas. Em outubro deste ano de 26, o primeiro compositor a criar um samba da Penha, foi o baterista Nestor Brandão que possuía um conjunto formado por banjos, saxofones, piston e clarinete. O samba se chamou Braço de cera, com o subtítulo de "A Santa Padroeira".

Frederico Rocha foi quem gravou pela Odeon, na época em que se fazia ainda gravação mecânica, com numeração 123224. Com o êxito de Braço de Cera, Francisco Alves gravou também este samba para o carnaval de 1927, em discos menores chamados "Odeonette" e até hoje esta música é cantada.

Braço de cera (samba/carnaval, 1927) - Nestor Brandão - Intérprete: Frederico Rocha

Disco selo: Odeon R / Título da música: Braço de Cêra / Nestor Brandão (Compositor) / Frederico Rocha (Intérprete) / Orquestra (Acomp.) / Nº do Álbum: 123224 / Nº da Matriz: 1057 / Lançamento: 1927 / Gênero musical: Samba Carnavalesco / Coleção: IMS



Gravação de Francisco Alves para o Carnaval de 1927:

Disco: Odeonette (15cm) / Título da música: Braço de Cera / Nestor Brandão (Compositor) / Francisco Alves (Intérprete) / Orquestra (Acomp.) / Nº do Álbum: 101-a / Nº da Matriz: 101 / Lançamento: 1927 / Gênero musical: Marcha Carnavalesca / Coleção: José Ramos Tinhorão



Mulher, vem o carnaval
Festa de alegria que a ninguém faz mal
Mulher, tratemos de gozar
A morte é traiçoeira e pode nos carregar


Não me fio nas mulheres
Nem quando elas estão dormindo
Os olhos estão fechados
Sobrancelhas estão bulindo

Amanhã eu vou-me embora
Pra cidade de Lisboa
Quero que Iaiá me alugue
Seu camarote de proa

Mulher, a Penha está aí
Eu lá não posso ir
Um favor vou lhe pedir
Me leva um braço de cera
À Santa Padroeira
Foi o que lhe prometi

Menina diz a teu pai
Que eu sou teu namorado
E avise teu irmão
Que me chame de cunhado

Menina, minha menina
Cabeça de melancia
Um beijo de tua boca
Me sustenta quinze dias

Queria ser o balaio
Da colheita do café
Para andar dependurado
Nas cadeiras da mulher

Queria ser o balaio
Balaio queria ser
Para andar dependurado
Nas cadeiras de você



Fontes: Lembranças da Penha - Almirante - Jornal O Dia, de 08/10/1978; Instituto Moreira Salles; Discografia Brasileira - IMS.